Como ser feliz?

postAcho que todo mundo já passou por isso pelo menos uma vez na vida: um dia, você é a pessoa mais feliz do mundo. No dia seguinte, tudo desmorona e você se sente a pior pessoa do universo. Ser feliz não é fácil. Em 2012, Bronnie Ware escreveu um livro chamado The top five regrets of the dying e nesse livro ela relata que uma das coisas que as pessoas mais se arrependem quando estão no fim da vida é que elas queriam ter sido mais felizes. O interessante disso tudo é que nós mesmos negligenciamos essa felicidade que buscamos o tempo inteiro. É isso mesmo. Nós temos o que precisamos pra ser feliz e, por algum motivo, sempre deixamos escapar. Mas será por que isso acontece?

Nosso sistema cognitivo se engaja o tempo todo no que eu chamo de “do contra cognitivo”. Temos uma voz interna que funciona como um ser “do contra” que está o tempo todo nos encorajando a não fazer aquilo que achamos que vai nos deixar felizes. Não vou discutir aqui o porquê da existência dessa voz, mas sim sobre por que sempre damos ouvidos a ela (e por isso, nunca somos felizes de verdade).

Nosso sistema cognitivo está acostumado com aquilo que é familiar e que conhecemos bem. Quando estamos ao redor das coisas, atitudes e pensamentos que nos são familiares, estamos naquilo que chamamos de zona de conforto. Ser feliz, muitas vezes, requer sair um pouco dessa zona de conforto. Requer fazer coisas que irão balançar um pouco o nosso senso de identidade. Vai nos fazer repensar quem somos e o que queremos. E isso certamente nos causa ansiedade. Normal. É nessa hora que esse do contra cognitivo diz que sair dessa zona de conforto é arriscado e que você deveria agir de forma a voltar para essa zona de conforto.

Essa nossa zona de conforto serve como uma espécie de escudo que nos defende daquilo que pode possivelmente nos machucar. Esses escudos são formados, dentre outras coisas, pelas nossas experiências passadas. Por exemplo, uma pessoa que teve pais abusivos, pode criar um escudo que a impeça de se relacionar mais intimamente com as pessoas a sua volta. Nesse caso, sua zona de conforto é aquela em que ela se afasta de relacionamentos mais íntimos — mesmo que isso seja o que vai trazer felicidade para essa pessoa.

O que eu acho mais interessante desse do contra cognitivo é que ele te faz voltar para a sua zona de conforto, mesmo que isso signifique não ser feliz. Mas esse mesmo sistema é o que causa o sentimento de culpa que temos quando deixamos pra trás aquele alguém, ou aquela coisa que nos fazia muito feliz. É como se ele dissesse assim: “olha, isso é muito arriscado. Sai fora“. Aí depois que você sai fora, ele vira e diz “Você deveria ter tentado ficar com aquela pessoa, ou com aquele emprego“. Esse sentimento de culpa e arrependimento é muito comum quando deixamos pra trás aquilo que nos trazia a felicidade que tanto sonhávamos. Obviamente esse arrependimento não dura pra sempre. Mas é sempre mais uma oportunidade de ser feliz que deixamos pra trás.

Mas e então? O que fazer pra ser feliz? Antecipe seus sentimentos. É importante ter ciência desse do contra cognitivo e saber quando podemos ignorá-lo. Se você quer ser feliz de verdade, é importante saber que irão existir momentos de desconforto, incertezas e um pouco de redefinição de quem você é (redefinição da sua identidade). Saber lidar com esse desconforto é essencial. E não só isso. É bom saber que tudo se acomoda com o tempo, de maneira que, a felicidade que te incomoda agora, será sua zona de conforto no futuro, mas apenas se você não desistir tão cedo dela.

 

Os que os olhos não lêem, o Facebook inventa, deturpa e faz memes

Screenshot 2015-06-21 12.32.33No último domingo, a Folha de São Paulo divulgou uma matéria sobre parte da minha vida profissional. Foi um reconhecimento legal que veio após a minha entrevista para o Jovem Nerd e Azaghal no Nerdcast 460. A reportagem original da Folha de São Paulo chegou até a ser modificada e reproduzida pelo Yahoo Brasil na seção Inspire-se. Confesso que tive um sentimento bom ao saber que minha história poderia servir de inspiração para alguns milhões de brasileiros que lutam todos dias pra alcançar o famoso “vencer na vida”

No entanto, a internet é um lugar engraçado e perigoso. Engraçado por que nela as pessoas conseguem expressar suas habilidades criativas ao extremo. E perigoso por que essas mesmas habilidades cognitivas são intrinsecamente falhas e limitadas.

Em menos de 24 horas, essa minha história — que tinha o objetivo claro de servir de inspiração para muitos jovens brasileiros — virou gancho para debates políticos, com um show de comentários do tipo: “esse não precisou de cotas“, “e depois dizem que não existe meritocracia“, “só falta o PT dizer que foi ele que ajudou“, “esse não sofreu de coitadinho“, e o meu favorito “esse concerteza não votaria no PT“.

Vamos deixar algumas coisas bem claras aqui: toda e qualquer interpretação e discussão acerca da reportagem é válida desde que seja minimamente coerente com o que a reportagem diz. Leia novamente as duas matérias e conte quantas vezes é mencionada a palavra cotas. Isso mesmo: zero vezes. No entanto, o fato dessa palavra não ter aparecido nem uma vez nas reportagens não garante a interpretação de muitos de que “esse não precisou de cotas“. As coisas que acontecem na nossa vida, acontecem dentro de um contexto muito maior do que aquilo que a nossa cognição geralmente consegue conceber e processar. E nessa reportagem, eu não menciono absolutamente nada com relação ao momento político-social em que eu me formei, ou das várias assistências governamentais que utilizei ou não. Utilizar a reportagem e minha história para esse tipo de argumento é errado e evidencia uma tremenda idiotice e falta de pensamento crítico.

Nossa cognição é péssima no que diz respeito a probabilidades. Nunca conseguimos pensar criticamente no todo, e sim em eventos isolados. Quando um evento isolado se torna parte da nossa memória, logo achamos que aquilo é regra. E como regra é algo previsível, logo achamos que aquele evento isolado é previsível. Muitos leram a minha história e já partiram pra conclusão de que essa é a regra no Brasil para que jovens negros e pobres vençam na vida. Mas deixa eu contar pra vocês uma coisa: não é. O Brasil tem mais de 200 milhões de pessoas. Mais de 20% desse total vive na pobreza. E desse percentual, poucos “vencem na vida”. E isso certamente não é somente por falta de esforço e força de vontade.

Qualquer explicação que coloque essa culpa “somente” no estado (seja ele de esquerda ou direita) é uma explicação no mínimo simplória para um problema histórico e altamente complexo. E como todo problema complexo, a solução não vai surgir a partir de uma pessoa, um governo ou um comentário falacioso no Facebook. Muitas vezes a nossa contribuição para resolver problemas complexos precisa ser pequena e pontual.

A minha contribuição foi de compartilhar um pouco da minha história e dar uma motivação extra para aquele jovem que naturalmente pensa em desistir quando surge algum obstáculo obstruindo seu sonho (o que é muito natural). E se você ainda não sabe como contribuir (o que também é natural), pode começar pela não destruição da contribuição dos outros.

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Crédito da foto @ceticismo

 

O que os ouvidos ouvem, o cérebro imagina.

whisperREX3004_468x317Eu tenho um amigo que é simplesmente o rei das cantadas esquisitas. Uma vez, estávamos sentados em uma mesa de bar na pracinha do Coração Eucarístico em Belo Horizonte, quando passou uma garota com várias tatuagens no braço. Eis que esse meu amigo olha pra ela e diz: “Psiu! Vem cá pra eu te dar uma rabiscada!” Obviamente, a garota o ignorou prontamente. Daí ele me disse que adorava mulher com tatuagens (o que ele carinhosamente chamava de “mulher rabiscada”).

Nós, seres humanos, nos sentimos atraídos por várias características em uma outra pessoa. Algumas pessoas gostam de olhos bonitos, outros de mãos bonitas e alguns gostam de pessoas rabiscadas. As vezes essas características não precisam ser físicas. Tem gente que gosta de pessoas inteligentes, bem-sucedidas ou nerds. E, por incrível que pareça, muita gente se encanta por vozes. Isso mesmo. Existem pessoas que se sentem atraídas pela voz de alguém. Mas afinal de contas, o que faz a voz de alguém ser algo atraente?

Na Psicologia Cognitiva, existem vários estudos que exploraram o que faz alguém ser fisicamente atraente: simetria facial, posição correta dos olhos em relação ao rosto, boca proporcional ao tamanho do nariz, etc. Mas o que faz uma voz ser atraente? Quais características acústicas fazem com que uma voz seja considerada bonita?

Em 1993, Miron Zuckerman e Kunitate Miyake, do Departamento de Psicologia da Universidade de Rochester nos Estados Unidos, fizeram um estudo para investigar exatamente isso: o que faz uma voz ser atraente? Para isso, eles gravaram as vozes de 110 pessoas e fizeram um mapa acústico das vozes dessas pessoas (mediram coisas tipo altura da voz, timbre, amplitude, número de pausas, velocidade, etc. além de aspectos mais técnicos tipo a característica dos formantes). Depois, eles pediram um grupo de pessoas para julgarem o quão atraente as vozes eram (utilizando uma escala de 1 a 7). Pediram também as pessoas para fazer inferências sobre a personalidade dos donos das vozes (coisas tipo: essa pessoa é inteligente? madura? dominante?).

Em geral, eles encontraram que vozes mais atraentes são mais altas, mais ressonantes (i.e., voz com som intenso) e são falas com menos pausas e mais rápidas. No entanto, isso só acontece com vozes masculinas. As vozes femininas mais atraentes, são aquelas que possuem uma altura média e são falas mais articuladas (com um maior número de pausas e um pouco mais lenta). Os pesquisadores também encontraram que as vozes mais atraentes são relacionadas a pessoas mais dominates, inteligentes e bem sucedidas (da mesma forma como atribuímos esses traços para pessoas fisicamente atraentes). Eles não analisaram características como sotaque, o que certamente tem uma contribuição grande em como julgamos o quão atraente é a voz de alguém.

Acho que agora eu entendo por que, por muitos anos, minha mãe imaginava o Lombardi, um cara de 25 anos, atlético e com cara de Celso Portiolli. Oh well…

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O que Big Data tem a ver com neurociência e relógios inteligentes?

InUse2Todo mundo já ouviu falar sobre esse tal de Big Data. É a moda do momento. Várias empresas têm investido muita grana nessa nova tendência. E não são só as empresas que têm feito isso. As grandes instituições de ensino superior pelo mundo afora também estão entrando de cabeça na onda do Big Data, com formação de departamentos e programas de graduação e pós especializados nessa tendência. Mas afinal de contas, o que é isso e por que está todo mundo nessa euforia toda?

Sendo bem simplório, Big Data é um termo amplo que se refere ao uso de quantidades grandes (tipo, muito grande mesmo) de dados para auxiliar no processo de tomada de decisões e predições do futuro (veja aqui algumas definições mais específicas de Big Data). Como isso é feito e o tipo de conhecimento técnico necessário para lidar com Big Data é assunto pra uma outra postagem. Mas por que esse frisson todo com isso?

Na verdade, fazer modelos preditivos — ou seja, montar um forma de “adivinhar” exatamente o que você está procurando quando acessa o Google, por exemplo — com base em uma quantidade absurda de dados é muito bom e tem aplicações práticas formidáveis. Só para ilustrar, pode ser que você não saiba o que quer dizer a palavra “frisson”. Daí você vai ao Google, faz uma busca, encontra um link que diz a definição da palavra. Se várias pessoas fizerem isso, o Google vai armazenar os dados relativos a essas buscas e com isso montar um modelo que prediz (Google falando): “opa, como é muito comum que as pessoas busquem pela definição da palavra frisson e não necessariamente pela canção Frisson na voz de Elba Ramalho, eu vou colocar o link da definição bem no topo da busca”. E esse modelo fica cada vez mais funcional quando se baseia em uma quantidade grande de dados.

Mas isso é o começo dessa história de Big Data. E pra dizer a verdade, o Google e outras empresas de tecnologia já fazem isso desde sempre. Nem é novidade mais. E pra ser mais sincero ainda, em termos técnicos, esse tipo de modelo preditivo nem é tão complexo assim de se construir. A coisa começa a ficar realmente legal — e é por isso que o interesse com isso vem crescendo — quando começamos a explorar a multidisciplinaridade dessa parada toda.

Para ilustrar o que eu quero dizer, eu gosto de citar o modelo de “recomendação de músicas” que o Google lançou em meados de 2013. O sistema se baseia em uma quantidade grande de dados (duuuhhhh, helloooo Big Data!), mas dados de natureza distintas: ele combina dados de natureza acústica (isso mesmo: espectrogramas com características sonoras de várias canções); metadados contendo informações tais como nome do artista, da canção, do álbum, do estilo, etc; meta-metadados contendo informações de tudo que existe na web sobre esse artista, suas canções, seu estilo, etc; e obviamente os dados sociais de busca e preferências das pessoas (tipo: quais outros artistas as pessoas que gostam desse artista também gostam?). Todas essas informações são utilizadas conjuntamente para que a recomendação que esse sistema te faz seja tão boa quanto a recomendação que uma pessoa que te conhece bem faria. Essa implementação não é tão fácil assim, já que envolve dados de natureza distintas e que se comportam de maneira peculiar.

No final das contas, um sistema como um Google Now, Siri ou S-Voice pretende funcionar como um agente pessoal. Um agente pessoal, no sentido clássico da palavra, é alguém (pessoa) que tem um corpo, uma mente e um cérebro que processa informações e toma decisões. Assim, qualquer pessoa que queira construir um sistema inteligente que funcione como um agente pessoal de carne e osso precisa entender minimamente sobre como nosso corpo, mente e cérebro funcionam. E esse, é na minha opinião, o futuro do Big Data: a natureza dos dados que coletamos.

Estamos saindo da era dos dados puramente numéricos e distribucionais para entrar em uma era de dados sensoriais. Só para ilustrar: existe uma empresa em Boston chamada MimoBaby. Essa empresa produz roupinhas de bebê. O diferencial: essas roupinhas contêm sensores que medem, de maneira constante, vários dados biométricos do bebê (o padrão de respiração, temperatura, sons que ele produz, rítmo do batimento cardíaco, etc), e mantém toda essa informação em uma nuvem que se conecta a um aplicativo no seu celular que monitora todos esses dados. Ele te manda alertas sobre qualquer alteração nessas medidas e pode ser diretamente utilizado por médicos e hospitais para um diagnóstico mais rápido e correto sobre a saúde do seu bebê. Os relógios inteligentes que estamos vendo proliferar no mercado de tecnologia são um grande exemplo do potencial que temos em mãos para coletar ainda mais esses dados sensoriais de maneira constante.

O futuro do movimento do Big Data está apenas começando (e aparentemente com força total). E dada a sua natureza intrinsicamente multidisciplinar, o profissional Big Data do futuro deverá ser aquele que, não apenas transite pelas várias esferas do conhecimento sem se sentir incomodado, mas que também seja capaz de se manter informado sobre os principais avanços nessas esferas: desde os avanços na área de tecnologia até os avanços na área de neurociência e psicologia.

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