O gene feliz! :-)

Aristóteles disse certa vez que a “felicidade é o propósito mais importante na vida de um ser humano”. Não é à toa que a maioria das pessoas vivem em busca da tal “fórmula da felicidade”. E para falar a verdade, essa é uma busca que vale a pena. Várias pesquisas ao longos dos anos têm mostrado os benefícios — físicos e psicológicos — de “ser feliz”. Por exemplo, algumas pesquisas mostram que pessoas felizes são mais saudáveis, mais produtivas e têm salários maiores.

Apesar de já estar bem claro que são vários os fatores que influenciam o nível de felicidade de uma pessoa, a idéia de que existe um componente genético que contribui para a nossa felicidade — e para a caracterização de vários outros traços da nossa personalidade — está cada vez mais predominante. Pesquisas com gêmeos idênticos, por exemplo, mostram que quase 33% da variação no nível de felicidade das pessoas pode ser explicada por fatores genéticos.

Apesar desses resultados, a pergunta que ainda continua sem resposta é: qual seria o gene responsável por essa variação no nosso nível de felicidade? Jan-Emmanuel De Neve — pesquisador do Departamento de Governo da Escola de Economia e Ciência Política do University College em Londres —  e alguns outros pesquisadores lideraram uma pesquisa recente para tentar responder a essa pergunta. Esses pesquisadores resolveram investigar um gene conhecido como 5-HTT (mais especificamente 5-HTTLPR). Esse gene, localizado no cromossomo 17, é responsável pela codificação da proteína responsável pelo transporte de serotonina no nosso cérebro.

Mas afinal de contas, o que é essa serotonina? Serotonina é um neurotransmissor muito importante na regulação do nosso humor e emoções. As pessoas que me conhecem e que convivem comigo, por exemplo, sabem que eu sou, o que eles chamam aqui nos Estados Unidos de moody: em bom e claro português, eu tenho constantes oscilações de humor. Essas oscilações de humor estão diretamente ligadas ao funcionamento (quantidade e transporte) da serotonina na região límbica do cérebro (a região responsável pelo controle das emoções e do humor). Uma vez que esse neurotransmissor é tão importante na regulação das emoções e humor, os pesquisadores apostaram na idéia de que qualquer gene diretamente relacionado ao funcionamento desses neurotransmissores deveria ser o gene responsável pela oscilação no nosso nível de felicidade.

Se você se lembra das suas aulas de introdução à genética, você deve se lembrar que nós temos duas versões de um mesmo gene (o que chamamos de alelos). E esses alelos podem ser curtos ou longos. Algumas pessoas têm dois alelos longos. Outras dois alelos curtos e outras um de cada. Sem entrar em muitos detalhes sobre polimorfismo funcional, a idéia básica é que algumas pessoas têm o 5-HTT longo e outras têm o 5-HTT curto. A versão longa produz mais transportadores de serotonina e consequentemente são chamados eficientes. A versão curta, em contrapartida, produz menos transportadores e é considerada menos eficiente.

Em um estudo com mais de 2.400 pessoas, Jan-Emmanuel e sua equipe mostraram que existem uma correlação alta e significativa entre o nível de felicidade das pessoas e o tipo de gene que elas possuem. Em outras palavras, eles encontraram que as pessoas que têm a versão mais eficiente do gente 5-HTT são em geral mais felizes e satisfeitas. Essa correlação significativa é um dos primeiros passos na tentativa de estabelecer a natureza da contribuição genética para o nosso nível de felicidade.

É importante ter cuidado ao interpretar os resultados. Geralmente as pessoas (a mídia mais precisamente) tende a interpretar esses resultados como determinísticos, ou seja, o gene 5-HTT curto determina que a pessoa será pouco feliz, ao passo que o gene 5-HTT longo determina que a pessoa será feliz. Essa é uma interpretação errada desses resultados. Os fatores externos tais como empregabilidade, amizades, bom relacionamentos, etc., sempre irão contribuir de maneira significativa para a manutenção de um nível de felicidade satisfatório. Entender a relação entre esses fatores externos e os fatores genéticos é fundamental. E mais fundamental ainda é conseguir criar e manter um ambiente que contribui ainda mais para a sua felicidade.

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Referência:

De Neve JE (2011). Functional polymorphism (5-HTTLPR) in the serotonin transporter gene is associated with subjective well-being: evidence from a US nationally representative sample. Journal of human genetics, 56 (6), 456-9 PMID: 21562513

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About André L. Souza

Assistant Professor Department of Psychology The University of Alabama www.andreluizsouza.com
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