A História de Franz Nopcsa: o Barão paleontólogo que foi o pai da Paleobiologia

Olá a todos! Após um breve periodo sem postagens finalmente volto com uma grande contribuição de meu estimado colega Giovanne Mendes Cidade. Em seu texto ele apresenta um pouco sobre a história de um renomado e famoso paleontologo,  Franz Nopcsa! Com sua escrita leve e divertida, o Giovanne nos mostra um pouco sobre quais foram as contribuições e dilemas deste paleontologo pioneiro.

Sem mais delongas, vamos ao texto:


Um homem excêntrico, de personalidade difícil. Homossexual, não fazia questão nenhuma de esconder sua sexualidade.

Hoje em dia, esta descrição se encaixa em praticamente todo o paleontólogo que você poderá conhecer um dia. No entanto, entre o fim do século XIX e o começo do século XX, esta descrição, muito provavelmente, levaria qualquer pessoa a pensar em um único nome: o do Barão Franz Nopcsa von Felső-Szilvás – que ficaria mais conhecido no meio científico e paleontológico simplesmente como Franz Nopcsa ou Barão Nopcsa.

E as razões pelas quais ele ficaria conhecido no mundo científico e paleontológico não foram poucas: considerado o pai da chamada Paleobiologia (que, neste sentido, pode ser definida como um ramo da Paleontologia que se dedica a inferir como os animais eram, quando vivos, a partir de seus restos fossilizados, seja em termos de anatomia de tecidos moles, comportamento, fisiologia, entre outros). Portanto, na prática, Franz Nopcsa foi um dos primeiros paleontólogos que tentou “colocar carne nos ossos fossilizados” numa época em que a maioria de seus colegas se preocupava apenas em “reunir” ossos fossilizados e simplesmente lhes dar nomes bonitinhos em latim.

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Figura 1: Franz Nopcsa (1877-1933).

Origens

Nascido de uma família de etnia húngara em 3 de maio de 1877 nas cercanias da vila de Szacsal, na Transilvânia (então parte do chamado Império Austro-Húngaro, ou Áustria-Hungria, mas que hoje faz parte da Romênia), a trajetória de Franz Nopcsa pela paleontologia começaria em 1895, quando a sua irmã, Ilona, descobriu alguns “ossos petrificados” perto da propriedade da família. Ela levou esses materiais ao seu irmão, que se interessou por eles e terminou por levá-los, que no mesmo ano os mostrou a um professor de geologia da Universidade de Viena chamado Eduard Seuss, que os identificou como restos de dinossauros e propôs a Nopcsa que os estudasse, além de incentivá-lo a fazer mais escavações na área em que eles haviam sido encontrados.

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Figura 2: O castelo da família Nopcsa em Szacsal (então Áustria-Hungria, hoje Romênia).

 

De acordo com um artigo de um blog da Scientific American [1], quando Nopcsa perguntou a Seuss por conselhos e literatura sobre osteologia de dinossauros, o professor teria simplesmente respondido “ – Estude-os!” – o que nos dá uma indicação de que as relações entre orientadores e alunos não mudaram substancialmente nos últimos 120 anos.

Apesar de tudo, a descoberta desses fósseis de dinossauros incentivou Nopcsa a se matricular em um curso de geologia na Universidade de Viena em 1897. Ele progrediu em seus estudos rapidamente, apresentando em apenas dois anos a primeira parte de uma planejada série monográfica de 5 volumes sobre os “Dinossauros da Transilvânia”. Embora ele tivesse progredido rapidamente em seus estudos e muitos reconhecessem o seu brilhantismo, Nopcsa também era apontado por muitos como um sujeito um tanto arrogante e dotado de uma personalidade difícil, com quem por vezes se era difícil de conviver.

Nopcsa concluiu seus estudos em 1903 e a partir daí, aproveitando-se da grande riqueza de sua família, que fazia com que ele não precisasse ter um emprego fixo (praticamente a melhor agência de fomento que um pesquisador poderia ter), ele se dedicou quase exclusivamente às suas pesquisas paleontológicas. Suas pesquisas envolveram principalmente uma série de répteis do Mesozoico (de dinossauros a serpentes, envolvendo também crocodilos, pterossauros e tartarugas, entre outros) e aos seus estudos sócio-antropológicos sobre o povo, a cultura, a sociedade e a linguagem da Albânia – um pequeno país da região dos Balcãs, no sudeste da Europa – até 1914: quando começou a Primeira Guerra Mundial. O Império Austro-Húngaro se envolveu na guerra e Nopcsa chegou a atuar como um espião para o seu país, além de arregimentar um grupo de voluntários albaneses para lutar ao lado da Áustria-Hungria.

Paleontologia

O trabalho de Nopcsa abordou vários grupos de vertebrados fósseis sob as variadas perspectivas. Neste artigo, no entanto, se abordará principalmente as contribuições que ele deu através de uma abordagem paleobiológica – ou seja, aquelas em que ele manifestou uma preocupação em utilizar as informações contidas nos fósseis para tentar inferir a anatomia dos tecidos moles, a fisiologia, o comportamento, a ecologia ou as razões para as extinções dos diferentes grupos de vertebrados que ele estudou.

Começando com os dinossauros, grupo com o qual Nopcsa trabalhou mais extensivamente (mais de 40 dos seus 101 artigos científicos em paleontologia são sobre dinossauros [2]), o autor não só descreveu várias espécies novas como trabalhou extensivamente com os Ornitischia (um grupo de dinossauros majoritariamente quadrúpedes e herbívoros cujo arranjo dos ossos cintura lembra o de uma ave). Em 1915, ele defendeu que os ornitísquios que possuíam extensas armaduras ósseas junto à parte externa do corpo, incluindo os famosos Stegosaurus e Ankylosaurus, deveriam ser agrupados em um mesmo grupo, ao qual ele denominou Thyreophora. A ideia dos Thyreophora como um grupo não recebeu muito suporte à época de Nopcsa, mas acabou se tornando aceita entre os paleontólogos a partir de 1970 até hoje, quando Thyreophora passou a ser o nome de um clado (veja o artigo de Thompson et al., 2011 [3]).

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Figura 3: Fósseis de Telmatosaurus transsylvanicus, um dinossauro ornitísquio descrito por Nopcsa em 1899: uma mandíbula esquerda (acima) e algumas vértebras (abaixo).

Nopcsa também foi um dos primeiros a tentar pesquisar sobre como a musculatura e o sistema nervoso dos dinossauros poderia ter sido através de análises dos restos fósseis. Além disso, ele também procurou compreender o comportamento e a ecologia do grupo, sendo um dos primeiros a cogitar, por exemplo, que dinossauros adultos exibiam uma espécie de hierarquia social e cuidado parental; esta última ideia, em particular, só ganharia suporte muito tempo depois – particularmente em 1979, quando da descoberta do famoso dinossauro ornitísquio Maiasaura peeblesorum, cujos fósseis encontrados – que incluíam ninhos contendo ovos com embriões e animais jovens – indicavam, também por evidências histológicas, que esta espécie efetivamente exibia um comportamento de cuidado parental.

E, assim como quase todo mundo, Nopcsa também dedicou um bom tempo e energia para falar de sexo. Particularmente, sexo em dinossauros. Ele foi um dos primeiros a propor que dinossauros poderiam ter estruturas e comportamentos de display sexual (ou seja, uma estrutura utilizada por indivíduos de um dos sexos, mais frequentemente o macho, para atrair indivíduos do sexo oposto). Em um trabalho de 1905, ele chegou a argumentar que um osso previamente identificado como uma clavícula era na verdade uma espécie de osso peniano, que comprovaria a existência de pênis nos dinossauros saurópodes. Esta ideia, no entanto, foi rejeitada por praticamente todos os seus contemporâneos e o continua sendo até hoje, já que, por exemplo, répteis atuais não apresentam ossos penianos, embora crocodilianos atuais possuam pênis que contém cartilagem.

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Figura 4: Uma reconstrução feita por Nopcsa do dinossauro ornitísquio Struthiosaurus (1915).

Porém, outra sugestão de Nopcsa sobre sexo em dinossauros acabou gerando desdobramentos mais interessantes: em uma série de trabalhos a partir de 1915, ele passou a argumentar que algumas diferenças morfológicas presentes em dinossauros, especialmente em ornitísquios do grupo dos Hadrosauridae (os chamados dinossauros de “bico de pato”) eram na verdade caracteres sexuais secundários, e que poderiam ser usados para diferenciar machos de fêmeas. Entre estes caracteres, estavam o formato do crânio, a morfologia das vértebras e o tamanho relativo dos ossos dos membros. Embora muitas dessas observações de Nopcsa sobre caracteres sexuais secundários se revelariam posteriormente incorretas [vejam detalhes em 4], a ideia de que diferenças morfológicas observáveis poderiam ser caracteres sexuais secundários se tornou recorrente nas pesquisas paleontológicas, não só de hadrossaurídeos como de praticamente todos os grupos de vertebrados fósseis em que a existência de sexos diferentes pode ser presumida.

Nopcsa também fez algumas propostas sobre como teria sido a evolução das aves a partir de dinossauros não-avianos. Embora esta ideia não fosse nem um pouco nova – já tendo sido defendida por Thomas Huxley no século XIX –, Nopcsa inovou em propor que as aves teriam surgido de dinossauros que se moviam com as pernas sobre o solo, “correndo”, e que eventualmente, com a evolução das penas, estes animais teriam adquirido a capacidade de voar. Esta teoria contrastava com a teoria predominante até então, que dizia que as aves teriam surgido a partir de dinossauros que habitavam as copas ou as regiões mais altas das árvores, tendo evoluído sua capacidade de voo a partir de uma primordial capacidade de planar, adquirida ao “saltar” dessas regiões mais altas de árvores. A teoria defendida por Nopcsa, chamada às vezes de “ground-up” (“do chão para cima”) também não foi muito defendida ou discutida em sua época, ganhando um pouco de atenção apenas na década de 1960.

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Figura 5: Um desenho feito por Nopcsa de fósseis do lagarto Bavariasaurus dentro da barriga do dinossauro terópode Compsognathus (1903), ambos do Jurássico da Alemanha.

No entanto, descobertas recentes de dinossauros penosos, principalmente na China, têm não só evidenciado a proximidade entre dinossauros a aves (hoje já praticamente consenso na paleontologia de vertebrados) como também têm reforçado a hipótese de que os primeiros dinossauros voadores, que dão origem às aves, eram na verdade habitantes dos altos das árvores ao invés de animais de solo, indo contra a teoria de Nopcsa. Apesar disso, como nota o paleontólogo David Weishampel em [5] “Nopcsa estava fazendo boas perguntas, até mesmo quando ele não conseguia as respostas corretas”, fazendo um tributo à sua curiosidade intelectual.

Ao estudar fósseis de dinossauros vindos de depósitos do Cretáceo Superior de uma região chamada Haţeg, numa área hoje localizada na Romênia, Nopcsa percebeu que, no que dizia respeito aos fósseis encontrados naquela região, “enquanto as tartarugas, crocodilianos e animais similares do Cretáceo Superior atingiam o seu tamanho normal, os dinossauros quase sempre eram de um tamanho menor” se comparados com indivíduos de grupos semelhantes provenientes de outras localidades. Eventualmente, com base nesta e em outras observações, Nopcsa concluiu que a região estudada teria sido uma ilha durante o Cretáceo, enquanto o tamanho menor dos dinossauros representaria um caso do hoje conhecido fenômeno denominado “Nanismo Insular”. Neste, restrições ambientais presentes nas ilhas (como alimento e espaço) fazem com que animais de pequeno porte sejam favorecidos em detrimento de espécies e/ou indivíduos de maior tamanho, o que pode fazer com que animais originalmente grandes terminem por diminuir de tamanho ao longo de sua história evolutiva.

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Figura 6: À esquerda, outro exemplo de nanismo insular ocorrido entre as décadas de 1970 e 1980 do século passado.

Esta ideia de Nopcsa para os dinossauros da região de Haţeg (e também a ideia de que a região era uma ilha) seria reforçada por muitos estudos posteriores, incluindo um estudo muito recente de Benton e colaboradores (2010) [6] que contou até com análises histológicas e concluiu que os indivíduos de dinossauros encontrados na região eram realmente adultos de pequeno tamanho, e não simplesmente animais juvenis.

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Figura 7: Um mapa mostrando onde seria a ilha de Haţeg (indicada com o ponto vermelho) na região da atual Europa no Cretáceo Superior. Imagem retirada de [7].
Outros grupos e outros ramos da ciência

Nopcsa foi um dos primeiros a propor que os pterossauros (conhecido grupo de répteis voadores do Mesozoico) teriam “sangue quente” – isto é, seriam capazes de manter uma temperatura corporal constante e alta, ao invés de possuírem uma temperatura corporal que oscilaria junto com o ambiente. Também esta ideia de Nopcsa, como tantas outras, estava muito à frente de seu tempo: segundo [5], a ideia de que os pterossauros (e também os dinossauros) seriam homeotérmicos não seria consideradamente de maneira séria de novo até a década de 1970.

Com relação aos crocodilomorfos, Nopcsa se destacou por propor que um táxon do Cretáceo Superior do Egito que possui um rostro em formato de “bico de pato”, Stomatosuchus inermis, possuiria uma espécie de “saco gular” no palato inferior, com o qual formaria um tipo de “rede de pesca” para capturar as presas. Esta estrutura (e o comportamento associado com ela), que sem dúvida diferem bastante do que se observa na grande maioria dos crocodilomorfos extintos ou atuais, seria aproveitada por outros pesquisadores para outro grupo de crocodilomorfos do Mioceno da América do Sul, Mourasuchus, o qual é bem distante filogeneticamente de Stomatosuchus, mas desenvolveu uma morfologia bastante parecida com aquele táxon de forma convergente (ou, como também se disse no jargão filogenético, homoplásica).

Além disso, Nopcsa também foi um dos primeiros paleontólogos a se propor a utilizar histologia como ferramenta de análise sobre a fisiologia, a taxonomia e a ontogenia de táxons fósseis, em um tempo onde a obtenção de cortes histológicos certamente era mais difícil do que hoje.

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Figura 8: Trecho de uma carta ao paleontólogo Friedrich von Huene, de 1925, em que Nopcsa desenha e aponta para diferenças nas estruturas histológicas de dois sinápsidos basais do grupo dos Sphenacodontia: Palaeohatteria (esquerda) e Pantelosaurus (direita).

Franz Nopcsa também se interessou pela ciência com a qual a paleontologia sempre se imiscui: a geologia. Nopcsa publicou 35 trabalhos nessa área, mostrando um especial interesse pela tectônica de placas, sendo um dos primeiros cientistas a apoiar a Teoria da Deriva Continental proposta por Alfred Wegener.

Albânia

O outro grande interesse de Franz Nopcsa, além da Paleontologia, foi absolutamente tudo o que envolvia a Albânia – um pequeno país dos Balcãs, na costa leste do Mar Adriático, não muito longe da terra Natal de Nopcsa. O excêntrico Barão percorreu grandes áreas do país entrevistando pessoas e tirando fotografias (uma tecnologia ainda relativamente nova na época) coletando informações que o levaram a escrever muitos volumes sobre a Albânia, seu país e seu povo – muitos dos quais, no entanto, não chegou a ser publicados enquanto ele vivia. Uma coleção das fotos tiradas por Nopcsa nas suas viagens à Albânia pode ser vista em [8].

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Figura 9: Franz Nopcsa enquanto jovem, vestido como um “guerreiro albanês”.

Outra ligação forte entre Nopcsa e a Albânia se deve ao fato de que o seu secretário, melhor amigo – e, segundo todas as fontes, namorado –, o geólogo Bajazid Elmaz Doda, era albanês. Doda e Nopcsa viveram juntos por mais de 20 anos, realizando também várias viagens por toda a Albânia juntos. Nopcsa até chegou a nomear, em homenagem a Doda, uma tartaruga fóssil que ele descreveu do Cretáceo Superior da Romênia: Kallokibotion bajazidi. Foi uma homenagem, com certeza, mas podemos ficar nos perguntando se homenagear o parceiro com uma tartaruga não seria uma espécie de indireta depois de uma DR particularmente difícil.

Seu fascínio pela Albânia era tanto que, quando o país se tornou independente do Império Otomano em 1913, Nopcsa se prontificou a ser um dos candidatos a se tornar o rei do novo país, que seria definido em um Congresso na cidade de Trieste naquele mesmo ano. Nopcsa, no entanto, acabou por desistir de sua candidatura, e um dos fatores mais elencados como motivo de sua desistência foi o fato de ele não só ser um homossexual, como o de não fazer absolutamente nenhuma questão de esconder isso. Na época, muitas pessoas viram isso de maneira negativa, muito embora Nopcsa tenha chegado a declarar que, se ele conseguisse se tornar rei, poderia fazer o sacrifício de se casar com uma mulher rica que aceitasse pagar uma boa soma em dinheiro para se tornar uma rainha. Este dinheiro, então, seria usado para a construção de obras de infra-estrutura que a Albânia tanto precisava, como estradas e hospitais.

No entanto, Nopcsa acabou por desistir mesmo de se tornar rei e nada disso se tornou uma realidade. O que é uma pena, porque a Albânia poderia ter se tornado o único país do mundo em que o orçamento para pesquisas em Paleontologia seria praticamente infinito.

 

Últimos anos, Morte e Legado

Depois que o Império Austro-Húngaro foi derrotado na Primeira Guerra Mundial, em 1918, a área onde ficavam as propriedades de Nopcsa foram transferidas à Romênia, que fez com que todos os nobres de origem austro-húngara perdessem suas terras. Isso forçou o nobre Nopcsa a, pela primeira na vida, procurar um emprego assalariado – e ele acabou arranjando um no Instituto Geológico Húngaro, no recém-criado país independente da Hungria, em 1925.

No entanto, a nova vida de trabalhador assalariado aparentemente não se encaixou bem para Nopcsa. De acordo com as publicações sobre sua vida, Nopcsa distraía-se muito em seu trabalho e eventualmente pediu demissão em 1929. Desempregado, ficou com depressão e acumulou dívidas a ponto de ter que vender sua coleção de fósseis para o Museu de História Natural de Londres e, depois, vendeu também vários livros que possuía. O quadro depressivo foi se acumulando até que, no dia 25 de abril de 1933, Franz Nopcsa cometeu suicídio em seu apartamento em Viena, na Áustria. Antes, porém, ele também assassinou com um tiro seu secretário, amigo e namorado de longa data Bajazid Doda. Em uma carta de suicídio, Nopcsa declarou que a razão de ter matado Doda foi porque ele não queria, ao suicidar-se, abandonar seu companheiro “doente, na miséria e sem um centavo, porque ele acabaria sofrendo muito”, quase como dizendo que matar alguém, às vezes, é apenas uma maneira um pouco peculiar de dizer “eu te amo”.

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Figura 10: Bajazid Elmaz Doda (esquerda) e Franz Nopcsa.

Mas hoje, mais de 80 anos depois de sua morte, o legado de Franz Nopcsa – o pai da Paleobiologia – como paleontólogo (e albanologista) continua vivo – embora não muito frequentemente lembrado – como um dos mais polivalentes, criativos, ousados e dinâmicos cientistas da nossa área.

Referências

[1] Baron Nopcsa: More than just Transylvanian dinosaurs

https://blogs.scientificamerican.com/history-of-geology/baron-nopcsa-more-than-just-transylvanian-dinosaurs/

[2] Weishampel, D.B & Kerscher, O. 2013. Franz Baron Nopcsa, Historical Biology: An International. Journal of Paleobiology 25:4, 391-544, DOI: 10.1080/08912963.2012.689745

[3] Richard S. Thompson, Jolyon C. Parish, Susannah C. R. Maidment and Paul M. Barrett (2011). “Phylogeny of the ankylosaurian dinosaurs (Ornithischia: Thyreophora)”. Journal of Systematic Palaeontology10 (2): 301–312. doi:10.1080/14772019.2011.569091.

[4] Weishampel, D.B & Wolf-Ernst Reif, W-E. 1984. The Work of Franz Baron Nopcsa (1877-1933): Dinosaurs, Evolution and Theoretical TectonicsJahrbuch der Geologischen Bundesanstalt 127(2):187-203.

[5] Nopcsa, Baron Franz

http://www.glbtqarchive.com/ssh/nopcsa_bf_S.pdf

[6] Benton, M.J., Csiki, Z., Grigorescu, D., Redelstorff, R., Sander, P.M., Stein, K., and Weishampel, D.B. (2010).Dinosaurs and the island rule: The dwarfed dinosaurs from Haţeg Island. Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, 293(3-4): 438–454.

http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0031018210000386

[7] http://planetdinosaur.wikia.com/wiki/Ha%C8%9Beg_Island

[8] The Photo Collection of Franz Nopcsa

http://www.albanianphotography.net/nopcsa/

 

Leituras Complementares:

Baron, Scientist, Swashbuckler, Spy: The Colorful Life and Tragic Death of Franz Nopcsa

https://chasmosaurs.blogspot.com.br/2016/04/baron-scientist-swashbuckler-spy.html

History Forgot This Rogue Aristocrat Who Discovered Dinosaurs and Died Penniless

http://www.smithsonianmag.com/history/history-forgot-rogue-aristocrat-discovered-dinosaurs-died-penniless-180959504/

 

Fontes das Figuras:

[1]: http://www.albanianhistory.net/1907_Nopcsa1/index.html

[2]: Weishampel, D.B & Kerscher, O. 2013. Franz Baron Nopcsa, Historical Biology: An International. Journal of Paleobiology 25:4, 391-544, DOI: 10.1080/08912963.2012.689745

[3, Figura de cima], [4], [9], [11]: http://www.smithsonianmag.com/history/history-forgot-rogue-aristocrat-discovered-dinosaurs-died-penniless-180959504/

[3, Figura de baixo]: https://en.wikipedia.org/wiki/Telmatosaurus#/media/File:Telmatosaurus_transsylvanicus_vertebrae.JPG

[4]  Nopsca, F. (1915). “Die Dinosaurier der siebenburgischen Landesteile Ungarns”. Mit. a. d. Jahrb. d. kgl. ungar. Geolog. Reichsanst.

https://archive.org/stream/cbarchive_109076_nopcsaf1915diedinosaurierdersi1873/nopcsaf1915diedinosaurierdersi1873#page/n13/mode/

[5]: https://diogenesii.wordpress.com/tag/paleobiology/

[6]: http://seriesedesenhos.com/index.php/series-antigasda-tv/item/672-a-ilha-da-fantasia-1977

[7] http://planetdinosaur.wikia.com/wiki/Ha%C8%9Beg_Island

[8] https://blogs.scientificamerican.com/history-of-geology/baron-nopcsa-more-than-just-transylvanian-dinosaurs/


16735619_1201225939972881_1202071666_oGiovanne Mendes Cidade, Bacharel em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Mestre e atualmente Doutorando em Biologia Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), campus de Ribeirão Preto. Estuda principalmente crocodilianos fósseis, com ênfase em sistemática, taxonomia, biogeografia e anatomia de crocodilianos do Cenozoico, em especial do grupo dos Alligatoroidea. Também tem interesses diletantes em história da Paleontologia e em filosofia da Ciência como um todo, e da Biologia em particular, além de Evolução. 

 

Uma cauda de dinossauro com penas encontrada em âmbar de 99 milhões de anos

Pare tudo. Sim, é exatamente isso o que você leu. Os paleontólogos não poderiam receber melhor presente de Natal antecipado do que esse.

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Pesquisadores da China, Canadá e Inglaterra acabam de publicar no periódico Current Biology a descoberta de uma cauda emplumada de dinossauro preservada em âmbar. E mais: de um dinossauro não-aviano!

A descoberta acrescenta detalhes ao nosso conhecimento sobre a estrutura e evolução das penas. Detalhes esses, que não poderiam ser recuperados por meio de nenhum outro tipo de fóssil.

O fragmento de cauda preservado em 3D contém 8 vértebras de um pequeno dinossauro terópode juvenil. As penas que envolvem a cauda estão preservadas em detalhes. A cauda do animal era fina, longa e flexível e, devido a uma análise cuidadosa de sua anatomia, pesquisadores sustentam que ela pertenceria a um celurossauro não-aviano (os ‘celurossauros’ incluem dinossauros como o velociraptor, o tiranossauro e também as Aves).

O primeiro autor do artigo, Lida Xing, da Universidade de Geociências da China, Beijing, conta que descobriu esse maravilhoso espécime em um mercado de âmbar em 2015, em uma cidade de Myanmar chamada Myitkyina. Os vendedores acreditavam, originalmente, que a inclusão na peça tratava-se de alguma espécie de planta e por isso ela seria vendida como uma curiosidade. Xing percebeu a importância científica da peça e sugeriu que o Instituto de Paleontologia de Dexu comprasse o espécime. Ele confessa que, inicialmente, era muito difícil compreender os detalhes do fóssil, porém depois de uma análise de tomografia computadorizada, até mesmo observações microscópicas puderam ser feitas.

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Detalhes microscópicos das penas do espécime encontrado por Lida.
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Os pesquisadores Lida e Ryan segurando o espécime.
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Um pequeno celurossauro se aproxima de um galho com resina vegetal. Imagem de Chung-tat Cheung.

A peça é datada em 99 milhões de anos. A coloração das penas indica que a região dorsal da cauda tinha uma coloração amarronzada e a parte ventral era mais clara ou branca. As penas não apresentam uma raque (ou raquis) bem desenvolvida e sua estrutura sugere que as barbas e bárbulas (os “raminhos” das penas) teriam origem anterior à formação da raque.

É impressionante ver tantos detalhes em um único fóssil: ossos, carne, pele e penas! Mas triste imaginar o fim do bichinho aprisionado na resina vegetal, sem conseguir se libertar. Pelo menos, nos deixou uma história maravilhosa para contar.

Os pesquisadores examinaram também a química do fóssil. As análises sugerem que o tecido mole preservado no entorno dos ossos retém traços de ferro: uma relíquia da hemoglobina (traços de sangue!), que também ficou aprisionada na amostra.

Esse achado mostra mais uma vez o valor inestimável dos diferentes tipos de fósseis para compreensão de como eram os organismos no passado. Os âmbares são como pequenas cápsulas no tempo, que preservam retratos 3D ultra-detalhados de ecossistemas antigos. Detalhes muito difíceis de serem capturados por qualquer outro processo de fossilização. São peças de informação inestimáveis! Isso traz a tona a necessidade urgente de intensificar os estudos no local de procedência desse material e investir na proteção desses fósseis.

Os paleontólogos do mundo inteiro estão boquiabertos e à espera de mais descobertas dessa região, que possam remodelar o nosso conhecimento sobre a evolução, não só das penas e dos dinossauros, mas também de outros organismos do Cretáceo.

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Mais detalhes do fóssil.

Recentemente a asa de uma ave do Cretáceo também havia sido encontrada em um âmbar de Myanmar, proveniente do mesmo depósito fossilífero.  Leia mais AQUI.

Assistam também o vídeo em nosso canal, clicando na imagem a seguir (você será redirecionado para o YouTube!):

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Xing, L., McKellar, R.C., Xu, X., Li, G., Bai, M., Persons W.S. IV, Miyashita, T., Benton, M.J., Zhang, J., Wolfe, A.P., Yi, Q., Tseng, K., Ran, H., Currie, P.J. (2016). A Feathered Dinosaur Tail with Primitive Plumage Trapped in Mid-Cretaceous Amber. Current Biologyhttp://dx.doi.org/10.1016/j.cub.2016.10.008

TERMOS CIENTÍFICOS (FILOSAFANDO #1)

Olá a todos! Sei muito bem que o Colecionadores de Ossos é um blog de divulgação sobre paleontologia, no entanto, justamente por isso ele é um blog cientifico. Muitas vezes para se entender informações científicas, mesmo em mídias de divulgação isso demanda certo conjunto específico de conhecimentos que associamos a ciência, como por exemplo, anatomia e filosofia. Portanto, venho por meio desta apresentar uma nova sequência de textos que irá tratar de assuntos direta e indiretamente relacionados à Filosofia da Ciência, que carinhosamente apelidei de Filosofando. O intuito dessa série é divulgar, facilitar e ampliar o entendimento em filosofia por parte daqueles interessados em ciências em geral. Recomendarei leituras do tipo para aqueles que veem a filosofia como algo “inútil” ou não vinculado a ciência e, assim espero, conseguir mudar essa visão ou pelo menos fazê-los repensar sobre o assunto.

Como primeira postagem, trago um tema básico que são os termos científicos. Aqui trarei algumas definições de termos que provavelmente vocês já ouviram no dia a dia ou leram em textos tanto de divulgação quanto em artigos científicos. No entanto, como esses mesmos termos possuem inúmeras definições, trarei aqui aquelas que considero como as melhores e que, portanto, serão a base que usarei nas próximas postagens. Convido todos que usam, conhecem ou preferiram outras definições a deixar um comentário para que discutamos sobre o assunto!

A comunicação que está ocorrendo entre minhas palavras escritas nesse texto e sua interpretação como leitor só são possíveis devido à semântica intrínseca de cada palavra aqui usada e dos significados destas retidas em seu cérebro. Sendo assim, o entendimento semântico dos termos usados em qualquer campo cientifico, e obviamente a paleontologia não se difere nisso, deve ser buscado por todos aqueles que praticam ciência. Por isso, existem severas discussões acerca de todos os termos usados buscando sempre haver uma uniformização de suas definições e aplicações para que haja uma otimização na transmissão das ideias produzidas. Quem nunca teve problema com um familiar ou amigo por usar uma palavra que foi interpretada por ele em um sentido diferente da que você usou? Na ciência também temos problemas deste tipo e justamente por isso tais discussões acerca da semântica das palavras é tão relevante. Além disso, o ato de citar autores prévios que forneceram a definição que você esta aplicando é um habito cientifico que seria muito bem aceita em nossa vida cotidiana, pois dessa forma, mesmo que o ouvinte tenha um conhecimento de definição diferente da mesma palavra ele estará contextualizado do sentido que você impôs ao usar tal termo.

Então vamos comparar aqui duas situações: 1) a calçada está molhada as 16:34; e, 2) Fulana é mão de vaca. Em geral, nos referimos a ambas as frases como fatos. No entanto, se valendo das definições do que significa “fato”, apenas a situação 1 pode ser considerada como tal. Para Mahner & Bunge (1997) fato é tanto a existência de algo em determinado estado quanto um evento que ocorreu em uma coisa, sendo, portanto, fato algo que podemos considerar como real/existente independente de nossa interação com ele – ou seja, ele não é uma alucinação e, portanto pode ser percebido pelos sentidos de outras pessoas. Nesse contexto, retomo a situação 1, qualquer pessoa que ver a calçada X as 16:34 perceberá que a mesma se encontra molhada, sendo portanto um fato. Uma propriedade interessante dos fatos é que eles não são passíveis de serem tratados como verdadeiros ou falsos, eles apenas são o que são. Todavia, na situação 2, a frase não é um fato, pois esta foi construída para explicar um fato ou conjunto de fatos que é ou foram a observação da Fulana se negando a pagar determinado valor em um produto. Ou seja, ver Fulana agindo de tal forma com relação a seu dinheiro é um fato perceptível a todos, no entanto, nomear Fulana como mão de vaca é atribuir uma explicação causal ao fato de Fulana ter agido de tal maneira. Sendo assim, a situação 2 na verdade é uma hipótese baseada no fato descrito acima. Mas então qual seria a definição de uma hipótese? Hipóteses são explicações de algum fato ou conjunto de fatos, dando a nós pelo menos um entendimento inicial daquilo que nós percebemos (Fitzhugh, 2008). Portanto, podemos considerar hipóteses como sendo espaço temporalmente restrito. Além disso, diferente dos fatos, as hipóteses são passíveis de falsificação diante de procedimentos conhecidos como testes (que aprenderemos mais em uma eventual postagem futura)! Em suma, diante do fato expresso na situação 1, posso propor uma hipótese explanatória, com caráter causal, que seria “antes das 16:34 choveu nessa região”. Ou seja, diante do fato uma hipótese foi proposta e que por meio desta adquiri certo conhecimento inicial do fato exposto na situação1.

Mas agora, por exemplo, se você leitor disser que tem uma opinião diferente da minha acerca da situação 1, cientificamente falando o que isto implicaria? O resultado dessa divergência de opiniões e bastante severa visto que isso indicaria que você leitor considera um determinado conjunto de hipóteses e teorias diferentes das minhas como verdadeiras. Sendo assim, podemos definir opinião como o ato de aceitar como verdadeiro determinado conjunto de hipóteses e teorias (Fetzer & Almeder, 1993). Portanto, opiniões diferentes implicam na aceitação de hipóteses/teorias diferentes como verdadeiras. Voltando ao exemplo da situação 1, na minha opinião a hipótese “chuva” é verdadeira para o fato “calçada molhada”, no entanto, para você leitor a hipótese “Maria lavou a rua” é a verdadeira. Cientificamente falando, a opinião que for embasada em hipóteses que tiverem as melhores evidências deverá prevalecer a menos que novas evidências surjam. Mas afinal o que são evidências? Segundo Fetzer & Almeder (1993) evidência seria aquilo que demonstra que algo seja o caso, ou seja, observações, experimentos ou construções linguísticas na forma de premissas que suportam determinada hipótese. Sendo assim, toda opinião fundamentada por evidências (opinião justificada) forma aquilo que chamamos de Conhecimento (Fetzer & Almeder, 1993). Portanto, como só somos capazes de adquirir conhecimento a partir do momento que fundamentamos nossas opiniões com evidências, sendo assim, a opinião sempre precede o conhecimento (Williamson, 2000).

Quando nos baseamos em informações prévias adquiridas em nosso tempo de vida para propor uma hipótese para explicar a situação 1 ou mesmo para propor a situação 2, nós nos baseamos no conhecimento prévio, que são todas as opiniões aceitas como verdade em relação a condução de uma observação ou experimento (Fetzer & Almeder, 1993). Portanto, todas as teorias, leis e outras hipóteses de conhecimentos, juntamente com nossas vivências (coisas não diretamente relacionadas com o que tradicionalmente chamamos de ciência) compõem nosso conhecimento prévio. Por isso que, quando paleontólogos dizem que “um bom paleontólogo é aquele que viu mais ossos”, essa argumentação e bem fundamentada visto que quanto mais materiais vistos por ele maior será seu conhecimento prévio e, portanto mais evidências ele terá para sustentar suas opiniões.

Bom, mas vamos retomar a discussão sobre evidências. Tradicionalmente podemos reconhecer dois tipos distintos de evidência que possuem funções e são usadas em momentos e situações completamente distintas. O primeiro tipo seriam as evidências usadas para sugerir uma hipótese (Fitzhugh, 2006), por exemplo, na situação dois usamos os fatos da Fulana se negar a gastar dinheiro em diversas situações e a teoria ou concepção geral que temos acerca de “mão de vaca” e com base nisso propusemos a hipótese presente na situação 2. Nesse contexto, tanto os fatos quanto a teoria são evidências. O segundo tipo de evidências, também conhecidas como evidências de teste, são usadas como base para julgar a veracidade de uma hipótese (Fitzhugh, 2006; obs: veremos mais sobre elas na postagem sobre testes). Portanto, na situação2, todas outras evidências que não sejam do primeiro tipo, mas que podem ser usadas para julgar a veracidade da hipótese pertencerá a esse segundo tipo.

Por fim, me resta distinguir dois termos corriqueiramente usados no dia a dia e na ciência que são teoria e lei. Leis são sumarizações de fatos ou eventos que apresentem certa periodicidade ou tendência, portanto ainda falando da situação 2, podemos propor uma Lei para Fulana visto que sempre que possível ela age de forma a gastar a menor quantidade de dinheiro possível. Já as teorias são conceitos explanatórios que buscam estabelecer relações de causa-efeito, que podemos usar junto as nossas percepções para adquirir entendimento (conhecimento) acerca de determinados fatos. De tal forma, teorias são espacial e temporalmente irrestritas, inclusive permitindo graus de inferências. Portanto, Leis e Teorias não são as mesmas coisas e muito menos possuem funções parecidas, enquanto leis buscam descrever padrões as teorias buscam explicações para tais. Por exemplo, podemos propor a lei “quando a água entra em contato com objetos eles se molham”, na situação 1 essa lei faz parte do nosso conhecimento prévio e é uma evidência a ser usada para propor uma hipótese explanatória. Além disso, temos a teoria de que certos eventos meteorológicos possibilitam a precipitação de água dos céus (i.e., chuva). Sendo assim, unindo esses conhecimentos prévios de que a calçada esta molhada (situação 1), de que para estar molhado o objeto entrou em contato com água (lei) e que a água pode ter vindo do céu (teoria), podemos propor a hipótese de que em determinada hora choveu na região da calçada X. Uma conclusão bastante importante é que nesse contexto de definições uma hipótese nasce como uma hipótese e morrerá como uma hipótese, assim como as teorias nascem e morrem como tal, sendo, portanto, impossível que uma hipótese se torne uma teoria (discutirei mais sobre isso em uma postagem futura).

Bom pessoal era isso! Espero que tenham gostado do texto e que achem tal tipo de postagem interessante e pertinente ao blog. Sempre que possível darei continuidade a essa série! Obrigado a todos.

 

Referências:

Fetzer, J. H. & Almeder, R. F. 1993. Glossary of Epistemology/ Philosophy of Science

Fitzhugh, K. 2006. The abduction of phylogenetic hypotheses. Zootaxa, 1145: 1-110.

Fitzhugh, 2008. Fact, theory, test and evolution. Zoologica Scripta, 37, 109–113.

Mahner, M. & Bunge, M. (1997). Foundations of Biophilosophy. New York: Springer-Verlag.

Williamson, T. 2000. Knowledge and its limits.

 

Sites recomendados para consultas de termos filosóficos:

Stanford Encyclopedia of Philosophy = http://plato.stanford.edu/entries/lawphil-nature/

Internet Encyclopedia of Philosphy = http://www.iep.utm.edu/

Um blog sobre Paleontologia e ciências afins.