O meu cérebro quer saber: Inflação Psicológica existe??

brain_comprasO que psicologia tem a ver com inflação e economia (tirando o fato de que uma consulta psicológica está pela hora da morte)? A nossa cognição pode sim afetar a economia do país. Nossa cognição é responsável pelos nossos hábitos e comportamentos, inclusive nosso comportamento financeiro. Mas o que seria essa tal de inflação psicológica?

Pra começar, vamos entender o que é inflação. Inflação acontece quando existe um aumento generalizado no preço das coisas de maneira que seu dinheiro acaba valendo menos. Oi? Não entendeu? Tá bom, eu explico: imagine que cada brasileiro receba do governo um envelope com 7 mil reais. Todo mundo resolve gastar essa grana extra comprando um smartphone de última geração. As Casas Bahia vão ficar lotadas. Vai ter mais gente querendo comprar celular do que a quantidade de celular que eles têm em estoque. Para evitar que o estoque acabe logo, as Casa Bahia irão aumentar o preço do smartphone. Esse aumento de preço causado por esse desequilíbrio entre a demanda (pessoas querendo um smartphone) e a oferta (quantidade de smartphone no estoque) faz com que no final das contas esse seu dinheiro “extra” nem tenha tanto valor assim. Essa confusão inteira é o que os economistas chamam de inflação. E é exatamente por isso que o Brasil não pode simplesmente sair produzindo mais dinheiro na Casa da Moeda pra resolver os problemas financeiros. Mais dinheiro em circulação com a mesma quantidade de produção de bens, causa aumento de preços das coisas e, consequentemente, inflação.

Mas para a inflação realmente afetar a economia, esse aumento de preços das coisas tem que ser generalizado. Um aumento aqui e outro ali é normal (variações ocorrem) e não é considerado generalizado a ponto de causar inflação na economia. Acontece, no entanto, que existem duas áreas (intrinsicamente relacionadas) em que a nossa cognição é realmente péssima: (1) previsão acerca de acontecimentos futuros e (2) pensamento probabilístico e/ou raciocínio frente ao incerto. Essas duas deficiências juntas causam o que os economistas chamam de inflação psicológica.

Acontece assim: as pessoas observam alguns aumentos em alguns setores. Como elas não conseguem ver esses aumentos como flutuações (variações) normais, começam a agir como se esses aumentos fossem generalizados. Por exemplo, se o leite esse mês está mais caro que o mês passado, mas o açucar está mais barato, essa configuração faz com que o valor “final” da sua compra seja virtualmente o mesmo do mês anterior. Mas a crença de que esse aumento é generalizado (e que vai acontecer novamente no próximo mês e no próximo e no próximo) faz com que os hábitos de compra mudem. Ao invés de ir ao supermercado várias vezes durante o mês, as pessoas passam a ir menos, comprar maiores quantidades e estocar produtos em casa. Essa prática faz com que os comerciantes percebam que existem épocas de maior “procura” e aumentam os preços (agora sim de maneira generalizada) nessas determinadas épocas (semelhante ao que acontecia na década de 80 no dia de pagamento: os supermercados ficavam lotados e vazios no resto do mês).

Basicamente pelo fato de sermos péssimos em fazer previsões (sempre achamos que mês que vem vai ter mais aumento generalizado) e pelo fato de não sermos muito bons em pensamentos probabilísticos (sempre achamos que as variações normais são anormais e portando generalizadas), nos comportamos como se os aumentos fossem de fato generalizados e esse comportamento reformata o mercado de maneira que os preços realmente subam de maneira generalizada.

Mas e aí? Como resolver isso? Obviamente a solução não é tão simples assim, uma vez que existem vários fatores que influenciam a configuração de mercado e a economia de um país. Mas uma prática que podemos adotar é a prática de pesquisa de preços. Essa prática pode forçar o equilíbrio do mercado. Por exemplo, basta comprar menos daquele produto que o preço está mais alto, de maneira que a demanda diminua, forçando a queda do preço. Mas pra isso, precisamos saber como avaliar esses aumentos e flutuações. É daí que vem a minha crença de que seria muito bom se todo mundo tivesse, desde a educação básica, aulas e noções de estatística, variação e tomada de decisão frente ao incerto. Dessa forma, práticas do tipo “pesquisa de preços” seriam muito mais comum entre as pessoas de maneira que essa maioria forçaria uma reconfiguração do mercado (e isso talvez contribuísse para segurar a inflação em níveis aceitáveis).

Tem alguma pergunta sobre cognição, mente e cérebro? Mande pro Cognando.

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About André L. Souza

Assistant Professor Department of Psychology The University of Alabama www.andreluizsouza.com
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4 Responses to O meu cérebro quer saber: Inflação Psicológica existe??

  1. Eder says:

    É uma tragédia: ao tentar se proteger de uma inflação irreal, cria-se uma inflação bem real!

  2. D says:

    Excelente texto. Começando pelo fato de que brasileiro não tem educação financeira desde a escola, que é onde deveria começar, a inflação psicológica aterroriza os consumidores de qualquer tipo de bens, deixando a economia do jeito que está: cheia de incertezas e sem a fé de que irá melhorar.

  3. Jardel says:

    Artigo interessante, que motiva as possoas a tomarem decisões baseadas em dados e não somente na sua intuição.
    A única ressalva fica por conta da definição de inflação: inflação é, como o termo já denuncia, o aumento da oferta monetária – esta causada por quem detém o monopólio de criação do dinheiro: hoje são os Estados, por intermédio dos Bancos Centrais. O aumento generalizado e persistente dos preços dos produtos e serviços é simplesmente uma das possíveis consequências da inflação. http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1296

  4. Orlan says:

    Interessante suas colocações, acredito que a inflação é diferente para cada pessoa, por exemplo fui comprar frutas e verduras e estão pela hora da morte, não sei se é entre-safra, falta de chuva ou outra causa natural ai vejo na tv que estamos em recessão a meta da inflação não será atingida, etc. na sequência vem o panico. Certamente se o conhecimento das regras básicas da economia oferta e demanda fizessem parte do nosso
    cotidiano tudo seria diferente. Parabéns

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