The Miseries of Idleness: Pessoas Ocupadas são mais Felizes
Desde que entrei para a universidade, lido com um problema que acredito ser comum no meio acadêmico: estou sempre ocupado. Não tenho muito tempo livre para as atividades extra-acadêmicas. Algumas pessoas do meu círculo de convívio dizem que o problema é que eu não sei dizer “não”. Sempre aceito as propostas que me são oferecidas. Se me ligam e me pedem para revisar um manuscrito, eu aceito. Se me pedem um parecer, eu aceito. Se me pedem auxílio estatístico e metodológico, eu aceito. Chegam a me dizer que esse tanto de trabalho pode causar estresse e infelicidade. Será que é isso mesmo?
Um grupo de pesquisadores da Escola de Administração e Negócios da Universidade de Chicago, juntamente com um grupo de pesquisadores da Escola de Administração da Universidade de Shangai publicaram recentemente (Julho/2010), um estudo que sugere o seguinte:
(1) nós seres humanos não gostamos de ficar à toa. O sentimento causado pela ociosidade é ruim, e se pudermos escolher, e tivermos uma justificativa — mesmo que ruim — escolheremos ficar ocupados.
(2) pessoas ocupadas são mais felizes que pessoas ociosas. E isso é verdade mesmo que a ocupação seja obrigatória.
Para testar essas duas hipóteses, foram recrutados 98 participantes. Os pesquisadores disseram aos participantes que eles iriam participar de uma pesquisa confidencial sobre a universidade em que eles estudavam. A pesquisa consistia de dois questionários. Após terminar o primeiro questionário, o pesquisador dizia ao participante que o segundo questionário ainda não estava pronto e que ele deveria aguardar 15 minutos até que o segundo questionário ficasse pronto. No entanto, ele deveria entregar o primeiro questionário em um local específico. Havia duas opções de local para a entrega do primeiro questionário. Um local próximo ao local onde o questionário foi respondido e um local mais afastado (uma caminhada de 12 a 15 minutos ida-e-volta).
Os participantes tinham a opção de entregar o questionário no local próximo e esperar o resto do tempo pelo segundo questionário (escolha pelo tempo ocioso) ou entregar o questionário no local mais afastado e esperar menos tempo pelo segundo questionário (escolha pelo tempo ocupado). Nos dois casos os participantes recebiam uma barra de chocolates como “agradecimento” pela entrega do questionário.
Para manipular o tipo de justificativa, os pesquisadores criaram duas condições: em uma delas, nas duas localidades (longe e perto) os participantes podiam escolher entre dois tipos de barra de chocolate (chocolate ao leite e chocolate puro). Na outra condição, cada localidade oferecia um tipo de chocolate específico (ou ao leite ou puro).
A idéia básica do experimento foi: na condição em que o mesmo chocolate é oferecido nas duas localidade, não há justificativa aparente para a escolher o local mais longe (se os dois locais oferecem o mesmo brinde, pra que caminhar até o local mais longe?). Já na condição em que chocolates diferentes são oferecidos pelas duas localidades, há uma justificativa (mesmo que pequena) para a escolha entre caminhar até o local mais longe, ou ficar e entregar o questionário no lugar mais próximo.
Após os 15 minutos, os participantes responderam a um questionário que perguntava “Como você se sentiu nos últimos 15 minutos”. Essa pergunta mediu o nível de satisfação dos participantes.
Os resultados confirmaram as duas hipóteses apresentadas anteriormente: os participantes que foram colocados na condição em que os locais diferentes ofereciam chocolates diferentes, preferiram ir ao local mais longe (independente da barra de chocolate que era oferecida lá). Em outras palavras, mesmo com uma justificativa pequena, as pessoas preferiram se ocupar a ficar esperando pelo segundo questionário. Os resultados confirmaram também a segunda hipótese: as pessoas que foram ao local mais longe demonstraram uma maior satisfação e felicidade. Mesmo os participantes que foram colocados na condição em que o brinde era o mesmo nos dois locais e que preferiram ir ao mais longe, demonstram uma maior satisfação e felicidade. Os resultados sugerem que pessoas ocupadas são de fato mais felizes.
No entanto, no nosso dia-a-dia, por muitas vezes nos ocupamos não por que escolhemos, mas sim por que somos obrigados. Temos obrigações financeiras, por exemplo, que nos obrigam a trabalhar e nos ocupar. Será que mesmo uma ocupação forçada nos faz mais felizes? O segundo experimento tentou responder exatamente essa pergunta.
O procedimento foi exatamente o mesmo do primeiro experimento, no entanto, eles não escolhiam o local da entrega e sim o pesquisador o fazia. Os resultados foram os mesmos: as pessoas forçadas a ir ao local mais afastado demonstraram uma maior felicidade quando comparadas com as pessoas que foram forçadas a ficar e esperar.
No geral, a pesquisa corrobora resultados de várias outras pesquisas na área de Psicologia Cognitiva que sugerem que (1) ociosidade é prejudicial para a sobrevivência, (2) nós seres humanos estamos em uma busca constante de significado, tentando justificar todas nossas ações e atitudes e, finalmente (3) o trabalho — uma forma de ocupação — traz benefícios diversos para o bem-estar do ser humano.
Agora, quando me falarem que não sei dizer “não”, vou apenas dizer que o que eu quero mesmo é ser feliz! :-)
Referência:
Hsee CK, Yang AX, & Wang L (2010). Idleness aversion and the need for justifiable busyness. Psychological science : a journal of the American Psychological Society / APS, 21 (7), 926-30 PMID: 20548057
Deus e o Acaso sob uma Perspectiva Cognitiva
“Nada na vida acontece por acaso”. Toda vez que algo me acontecia (um problema no trabalho, um resultado negativo de uma prova, etc.), minha mãe me dizia essa frase. Se era apenas para consolar, eu não sei, mas a verdade é que até mesmo a existência dessa frase não é por acaso.
Nós, seres humanos, não gostamos do acaso. Sentimentos de acaso, bagunça e caos são sentimentos aversivos. Sentimentos assim incomodam o nosso sistema cognitivo. O ser humano está o tempo todo (desde criança) buscando compreender e estabelecer relações causais entre as coisas que acontecem. Dizer que A ou B acontecem por acaso não satifaz nossa cognição.
Mas esses sentimentos existem. E como seres adaptativos, estamos sempre buscando lidar com eles. Uma das tentativas de lidar com os sentimentos causados pela idéia do acaso é a crença na existência de um Deus controlador, ou uma força espiritual superior que controla e coordena todos os acontecimentos e ações humanas. Em outras palavras, acreditar em um Deus controlador funciona como uma excelente ferramenta para combater o sentimento aversivo e incômodo causado pela idéia do acaso.
Essa hipótese foi testada experimentalmente por um grupo de pesquisadores da Universidade de Waterloo no Canadá. Aaron Kay, David Moscovitch e Kristin Laurin estavam interessados em saber se uma manipulação experimental (prime) destinada a eliciar sentimentos sobre o acaso também aumentaria a crença em fontes sobrenaturais de controle. Colocado de forma mais simples, a pergunta desses pesquisadores foi a seguinte: se fizermos com que as pessoas sintam que as coisas acontecem por acaso, será que isso aumenta a crença de que existe uma força sobrenatural (i.e., Deus) que tudo controla?
Para testar essa hipótese, os pesquisadores recrutaram pessoas para participarem de um estudo que supostamente investigaria “os efeitos de um suplemento medicinal nas percepções de cores”. Eles falaram com os participantes que eles tomariam uma pílula (suplemento medicinal) e depois fariam uma série de atividades de percepção de cores. No entanto, para metade dos participantes, os pesquisadores disseram que a pílula poderia causar um pequeno efeito colateral: ansiedade. Para a outra metade, os pesquisadores disseram que não haveria nenhum tipo de efeito colateral. Após tomar a pílula, os participantes deveriam responder a um questionário (supostamente não-relacionado com o experimento) enquanto esperavam o efeito da pílula acontencer.
O questionário (que na verdade era o experimento propriamente dito) consistia de um grupo de palavras que os participantes tinham que utilizar para formar frases. Para metade dos participantes, as palavras eram palavras relacionadas com a idéia do acaso (chance, caótico, sorte, desordem, etc.). Para a outra metade, as palavras não tinham essa conotação. Após executar essa tarefa, os participantes responderam a uma série de perguntas que acessavam a crença deles em Deus e outras forças espirituais.
A idéia básica do experimento era a seguinte: o grupo de pessoas que leu as palavras relacionadas à idéia do acaso ficariam “ansiosas” (sentimento causados pela idéia do acaso) e isso supostamente aumentaria a probabilidade de que essas pessoas acreditassem em Deus e outras forças sobrenaturais. No entanto, se essa ansiedade pudesse ser atribuída á uma outra fonte (a pílula, por exemplo), a crença em Deus e outras forças sobrenaturais seria menor. Em outras palavras, eles queriam saber se quando não sabemos a causa de algum acontecimento (o que elicia sentimentos do acaso), atribuímos causa à uma força espiritual/sobrenatural maior (Deus é a causa. Ele quis assim). Mas se sabemos das causas dos acontecimentos, essa atribuição não necessariamente acontece.
Os resultados que os pesquisadores encontraram foi exatamente esse: no geral, o grupo de pessoas que leu as palavras relacionadas à idéia do acaso tendeu mais a acreditar em Deus e forças sobrenaturais quando comparado com o grupo de pessoas que leu as palavras controle (não-relacionadas com a idéia do acaso). No entanto, esse efeito experimental desapareceu quando a causa da ansiedade poderia ser atribuída à pílula (o grupo que tomou a pílula e foram informados sobre o efeito colateral). Todas essas diferenças foram estatisticamente significativas.
O estudo sugere que a crença em fontes sobrenaturais de controle parece sim funcionar como uma defesa cognitiva ao sentimento aversivo causado pela idéia de que as coisas acontecem por acaso. É cada vez maior, em Psicologia Cognitiva, o número de pesquisas que busca compreender as bases cognitivas que permitem que os seres humanos lidem com as crenças no sobrenatural, com pensamentos e atitudes religiosas, com superstições e com a idéia de que existe uma força superior (Deus, por exemplo) que controla tudo e todos.
Esse estudo, de fato, contribui para esse corpo de pesquisa e, certamente, essa pesquisa não aconteceu por acaso. :-)
Reference:
Kay AC, Moscovitch DA, & Laurin K (2010). Randomness, attributions of arousal, and belief in god. Psychological science : a journal of the American Psychological Society / APS, 21 (2), 216-8 PMID: 20424048



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