O mundo depois do Apocalipse

Como o planeta Terra recuperou-se após o famoso K-T (o evento de extinção dos dinossauros)? No Brasil, um importante depósito fossilífero nos dá uma idéia de como o mundo se parecia pouco depois dessa catástrofe. Conheça a Bacia de São José de Itaboraí!  O único depósito brasileiro que registrou a primeira irradiação dos mamíferos continentais após a extinção dos dinossauros. Er! E é claro… qual é a lição disso tudo para a história do “fim do mundo em 2012″…

A Bacia de Itaboraí no início do século XXI

Sem sombra de dúvida os dinossauros sempre foram a grande vedete da paleontologia. A fama deles chega por vezes a ofuscar outros personagens do nosso passado geológico. Todavia, não há momento mais importante para nós mamíferos, do que o período logo após a extinção desses gigantes. São as criaturas dessa era pós-apocaliptica que começaram a revolucionar o mundo para que ele fosse o que é hoje. Os sobreviventes da catástrofe e os emergentes pós-catástrofe é que ditaram as regras do período Cenozóico. Toda a história a partir daí, culminaria no cenário evolutivo e na distribuição atual dos organismos.

O Paleoceno trata-se da primeira época da Era Cenozóica. Ele sucede o Cretáceo, o último período da Era Mesozóica.

O Paleoceno está compreendido entre 65 e 55 milhões de anos atrás – aproximadamente – e é seguido pelo Eoceno, Oligoceno, Mioceno, Plioceno, Pleistoceno e Holoceno (Recente), respectivamente (Veja imagem abaixo).

Escala do tempo geológico enfatizando a Era Cenozóica

Com relação ao clima e a geografia, durante o Paleoceno o mundo era muito semelhante àquele cretácico. O clima era relativamente mais quente que o atual – tendo atingido um pico térmico no final do período (Veja “Terra Febril”) – e os continentes continuavam a sua lenta marcha para a posição atual. Biologicamente, no entanto, o planeta estava radicalmente mudado. As criaturas nos mares não eram mais as mesmas, as plantas terrestres também não (progressão da ascensão das Aniospermas) e os tetrápodes que dominavam os continentes – os arcossauros – encontravam-se baqueados com a baixa dinossauriana… Tinha início a revolução mammaliana!

Os espaços deixados vagos pelos grandes dinossauros foram logo ocupados por mamíferos (nós!) e as aves (os descendentes dos ‘lagartos terríveis’).

As origens evolutivas das famílias mammalianas que herdaram a Terra ainda permanecem uma questão controversa. Trata-se de um enigma difícil de resolver. O início da história evolutiva dos mamíferos modernos foi sem dúvida mais complexo do que se imagina. A radiação parece ter raiz no Cretáceo, mas o Paleoceno demonstra-se um momento crucial.

Os depósitos paleocênicos são raros e os mais conhecidos concentram-se na América do Norte (i.e. Crazy Montain, USA). Aí está a importância da Bacia de São José de Itaboraí. Hoje conhecida mundialmente, já recebeu a visita de pesquisadores do mundo todo para que estudassem o seu excepcionail registro fóssil. Até chegou a ganhar um andar próprio na escala de tempo geológico internacional!

A Bacia de Itaboraí nos dá uma idéia de como teria sido o interior do Rio Janeiro logo depois da extinção K-T, o golpe duro contra os arcossauros dinossaurianos.

Se você nunca ouviu falar sobre este patrimônio geo-paleontológico brasileiro, aqui vai uma oportunidade de conhecê-lo.

Convidamos a Dra. Lilian P. Bergqvist e sua aluna Stella Barbara S. Prestes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, para nos contar parte da história desse importante depósito sedimentar, que tem revelado fragmentos importantes do início da história da fauna neotropical moderna.

Dra. Lilian P. Bergqvist atualmente é professora do Departamento de Geologia da UFRJ, ela estuda os mamíferos fósseis da Bacia de Itaboraí desde o início de sua carreira acadêmica e melhor do que ninguém pode nos introduzir à história e a importância deste lugar.

Stella Barbara S. Prestes é graduanda em Ciências Biológicas pela UFRJ e participa ativamente dos trabalhos realizados na região, além de atualmente desenvolver um projeto educacional e de divulgação em relação ao Parque Paleontológico de São José de Itaboraí.

 

A BACIA DE SÃO JOSÉ DE ITABORAÍ

 Por Stella Barbara S. Prestes e Lilian P. Bergqvist

 

A Bacia de São José de Itaboraí está localizada no estado do Rio de Janeiro. Trata-se de uma das menores bacias sedimentares brasileiras (cerca de 1.000 metros de comprimento por 500 m de largura), contendo o mais antigo registro continental Cenozóico do Brasil.

Localização da Bacia de Itaboraí

Possui registros de rochas que variam de cerca de 70-65 milhões de anos até depósitos recentes relacionados ao homem pré-histórico (8.100 anos). Esta bacia sedimentar é preenchida principalmente por deposição química de calcários em uma depressão associada aos fenômenos tectônicos que originaram a Serra do Mar. Também são encontrados depósitos detríticos. Alguns autores associam a origem do calcário à dissolução dos mármores do embasamento cristalino por ação de fenômenos de vulcanismo. O fato é que, em suas bordas, são encontradas lavas vulcânicas (rocha denominada ankaramito), cuja idade foi datada como de 52 milhões de anos. Esta lava “fritou” os sedimentos da base da bacia, carbonizando pedaços de vegetais, evidenciados pela presença de galhos e troncos fósseis.

 Desde 1928 a Bacia de Itaboraí vinha sendo explorada como mina de calcário pela Companhia Mauá de Cimento, o terreno foi doado ao município em 1984, quando a empresa encerrou suas atividades na região. O cimento produzido neste local foi utilizado para a construção do estádio Maracanã e da ponte Rio-Niterói. Ao encerrar atividades, a empresa deixou uma cava de 70 metros de profundidade que foi preenchida por água subterrânea e das chuvas, criando um lago artificial que atualmente abastece os moradores do bairro São José.

Bacia de Itaboraí em 1957
Cimento Mauá, produzido por meio do calcário da região de Itaboraí
Bacia de Itaboraí em 2010 - Fonte: Prefeitura de Itaboraí

Dentro das fendas que cortavam os calcários foram encontrados fósseis da época Paleoceno do período Paleogeno de Itaboraí, relacionados aos existentes na Patagônia e sem outros representantes nas Américas. Eles são responsáveis pela definição, reconhecida na coluna internacional de tempo geológico, como andar Itaboraiense.

Esta Bacia é ricamente fossilífera, tendo sido coletados milhares de fósseis de animais (gastrópodes, mamíferos, aves, répteis e anfíbios) e vegetais. Os gastrópodes e os mamíferos são os fósseis mais abundantes. Os primeiros são comuns no calcário argiloso cinzento que formava o assoalho da bacia, enquanto os mamíferos são predominantes nos sedimentos que preenchiam as fendas que cortavam verticalmente os calcários. Restos de preguiça gigante, mastodonte e tartaruga foram encontrados em pequeno depósito de cascalho ao sul da bacia.

Reconstituição artística de como a região da Bacia de Itaboraí seria durante o Paleoceno - por Wagner Bromerschenkel, 2005
Reconstituição de Protodidelphis, uma das espécies de mamíferos fósseis encontrados na Bacia de Itaboraí - Por Maurílio de Oliveira
Reconstituição esqueletal de Carodnia vierai, um dos mais ilustres mamíferos fósseis paleocênicos da Bacia de São José de Itaboraí, foto por Paul Jürgens. Este animal teria 2,20m de comprimento e chegaria a 400kg.

No ano de 1990, a prefeitura municipal de Itaboraí declarou a área antes explorada pela companhia de cimento como utilidade pública, e em 1995, finalmente foi criado o Parque Paleontológico de Itaboraí.

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Bom…  quanto ao Parque Paleontológico de Itaboraí, aí já é outra história da qual também se tem muito para contar! Profa. Lilian e Stella já estão convidadas a voltar.

O que nos resta a dizer, é exaltar mais uma vez a importância dessa área sedimentar. Além do registro paleocênico, Itaboraí também guarda a inestimável evidência da presença de fauna pleistocênica e a ocorrência de artefatos arqueológicos. Estes dois últimos, bem mais recentes…

Agora, voltando ao ‘mundo pós-apocalipto, o que Itaboraí nos mostra é que, mesmo pouco depois da extinção K-T, o mundo transbordava de vida e os mamíferos se diversificavam em um planeta quente e úmido. O Paleoceno foi um período importante de recolonização e reconquista de espaço para os Synapsida. Mesmo que a fauna paleocênica tenha sido quase toda extinta até o meio do Eoceno, como acredita-se, este período de tempo foi estratégico e funcionou como o gatilho para a franca expansão mammaliana e a sua soberania no que diz respeito a ocupação de nichos aquáticos (como topo de cadeia) e terrestres atuais. A recuperação foi relativamente rápida!

A nossa lição para 2012: o mundo sempre florecerá depois das catástrofes. Geralmente o que acontece é uma “troca de personagens principais”.

Com relação ao “fim do mundo”, portanto, independente de profecia maia ou qualquer outra coisa, se ocorresse alguma catástrofe global que levasse a extinção humana, rapidamente algum outro grupo de animais tomaria a frente, assim como os mamíferos fizeram logo após a queda dos dinossauros….! Portanto, ‘fica a dica’ do Ian Malcom: “Life always finds a way”.

Referências

Bergqvist, l.P.; Moreira, a.L. & Pinto, d.R. 2006. Bacia de São José de Itaboraí-75 anos de história e ciência. Rio de Janeiro, CPRM- MMe, p. 81.

Veja mais informações e detalhes sobre a Bacia de Itaboraí no SIGEP – clique AQUI – Bacia de São José do Itaboraí, berço dos mamíferos no Brasil

 

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