O Seu Humor Afeta Sua Confiança nos Outros
Nos últimos dias, tenho andado extremamente mal-humorado. Obviamente, esse é sentimento que tem consequências grandes na caracterização das relações sociais. Ademais, quem gosta de ficar perto de pessoas mal-humoradas?
Mas qual é a real influência do mau-humor na cognição social? Muitas pesquisas mostram, por exemplo, que o mau-humor, na verdade, melhora a capacidade de raciocínio lógico da pessoa e melhora também o processo de tomada de decisões. O mau-humor facilita a detecção de problemas e reduz o que chamamos de viés confirmatório (a tendência que temos de favorecer as informações e fatos que confirmam nossas hipóteses e pre-conceitos). Mas qual é o seu impacto no mundo social. Como lidamos cognitivamente com os outros quando estamos de mau-humor?
Esta pergunta foi investigada pelos pesquisadores Joe Forgas e Rebeka East da Universidade de New South Wales na Austrália. Todos nós sabemos que uma das tarefas sociais mais difíceis do nosso dia-a-dia é decidir se podemos ou não confiar em alguém. Confiança é um sentimento que depende do tipo de relação que temos com a pessoa e com a qualidade dessa relação. Assim, decidir se seu amigo, namorado, marido ou esposa está ou não dizendo a verdade depende de vários fatores que, muitas vezes, não estão no nosso controle. O nosso humor é um desses fatores. Desconfiança demais atrapalha, assim como confiança demais também atrapalha.
Joe Forgas e Rebeka East estavam interessados em saber se a nossa capacidade de confiar (ou não) em alguém, bem como a nossa capacidade de detectar mentiras é influenciada pelo mau-humor. Em outras palavras: será que quando estamos mal-humorados acreditamos menos nas pessoas?
No estudo, os 117 participantes foram induzidos (primed) a ter bom ou mau-humor (a manipulação foi feita com vídeos de 10 minutos de duração: comédia, documentário e um vídeo sobre morrer de câncer). Obviamente a manipulação foi confirmada e realmente funcionou.
Após assistirem aos vídeos de comédia, documentário ou câncer, os participantes assitiram a outros quatro vídeos em que uma pessoa tentava se defender de uma acusação de roubo. Em alguns dos vídeos, a pessoa se defendendo estava mentindo (ela realmente havia roubado algo) e em outros ela não estava mentindo. Basicamente, os participantes tinham que decidir se a pessoa no vídeo estava ou não falando a verdade. A manipulação completa foi feita de maneira bem sistemática.
O resultado do estudo foi bem direto. Ele mostrou evidência clara de que o humor de uma pessoa afeta diretamente o nível de confiança dessa pessoa em outras. O bom-humor aumenta a tendência a se acreditar em alguém, ao passo que o mau-humor diminui essa tendência. O mais interessante do estudo foi que pessoas induzidas ao mau-humor apresentaram uma capacidade maior de detecção de mentiras do que as pessoas bem humoradas. Em outras palavras, elas foram mais competentes na identificação das pessoas que estavam realmente mentindo.
O interessante é que esse resultado se relaciona, em parte, com as outras pesquisas que mostram que as pessoas mal-humoradas são melhores nos processos cognitivos de tomada de decisão. Isso pode ser por que elas detectam com mais facilidade alternativas falaciosas e tem um olhar menos “positivo” e apaixonado com relação aos fatos.
As implicações desse resultado são diversas. Dentre elas, a idéia de que se for mentir, ou esconder algo de alguém, monitore o humor da pessoa. Se ela (ou ele) estiver naqueles dias, sua tarefa de mentir pode ficar um pouco mais trabalhosa.
No mais, ano que vem o Cognando volta com um humor um pouco mais em alta!!! Feliz 2011!!!
Ps.: Foto by Letícia Martins!
Referência:
FORGAS, J., & EAST, R. (2008). On being happy and gullible: Mood effects on skepticism and the detection of deception☆ Journal of Experimental Social Psychology, 44 (5), 1362-1367 DOI: 10.1016/j.jesp.2008.04.010
A Relatividade dos Produtos "Baby Einstein"
Todo pai e toda mãe sonha em ter filhos inteligentes. Muitos pais começam a investir nessa história desde muito cedo. Antes que as crianças completem um ano de vida, os pais compram todo e qualquer produto que promete estimular a criatividade, a linguagem e até mesmo habilidades mais específicas como conhecimento matemático da criança. Existem dois aspectos relacionados à essa questão: o primeiro (que não pretendo discutir aqui) é sobre a necessidade de se incentivar tais habilidades tão cedo. O segundo aspecto é, para mim, mais importante: será que funciona?
Existe uma linha de produtos “educacionais” conhecidos como Baby Einstein. Eles consistem de DVD’s que contêm músicas, arte, linguagem e ciência para crianças. Nos Estados Unidos, por exemplo, mais de 40% dos pais investem nesses produtos com a crença de que seus filhos serão mais inteligentes, aprenderão mais rápido e com melhor qualidade. No Brasil, os produtos da linha Baby Einstein são caros. A coleção completa com 12 DVD’s não é vendida por menos de R$ 220,00. Vale lembrar que o público-alvo dos DVD’s são crianças entre 0 e 3 anos de idade.
A propaganda desses produtos sempre mostra relatos de pais dizendo, por exemplo, que seus filhos passaram a falar mais palavras depois que começaram a assistir aos vídeos da linha. Como todos esses produtos não tem respaldo nenhum em pesquisas empíricas sobre desenvolvimento cognitivo de crianças, sempre penso na validade deles.
Um estudo recente publicado por Judy DeLoache e uma equipe de pesquisadores invetsigou exatemente esta questão. Foi um dos primeiros estudos que vi em que a validade destes produtos foi avaliada de maneira experimental e direta. No estudo dela, 72 crianças de 12 a 18 meses de idade foram dividas em quatro grupos experimentais. No grupo 1, as crianças foram expostas (por um período grande) aos vídeos da linha — vídeos que supostamente ensinavam palavras novas às crianças. Nesse grupo, as crianças assistiam ao vídeo com um dos pais. No grupo 2, as crianças assistiam ao vídeo sozinhas (sem interação com os pais). No grupo 3, as crianças não assistiam aos vídeos, mas interagiam com os pais para aprender as mesmas palavras que o vídeo teria que ensinar. O último grupo foi apenas um grupo controle, onde nenhuma manipulação foi feita.
Após o período de exposição e/ou interação, os pesquisadores testaram as crianças para verificar se elas aprenderam mesmo as palavras “ensinadas”. Sem muita sofisticação nas análises, os resultados foram bem diretos: estes produtos não funcionam. As crianças que interagiram com os pais apenas (sem assistir aos vídeos) foram as que mais aprenderam. As crianças que só assitiram ao vídeo (sem a interação com os pais) aprenderam menos do que as crianças do grupo controle (sem interação alguma). Em outras palavras, se você não faz nada, as crianças aprendem mais do que se assistirem aos vídeos.
Um ponto importante que o estudo ressalta (e que VÁRIOS outros estudos corroboram) é o fato de que a interação com os pais é sem dúvida o fator mais importante no desenvolvimento cognitivo e social da criança. Volto a dizer: conhecer mais sobre desenvolvimento infantil e processamento cognitivo humano só contribui positivamente tanto para o seu crescimento pessoal quanto para o desenvolvimento do seu filho(a).
E lembre-se: ao invés de assinar um cheque de R$ 220,00 para comprar vídeos que simplesmente não fazem o que prometem fazer, sente, brinque e converse com seu filho. Se a compulsão para gastar o dinheiro for mesmo forte, você tem duas opções:
(1) compre um livro ou revista sobre psicologia e desenvolvimento humano (a revista Mente e Cérebro é um bom exemplo).
(2) Envie um e-mail para mim que eu te passo a minha conta bancária para receber os R$ 220,00.
Referência:
DeLoache JS, Chiong C, Sherman K, Islam N, Vanderborght M, Troseth GL, Strouse GA, & O’Doherty K (2010). Do babies learn from baby media? Psychological science : a journal of the American Psychological Society / APS, 21 (11), 1570-4 PMID: 20855901
Pensamento Analógico e Nossas Atitudes
Citei na minha última postagem que eu gosto muito de analogias. Elas relevam aspectos interessantes e importantes da nossa cognição. Analogias têm uma influência grande no nosso pensamento e consequentemente, nas nossas ações. É por isso que, já a algum tempo, a Psicologia Cognitiva tem tido um interesse cada vez maior na investigação das principais características do pensamento analógico.
O pensamento analógico envolve a representação mental que fazemos das relações existentes entre objetos e/ou pessoas. Essas representações são cruciais na vida do ser humano. É basicamente o que nos diferencia (em termos cognitivos) das outras espécies de animais. Pare e pense: a nossa capacidade de resolver um problema que nunca vimos antes está intimamente ligada à nossa capacidade de pensar de maneira relacional, ou seja, na nossa capacidade de pensar analogiacamente. Utilizamos o conhecimento que temos sobre uma área específica do conhecimento (a física, por exemplo) para entender melhor uma outra área que temos pouco conhecimento (química, por exemplo). Mas, é necessário que essas representações sejam abstratas. Quanto mais abstrata a representação de uma relação, maior a nossa capacidade de aplicar essa abstração em outros domínios.
Vamos lembrar o exemplo clássico de analogia: o Sistema Solar e o átomo. Essa analogia existe porque sabemos que em ambos existe uma estrutura central (núcleo no caso do átomo e o Sol no caso do Sistema Solar) e estruturas menores que giram em torno dessa estrutura central (elétrons e planetas). Para entender a analogia, precisamos entender a “relação” entre núcleo e elétrons por um lado e Sol e planetas por outro lado. É óbvio, no entanto, que sabemos que o Sol e o núcleo de um átomo são estruturas diferentes. Quando fazemos a analogia, não queremos que alguém pense que exista vida nas partículas que giram em torno do núcleo, assim como existe vida em alguns dos planetas que giram em torno do Sol. Não se apegar a esses detalhes é o que chamamos de abstração.
Quando pensamos analogicamente, podemos focalizar tanto nos objetos que compõem a cena ou situação que analisamos quanto nas relações entre esses objetos. Por exemplo: imagine que eu te mostre duas fotos. Uma das fotos mostra um robô consertando um carro. Na outra foto, há um robô parecido com o da foto 1 (não o mesmo) sendo consertado por um homem. Se eu pedir a você que me aponte a analogia entre as duas fotos (o que existe de semelhante nelas), você tem duas opções: se você focalizar nos objetos/personagens das fotos, você vai me falar que o robô da foto 1 é análogo ao robô da foto 2. Já se você focalizar na relação entre os personagens das fotos (carro e robô na foto 1 e homem-robô na foto 2), você vai dizer que a analogia está no robô da foto 1 e no homem da foto 2, pois ambos estão consertando alguma coisa. Isso é o que os pesquisadores chamam de alinhamento estrutural.
O que grande parte das pesquisas mostram é que algumas pessoas têm uma dificuldade muito grande de abstrair o suficiente para enxergar a semelhança relacional entre duas cenas. Em outras palavras, as pessoas se apegam tanto à concretude dos objetos envolvidos (que podem ser extremamente distintos entre duas situações) que não conseguem ver que as relações entre esses objetos são bem semelhantes.
Um estudo bacana publicado recentemente pelos pesquisadores Jonathan Rein e Arthur Markman na Universidade do Texas nos Estados Unidos explorou a noção de que o nível de abstração com a qual representamos as relações entre objetos influencia a nossa capacidade de transferir essa relação para outras situações. Jon e Art mostraram para os participantes do estudo alguns padrões relacionais (círculos e triângulos nas mais diversas configurações — em linhas verticais ou horizontais, por exemplo) e depois pediram a eles que identificassem outros padrões semelhantes. Assim como esperavam, as pessoas mostraram uma tendência forte para representar as relações e objetos de maneira muito concreta, o que dificultou a identificação de relações semelhantes em outros domínios.
O que essa pesquisa sugere em termos práticos? Eu sempre fico super intrigado pelo fato de que algumas pessoas parecem agir de forma completamente diferente em situações que, ao meu ver, são estruturalmente semelhantes. Em outras palavras, é como se alguém soubesse que 2 laranjas + 3 é igual a 5 laranjas, mas não soubesse dizer quanto é 2 bananas + 3 bananas.
Pense na seguinte situação: você está andando pelas ruas da sua cidade quando vê uma criança sendo explorada por um adulto. Na cena, você tem dois personagens (adulto e criança) cada um exercendo uma “função” nessa relação: o adulto — um ser hierarquicamente mais importante que a criança — exercendo seu poder ‘chefe’, e a criança — um ser hierarquicamente menos importante — sendo coibida pelo adulto, portanto explorada (sem muito poder de escolha). Qualquer pessoa que avalia uma cena como essa irá dizer que é (1) a situação é um absurdo, (2) que criança não pode ser tratada assim, etc. etc. No entanto, a representação da cena parece não ser abstrata o suficiente para possibilitar aplicar “esse modelo de relação” — exploração de um ser hierarquicamente superior a outro — em outras situações semelhantes.
Aqui em Belo Horizonte, uma pequena ‘empresa’ (atuante no ramo de fabricação de placas de automóveis) tem a seguinte prática: muitos de seus funcionários não têm a carteira assinada. O horário e a carga de trabalho são definidos sem qualquer respaldo na CLT. As ausências — mesmos aquelas com justificativas médicas — são integralmente descontadas do salário dos funcionários, assim como o valor integral do transporte do funcionário. E no caso de algum funcionário não concondar com essa prática (como aconteceu ontem), esse funcionário é prontamente “demitido” sem qualquer tipo de ressarcimento trabalhista.
Em termos relacionais, a história da criança é muito semelhante à história da empresa: dois personagens, onde um, hierarquicamente mais baixo que o outro, é explorado. Interessante, no entanto, é que o impacto da história 1 parece ser bem maior e mais proeminente comparado ao impacto da história 2. Conversando com alguns funcionários e pessoas que conhecem a empresa, eu notei que muitos deles são condescendentes com a atitude da chefia da empresa: quando um funcionário é demitido, por exemplo, outros se juntam para ajudar na função do funcionário demitido, minimizando assim o trabalho que teria a diretora para contratar um outro funcionário. Nenhum deles, eu presumo, auxiliaria o adulto da primeira história na sua exploração e nem sequer procurariam entender se há, por parte do adulto, alguma justificativa plausível para a atitude dele.
Obviamente, vários fatores parecem influenciar a atitude dos funcionários e da diretoria da empresa. No entanto, uma forma plausível de interpretar a situação e a atitude das pessoas envolvidas é em termos da dificuldade que as pessoas têm de representar relações de maneira abstrata. Essa dificuldade, por sua vez, gera a dificuldade de pensar em outras situações de maneira semelhante. Podemos não perceber, mas a capacidade de formar alinhamentos estruturais — analogias — acaba tendo um impacto grande nas nossas atitudes e ações diante das coisas que vivemos no nosso dia-a-dia.
Referência:
Rein JR, & Markman AB (2010). Assessing the concreteness of relational representation. Journal of experimental psychology. Learning, memory, and cognition, 36 (6), 1452-65 PMID: 20919782



O Cognando foi um dos primeiros blogs sobre Psicologia Cognitiva em língua portuguesa. O blog surgiu da idéia de trazer para o dia-a-dia das pessoas os principais achados das pesquisas em Ciências Cognitivas e divulgar o que já sabemos sobre o funcionamento da nossa cognição. O Cognando é mantido por