Caverna de Chauvet, na França

Ilustrando Ciência: a história da Ilustração Científica

Artigo de Pedro H. Morais

Não é de hoje que os desenhos e ilustrações estão no cotidiano do Homo sapiens. Desde o início da história biológica dessa espécie, a ilustração tem sido usada para contar uma história, retratar um fato, expressar uma ideia, mostrar algo que, de outra forma, não seria tão simples de se transmitir. A necessidade (ou admiração) fez com que nossos ancestrais utilizassem da ilustração para demonstrar o que viam no seu cotidiano, usando como tela as paredes de cavernas e como tinta o que dispunham na natureza. Nesse momento, a tentativa de se retratar com detalhes a fauna local, ou fatos do cotidiano, ou até mesmo contar uma história, fez (por assim dizer) nascer a ilustração, que no futuro teria diversas vertentes, sendo uma delas a ilustração científica. As primeiras ilustrações datam de 30.000 anos a.C. (Paleolítico Superior), e ficam nas Cavernas de Chauvet, na França. Essas, chamadas de pinturas rupestres, foram estrelas de um documentário (A Caverna dos Sonhos Esquecidos de 2010 – disponível no Netflix!). Não só restrito a França, mas pelo mundo se encontram outras dessas ilustrações, como na Gruta de Rodésia, na região central da África, na caverna de El Castillo, no norte da Espanha, no Brasil, como as encontradas na Serra da Capivara em no parque nacional que leva o mesmo nome, no Piauí (entre outros pelo mundo a fora).

Caverna de Chauvet, na França
Caverna de Chauvet, na França
Pinturas rupestres na Serra da Capivara, Piauí, Brasil
Pinturas rupestres na Serra da Capivara, Piauí, Brasil

Apesar desse contexto histórico, podemos chamar a ilustração rupestre de “ilustração científica”? Bom, segundo Araujo, 2009, “A Ilustração Científica é um trabalho que consiste na representação fiel de um material biológico determinado, respeitando-se todas as medidas, proporções e contraste de cores, mesmo que em preto e branco.” De certa forma, se considerarmos que as pinturas rupestres visam demonstrar, com certa fidelidade (para a época) a fauna e seu comportamento, consideramos estas como “as primeiras ilustrações científicas”. A necessidade de se conhecer a fauna e a flora era uma questão de sobrevivência e, transmitir esse conhecimento, era crucial para a sobrevivência da população. Passando da história muito antiga, para uma época um pouco mais nova, chegamos as ilustrações medievais, que tinha um cunho de admiração e religioso (talvez filosófico) pela natureza, tratando-a em muitas culturas como divindades. As primeiras ilustrações com cunho realmente científico filosófico viriam a surgir a partir de pensadores que ilustravam animais baseados em descrições feita por filósofos e não no contato com os exemplares, não sendo tão realista, uma vez que tem um toque da imaginação do autor. Por volta do século 2 ou 3 o manuscrito Physiologus que, juntamente com outros manuscritos, em principal Etymologiae, deram origem aos primeiros Bestiários, livros que carregavam não somente textos religiosos, mas também ilustrações e descrições das faunas, carregadas de conceitos fantasiosos e moral religiosas (por exemplo: o mau agouro das corujas, relacionadas a bruxaria e magia negra).

Página do Physiologus, baseado em descrições anteriores ao ilustrador.
Página do Physiologus, baseado em descrições anteriores ao ilustrador.

Passando dessa época, chegamos ao Renascimento (século XV), onde a natureza é retratada com fidelidade pelos cientistas da época, uma vez que a Razão se torna alvo destes, e a arte toma seu lugar na sociedade. Nessa época temos o famoso Leonardo da Vinci e suas obras de cunho anatômico (muitas delas disponíveis na internet). Avançando mais um pouco na história (século XVII) chegamos a invenção do microscópio composto, por Robert Hooke, que revolucionou a ciência, podendo descrever e estudar materiais inacessíveis aos olhos nus. Este teve sua contribuição as ilustrações científicas. Avançando mais na História chegamos aos avanços biológicos proporcionados por Charles Darwin e a teoria da Seleção Natural. Com suas viagens rendendo alguns manuscritos e, claro, ilustrações científicas, algumas delas bem conhecidas aos leitores de “A Origem das Espécies”.

Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci descrevendo as proporções do corpo humano.
Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci descrevendo as proporções do corpo humano.
Pulga desenhada a partir das observações de Robert Hooke, no primeiro microscópio também criado por ele.
Pulga desenhada a partir das observações de Robert Hooke, no primeiro microscópio também criado por ele.
Tentilhões de Galápagos ilustrados por Darwin.
Tentilhões de Galápagos ilustrados por Darwin.

Já em tempos mais próximos, temos grandes ilustradoras, como Maria Sibylla Merian (1647 – 1717), naturalista e ilustradora alemã que ilustrava principalmente insetos e plantas e Margaret Mee (1909 – 1988), ilustradora botânica que tinha foco na flora e era apaixonada pelo Brasil, em principal a Amazônia. Em tempos atuais, temos ilustradores como Pedro Salgado, ilustrador português com enfoque em peixes; os brasileiros Rogerio Lupo, biólogo e ilustrador; Leandro Lopes, professor e ilustrador; Diana Carneiro, artista plástica e ilustradora botânica (aluna da Margaret Mee); Bem como muitos outros (Ines Castineira, Vanessa Seiko, Paulo Presti, Fatima Zagonel, Iriam Starling, Marcos Silva), que também merecem estar aqui citados nesse texto.

Pitcairnia flammea, ilustração de Margaret Mee.
Pitcairnia flammea, ilustração de Margaret Mee.
Ilustração de Leandro Lopes.
Ilustração de Leandro Lopes.

A ilustração é coisa do Passado?

Com o surgimento de novas técnicas de se registrar imagens, é fácil imaginar que a ilustração científica seria rapidamente descartada. Porém, isso não aconteceu. A fotografia só se tornou possível em 1827. Nessa época, cada foto levava até 8 horas para ser concluída, o que não era muito eficiente, uma vez que um animal, por exemplo, não ficaria parado para isso tanto tempo. Mesmo com a fotografia, o uso de ilustrações nunca foi deixado de lado pela ciência. As ilustrações em artigos científicos permitem um maior detalhamento, que, em muitas das vezes, somente a fotografia não seria capaz. Por mais que nos tempos atuais a fotografia e qualidade de imagem vem sendo cada vez mais avançada, a necessidade de determinados planos e detalhes só são alcançados por meio de uma ilustração complementar.

Não somente a fotografia, como novas técnicas de ilustração foram surgindo ao longo da história, entre elas a aquarela, o nanquim, o Scratch Board, o Estereomicroscópio com câmara clara (todas essas e mais informações no link) e, claro, na era do computador, não poderia faltar a ilustração digital. Para cada técnica tem-se um uso e uma finalidade dependendo do que se deseja ilustrar. Para isso é muito importante que a ilustração e o artigo sejam complementares.

Ilustração em aquarela de Dulce Nascimento.
Ilustração em aquarela de Dulce Nascimento.

Paleoarte é a mesma coisa que ilustração científica?

Certamente você deve ter se perguntado se esse texto não falaria sobre “Paleoarte”… mas é claro que sim!

Exemplo de paleoarte. Arte de Andrey Atuchin.
Exemplo de paleoarte. Arte de Andrey Atuchin.

Uma pergunta bastante polêmica é se “Paleoarte” poderia ser considerada “ilustração científica”. Bem, teoricamente não. A “paleoarte” tem o intuito de reconstruir ambientes, faunas e floras baseados no registro fossilífero, juntamente com o a comparação/ estudo de ambientes, faunas e floras atuais. A partir disso, podemos concluir que, pelo menos uma parte do trabalho do paleoartista depende de deduções interpretativas. “Ilustração científica”, por sua vez, em sua definição formal, visa a reprodução exata de um modelo em questão, sendo respeitadas as cores, escalas, texturas e o volume, não se acrescendo nenhum fator que não esteja representado no modelo. Considerando essa definição, os trabalhos de paleoarte sensu lato não poderiam ser consideradas ilustrações científicas.

Ainda assim, como a ilustração científica, a “paleoarte” tem o rigor científico e visa passar algo fidedigno para os interessados. E agora?! Bom, certamente existe um ponto de intersecção entre as duas. Dentro das várias formas de “paleoarte”, a que poderia ser seguramente classificada como ilustração científica seriam as ilustrações fidedignas dos fósseis em si. As reconstituições artísticas de organismos e ambientes pré-históricos, por mais bem-fundamentadas e embasadas que sejam, não poderiam ser classificadas como ilustrações científicas, por assim dizer.

Você pode ser um ilustrador

A arte ou ciência (ou os dois) da ilustração científica é uma profissão bem reconhecida nos Estados Unidos, bem como na Europa. Porém, infelizmente, esta realidade ainda não alcançou o Brasil. No nosso país, a profissão ainda não é regularizada e, diferente dos lugares citados anteriormente, o Brasil ainda não possui escolas de graduação e/ou pós-graduação bem-estabelecidas focadas exclusivamente nessa área de formação. Isso, todavia, não impede as pessoas de se tornarem ilustradores científicos. Apesar dos caminhos tortuosos, diversos pesquisadores e profissionais brasileiros atuam como ilustradores científicos e têm sua competência reconhecida internacionalmente. A grande maioria, todavia, ainda exerce a atividade como uma profissão secundária. Muitos cientistas (incluindo a criadora desse Blog, Aline Ghilardi) fazem as ilustrações de seus próprios artigos e trabalhos científicos, por exemplo.

A ausência da regulamentação implica em diversos problemas para o ilustrador. O mais sério deles fica evidente na hora de valorar o seu trabalho. Sem um piso ou uma tabela de referência, a profissão do ilustrador acaba por ser desvalorizada e sua atividade desprestigiada.

À parte disso, é muito importante dizer que a ilustração é algo que depende de esforço, estudo, paciência, treino e perseverança. Na humilde opinião desse que vos escreve, existe uma maior relação com esforço próprio do que “dom” em si. Então pegue seus lápis, cadernos e folhas e comecem a rabiscar.

Bibliografia citada:

ARAUJO, Andrea Mendez. Aplicações da ilustração científica em ciências biológicas. 2009. 48 f. Trabalho de conclusão de curso (bacharelado e licenciatura – Ciências biológicas) – Universidade Estadual Paulista, Instituto de Biociências de Rio Claro, 2009. Disponível em: <http://hdl.handle.net/11449/118088>.

P10500275_4567619606096_6721616458316674469_nedro é biólogo e atualmente desenvolve o seu mestrado em Geociências pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Pedro têm experiência em Zoologia de Vertebrados, com especialidade em mamíferos, e atualmente estuda biologia e evolução de cinodontes mammaliformes.

 

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