O que os ouvidos ouvem, o cérebro imagina.

whisperREX3004_468x317Eu tenho um amigo que é simplesmente o rei das cantadas esquisitas. Uma vez, estávamos sentados em uma mesa de bar na pracinha do Coração Eucarístico em Belo Horizonte, quando passou uma garota com várias tatuagens no braço. Eis que esse meu amigo olha pra ela e diz: “Psiu! Vem cá pra eu te dar uma rabiscada!” Obviamente, a garota o ignorou prontamente. Daí ele me disse que adorava mulher com tatuagens (o que ele carinhosamente chamava de “mulher rabiscada”).

Nós, seres humanos, nos sentimos atraídos por várias características em uma outra pessoa. Algumas pessoas gostam de olhos bonitos, outros de mãos bonitas e alguns gostam de pessoas rabiscadas. As vezes essas características não precisam ser físicas. Tem gente que gosta de pessoas inteligentes, bem-sucedidas ou nerds. E, por incrível que pareça, muita gente se encanta por vozes. Isso mesmo. Existem pessoas que se sentem atraídas pela voz de alguém. Mas afinal de contas, o que faz a voz de alguém ser algo atraente?

Na Psicologia Cognitiva, existem vários estudos que exploraram o que faz alguém ser fisicamente atraente: simetria facial, posição correta dos olhos em relação ao rosto, boca proporcional ao tamanho do nariz, etc. Mas o que faz uma voz ser atraente? Quais características acústicas fazem com que uma voz seja considerada bonita?

Em 1993, Miron Zuckerman e Kunitate Miyake, do Departamento de Psicologia da Universidade de Rochester nos Estados Unidos, fizeram um estudo para investigar exatamente isso: o que faz uma voz ser atraente? Para isso, eles gravaram as vozes de 110 pessoas e fizeram um mapa acústico das vozes dessas pessoas (mediram coisas tipo altura da voz, timbre, amplitude, número de pausas, velocidade, etc. além de aspectos mais técnicos tipo a característica dos formantes). Depois, eles pediram um grupo de pessoas para julgarem o quão atraente as vozes eram (utilizando uma escala de 1 a 7). Pediram também as pessoas para fazer inferências sobre a personalidade dos donos das vozes (coisas tipo: essa pessoa é inteligente? madura? dominante?).

Em geral, eles encontraram que vozes mais atraentes são mais altas, mais ressonantes (i.e., voz com som intenso) e são falas com menos pausas e mais rápidas. No entanto, isso só acontece com vozes masculinas. As vozes femininas mais atraentes, são aquelas que possuem uma altura média e são falas mais articuladas (com um maior número de pausas e um pouco mais lenta). Os pesquisadores também encontraram que as vozes mais atraentes são relacionadas a pessoas mais dominates, inteligentes e bem sucedidas (da mesma forma como atribuímos esses traços para pessoas fisicamente atraentes). Eles não analisaram características como sotaque, o que certamente tem uma contribuição grande em como julgamos o quão atraente é a voz de alguém.

Acho que agora eu entendo por que, por muitos anos, minha mãe imaginava o Lombardi, um cara de 25 anos, atlético e com cara de Celso Portiolli. Oh well…

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O que Big Data tem a ver com neurociência e relógios inteligentes?

InUse2Todo mundo já ouviu falar sobre esse tal de Big Data. É a moda do momento. Várias empresas têm investido muita grana nessa nova tendência. E não são só as empresas que têm feito isso. As grandes instituições de ensino superior pelo mundo afora também estão entrando de cabeça na onda do Big Data, com formação de departamentos e programas de graduação e pós especializados nessa tendência. Mas afinal de contas, o que é isso e por que está todo mundo nessa euforia toda?

Sendo bem simplório, Big Data é um termo amplo que se refere ao uso de quantidades grandes (tipo, muito grande mesmo) de dados para auxiliar no processo de tomada de decisões e predições do futuro (veja aqui algumas definições mais específicas de Big Data). Como isso é feito e o tipo de conhecimento técnico necessário para lidar com Big Data é assunto pra uma outra postagem. Mas por que esse frisson todo com isso?

Na verdade, fazer modelos preditivos — ou seja, montar um forma de “adivinhar” exatamente o que você está procurando quando acessa o Google, por exemplo — com base em uma quantidade absurda de dados é muito bom e tem aplicações práticas formidáveis. Só para ilustrar, pode ser que você não saiba o que quer dizer a palavra “frisson”. Daí você vai ao Google, faz uma busca, encontra um link que diz a definição da palavra. Se várias pessoas fizerem isso, o Google vai armazenar os dados relativos a essas buscas e com isso montar um modelo que prediz (Google falando): “opa, como é muito comum que as pessoas busquem pela definição da palavra frisson e não necessariamente pela canção Frisson na voz de Elba Ramalho, eu vou colocar o link da definição bem no topo da busca”. E esse modelo fica cada vez mais funcional quando se baseia em uma quantidade grande de dados.

Mas isso é o começo dessa história de Big Data. E pra dizer a verdade, o Google e outras empresas de tecnologia já fazem isso desde sempre. Nem é novidade mais. E pra ser mais sincero ainda, em termos técnicos, esse tipo de modelo preditivo nem é tão complexo assim de se construir. A coisa começa a ficar realmente legal — e é por isso que o interesse com isso vem crescendo — quando começamos a explorar a multidisciplinaridade dessa parada toda.

Para ilustrar o que eu quero dizer, eu gosto de citar o modelo de “recomendação de músicas” que o Google lançou em meados de 2013. O sistema se baseia em uma quantidade grande de dados (duuuhhhh, helloooo Big Data!), mas dados de natureza distintas: ele combina dados de natureza acústica (isso mesmo: espectrogramas com características sonoras de várias canções); metadados contendo informações tais como nome do artista, da canção, do álbum, do estilo, etc; meta-metadados contendo informações de tudo que existe na web sobre esse artista, suas canções, seu estilo, etc; e obviamente os dados sociais de busca e preferências das pessoas (tipo: quais outros artistas as pessoas que gostam desse artista também gostam?). Todas essas informações são utilizadas conjuntamente para que a recomendação que esse sistema te faz seja tão boa quanto a recomendação que uma pessoa que te conhece bem faria. Essa implementação não é tão fácil assim, já que envolve dados de natureza distintas e que se comportam de maneira peculiar.

No final das contas, um sistema como um Google Now, Siri ou S-Voice pretende funcionar como um agente pessoal. Um agente pessoal, no sentido clássico da palavra, é alguém (pessoa) que tem um corpo, uma mente e um cérebro que processa informações e toma decisões. Assim, qualquer pessoa que queira construir um sistema inteligente que funcione como um agente pessoal de carne e osso precisa entender minimamente sobre como nosso corpo, mente e cérebro funcionam. E esse, é na minha opinião, o futuro do Big Data: a natureza dos dados que coletamos.

Estamos saindo da era dos dados puramente numéricos e distribucionais para entrar em uma era de dados sensoriais. Só para ilustrar: existe uma empresa em Boston chamada MimoBaby. Essa empresa produz roupinhas de bebê. O diferencial: essas roupinhas contêm sensores que medem, de maneira constante, vários dados biométricos do bebê (o padrão de respiração, temperatura, sons que ele produz, rítmo do batimento cardíaco, etc), e mantém toda essa informação em uma nuvem que se conecta a um aplicativo no seu celular que monitora todos esses dados. Ele te manda alertas sobre qualquer alteração nessas medidas e pode ser diretamente utilizado por médicos e hospitais para um diagnóstico mais rápido e correto sobre a saúde do seu bebê. Os relógios inteligentes que estamos vendo proliferar no mercado de tecnologia são um grande exemplo do potencial que temos em mãos para coletar ainda mais esses dados sensoriais de maneira constante.

O futuro do movimento do Big Data está apenas começando (e aparentemente com força total). E dada a sua natureza intrinsicamente multidisciplinar, o profissional Big Data do futuro deverá ser aquele que, não apenas transite pelas várias esferas do conhecimento sem se sentir incomodado, mas que também seja capaz de se manter informado sobre os principais avanços nessas esferas: desde os avanços na área de tecnologia até os avanços na área de neurociência e psicologia.

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Hmmm… vermelho… azul… verde…. não lembro o resto.

Screen Shot 2015-03-10 at 9.42.30 PMToda vez que precisamos memorizar alguma coisa, damos um jeito de “repetir” essa coisa várias vezes. Geralmente a idéia é: quanto mais exposição temos àquilo que queremos lembrar, melhor. Será? Você certamente deve utilizar a página de busca do Google todo dia, e como consequência, você deve ver a marca (logotipo) do Google todos os dias. Você lembra como é a marca do Google? Sem trapacear, fale quantas cores diferentes tem a logomarca do Google. Ainda sem olhar, fale a ordem em que essas cores aparecem na logomarca do gigante da Internet. Veja se você acertou aqui.

Mesmo vendo a marca do Google todos os dias, a maioria das pessoas tem uma dificuldade muito grande de lembrar esses detalhes tais como as cores e a ordem das cores. Um estudo recente realizado na Universidade da Califórnia em Los Angeles fez algo parecido, mas com a marca da Apple. Os pesquisadores pediram aos participantes que eles desenhassem a marca da Apple sem olhar o original. Os pesquisadores avaliaram características como o lado e o tamanho da mordida, a orientação e o tamanho da folhinha da maçã, a base da maçã, etc. Apesar de os participantes que eram usuários dos produtos da Apple terem se saído um pouco melhor na tarefa quando comparados com os participantes que não eram usuários da Apple, a grande maioria dos participantes não soube desenhar a marca da Apple de maneira correta.

Os pesquisadores mediram ainda o nível de confiança dos participantes quanto a capacidade de lembrar a marca da Apple. Por exemplo, antes de pedir aos participantes que desenhassem a marca, os pesquisadores pediram a eles para dizer, usando uma escala de 1 a 10, o quanto eles achavam que lembravam de como é marca da Apple. A maioria dos participantes relataram um alto nível de confiança quanto a lembrança da marca. No entanto, depois que os participantes desenharam a marca da Apple, os pesquisadores pediram a eles para dizer, de novo, o nível de confiança com relação a lembrança da marca. Depois de desenharem, mais de 50% dos participantes relataram um nível de confiança menor que o relatado anteriormente. Isso por que, na hora do vamos ver, eles notaram que não lembravam tão bem assim da marca da Apple.

Mas o que isso quer dizer? Constante exposição a alguma coisa ou alguém nos dá a sensação de que conhecemos bem aquela coisa ou esse alguém. Por isso que quanto mais convivemos com alguém, mais achamos que conhecemos bem essa pessoa. No entanto, quanto mais exposição a alguém ou alguma coisa, menos atenção prestamos aos detalhes. Constante exposição nos faz formar uma ideia mais geral e menos detalhada. E isso faz sentido. Se temos acesso a alguma coisa ou alguém o tempo todo, pra que precisamos memorizar detalhes se podemos simplesmente vê-los se quisermos? Toda vez que precisamos “lembrar” dessas coisas a que estamos expostos o tempo todo, geralmente “lembramos” apenas a representação geral e esquemática que temos (por exemplo: o símbolo da Apple é uma maçã mordida) e não os detalhes de como a coisa realmente é (por exemplo: a folhinha está virada para a direita e não pra esquerda).

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O meu cérebro quer saber: Inflação Psicológica existe??

brain_comprasO que psicologia tem a ver com inflação e economia (tirando o fato de que uma consulta psicológica está pela hora da morte)? A nossa cognição pode sim afetar a economia do país. Nossa cognição é responsável pelos nossos hábitos e comportamentos, inclusive nosso comportamento financeiro. Mas o que seria essa tal de inflação psicológica?

Pra começar, vamos entender o que é inflação. Inflação acontece quando existe um aumento generalizado no preço das coisas de maneira que seu dinheiro acaba valendo menos. Oi? Não entendeu? Tá bom, eu explico: imagine que cada brasileiro receba do governo um envelope com 7 mil reais. Todo mundo resolve gastar essa grana extra comprando um smartphone de última geração. As Casas Bahia vão ficar lotadas. Vai ter mais gente querendo comprar celular do que a quantidade de celular que eles têm em estoque. Para evitar que o estoque acabe logo, as Casa Bahia irão aumentar o preço do smartphone. Esse aumento de preço causado por esse desequilíbrio entre a demanda (pessoas querendo um smartphone) e a oferta (quantidade de smartphone no estoque) faz com que no final das contas esse seu dinheiro “extra” nem tenha tanto valor assim. Essa confusão inteira é o que os economistas chamam de inflação. E é exatamente por isso que o Brasil não pode simplesmente sair produzindo mais dinheiro na Casa da Moeda pra resolver os problemas financeiros. Mais dinheiro em circulação com a mesma quantidade de produção de bens, causa aumento de preços das coisas e, consequentemente, inflação.

Mas para a inflação realmente afetar a economia, esse aumento de preços das coisas tem que ser generalizado. Um aumento aqui e outro ali é normal (variações ocorrem) e não é considerado generalizado a ponto de causar inflação na economia. Acontece, no entanto, que existem duas áreas (intrinsicamente relacionadas) em que a nossa cognição é realmente péssima: (1) previsão acerca de acontecimentos futuros e (2) pensamento probabilístico e/ou raciocínio frente ao incerto. Essas duas deficiências juntas causam o que os economistas chamam de inflação psicológica.

Acontece assim: as pessoas observam alguns aumentos em alguns setores. Como elas não conseguem ver esses aumentos como flutuações (variações) normais, começam a agir como se esses aumentos fossem generalizados. Por exemplo, se o leite esse mês está mais caro que o mês passado, mas o açucar está mais barato, essa configuração faz com que o valor “final” da sua compra seja virtualmente o mesmo do mês anterior. Mas a crença de que esse aumento é generalizado (e que vai acontecer novamente no próximo mês e no próximo e no próximo) faz com que os hábitos de compra mudem. Ao invés de ir ao supermercado várias vezes durante o mês, as pessoas passam a ir menos, comprar maiores quantidades e estocar produtos em casa. Essa prática faz com que os comerciantes percebam que existem épocas de maior “procura” e aumentam os preços (agora sim de maneira generalizada) nessas determinadas épocas (semelhante ao que acontecia na década de 80 no dia de pagamento: os supermercados ficavam lotados e vazios no resto do mês).

Basicamente pelo fato de sermos péssimos em fazer previsões (sempre achamos que mês que vem vai ter mais aumento generalizado) e pelo fato de não sermos muito bons em pensamentos probabilísticos (sempre achamos que as variações normais são anormais e portando generalizadas), nos comportamos como se os aumentos fossem de fato generalizados e esse comportamento reformata o mercado de maneira que os preços realmente subam de maneira generalizada.

Mas e aí? Como resolver isso? Obviamente a solução não é tão simples assim, uma vez que existem vários fatores que influenciam a configuração de mercado e a economia de um país. Mas uma prática que podemos adotar é a prática de pesquisa de preços. Essa prática pode forçar o equilíbrio do mercado. Por exemplo, basta comprar menos daquele produto que o preço está mais alto, de maneira que a demanda diminua, forçando a queda do preço. Mas pra isso, precisamos saber como avaliar esses aumentos e flutuações. É daí que vem a minha crença de que seria muito bom se todo mundo tivesse, desde a educação básica, aulas e noções de estatística, variação e tomada de decisão frente ao incerto. Dessa forma, práticas do tipo “pesquisa de preços” seriam muito mais comum entre as pessoas de maneira que essa maioria forçaria uma reconfiguração do mercado (e isso talvez contribuísse para segurar a inflação em níveis aceitáveis).

Tem alguma pergunta sobre cognição, mente e cérebro? Mande pro Cognando.

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