Viés Atencional e Comportamento Suicída: Como Saber Quando Será a Próxima Tentativa?

ResearchBlogging.orgImagine que você gastou 5 minutos para ligar seu computador, acessar o seu site de busca favorito e clicar no link do “Cognando” para ler a postagem de hoje. Nesse tempo, pelo menos 8 pessoas cometeram suicído em alguma parte do mundo. Suicídio é hoje a maior causa de mortes entre a população norte-americana. Só no Brasil, a estimativa é de que 24 pessoas tentam suicídio por dia. O comportamento suicída é um transtorno mental que merece nossa atenção especial.

O alto índice de suicídios resulta, em certa medida, da falta de exatidão e confiabilidade dos testes que avaliam as condições mentais, biológicas e psicológicas de pacientes considerados de risco. Basicamente, a maioria dos testes depende (1) do relato do próprio paciente, que na maioria das vezes, nega a existência de qualquer tipo de pensamento e/ou comportamento suicída, e (2) das condições cognitivas do paciente: muitas vezes os pacientes não se encontram em condições cognitivas propícias para a realização de tal relato. Isso compromente a confiabilidade e exatidão das medidas. É importante e necessário ter medidas mais objetivas.

O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos tem investido bastante tempo e dinheiro em pesquisas que buscam encontrar uma base mais objetiva para os testes que avaliam os marcadores mentais, comportamentais e biológicos associados à transtornos mentais. A parte biológica da pesquisa já está bem avançada. Já se sabe hoje, por exemplo, que mutações genéticas e o mal funcionamento dos neurotransmissores (partículas químicas responsáveis pela transmissão de informação de um neurônio para o outro) influenciam o devenvolvimento de traços psicológicos tais como impulsividade e comportamento suicída. No entanto, são poucas as evidências comportamentais que predizem, de maneira objetiva e acurada, a incidência de transtornos mentais e, consequentemente, comportamento suicída.

Um estudo recente realizado na Escola de Medicina de Harvard (e publicado no Journal of Abnormal Psychology em Março de 2010) propõe uma forma interessante de compreender, medir e prever a incidência de tentativas de suicídio. Os autores (Christine Cha, Sadia Najmi, Jennifer Park, Christine Finn e Matthew Nock) propuseram que pessoas com intenção de cometer suicídio possuem um viés atencional (objetivo e mensurável) em relação a palavras e termos relacionados a suicídio. Além disso, eles propuseram que esse viés atencional serve como indicador que prevê/prediz comportamentos suicídas futuros. Mas afinal de contas, o que é esse tal de viés atencional?

Viés atencional é a alocação seletiva de recursos atencionais em direção à um aspecto específico de um estímulo. Em palavras mais simples: viés atencional tem haver com como selecionamos “em que” prestamos atenção. Quando você vê um cachorro na rua, por exemplo, sua atenção pode se voltar para a cauda, a forma como o cachorro se locomove, a cor do pêlo, etc. O que determina o locus da sua atenção é o que caracteriza o viés atencional.

Teorias cognitivas que buscam explicar transtornos emocionais (e.g., transtorno do humor, agressividade, obsessividade, ciúme doentio, etc.) acreditam que as pessoas com esses transtornos desenvolvem um viés atencional (implícito) para aspectos relacionados ao transtorno propriamente dito. Um exemplo pra ficar mais claro: você já notou que pessoas depressivas tendem a prestar mais atenção (alocar os recursos atencionais) em aspectos tristes e depressivos do ambiente? Isso por que pessoas depressivas têm acesso à processos mentais relacionados à depressão mais facilitado (o caminho para chegar à pensamentos depressivos é mais curto para as pessoas depressivas). Elas reconhecem mais rapidamente, por exemplo, palavras com valência negativa (e.g., tristeza, solidão, etc.) do que palavras com valência positiva (e.g., alegria, felicidade, etc.). Em outras palavras, pessoas tristes alocam a atenção em coisas tristes ao passo que pessoas alocam a atenção em coisas felizes.

Os pesquisadores desse estudo propuseram que pessoas suicídas possuem um viés atencional em relação a aspectos relacionados à suicídio (da mesma forma que pessoas depressivas possuem viés atencional para aspectos depressivos). Para testar essa hipótese, os pesquisadores utilizaram uma versão modificada do teste de Stroop. O teste de Stroop é aquele famoso teste em que você vê o nome de uma cor (e.g., VERMELHO) escrito de outra cor (e.g., AZUL) e sua tarefa é dizer o nome da cor e não LER o que está escrito (clique aqui para ver um exemplo do teste de Stroop).

Na versão modificada do teste de Stroop utilizada pelos pesquisadores, o paciente via uma lista de palavras (1) relacionadas com suicídio (morte, funeral, suicídio, etc), (2) relacionadas com pensamentos negativos — não necessariamente suicídas (tristeza, rejeição, burrice, etc.) ou (3) palavras neturas (museu, carro, borracha). As palavras eram apresentadas de cores diferentes. A tarefa do paciente era dizer a cor da palavra. Os pesquisadores acreditavam que os pacientes com história de comportamento suicída demorariam mais tempo (maior latência) para nomear as cores das palavras relacionadas com suicídio. Por que isso? Acredita-se que, devido ao estado emocional e mental do paciente suicída, a relevância das palavras relacionadas a suicídio é bem maior para ele, de forma que, implicitamente, o paciente aloca a atenção na semântica da palavra (lembre-se que o acesso ao significado da palavra está, de alguma maneira, facilitado para esse paciente) e, consequentemente, essa alocação interfere no tempo que ele leva para nomear a cor.

Com efeito, os pesquisadores encontraram exatamente esse padrão de comportamento nos resultados. Os pacientes com história de tentativas de suicídio apresentaram um viés atencional maior (medido através da latência para responder ao estímulo) do que os pacientes sem história de comportamento suicída. Além disso, o viés atencional foi maior para pacientes com tentativa de suicídio recente.

O mais interessante do estudo, no entanto, foi o fato de que a medida do viés atencional serviu como um preditor confiável para tentativas futuras de suicídio. Os pacientes que participaram do estudo foram procurados seis meses depois da realização do estudo. Os pacientes com viés atencional maior foram os pacientes que voltaram a tentar suicídio seis meses após o estudo. Além do mais, o viés atencional foi um preditor confiável mesmo após o controle de outros transtornos mentais, tais como o transtorno do humor. O estudo mostrou que o viés atencional pode sim ser utilizado como um marcador comportamental confiável para acessar a tendência a cometer suicídio em paciente clinicamente de risco.

O mais importante disso tudo é entender as bases cognitivas, mentais e psicológicas que estão envolvidas em comportamentos suicídas. É preciso compreender essas bases não só para a prevenção e tentativa de diminuição do alto índice de suicídios por ano, mas também para saber como ajudar e apoiar as pessoas do nosso convívio que possuem esse tipo de transtorno. Fica aí a dica!

Referência:

Cha, C., Najmi, S., Park, J., Finn, C., & Nock, M. (2010). Attentional bias toward suicide-related stimuli predicts suicidal behavior. Journal of Abnormal Psychology, 119 (3), 616-622 DOI: 10.1037/a0019710

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About André L. Souza

Assistant Professor Department of Psychology The University of Alabama www.andreluizsouza.com
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2 Responses to Viés Atencional e Comportamento Suicída: Como Saber Quando Será a Próxima Tentativa?

  1. Anonymous says:

    >André Boa tarde!O texto e bem interessante e importante pq estamos lidando cada vez mais com esse comportamento suícida.Bjs

  2. Anonymous says:

    >Escravos de Jó jogavam Cachangá, tira, põe, deixa ficar…

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