Pode retirar o filhote eqüino da perturbação pluviométrica: Escrever difícil não funciona!

Todo semestre, eu leciono a disciplina obrigatória Estatística e Métodos Experimentais para os alunos de graduação em Psicologia na Universidade do Texas. Como sempre, essa é a disciplina mais odiada pelos alunos: eles precisam não só aprender estatística, como precisam também aprender a escrever sobre os resultados dos experimentos que eles fazem.

Apesar de todo mundo achar que estatística é a parte mais difícil do curso, geralmente os alunos tiram essa parte de letra. O difícil mesmo é escrever. Acho curiosa essa idéia esquisita que todo mundo tem de que, escrever bem é escrever difícil. Ou melhor: escrever difícil é sinal de inteligência. Parte dessa idéia pode ser explicada pelo que L. Festinger chamou de dissonância cognitiva. Essa idéia funciona mais ou menos assim: lemos um texto que não entendemos p***** nenhuma. Nosso sistema cognitivo, para não ficar pra trás, vai logo buscar uma explicação para esse fato. E a explicação mais plausível é “oras, eu não entendi esse texto porque é um assunto muito complexo que EU não entendo mais a pessoa que escreveu entende“. Além disso, faz parte do nosso senso comum acreditar que pessoas inteligentes entendem coisas complexas.

Mas será que escrever difícil faz com que as pessoas pensem que você é mais inteligente? Danny Oppenheimer, psicólogo cognitivo na Universidade de Princeton, se fez a mesma pergunta e resolveu investiga-la empiricamente.

Nos Estados Unidos, para ingressar em um programa de Mestrado e/ou Doutorado, o candidato precisa escrever o que eles chamam de “personal statement“. É uma espécie de carta, curta e objetiva, em que o candidato deve convencer o comitê de admissão de que eles devem escolhe-lo. Para esse estudo, Danny selecionou uma série de personal statements de candidatos que foram aceitos em Princeton e retirou de cada um deles um excerto (uma passagem). Utilizando um algoritmo de substituição, Danny criou três níveis de complexidade para as passagens selecionadas: no nível simples, as passagens não foram alteradas. No nível médio, a cada três substantivos, verbos e ou advérbios, o algoritmo substituía a palavra por um sinônimo mais complexo. No nível complexo, todos os substantivos, verbos e adjetivos do texto foram substituídos por sinônimos mais complexos.

Danny pegou essas passagens e pediu aos participantes do estudo que as lessem e respondessem sobre (1) o nível de complexidade da passagem, (2) o quão inteligente eles achavam que a pessoa que escreveu era e (3) se eles aceitariam ou não a pessoa que escreveu para fazer Mestrado e/ou Doutorado em Princeton. Os resultados mostraram que os textos mais complexos foram, de fato, classificados como difíceis pelos participantes. No entanto, de acordo com os participantes, quanto mais complexo o texto, menos inteligente era a pessoa que escreveu. Além disso, quanto mais simples o texto, maior a probabilidade do autor ser aceito como aluno de Mestrado e/ou Doutorado.

Esses resultados sugerem que a estratégia de escrever difícil para parecer mais inteligente não funciona. Mas será por que? De onde vem isso? Existe um efeito muito robusto investigado pela Psicologia Cognitiva relacionado à fluência de processamento de informação. Vários estudos têm mostrado que informações de fácil processamento são percebidas mais positivamente, ao passo que uma dificuldade maior de processamento acarreta em julgamentos negativos relacionados à informação (ou à fonte da informação). Por exemplo, produtos que apresentam rótulo de difícil processamento são percebidos como sendo de qualidade inferior. Campanhas publicitárias que apresentam fontes que são difíceis de ler (ou que apresentam um contraste de cores que dificulta o processamento) acabam afetando negativamente a forma como percebemos o produto.

A mesma coisa parece estar acontecendo aqui. Quando lotamos nossos textos com palavras difíceis, estamos dificultado o processamento da informação contida no texto e, como consequência, as pessoas automaticamente criam uma percepção negativa com relação à qualidade do texto e ao escritor do texto. O importante é comunicar a informação sem complexidades desnecessárias. Fica aí a dica! :)

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Referência:

Oppenheimer, D. (2006). Consequences of erudite vernacular utilized irrespective of necessity: problems with using long words needlessly Applied Cognitive Psychology, 20 (2), 139-156 DOI: 10.1002/acp.1178

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Discussão - 12 comentários

  1. Izabella Pena-Neshich says:

    Oi André!
    Muito legal seu texto!

    Gostaria de um dia ver uma pesquisa como essa aqui no Brasil, acredito fielmente que o resultado será completamente inverso! O que você acha?

    Abraços!
    Izabella

    • Será que teríamos resultados diferentes??? Esse efeito de fluência de processamento nos nossos processos cognitivos parece ser um fenômeno bem pervasivo… mas seria interessante sim, verificar a magnitude dele…

  2. Saulo says:

    O problema evidente desse estudo é o método, como tantos outros estudos desse tipo. Ele falsifica seus resultados por um pressuposto errado: o de que exista uma lógica matemática para a língua escrita. Obviamente que se você substitui palavras simples por palavras muito complicadas, isso parece idiota por que essa idéia em sí é idiota. A única coisa que ele conseguiu provar é que as pessoas também acharam os textos produzidos por uma substituição algorítmica saem mesmo idiotas.

    Escrever não é substituir ou usar essa ou aquela palavra. Escrever envolve coerência e coesão, acima de tudo. Substituição de palavras não é parâmetro aceitável para qualquer medita na linguagem escrita. Fora que todos nós bem sabemos que intelectuais, eventualmente, substituem formas simples por mais complexas para evitar uma linguagem informal no meio acadêmico. Nenhuma surpresa nisso.

    Esse é um caso clássico de falácia. Aliás, é o perigo de qualquer estudo científico: os dados e a forma de os conseguir forçam as respostas já esperadas e desejadas pelo pesquisador. Assim é possível provar qualquer coisa.

    • …e ciência não prova nada! Dê uma olhada no estudo original veja os controles que eles utilizaram… É no mínimo injusto “to bash” um estudo apenas com base no meu texto sobre o estudo (por isso a referência original). Algumas pessoas não acham o estudo idiota… outras sim!

  3. Jubs says:

    Engraçado..tive um professor na PUC – melhor não comentar já comentando – que não só escrevia difícil, mas, também, falava difícil…ou melhor…falava impossível. Seria uma estratégia para ninguém descobrir que ele, no final das contas, não falava nada?! Ou melhor, não tinha NADA para falar?

  4. Eu não acho que a dificuldade no que você diz mostra a sua inteligência ou inteligência de quem entender, têm a capacidade de fazer o fácil difícil para os outros se isso é um sinal de inteligência.

  5. Raphael o d4rk says:

    Ótima participação no NERDCAST, vou começar a visitar o blog…

  6. Valeu, Raphael!!! Eu tb gostei de ter participado! :)
    Continue visitando o Cogando, sim! :) Abs.

  7. Henry says:

    Uma coisa é certa, se as palavras usadas, mesmo que em uma linguagem simples, soarem “erradas”, vão tirar a credibilidade do autor. Quando se escreve de uma maneira mais próxima da norma culta, sem vícios de linguagem etc, mesmo que seja uma besteira, vai parecer mais inteligente com certeza.
    Para não ter sua credibilidade abalada, troque o “mais” por “mas”, na frase de exemplo do seu texto. (como você sabe, a mente prega peças…)

    • Oi Henry,
      “Se as palavras usadas, mesmo que em uma linguagem simples, soarem erradas, vão tirar a credibilidade do autor” — > Mais ou menos… Apesar de contra-intuitivo, o ponto crucial das pesquisas sobre fluência do processamento é exatamente a idéia de que a experiência metacognitiva que chamamos de fluência irá influenciar os seus julgamentos independente do conteúdo. Para que as palavras que “soam erradas” tenham um impacto na fluência do processamento é preciso que elas interfiram conceptualmente na conceptualização da mensagem (criando aquela sensação de: do que ele está falando mesmo? Tá difícil de entender…)
      O interessante, no entanto, é que a nossa mente organiza os conceitos e idéias em forma de redes neurais, onde a ativação de um conceito (nódulo da rede) se espalha e ativa conceitos/nódulos próximos e semelhantes. Isso ocorre no nível conceitual (é por isso que o conceito “goleiro” nos lembra o conceito “futebol” – conceptualmente na rede eles estão bem próximos) e no nível fonológico também (o famoso exemplo do William Wack — http://youtu.be/lt_zCWY1meM).
      Apesar de cômico, é pouco plausível pensar que esse tipo de “erro” foi causado pq o William Wack conceptualiza a Zelda Mello como uma merda. A vizinhança fonológica é muito maior que a vizinhança conceptual e por isso “entendemos” de onde vem o erro e descontamos qualquer influência na nossa experiência metacognitiva (falamos assim: o que? Merda? Ahhh ele quis dizer Mello)… e a compreensão da mensagem continua. Se ele tivesse falado “Zelda Coco de Bode”, certamente teríamos muito mais problemas com a mensagem e talvez sim demosntraríamos uma fluência menor no processamento da informação dele.
      Sem contar que por serem próximas fonologicamente, são próximas também em termos dos padrões motores que as instanciam. Por essas e outras, é muito pouco provável que esse tipo de erro do William influencie a credibilidade de alguém. Mas isso é uma pergunta empírica (e muito interessante…)
      Mas concordo com o que você disse: a mente prega muitas peças… principalmente no córtex motor – damn tupos… oops typos). Mas (acertei agora!!! Yay), valeu por ver o erro… aprender coisas novas é sempre bom! Lol Mas a oportunidade de aprendizado foi tão grande que resolvi deixar o “erro” no texto! ☺

  8. daniel ferreira says:

    Eu somente gosto de textos difíceis. Se não podemos utilizar as palavras denotativas, para que serve então o dicionario, só de enfeite?

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