A nova pose da Myrian Rios!!!

Não me lembro da última vez que fui ao circo. Lembro-me vagamente da experiência de ficar na arquibancada esperando o show começar. E lembro também que apesar de todas as atrações disponíveis no espetáculo (malabares, mágicos, leão, etc…), o que eu queria mesmo era ver o palhaço.

Correndo o risco de soar muito cliché (fazer o que, né?), as palhaçadas da era moderna se concentram em outros lugares, transferindo o picadeiro de lugar. Isso não é necessariamente ruim visto que circos são por excelência entidades itinerantes. O problema, na minha opinião, é que o circo moderno e suas palhaçadas não nos fazem rir tanto. Pelo contrário. As palhaçadas têm um impacto nocivo, destruidor e, quando a raiva não supera, a vontade é mesmo de chorar.
Recebi via e-mail um vídeo com o depoimento da deputada do PDT Myrian Rios sobre o Projeto de Emenda à Constituição Fluminense 27/2003 (de autoria do deputado estadual Gilberto Palmares) que tem como objetivo “a inclusão da orientação sexual como direito individual e coletivo dos cidadãos fluminense”. Lamentável. A fala da deputada foi lamentável! Não pretendo entrar no mérito (ainda) da condição pífia do depoimento da Myrian Rios, mas um fato que me chamou atenção no discurso dela (e, na verdade, também no discurso dos congressistas que votaram contra a legalização da união civil entre pessoas do mesmo sexo em Nova Iorque) foi o fato de o argumento sempre buscar um respaldo religioso.
Como psicólogo cognitivo fico numa curiosidade danada para entender por que essas coisas acontecem e por que elas têm o efeito que têm. Não há dúvidas de que existe uma relação complexa entre política e religião. Cognitivamente, no entanto, essas duas ‘instituições’ têm um efeito muito semelhante na maneira como processamos informação. Isso explica um pouco do porquê elas, muitas vezes, são vistas como intrinsicamente ligadas.
Em postagens passadas (clique aqui), falei um pouco sobre uma característica cognitiva peculiar que é a nossa necessidade de ter uma constante sensação de “controle”. O nosso sistema cognitivo funciona muito mais efetivamente quando temos a sensação de controle, ordem e poder preditivo. Já existe muita evidência empírica para isso na psicologia cognitiva (recentemente por exemplo, Cristine Legare e eu mostramos que até mesmo a percepção da eficácia de simpatias é alterada quando níveis de controle são alterados: em outras palavras, a sensação de incerteza te faz acreditar mais que uma simpatia vai funcionar). O governo e a religião servem como mecanismos externos de busca de controle.
Aaron Kay, um psicólogo da Duke University tem vários estudos mostrando uma interação muito interessante entre religião e governo no que diz respeito à sensação de controle que elas oferecem. Geralmente, quando a sensação de controle oferecida por uma delas é pouca, as pessoas tendem a acreditar mais na outra: se o governo está uma ‘meleca’, as pessoas tendem a se apegar mais à religião. E se por algum motivo você for influenciado a pensar que a religião não tem muito poder de oferecer nenhuma sensação de controle, você tende a acreditar mais no governo.
Em um dos estudos, por exemplo, os participantes foram induzidos a (1) pensar que o governo estava muito instável e perdendo um pouco das rédeas do comando do poder público ou (2) pensar que o governo estava no controle e era um governo extremamente firme e estável. As pessoas que viram o governo como instável mostraram uma crença muito maior em um Deus controlador do que as pessoas que viram o governo como uma instituição estável e firme.
Grande parte dos argumentos contra a legalização da união civil entre pessoas do mesmo sexo, ou sobre a inclusão do termo “orientação sexual” no texto da constituição que condena atos discriminatórios são argumentos de caráter religiosos. São poucos os argumentos com respaldo científico e/ou com base em dados advindos de fontes confiáveis (ou que pelo menos podem ser contestadas). E uma vez que a política brasileira, em geral, é muito fraca na tarefa de oferecer aos cidadãos uma sensação de controle do poder público, é esperado (com base em algumas dessas pesquisas empíricas) que a crença nos pressupostos religiosos aumente de maneira sintomática. Não é sem motivo que as nações mais politicamente desenvolvidas do mundo são as que têm a menor população religiosa.
Essa relação curiosa entre religião/governo e sensação de poder não pode, no entanto, ofuscar a gravidade do argumento mal-articulado e horroroso que a deputada Myrian Rios proferiu na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Nenhum dos “fatos” que ela cita como problemáticos para a aprovação da emenda têm algum respaldo empírico. Inclusive, qualquer um que ler o texto da PEC na íntegra vai notar que o autor da proposta sim, baseia seus argumentos em pesquisas empíricas e ainda cita dois estados brasileiros (Mato Grosso e Sergipe) onde o texto já foi alterado. Dessa maneira, se alguém deseja argumentar contra essa inclusão e verificar empiricamente se a alteração do texto irá de fato aumentar o número de casos de pedofilia ou aumentar o casos de empregadores processados por alegação de discriminação da orientação sexual do empregado, basta utilizar esses dois estados como fonte de pesquisa. O que não pode é simplesmente alegar que, por princípios religiosos, homens e mulheres foram feitos para ficar juntos. Qualquer mente minimamente sã sabe que o buraco é muito mais embaixo. Bem mais lá em baixo, Myrian. Tão lá embaixo que eu acho que você vai precisar descer da Motoka para ver e entender.

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Referência:

Kay, A., Gaucher, D., Peach, J., Laurin, K., Friesen, J., Zanna, M., & Spencer, S. (2009). Inequality, discrimination, and the power of the status quo: Direct evidence for a motivation to see the way things are as the way they should be. Journal of Personality and Social Psychology, 97 (3), 421-434 DOI: 10.1037/a0015997

O que eu ganho com isso?

Minha mãe já dizia: “filho, é impossível fazer tudo sozinho”. Para dizer a verdade, eu sempre duvidei disso. No entanto (como sempre), ela estava certa. Certas coisas na vida não podemos fazer sozinhos. Para elas, precisamos da colaboração do outro. Já a bastante tempo, acredita-se na idéia de que “trabalhar colaborativamente” é uma das principais características que diferenciam os seres humanos dos outros primatas.

Intrinsicamente ligada à idéia de cooperação/colaboração está a idéia de (1) ter objetivos comuns e (2) divisão dos resultados. Para que haja uma colaboração efetiva é preciso, para começo de conversa, que haja objetivos comuns. Se eu quero A e você quer B, a possibilidade de colaboração entre nós será mínima. Caso o objetivo seja comum, é preciso pensar em como o resultado da colaboração será “dividido” após obtido. Se vamos colaborar um com o outro para obter, por exemplo, R$100,00, precisamos ter uma idéia e expectativas sobre como esse montante será divido após sua obtenção.
É interessante notar que, apesar de chimpazés colaborarem uns com os outros em várias tarefas, caso exista alguma possibilidade e/ou expectativa de que o resultado não será dividido de maneira justa, eles preferem não colaborar. Exemplo: imagine que para obter duas bananas, dois macacos precisem trabalhar colaborativamente (eles precisam agir juntos para abrir a porta de onde as bananas estão). Se as duas bananas estiverem mais perto de um dos macacos (aumentando a possibilidade desse macaco simplesmente pegar as duas bananas e ir embora), geralmente a colaboração entre eles é mínima. Mas se uma banana está perto de um e a outra perto do outro, eles ‘colaboram’ um com outro sem problemas, cada um pega uma banana e vai para casa feliz.
Em outras palavras, a colaboração entre os macacos é diretamente influenciada pela expectativa que eles têm sobre a divisão dos resultados após obtidos. E tem mais: geralmente, o macaco que pega as duas bananas, raramente divide com o outro (mesmo quando o outro é o próprio filhote). Será que o nosso potencial colaborativo é muito diferente disso?
Felix Warneken, Karoline Lohse, Alicia Melis e Mike Tomasello investigaram essa questão em um estudo publicado recentemente (Junho/2011). Em 2006, Alicia Melis fez um estudo com chimpazés onde ela montou um aparato em que, para obter a comida, os macacos precisavam agir cooperativemente. Basicamente, o aparato consistia de uma plataforma localizada dentro de uma caixa de vidro. A comida era colocada nessa plataforma. Para pegar a comida, os macacos precisavam puxar a plataforma para perto deles (utilizando uma corda localizada em cada lado da plataforma) e então alcançar a comida através de um buraco na caixa de vidro. A plataforma só movia em direção aos macacos quando cada um puxava a corda do seu lado ao mesmo tempo. Em uma das situações, a caixa de vidro tinha dois buracos (um para cada macaco), de maneira que cada um poderia pega a sua comida (banana). Na outra situação, a caixa tinha apenas um buraco, aumentando a possibilidade de que apenas um dos macacos ficaria com as duas bananas. Foi nesse estudo que Alicia Melis mostrou que quando há a possibilidade de que apenas um dos macacos fique com as bananas, eles colaboram menos um com o outro.
Felix Warneken e seus colaboradores fizeram exatamente o mesmo estudo com crianças de 3 anos de idade. O aparato foi o mesmo (ao invés de banana, no entanto, eles utilizaram adesivos coloridos, balas e chicletes). As crianças, ao contrário do que mostrava algumas pesquisas anteriores, foram bem colaborativas umas com as outras, independente da possibilidade de divisão dos resultados, ou seja, não importa o número de buracos na caixa de vidro, elas agiram cooperativamente quase 90% das vezes.
Quando havia apenas um buraco na caixa de vidro, elas dividiam a recompensa com a outra. O interessante, no entanto, foi a forma como elas dividiam os resultados. Oitenta por cento das vezes, a divisão foi “implícita”. Por exemplo, se havia dois chicletes na plataforma, elas puxavam juntas a plataforma, uma criança pegava um chiclete e simplesmente deixava o outro na plataforma. Apenas 11% das vezes a divisão foi explícita, com uma criança pegando os dois chicletes e entregando um à outra criança (ou uma criança pegando um chiclete e apontando para a outra criança que ela poderia ficar com o outro chiclete).
Os resultados sugerem que a idéia de divisão igualitária e ação colaborativa sem competição começa cedo na ontogenia humana (mais cedo do que se pensava antes). Eles sugerem também que os fatores que influenciam a colaboração entre os seres humanos é qualitativamente diferente dos fatores que influenciam a colaboração entre primatas.
Os resultados parecem contra-intuitivos quando pensamos nos tipos de colaboração e divisão de resultados que vemos na maior parte das nossas interações na vida adulta (principalmente as que vemos na vida pública). Mas pelo menos temos uma idéia de que a essência é colaborativa e igualitária.
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Referência:

Warneken, F., Lohse, K., Melis, A., & Tomasello, M. (2010). Young Children Share the Spoils After Collaboration Psychological Science, 22 (2), 267-273 DOI: 10.1177/0956797610395392

Ai, que raiva desse Jair Bolsonaro!

No último dia 1 de junho o deputado federal do PP-RJ, Jair Bolsonaro, foi protagonista de mais um episódio no mínimo inusitado. Durante a Marcha pela Família, que reuniu várias pessoas que protestavam contra o projeto de lei que propõe a criminalização da homofobia, o deputado jogou água em uma drag queen que “protestava” contra o protesto da Marcha pela Família. O deputado disse mais tarde que jogou a água para “acalmar” a drag queen.

Ler essas coisas me dá raiva. E tenho certeza que não estou sozinho nisso!

Sem entrar no mérito da notória imbecilidade do deputado Bolsonaro (lhe falta muito mais do que simples decoro parlamentar…), gosto de pensar nas consequências que esses acontecimentos (e seus respectivos sentimentos) têm no nosso processamento cognitivo. Porque a estratégia de disseminar um “ódio” contra homossexuais utilizada pelo deputado federal parece funcionar tão bem na difusão desses estereótipos, claramente infundados, sobre homossexualidade?

Quando avaliamos qualquer situação, se queremos evitar que estereótipos influenciem diretamente as nossas decisões e ações é preciso pensar um pouco. É preciso pensar na situação de maneira mais sistemática e menos heurística. Explico: imagine que você seja convidado para participar de uma comissão que vai decidir quem é o culpado por um crime de pedofilia. Um dos suspeitos do crime é homossexual. Antes de assumir que seja mais provável que o culpado seja o suspeito homossexual (um estereótipo que, apesar de pouco fundamentado, existe) é preciso analisar cautelosamente os fatos, as evidências, etc.

Essa avaliação mais cautelosa requer uma utilização maior do nosso sistema cognitivo, uma vez que ela exige integração de informação, concentração e destreza na assimilação do que é informação válida e do que não é. Estratégias mais heurísticas são por natureza mais “superficiais”. Elas geralmente são utilizadas quando o nosso sistema cognitivo requer respostas mais rápidas e que não podem se dar ao luxo de uma busca mais sistemática (e consequentemente mais demorada) de informações.

Mas o que isso tem haver com o “ódio” que Bolsonaro dissemina sobre a homossexualidade? Existe uma ampla gama de evidências científicas que mostram que as pessoas utilizam estratégias cognitivas mais heurísticas quando estão com raiva de alguma coisa. Uma manifestação evidente da utilização de estratégias heurísticas no meio social é quando julgamos alguma situação com base em informações superficiais, tais como estereótipos. O que essas pesquisas mostram é que quando estamos com raiva temos uma tendência muito maior em julgar as pessoas, grupos e suas ações com base nos estereótipos que temos em relação à essas pessoas e/ou grupos.

Quando Bolsonaro dissemina esse “ódio” contra homossexuais, ele está ao mesmo tempo comprometendo o sistema cognitivo dessas pessoas de maneira que qualquer estereótipo que existe sobre homossexuais será avaliado como informação primordialmente importante e suficientemente verdadeira. Vale ressaltar que isso acontece por que a raiva priva o nosso sistema cognitivo de maneira que qualquer fonte cognitiva que temos (e que seria necessariamente utilizada na sistematização das informações, concatenação das idéias, etc.) será seriamente comprometida.

Para não cair no risco de agir no mesmo nível de imbecilidade com o qual o deputado Bolsonaro parece levar sua vida, é preciso agir (e pensar) quando a raiva não toma conta do nosso sistema cognitivo. Eu sei que é difícil não ficar com raiva das atitudes de uma pessoa que, supostamente deveria estar representando de maneira respeitosa a democracia política. No entanto, devemos tentar.

Ainda bem que a minha raiva do deputado já havia passado quando resolvi escrever esse texto! :-)

Referência:

Bodenhausen, Galen V., Sheppard, Lori A., & Kramer, Geoffrey P. (1994). Negative affect and social judgement: the differential impact of anger and sadness European Journal of Social Psychology, 24, 45-62 DOI: 10.1002/ejsp.2420240104

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