Os Fósseis de Pernambuco

É com muito orgulho que lançamos uma nova série de vídeos em nosso canal, “Os Fósseis de Pernambuco”, uma realização conjunta com o Paleolab-UFPE, coordenado pela Profa. Alcina Barreto.

Pernambuco é um estado muito rico em fósseis, com sítios paleontológicos reconhecidos nacional e internacionalmente por sua importância científica. Porém, essa riqueza ainda é pouco conhecida pelo público geral. Você sabia, por exemplo, que já foi encontrado um dinossauro em solo pernambucano? Ou que é verdade que o sertão já foi mar?

Esta série de vídeos almeja exaltar a paleontologia do estado de Pernambuco e torná-la melhor conhecida pelo público geral. Dessa forma, espera-se despertar nos cidadãos o orgulho por mais esse patrimônio de sua Nação e a vontade de protegê-lo.

A série conta com cinco episódios até o momento, que descrevem os principais depósitos sedimentares com fósseis de Pernambuco. A viagem começa há cerca de 380 milhões de anos, no Período Devoniano. Você está pronto para essa jornada?

Essa série de vídeos foi lançada durante a semana de Ciência e Tecnologia e foi financiada por um projeto do CNPq. Junto com os vídeos, foi lançado também o livro “Aprendendo Ciências com a Paleontologia e os Fósseis de Pernambuco” (61pg.). Quem tiver interesse pode entrar em contato conosco para adquiri-lo ([email protected]).

Continue acompanhando nosso blog e o canal do YouTube para ver o lançamento dos outros vídeos.

Livro lançado durante a Semana de Ciência e Tecnologia 2014

Livro lançado durante a Semana de Ciência e Tecnologia 2014

 

Laboratório de Dinossauros

Ainda no 4th International Paleontological Congress (IV Congresso Internacional de Paleontologia), em Mendoza, Argentina, tivemos a oportunidade de visitar o ‘Laboratorio de Dinosaurios’ da Universidade de Cuyo, liderado pelo eminente paleontólogo, especialista no estudo de saurópodes, Dr. Bernardo J. González Riga.

Dr. Bernardo J. González Riga, juntamente com Dr. Matthew Lamanna (Carnegie Museum) e Dr. Jorge O.Calvo (Universidade Nacional de Comahue), organizaram o simpósio intitulado “Sauropod dinosaurs: phylogeny and biology of giants” (Dinossauros saurópodes: filogenia e biologia de gigantes) durante o IV Congresso Internacional de Paleontologia.

A visita ao laboratório foi parte das atividades do simpósio e nos permitiu conhecer de perto o trabalho de Bernardo e sua equipe.

O Laboratório de Dinossauros da Universidade de Cuyo, em Mendoza, abriga toneladas de fósseis de dinossauros, trabalho para muitas décadas de estudo. Entre estes estão pelo menos 3 novas espécies de saurópodes (dinos de pescoço comprido). Leonardo Ortiz é um dos pesquisadores que estão ajudando a descrevê-los e tem trabalhado com Bernardo há anos.

Bernardo e sua equipe lutam pela preservação do patrimônio fossilífero argentino, que é rigorosamente protegido por leis, e acreditam que conhecer o passado é fundamental para afirmar a identidade de um povo e contribuir para o seu desenvolvimento.

Dinossauro saurópode, linda arte de Bernardo G. Riga

Dinossauro saurópode, linda arte de Bernardo G. Riga

Veja mais sobre o Laboratorio de Dinosaurios da UNCuyo AQUI, AQUI e AQUI.

Leia mais sobre Dr. Bernardo González Riga AQUI. Ele também tem um blog, “Sauropods, giants of the past”, que pode ser acompanhado neste endereço: http://amazing-sauropods.blogspot.com.br/

Recado de Michael Benton aos jovens aspirantes a paleontólogos

O ilustre membro de nossa comunidade paleontológica, Dr. Michael Benton (University of Bristol, UK), autor de centenas de artigos e diversos livros sobre paleontologia, manda um recado aos jovens brasileiros apaixonados por paleontologia.

Tivemos a honra de conversar com ele durante o 4th International Paleontological Congress, em Mendoza, na Argentina, aonde ele elogiou a iniciativa dos Detetives do Passado (www.detetivesdopassado.colecionadoresdeossos.com) e mandou um recado a todos os jovens brasileiros que demonstram interesse em paleontologia e almejam tornarem-se futuros paleontólogos. O caminho é duro, mas vale a pena lutar pelos seus sonhos.

Saiba mais sobre Michael Benton aqui: http://www.bristol.ac.uk/earthsciences/people/mike-j-benton/

Assista o vídeo:

A nova cara do Espinossauro

iconArtigo recém publicado remodela a nossa visão sobre o icônico Espinossauro. Isso mesmo, aquele dinossauro que aparece no filme Jurassic Park III tirando o couro do T. Rex. Ah, os amantes do T. rex vão adorar essa história…

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A nova concepção de Spinosaurus, arte de Davide Bonadonna

Os primeiros fósseis de Spinosaurus aegyptiacus (que, do latim, significa “lagarto com espinhos”) foram encontrados em rochas de idade cretácica, no Egito, no início do século XX, e descritos pelo paleontólogo alemão Ernst Stromer em 1915. Tratavam-se de partes do crânio, vértebras e costelas de um enorme dinossauro carnívoro, cujas mais destacadas característica eram o fato dele apresentar um focinho fino e alongado e prolongadas cristas vertebrais, formando uma espécie de vela nas costas do animal (daí seu nome).

0000000000000000000000000000000000000000000000000000Esse material, todavia, foi destruído durante a II Guerra Mundial, entre tantas outras barbaridades que se sucederam.

Novos fósseis provenientes do mesmo depósito geológico, porém, foram recuperados ao longo do tempo. Não tão completos, mas que permitiram o estudo e conhecimento da espécie, elevando-a como uma das maiores de dinossauros carnívoros de todos os tempos. –> Não é à toa que o bicho foi escolhido como grande “vilão” no terceiro filme da franquia “Jurassic Park” (acima).

O grupo ao qual Spinosaurus pertence, chamado “Spinosauridae”, não contém muito mais que meia dúzia de gêneros (três deles brasileiros: Irritator, Angaturama e Oxalaia), e sua anatomia é bem pouco conhecida, quando comparada com o que já se conhece sobre outros dinos carnívoros. Seus fósseis, em geral, são muito fragmentados e bastante escassos. Portanto, qualquer novo achado é bastante comemorado.

Spinosaurus_MonographA mais nova surpresa é um conjunto de fósseis de Spinosaurus recém descrito por Ibrahim e colaboradores, na revista Science, no último dia 11. Esses fósseis vieram questionar e buscam remodelar a nossa antiga visão sobre Spinosaurus e os espinossaurídeos.

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A forma como víamos os espinossauros já passou por grandes transformações ao longo do tempo. Veja por exemplo os primeiros esboços de Stromer sobre Spinosaurus (acima).

Ou algumas das reconstruções da década de 80 e início da década de 90:

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Novos achados foram, ao longo do tempo, complementando e aprimorando a visão que tínhamos desses animais. Não só quanto à sua anatomia, mas também quanto à sua paleobiologia e comportamento (veja, por exemplo, o artigo de Amiot e colaboradores, de 2010, que trouxe a tona a discussão sobre o modo de vida anfíbio desses animais).

A discussão sobre o hábito de vida semi-aquático em espinossaurídeos surgiu por volta de 2010

A discussão aprofundada sobre o hábito de vida semi-aquático em espinossaurídeos surgiu por volta de 2010

A novidade do novo artigo de Ibrahim e colegas é um conjunto de fósseis que vem completar o quebra-cabeça.

Baseado em materiais recolhidos no Marrocos, os cientistas foram capazes de reconstruir o esqueleto do animal com mais acuidade. A principal surpresa: as proporções do bicho.

Com o quadril pequeno e as patas traseiras excepcionalmente curtas, o animal apresenta proporções semelhantes a de vertebrados especializados em um modo de vida aquático. O que surpreende ainda é que com as novas proporções, o animal apresenta um novo centro de massa, o que o torna um quadrupede obrigatório em terra firme.

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- O novo design lembra muito as reconstruções retrôs de dinossauros e me fez lembrar os dragões de D&D (uma das artes oficiais acima, por Davide Bonadonna).

O que mudou também foi o posicionamento das vértebras, que foi reinterpretado e corrigido. Rearranjadas dessa nova forma, a cauda do animal fica menos robusta, porém mais livre. O que poderia ajudá-lo na propulsão para o nado, por exemplo.

O tamanho do bichão também foi recalculado. Em comprimento ele atingia até 15m, cerca de 2,5m a mais que os maiores exemplares do famoso Tyrannosaurus rex (pelo menos em uma coisa os fãs de Spinosaurus podem se orgulhar…).

Outra novidade ainda foram as adaptações encontradas na estrutura interna do esqueleto do animal. Com a medula mais densa, ele poderia ficar submerso mais facilmente, já que isso aumentaria o seu peso específico dentro da água.

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A nova cara de Spinosaurus não agradou muita gente, mas evidências são evidências, e o artigo de Ibrahim apresentou-as de forma muito convincente (acostume-se, a ciência não está nem aí para as suas preferências).

Alguns estudiosos questionaram o que foi apresentado, todavia, e acreditam que mais estudos devem ser feitos para comprovar o que foi proposto por Ibrahim e colaboradores. Entre as dúvidas, por exemplo, estão se o material encontrado pertence mesmo a um único indivíduo ou se eles formam uma quimera. Isso tornaria as proporções apresentadas incoerentes. A forma como foram recuperados os fósseis (parte comercializada por um negociante de fósseis à um museu e a outra parte encontrada no afloramento em que supostamente esse mesmo material foi recolhido), abre espaço a essa dúvida (veja alguns dos problemas do comércio de fósseis nessa recente postagem em nosso blog).

Outro problema levantado é que, mesmo que os fósseis pertençam realmente à um mesmo indivíduo, o que poderia ser elucidado por um estudo histológico, por exemplo, as proporções calculadas podem estar um pouco equivocadas quando rigorosamente comparadas aos do fósseis de Stromer (veja mais sobre esse problema apontado por Scott Hartman aqui).140911-spino_01422f11d69c0f65aa9dea11bf96ddd6.nbcnews-ux-960-440

Independente se certo ou não, é difícil crer que o animal fosse quadrúpede quando se observa os seus membros anteriores, e é isso que incomoda os tanto os fãs de Spinosaurus, quantos os pesquisadores. Parece pouco natural pensar nesse bicho como um quadrúpede obrigatório (é perdoável sentir-se incomodado com a nova proposta). Mas sabemos que a evolução não trabalha como um “designer inteligente”, e sim como um sucateiro, reaproveitando peças que “já estavam lá”.

De acordo com a nova proposta, Spinosaurus era no mínimo uma criatura desengonçada (até mesmo cômica), mas não o subestime. Talvez ele fosse elegante somente dentro d’ água, mas a evolução não está nem aí para a estética. Ele era bom no seu papel: como letal predador aquático.

Será que todos os seus companheiros eram semelhantes? O gigante Oxalaia seguiria o mesmo padrão?

É possível. Porém, somente novos fósseis e estudos mais aplicados podem comprovar.

Vamos acompanhar os avanços desses estudos! Por enquanto fiquem com a nova versão de Spinosaurus:

Por Niroot Puttapipat

Por Niroot Puttapipat

Uma Descoberta Inesperada

iconUm dos artigos paleontológicos mais importantes do ano no Brasil: uma nova espécie de pterossauro encontrada no Paraná. Não somente inesperada devido ao seu contexto geológico regional, como também surpreendente, com fósseis de quase 50 indivíduos preservados.

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Reconstrução do ‘Caiuajara dobruskii’ por Maurílio Oliveira. 2014.

Já era sabido no meio científico que uma nova espécie de pterossauro havia sido descoberta no sul do país. Entretanto, apenas recentemente o artigo foi publicado na revista PlosONE. Só agora podemos ter uma ideia detalhada dessa descoberta espetacular. Quer saber o porquê que é ela tão importante? Leia à seguir.

O Grupo Caiuá, unidade geológica da chamada “Bacia Bauru”, compreendia um enorme deserto de dunas durante o final do Período Cretáceo. Até recentemente, paleontólogos nunca haviam encontrado nenhum fóssil corporal de um animal que pudesse ser identificado com acuidade nessas rochas, distribuídas principalmente pelo norte do Paraná e o leste do Mato Grosso do Sul. Os cientistas geralmente focavam suas pesquisas nos estratos do conhecido “Grupo Bauru”, localizado um pouco mais ao norte, em São Paulo e Minas Gerais, onde o clima havia sido mais ameno no passado e houve notavelmente uma preferência por parte dos dinossauros e crocodiliformes, com o conhecimento de dezenas de espécies. Mas isso mudou. O pesquisador Paulo C. Manzig e seus colegas nos presentearam não só com fósseis muito bem preservados, encontrados nas rochas do Grupo Caiuá, como também com a descrição de uma nova e surpreendente espécie de pterossauro (!).

journal.pone.0100005.g007Descrito como Caiuajara dobruskii, o pterossauro do Grupo Caiuá pertencia ao grupo dos Tapejarídeos, os bonitões com cristas de vela. Particularmente, eram os meus favoritos quando eu era criança, e, de lá para cá, diversas novas espécies vêm sido descritas. São relativamente raros no Brasil e possuem apenas duas ocorrências confirmadas fora do país (Espanha e China). Até mesmo aqui, todas as espécies estavam restritas à Bacia do Araripe, no Ceará. É espetacular que tenhamos encontrado uma espécie a mais de 5.000 km de distância, no Paraná.

Outra razão para considerarmos importante esse achado é o Tempo. Tapejarídeos são típicos do início do Período Cretáceo. Porém, Caiuajara foi encontrado na Bacia Bauru, em rochas Cretáceo Superior, ou seja, do final do Cretáceo, dezenas de milhões de anos depois! Isso nos faz entender que esses animais perduraram muito mais do que imaginávamos.

journal.pone.0100005.g010Por fim,  mas não menos importante,não podemos deixar de falar que finalmente obtivemos detalhes ontogenéticos! “Onto… quê?” Significa que foi possível possível obter detalhes da aparência dos Caiuajara em diferentes etapas de sua vida – ou seja, em diferentes idades. Foram recuperados 47 indivíduos, juvenis e adultos (envergaduras entre 0,65 a 2,35 m). Segundo os autores, a diferença básica entre eles era o formato da crista, que variava, transformando-se de pequenas em inclinadas para enormes e em meia-lua.

Essas foram as três razões para que se possa considerar essa uma das descobertas do ano no Brasil. Agora, também, os paleontólogos expandiram seus horizontes de pesquisa para o antes esquecido Grupo Caiuá e novas descobertas poderão surgir! Fique de olho!

 

Bibliografia:

Manzig PC, Kellner AWA, Weinschütz LC, Fragoso CE, Vega CS, et al. (2014) Discovery of a Rare Pterosaur Bone Bed in a Cretaceous Desert with Insights on Ontogeny and Behavior of Flying Reptiles. PLoS ONE 9(8): e100005. doi:10.1371/journal.pone.0100005

Os problemas da coleta não controlada e do comércio de fósseis

iconDesde sempre, fanáticos e colecionadores de fósseis existiram. Isso pode ter impulsionado o surgimento da Paleontologia no século XVIII e até mesmo levado ao seu grande florescimento no século XIX, mas a verdade é que essa história toda funciona como uma faca de dois gumes.

Colecionadores particulares de fósseis implicam necessariamente na existência de coletores e vendedores de fósseis para alimentar o seu hobby. Os coletores e vendedores por sua vez o fazem 1) para ganhar a vida, 2) para tirar um trocado, 3) porque tem a oportunidade fácil (os fósseis afloram em seu quintal ou na sua pedreira de calcário), ou 4) por esporte simplesmente.

A parte boa dessa rede toda existir é que com o trabalho dos coletores,  novos fósseis vem a tona com grande grande rapidez, já que a exploração dos depósitos passa a ser contínua. Novas descobertas são feitas o tempo todo e todo mundo fica feliz, certo? Bem, não é bem assim… Existem várias complicações nisso e dentre elas, vou procurar explicar as três principais:

1) O primeiro problema é que coletores amadores de fósseis muitas vezes acabam retirando indevidamente o material dos afloramentos, sem controle tafonômico ou estratigráfico, e com isso informações relevantes ou até mesmo cruciais sobre o contexto daquele organismo extinto (importantes para estudos paleoambientais e paleoecológicos) estarão perdidas PARA SEMPRE.

Convido à reflexão: De que me adianta ter uma coleção de espécies (ou espécimes) se eu não sei aonde encaixá-las no cenário da história da vida na Terra ou no seu contexto paleoambiental e paleoecológico pretérito?

Nesse cenário, o único valor daqueles objetos será puramente estético e colecionista, nada mais. Como figurinhas ou verbetes frios de dicionário.

Por muitas décadas alguns paleontólogos construíram a paleontologia dessa forma. Coletando toneladas de fósseis sem o devido controle, simplesmente para descrever novas espécies. Veja o exemplo do que ocorreu durante a “Guerra dos Ossos” (Bone Wars), nos E.U.A. O resultado pode parecer fantástico, mas na verdade é bastante desastroso. A lição foi duramente aprendida: outros paleontólogos levaram décadas para consertar a bagunça! E olhe que demorou até que essa visão essencialmente descritiva da paleontologia desabasse em prol de uma nova atitude por parte dos paleontólogos. Hoje, um fóssil sem as informações do seu contexto nada mais vale para a ciência.

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Coletores amadores geralmente realizam a retirada de maneira indevida dos fósseis por falta de conhecimento aplicado, descuido ou simplesmente porque eles não estão nem aí mesmo e “o que importa é o dinheiro”. Diferente do que se pode pensar, existem técnicas exaustivamente elaboradas e aperfeiçoadas para a retirada de materiais fósseis, de forma que o máximo de informações sobre o local e a condição de morte do organismo sejam preservadas. Para citar algumas das informações importantes, que geralmente são perdidas por uma coleta indevida:

I) a posição geográfica exata e a orientação do material: esses dados podem ajudar a compreender direções de paleocorrentes (rios pretérios);

II) o tipo de sedimento do entorno e a posição exata do fóssil nas camadas sedimentares: o conhecimento desses dados nos ajuda a interpretar informações detalhadas sobre o paleoambiente em que aqueles restos foram soterrados;

III)  a posição daquele fóssil em relação à outros do mesmo local: isso pode ajudar a entender a relação entre os organismos e a causa de suas mortes;

E assim por diante… Coletar essas informações não é tão fácil quanto parece e exige treino e materiais específicos. Um bom georreferenciamento do sítio fossilífero, um estudo geológico detalhado das camadas e a anotação exata da ocorrência de cada concentração fossilífera e de cada fóssil são fundamentais. Isso não se aprende lendo em nenhum “manual”, por mais que muitos desejassem que fosse assim.

 2) O segundo problema que devo destacar é que a atividade de coletores amadores (com intenção de venda ou não do material) faz com que muitos fósseis relevantes acabem sendo perdidos  (aqui, por diversas razões, como vamos destacar).

 2.a. A primeira e mais ingênua razão é que “fóssil feio não vale nada” e os coletores/vendedores simplesmente descartam esse material. De fato, para os colecionadores não vale nada mesmo um pedaço quebrado de uma vértebra ou um par de ossos longos desgastados, mas esse é um engano muito rude! As vezes um fóssil “feio” e fragmentado pode ser o primeiro registro de um grupo de animais para aquele contexto ou pertencer a algum tipo de animal que raramente se preserva. Em casos excepcionais pode ser crucial para o entendimento da distribuição ou o surgimento de alguns grupos fósseis. Quantas vezes você não se surpreendeu com um artigo genial baseado em cacos de fósseis e pensou “mas que fóssil horrível! Por que ele é tão importante assim?”. Porque não é só de fóssil bonito que se faz Paleontologia!

 thumbsandammo-122. b. Em um segundo caso, a perda de fósseis relevantes ocorre porque um dado colecionador compra um fóssil e.x.t.r.a.o.r.d.i.n.á.r.i.o, que poderia mudar o rumo da paleontologia, mas o coloca na mesinha de centro de sua sala e nunca nenhum pesquisador ou grupo de pesquisa terá acesso aquilo (joinha pra você, cara!).

A história da Paleontologia está recheada de exemplos assim. Fósseis incríveis que aparecem a venda em sites por aí, enlouquecem os pobres (nos dois sentidos, para deixar claro) paleontólogos, e, de repente somem para sempre. Tenho até dor em lembrar. O caso mais recente foi o dos chamados “Dueling Dinosaurs” (pesquise no Google por esse termo se tiver interesse no assunto).

Isso ocorre porque o colecionador muitas vezes nem sabe que aquilo é tão valioso cientificamente, já que pensa só na beleza estética da peça, ou porque não tem noção de como andam os estudos naquele campo científico. Outras vezes ainda, é porque o cara é mau mesmo e acha que pesquisadores são “sangue-sugas”, já que *ele* pagou pela peça e não vai ganhar nada deixando pesquisadores sujos estudarem-na.

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Os argumentos desse “cara mau” são todos inválidos, porque ele talvez não saiba que os pesquisadores não tem lucro financeiro algum com suas publicações. Simplesmente o fazem porquê: SCIENCE, BITCH! Se a questão fosse pela glória então (“eu que paguei e os caras que ficam com a glória?”), não tem problema também. Os pesquisadores poderiam até homenagear o benfeitor pelo seu ato de apoio à ciência dando o nome do cara para a nova espécie (se fosse o caso), ou destacando seu “imenso ato de benevolência pela 6e30d7a7441a6c32a0cbd461fe3bb6fa90594d8f6aad669d74fa0428fec34fceciência” nas mídias. Em alguns casos o benfeitor pode até participar na pesquisa, se quiser contribuir intelectualmente. Por fim, se a questão é materialista mesmo, do tipo “não quero perder meu fóssil, porque ele é meu preciosssso!!!” (isso no caso da necessidade da peça ir para um museu público, por exemplo), sugiro a esse indivíduo ler ou assistir a saga de Tolkien, “Senhor dos Anéis”, e aprender um par de lições com o Gollum. Se não aprender nada, aperte o botão “auto-destruir” e faça um favor à humanidade.

Resumindo, em qualquer um desses casos expostos acima, seja o 2.a ou 2.b, há perda irrecuperável de parte da memória biológica e geológica da Terra. Da SUA, da NOSSA história.

Ainda não enxergou a importância disso? Compare com: botar fogo na biblioteca real de Alexandria. Quantos anos de atraso a humanidade teve por causa disso? Compare com usar para sempre a pedra roseta como um apoio para copos de piscina em uma mansão em Dubai.

3) Muitas vezes fósseis são ADULTERADOS por coletores ou vendedores de fósseis para valorizá-los.

Isso é muito sério. E o pior: muito frequente. Não é raro um coletor amador encontrar um fóssil quase perfeito e faltar alguma partezinha apenas para ele conseguir um preço melhor na peça. O que ele faz? Um arrumadinho ou um quebra cabeça de fósseis.

Colar a cabeça de um peixe no corpo de outro, parte do focinho de um crocodilo em uma cabeça de dinossauro, misturar dois pterossauros… e por aí vai. Não preciso dizer que isso estraga o registro, certo?

Gênio!

Gênio!

A parte engraçada dessa história é que as vezes pesquisadores mal intencionados e/ou preguiçosos ou intituições de pesquisa que ficam muito longe de depósitos fossilíferos compram fósseis para facilitar a sua vida e acabam sendo desmascarados ridiculamente no seu ato de trapaça, descrevendo uma espécie que não existe: uma quimera. Depois só resta a vergonha de ter que se retratar e consertar o ocorrido publicamente (Irritator feelings). – Leia AQUI também sobre o caso do Archaeoraptor.

PORÉM,  infelizmente,  as vezes esses fósseis podem – depois de passarem de mão em mão por gerações – cair em institutos de pesquisa por meio de doações particulares. Aí até que os pesquisadores descubram que tem um fóssil-problema na mão, terão muito trabalho, que poderia estar sendo focado em outras pesquisas mais produtivas.

Não quero mais viver nesse planeta!

Não quero mais viver nesse planeta!

No que classifico também como ADULTERAÇÃO, há também uma outra ocorrência muito mais ou tão perversa quanto: vender o fóssil de um depósito fossilífero dizendo que ele é de outro. Isso pode ocorrer por uma mera confusão do coletor, ou por intenções pervertidas de valorizar a peça. As implicações disso também são desastrosas e corrigir esses erros pode levar ANOS de pesquisa e atrasar muito o avanço da ciência.

Todos esses problemas que citei são graves. Mas não foi baseado apenas nisso que vários países do mundo (como o Brasil, a Argentina, a Mongólia, a Itália, a Escócia, a China, etc.) resolveram elaborar leis para proteger os seus fósseis. Há uma questão muito mais profunda que está presente em toda nossa discussão: toda a informação contida em um fóssil não é propriedade particular… é propriedade DA HUMANIDADE. Faz parte da nossa história. Sob essa perspectiva comercializar fósseis seria como vender o Coliseu ou as pinturas rupestres da Serra da Capivara. Vender o Cristo Redentor ou a Grande Barreira de Corais. Vender a memória de Luís Gonzaga ou nossos índios da Amazônia. É claro, sempre vai ter alguém querendo comprar… quem perde é quem vende. Parecia um bom negócio comercializar índios e o nosso Pau-Brasil no passado. Parecia um bom negócio derrubar a Mata Atlântica e a Floresta Amazônica para ganhar dinheiro.

Quando tudo se for, você não vai poder comer dinheiro...

Quando tudo se for, você não vai poder comer dinheiro…

Pessoas que enxergam as coisas a curto prazo ou só pensam na própria subsistência e benefício, não conseguem enxergar com essa profundidade. O pensamento mesquinho é comum tanto em países desenvolvidos extremamente capitalistas como em países subdesenvolvidos, que tem uma longa história de colonização. Aí já estão envolvidas questões históricas, políticas e filosóficas e não é o nosso escopo discutir isso aqui… Mas saiba você, que pensa assim, que são pessoas como você que estragam o mundo, pensando apenas em benefícios próprios, suas gracinhas!

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Gracinhas!

 A questão é, países que escolheram proteger os seus fósseis, muitas vezes não o fizeram para proteger os objetos em si, mas sim o conhecimento intelectual que está neles contido, que é SIM uma riqueza daquela nação. Ela não dá LUCRO FINANCEIRO, mas dá LUCRO INTELECTUAL: avanço científico e acúmulo de conhecimento (e.g. Um país avançado cientificamente ganha respeito, um país que vive de futebol e carnaval não).

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Cada fóssil é único e insubstituível, porque não investir na venda de RÉPLICAS de fósseis?

Em vários países o comércio de fósseis é liberado. As razões são diversas: 1) os legisladores e governantes não tem conhecimento da importância desse material para o desenvolvimento a longo prazo da nação (veja a Bolívia); 2) Eles não estão nem aí para isso porque tem problemas muito maiores (veja o Líbano ou vários países africanos); 3) A política deles é vender até a mãe, se der lucro (veja os Estados Unidos) e 4) Eles conseguiram conciliar as coisas (veja os Estados Unidos também e a Inglaterra).

Aqueles que conseguiram conciliar as coisas o fizeram de forma apropriada de acordo com a história e a cultura de cada nação (atenção para isso!). Agora a pergunta de um milhão de dólares: Dá 100% certo?

- Não.

Mesmo com regulações impedindo a venda de determinados fósseis ou controlando a coleta feita por amadores à localidades específicas, não dá 100% certo. Muito material é perdido e não são só os cientistas que perdem com isso, mas toda Nação. Um adendo é que muitos desses países também têm sanções regulatórias, não pense que tudo é liberado! Legisladores e governates entendem a importância dos fósseis e sabem que o conhecimento embutido neles não pode ser visto como propriedade particular e fazem leis sim para protegê-los de alguma forma.

Uma verdade que vale a pena ser dita: Os colecionadores não querem aquilo que é simples conseguir, aquilo que está liberado, que é fácil comprar. Eles querem raridades, fósseis difíceis de conseguir, os melhores. Liberar a venda de Dastilbe na Chapada do Araripe ou de Mesosaurus no Sul e Sudeste e proibir a venda de materiais mais raros, mais bem preservados ou cientificamente relevantes, não vai resolver o problema. Sejamos francos: todos sabemos como funciona a mente capitalista, não vamos nos iludir.

Eu só quero umas coisinhas simples!

Eu só quero umas coisinhas simples!

Manter a venda e retirada ilegal de fósseis como um crime ainda parece a melhor solução até que um profundo trabalho de conscientização junto à população seja feito.

Gol da Alemanha!

Gol da Alemanha!

No caso do Brasil, em que a Paleontologia ainda é uma jovem em fase de crescimento, temos que cuidar de nosso patrimônio com carinho, para que isso também não seja apropriado por outros países, como tantas de nossas riquezas já foram (como se não bastasse o estupro social e político, ainda abaixamos as calças para o científico? 7×1 da Alemanha é o de menos, você nem imagina o chocolate que estamos levando no campo da ciência!).

7x1 é fichinha, vai lá ver o placar dos Nobéis!

7×1 é fichinha, vai lá ver o placar dos Nobéis!

A legislação sobre os fósseis aqui no Brasil tem muito o que ser discutida e se se pretende liberar a venda de fósseis em algum momento, planos de prazos e metas devem ser feitos. Nesse meio, um forte trabalho de educação e ações positivas junto a população devem ser planejados. Não basta ensinar o que pode e o que não pode, há de se ensinar a importância do conhecimento, da moral e das virtudes, uma pitada de senso de conjunto e até mesmo patriotismo (não o patriotismo barato, atenção!). É um longo processo, que deve ser discutido não só em gabinetes políticos ou nos meios científicos, mas também junto à população. Técnicos de preparação e coletores profissionais de fósseis podem virar uma profissão independente, mas há de haver planejamento. Liberar o comércio de fósseis pode ter vantagens, mas antes temos que eliminar os problemas, baseando-se nos acertos e erros que são observados em outros países.

Esse é um assunto controverso e muito difícil de discutir em uma sociedade repleta de indivíduos imediatistas. Há de se ponderar cada ponto e pensar em um bem conjunto. A longo prazo vale a pena preservar nosso Patrimônio. Você pode não viver para ver os resultados disso, mas o seu filho vai te agradecer e ter orgulho das escolhas que você fez no passado. E no fim: todo mundo vai lucrar com isso.

Conheça a legislação sobre fósseis do Brasil: AQUI

“… os depósitos fossilíferos são propriedade da Nação, e, como tais, a extração de espécimes fósseis depende de autorização prévia e fiscalização do Departamento Nacional da Produção Mineral, do Ministério da Agricultura. Assim, pois, todo o particular que, sem licença expressa do Departamento Nacional da Produção Mineral, do Ministério da Agricultura, estiver explorando depósitos de fósseis, estará sujeito à prisão, como espoliador do patrimônio científico nacional.”

P.S. Se você for perder seu tempo escrevendo aí nos comentários “vou vender mesmo! Se não posso vender vou destruir” e coisas do gênero;  aproveite e destrua logo o Maracanã, o Cristo Redentor, bote fogo no MASP, roube um Portinari (mesmo que você não saiba o que é) para ter só na sua casa, vende logo a mãe e a família, que também dá dinheiro. E se liga: órgãos valem uma fortuna no mercado negro, dá pra vender o rim, só é uma pena que você não tenha um cérebro. Ou seja, antes de escrever besteira, reflita sobre a seguinte frase: “A forma como fazemos o capitalismo hoje não vê certo nem errado”; e a seguinte situação:

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SVMA da Prefeitura de São Paulo compartilhando desinformação

 

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Poxa, estagiário, usa o Google!!!

Nem queira ir num curso desses! #Ficadica

Saiba qual a diferença entre Arqueologia e Paleontologia e seja mais esperto que a prefeitura de São Paulo: http://scienceblogs.com.br/colecionadores/2013/04/paleo-x-arqueo/

 

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Prêmio “Ciencia en Acción 2014″

O projeto “Detetives do Passado”, organizado pelos Colecionadores de Ossos foi condecorado com menção honrosa no prêmio para trabalhos de divulgação científica organizado pela Sociedade para o Avanço do Pensamento Crítico (ARP-SAPC), Espanha. O evento acontece todo ano e é de cunho internacional.

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portada triptico“Ciencia en Acción XV”, “Trabajos de Divulgación Científica. Método Científico y Pensamiento Crítico” (Premio ARP-SAPC, Sociedad para el Avance del Pensamiento Crítico)

Por ser una actividad realmente interesante y motivadora para los alumnos. Con mucha interacción entre participantes, acceso a la información, labor científica y buena presentación, se concede Mención de Honor de Trabajos de Divulgación Científica. Método Científico y Pensamiento Crítico al trabajo: “DETECTIVES DEL PASADO”, de Aline Marcele Ghilardi (UFRJ), Tito Aureliano (UFPE), Juliana Freitas da Rosa (USP-SP) y Rudah Ruano C. Duque (UFPE) (Brasil).

Veja a ata dos vencedores de 2014 do prêmio “Ciencia en Acción”:

http://www.cienciaenaccion.org/es/2014/noticia/67_resolucion-juradomodalidades-materiales-didacticos-de-c.html

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Parabéns acima de tudo e todos, aos jovens que participam do projeto com tanto carinho e dedicação: Aryel Goes, Gabriel Braga, Pedro Lucas, Victor Silva e o mais novo integrante, Vinícius Sousa. Vocês estão fazendo a diferença e já deixaram uma grande marca de suas ações! PARABÉNS!

Conheçam o projeto “Detetives do Passado”:

http://detetivesdopassado.colecionadoresdeossos.com/

“O blog “Detetives do Passado” reúne a equipe de jovens colaboradores do grupo ‘Colecionadores de Ossos’ (www.colecionadoresdeossos.com) e faz parte do projeto “Sala de Estudos”.

A finalidade do projeto “Sala de Estudos” é estimular jovens apaixonados por ciência de maneira geral e Paleontologia, que entre outros sonhos, almejam tornar-se futuros cientistas e paleontólogos. O blog reúne uma coletânea de textos e resenhas desses jovens sobre assuntos de seu interesse em Paleontologia, além de seus sentimentos quanto a essa área de estudo e suas experiências ao longo de sua formação.

Os textos são acompanhados pela equipe de paleontólogos que integra o grupo ‘Colecionadores de Ossos’, a fim de manter a confiabilidade científica do que é publicado. Porém é dado aos jovens a independência de auto-crítica e auto-reflexão sobre o que escrevem.

Periodicamente serão sugeridos temas de discussão visando o amadurecimento científico e a capacidade de investigação desses jovens.”

Lançamento da 2ª Edição do jogo ‘Mesozoic Tales’ (versão brasileira)

O jogo de tabuleiro dos Colecionadores de Ossos acaba de ganhar sua 2ª Edição na versão brasileira!

Com o sucesso das versões anteriores, Mesozoic Tales v2.0 traz novidades no design do tabuleiro, nas Cartas das Missões e na jogabilidade, evoluindo de acordo com as sugestões dos seus jogadores e fãs.

Compre já direto do fabricante (clique aqui)

Confira o teaser do jogo abaixo:

 

O novo manual de regras está estruturado no formato de revista. O design foi revisado e agora apresenta a belíssima paleoarte do jogo, realizada por Aline Ghilardi, paleontóloga e autora desse Blog. Confira o novo manual abaixo:

A Síndrome de “Jurassic Park”

Temos pouco mais de um ano antes de contemplarmos Jurassic World nos cinemas, o quarto filme da saga Jurassic Park, filme que fez parte da infância de todos que cresceram nos fins dos anos 80 e anos 90. O que mais nos chamava atenção eram os dinossauros sofisticados ágeis e inteligentes que contrastavam com todos os outros filmes e livros acessíveis até 1993. E agora, será que JW trará a mesma sensação?

A resposta provavelmente é não. Veja o porquê adiante.

Portão do Jurassic Park, na Isla Nublar (1º filme).

Sou fã incondicional de Jurassic Park, cujos filmes na infância foram determinantes no boost de interesse pela área, o que resultou em minha escolha profissional pela Paleontologia. Portanto, não tenho nada contra a saga. Pelo contrário, adoro.

A questão é que JP foi uma faca de dois gumes para nós. Primeiramente, foi excelente para divulgarmos nossa ciência com as teorias mais recentes até 1990. Porém, ao tornar-se um clássico instantâneo, estagnou e bloqueou a entrada de avanços científicos na mídia popular. Ainda hoje apresentam dinossauros com aparência obsoleta reptiliana no estilo 90’s. E isso não  ficou só para JP: espalhou-se para toda forma de mídia: jogos eletrônicos, filmes, livros, seriados etc.

E qual é o impacto disso? Até hoje tenho debates com colegas de outras áreas de pesquisa para convencê-los de que as Aves são dinossauros! Inclusive, entre paleontólogos já utilizam-se os termos “dinossauros não-avianos” e “dinossauros avianos” para referirem-se entre os dois grandes grupos.

Para que JW tivesse o mesmo impacto impressionante em 2015 que JP1 teve em 1993, não bastam

T. rex atacando saurópode no filme mudo “Mundo Perdido”, 1925.

apenas efeitos especiais epilépticos, roteiro massa e atores talentosos, e sim dinossauros no estilo do século XXI, com penugens, postura, forma e comportamento aprimorados.

Colin Trevorrow foi o jovem escolhido para dirigir a nova trilogia. Adorei a escolha: um diretor de filme independente, criativo e fã da série original. Infelizmente, por pressão e saudosismo do público geral e, inclusive, dos fãs doentes saudosistas da franquia ele deverá apresentar dinossauros com o look 1993 novamente.

T. rex no filme “King Kong”, 1933.

Dentre os inúmeros erros que continuarão sendo apresentados na série, separei alguns que merecem destaque:

1) Penas e penugem. O público geral costuma dizer que se dinos apresentassem penas nos filmes não dariam medo a ninguém. Nunca estiveram tão errados em sua nostalgia. Há 10 anos apresentou-se uma descoberta de fóssil de Velociraptor mongoliensis apresentando estrias de inserção de penas em sua ulna. Desde então, houve um bum de descobertas de diversos Dromaeosaurídeos (raptores). A atual discussão da filogenia desse grupo de dinossauros é uma das mais quentes na área! E então como deveriam ser os dinossauros corretamente interpretados nos dias de hoje? Eles pareciam galinhas, então, porque têm penas? Não. Eu teria mais medo, ainda, de um dinossauro emplumado. Os Raptores deveriam ser algo assim:

Interpretação artística de um Raptor genérico. Autoria indicada na imagem. Não parece assustador para você?

Tiranossauróides também têm sido encontrados com penas. Foi o caso do Yutyrannus, uma forma basal do grupo encontrado na China, já apresentando longas penugens semelhantes às do avestruz. A visão atual de como um T. rex deveria ser é como abaixo:

T. rex emplumado em ataque. Visão mais cientificamente acurada até o presente. Não é assustador? Artista indicado na imagem.

2) Anatomia. O público nostálgico não consegue se desvincular do formato dos dinos dos anos 90. As “mãos” de terópodes como o T. rex e o Velociraptor dos filmes apresentam-se de uma maneira errônea. O punho dos raptores dobrava-se lateralmente, como o das aves. Os punhos dos terópodes como o Tiranossauro eram voltados para o peito, como se estivessem segurando uma bola de basquete. A postura de mãozinha de faraó egípcio que ainda é apresentada hoje em filmes e jogos já é uma visão ultrapassadíssima.

3) “Se ficar parado, ele não te enxerga”. hahaha, vai nessa. Essa ideia errada é talvez a que mais liga JP aos anos 80′ e 90’s. Terópodes como o T. rex eram quase como águias gigantes: infalíveis na detecção de sua presa. E ainda havia o extra do olfato de abutre. Junta isso e faz um combo em um animal como o T. rex. Eles não era estúpidos. Sabiam o que estavam fazendo e eram bons nisso. Seja na caça, ou no oportunismo.

A falta de humildade dos homens perante os dinossauros nos iludiu por muitas décadas como se a causa do outro grupo ter ido à extinção fosse a sua estupidez, falta de capacidade para caçar, fugir e outras baboseiras. Só porque um grupo como os dinossauros não-avianos extinguiu-se não significa que eram inferiores a nós, ou menos competentes evolutivamente. Afinal, dinos não-avianos viveram por mais de 165 milhões de anos na Terra, e nós, meros 160 mil (mais de 1.000 vezes menos tempo) e já estamos comprometendo nossa existência futura.

Terópode retrô em “Vale de Gwangi”, 1960’s.

Para concluir, os dinossauros no cinema, desde os anos 1920’s, evoluíram de acordo com as descobertas científicas. Porém, o efeito paradoxal que Jurassic Park gerou fez com que a imagem desses animais se fixasse no tempo, 20 anos atrasada. Isso dificulta o trabalho que nós, paleontólogos, viemos fazendo para apresentar as novas descobertas ao público.

Portanto, vocês, quando assistirem ao quarto filme da série, estejam sabidos de que estão vendo uma versão 1993 colorida dos nossos queridos colegas mesozoicos e que, na vida real, eles eram bem distintos. Seria como ter assistido ao primeiro filme, em 1993, só que ao invés de ter aparecido aquele Tiranossauro massa, tivéssemos sido surpreendidos pelo GWANGI!

Bã bã bã bã! Dinos retrôs atacam!

Bã bã bã bã! Dinos retrôs atacam!

A falta de surpresa no look dos dinos não deveria tirar o ânimo e a motivação para assistir ao filme em 2015, pois a história parece muito interessante, um recomeço.

Quem quiser ficar por dentro de todas as novidades do filme em produção, participe da comunidade brasileira de JP clicando aqui.

 

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By Tito Aureliano, 2010. Afloramentos Cretácicos (Fm. Alcântara), Ilha do Cajual, Maranhão, Brasil. Reservo direitos de uso sobre essa fotografia. Sua cópia não está autorizada.

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