Arquivo da categoria: Ceratopsia

>Tempestade de Paleocurtas – PARTE 1

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Depois da longa ausência estamos finalmente de volta! Setembro foi o mês do VII Congresso Argentino de Paleontologia e Bioestratigrafia e do X Congresso Latinoamericano de Paleontologia, realizados em um único evento na cidade de La Plata, Argentina. Os Colecionadores compareceram em peso e por isso o blog ficou meio às traças.

Nesse meio tempo, diversas novidades fabulosas da paleontologia se acumularam – vários bichos foram descritos (sim, dentre eles, tudo o que o mundo precisava… mais ceratopsídeos…); bizarrices anatômicas foram revisitadas; uma curiosa revelação fez-se quanto a coloração de pingüins fósseis gigantes; nova literatura fundamental foi publicada; deu-se o pré-lançamento do escândalo dos “saurópodes que eram um só” (?); surgiram mais novidades sobre o sexo pré-histórico; dentre outros. – .Mas além disso, trouxemos para completar boas novas da Paleontologia Latinoamericana, entre elas o recém-anunciado – e surpreendente – dinossauro brasileiro: Tapuiasaurus! (Que muitos de vocês devem ter visto pela televisão ou no caderno especial do “Estadão”, algumas semanas atrás).

Vamos sacudir a poeira dos fósseis e partir para uma campanha relâmpago. Com vocês, uma tempestade de paleocurtas – PARTE 1:

Um Raptor como você nunca viu: Balaur bondoc, o estranho dragão romeno

Reconstituição artística de Balaur bondoc


Estranho é apelido. Balaur bondoc veio responder uma questão antiga: “Com o que se pareciam os dinossauros predadores na Europa durante o fim do Cretáceo?”
Descrito na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) por Zoltán Csikia e colaboradores, entre eles Mark Norell, o novo dino predador surpreendeu paleontólogos do mundo todo. Parente dos velociraptores – o que quer dizer que tratava-se de um dromeossaurídeo – ele possuía uma construção corporal parecida… até certo ponto. Com ossos fundidos, constituição mais pesada e duplas garras retratoras nos pés (!), B. bondoc deveria ser o terror na Europa do fim do Cretáceo.
A Europa era bem diferente nesse período. Com o nível do mar mais alto, toda essa região era um arquipélago habitado por animais de pequeno porte e relativamente mais ‘primitivos’ que os seus parentes continentais. Inclusive formas anãs, como saurópodes do tamanho de vacas e dinos ornitópodes também de tamanho bastante reduzido em comparação com seus parentes do continente. B. bondoc, tão diferente de qualquer coisa conhecida, soma-se às esquisitices dinossaurianas e vem ensinar mais um pouco sobre a fauna pouco-usual da região européia durante o auge do reinado dos grandes répteis-ave.

Membro posterior de Balaur bondoc evidenciando a dupla de garras retráteis

Leia mais sobre isso Aqui.

Csiki, Z., Vremir, M., Brusatte, S., & Norell, M. (2010). From the Cover: An aberrant island-dwelling theropod dinosaur from the Late Cretaceous of Romania Proceedings of the National Academy of Sciences, 107 (35), 15357-15361 DOI: 10.1073/pnas.1006970107

O dino-quasímodo e.. com penas?? Concavenator corcovatus

Reconstituição artística de Concavenator (acima) e suas relações filogenéticas dentro dos Allosauroidea (abaixo)

Anunciado pela Nature, por Ortega e colaboradores, esse novo Carcharodontossaurídeo espanhol foi descrito com base em um esqueleto articulado quase completo. O animal deveria medir cerca de 6m de comprimento. Entretanto, o que mais chamou a atenção foram outras características….:
1) As cristas neurais de suas vértebras dorsais – que formavam uma corcova no bicho (característica que já havia sido observada no enigmático Becklespinax);
e o mais surpreendente:
2) Cicatrizes de inserção de penas nos ossos do braço do animal;
Dinos alossauróides com penas???? Pois é….

Leia mais sobre isso Aqui.

Ortega, F., Escaso, F. & Sanz, J. L. 2010. A bizarre, humped Carcharodontosauria (Theropoda) from the Lower Cretaceous of Spain. Nature 467, 203-206.

Os novos ceratopsianos: Utahceratops e Kosmoceratops – e o ano desses bichos continua

Reconstituições artísticas de Utahceratops (acima) e Kosmoceratops (abaixo)

Os dois novos ‘chifrudos’ da lista são da região sul do Estado de Utah, EUA. A descoberta dos novos ceratopsídeos foi detalhada na revista on-line de acesso livre PLoS One.
O maior dos dois, Utahceratops gettyi, tem um crânio de 2,3 m de comprimento, já o menor deles, Kosmoceratops richardisoni, tem um total de 15 chifres na cabeça – o dino com a cabeça mais ornamentada conhecido.

Leia mais sobre isso Aqui.
Veja os antigos (julho) tópicos deste blog sobre “O ano dos Ceratopsia” Aqui (parte 1) e Aqui (parte 2).

Sampson, S., Loewen, M., Farke, A., Roberts, E., Forster, C., Smith, J., & Titus, A. (2010). New horned dinosaurs from Utah provide evidence for intracontinental dinosaur endemism PLoS ONE, 5 (9) DOI:10.1371/journal.pone.0012292

Xixiasaurus, o novo troodontídeo da China (Mas que nome!)

O crânio parcial de Xixiasaurus

Proveniente da Formação Majiacun, da Bacia Xixia, na Província de Henan da China, Xixiasaurus henanensis foi descrito com base em um crânio parcialmente completo. Proximamente relacionado com Byronosaurus e Urbacodon, esses três animais provavelmente formam um clado à parte, sugerindo uma radiação endêmica de troodontídeos pela Ásia.

Lü, J.-C., Xu, L., Liu, Y.-Q., Zhang, X.-L., Jia, S. and Ji, Q. 2010. A new troodontid (Theropoda: Troodontidae) from the Late Cretaceous of central China, and the radiation of Asian troodontids. Acta Palaeontologica Polonica 5X: xxx-xxx. doi:10.4202/app.2009.0047

Sarahsaurus e o sucesso dos dinossauros

Crânio de Sarahsaurus em parte desarticulado

Sarahsaurus aurifontanalis é o mais novo sauropodomorfo que vem juntar-se à família. Encontrado no Arizona, EUA, tratava-se de um dino herbívoro relativamente pequeno em comparação com os seus primos gigantescos que viveram pouco depois. Com 190 milhões de anos (início do Jurássico) ele ajuda a contar algumas partes da história sobre a evolução e radiação dos dinossauros: o que aconteceu depois da extinção Triássico-Jurássica, como foi a invasão do Hemisfério Norte – a partir do Hemisfério Sul – por esse grupo de animais?
Sarahsaurus foi uma das formas que se originou alguns milhões de anos depois do pulso de extinção do fim do Triássico e o seu estudo, somado ao que já era conhecido sobre outros sauropodomorfos encontrados na América do Norte, ajudou a entender melhor a história sobre a dispersão dos dinossauros para essa região.
O estudo foi publicado na Proceedings of the Royal Society por Timothy e colaboradores.

Leia mais sobre isso Aqui.

Timothy B. Rowe, Hans-Dieter Sues, and Robert R. Reisz (2010). Dispersal and diversity in the earliest North American sauropodomorph dinosaurs, with a description of a new taxon. Proceedings of the Royal Society B : 10.1098/rspb.2010.1867

Mais curtas em breve…

>O Ano dos Ceratopsia !! – Parte 2

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Continuando…

No post passado ficou faltando falar de mais algumas figurinhas ceratopsianas de 2010, como lembrei nos comentários. Sendo assim, retorno agora para lhes apresentar: Rubeosaurus ovatus, o Styracosaurus que não era; Tatankaceratops sacrisonorum, um novo pequeno e controverso Charmosaurinae e Archaeoceratops yujingziensis, uma nova espécie de um gênero já conhecido.

Rubeosaurus ovatus McDonald & Horner, 2010 – originalmente decrito por Gilmore (1930) como “Styracosaurus” ovatus


Styracosaurus ovatus foi descrito por Gilmore em 1930 a partir de fragmentos de um escudo cefálico (partes de um osso parietal) destacado por ser bastante oval em seu aspecto e por possuir dois pares de chifres epocipitais e não três como Styracosaurus albertensis. Novos materiais, de um crânio parcial, permitiram, todavia identificar esse táxon como não relacionado ao gênero Styracosaurus, mas mais proximamente relacionado à Einiosaurus procuryicornis. Dessa forma, o antigo S. ovatus ganhou um novo nome: Rubeosaurus ovatus.


Rubeosaurus aumenta para 3 o número de centrosaurinae válidos da Formação Two Medicine, Montana, Canadá, e torna Stauricosaurus um táxon monotípico confinado à Formação Dinosaur Park de Alberta, Canadá.


McDonald, A. T. & Horner, J. R., 2010. New material of “Styracosaurus” ovatus from the Two Medicine Formation of Montana. In: Michael J. Ryan, Brenda J. Chinnery-Allgeier, and David A. Eberth (eds), New Perspectives on Horned Dinosaurs: The Royal Tyrrell Museum Ceratopsian Symposium, Indiana University Press, 656 pp.

Tatankaceratops sacrisonorum Ott & Larson 2010


Tatankaceratops foi preliminarmente descrito com base em um crânio parcial e fragmentos de um esqueleto provindos da Formação Hell Creek, South Dakota, EUA. Tatankaceratops representaria um novo táxon de um pequeno ceratopsiano chasmosaurinae, cujo comprimento do crânio teria aproximadamente 1 m e o tamanho total do animal não passaria de 3m. Os autores discutem que todos os elementos esqueletais, apesar do tamanho, pertenceriam a um animal adulto, e isso, somado a diferenças morfológicas significativas entre o material desse espécime e o de outros ceratopsídeos contemporâneos suportaria a designação de um novo táxon.

Os autores examinaram hipóteses alternativas, como considerando esse animal como proximamente relacionado ou possivelmente descendente de Triceratops. Se esse fosse o caso, os autores sugeriram que isso poderia representar um caso de pedomorfose (retenção de caracteres juvenis na forma adulta). Porém, a análise cladística realizada não suportou essa alternativa. Assim como também descartou a hipótese de se tratar de alguma forma de nanismo em Triceratops dada por algum grau de isolamento populacional (como no caso dos saurópodes anões alemães – em breve uma revisão sobre “Dinos anões” aqui no Colecionadores).

Tudo aponta para afinidades com os ceratopsídeos chasmosaurinae, no entanto os autores destacam que uma melhor preparação do material é necessária e que a descoberta de outros espécimes com caracteres preservados que sejam mais filogenéticamente informativos tornariam mais claras as relações desse táxon com outras formas neoceratopsianas.

Houve certo questionamento sobre a qualificação de “adulto” desse espécime. Talvez análises histológicas em comparação com o que se é conhecido para a ontogenia (desenvolvimento) de Triceratops deveriam ser feitas para confirmar esse status. A validez de “Tatankaceratops” se mostra controversa.

Estudos posteriores devem ser realizados para confirmar toda história.

O nome “Tatanka” é um desígnio indígena (Lakota) para o Bisão das planícies. (Alguém aí assistiu “Dança com lobos”??)

Christopher J. Ott & Peter L. Larson, 2010. A New, Small Ceratopsian Dinosaur from the Latest Cretaceous Hell Creek Formation, Northwest South Dakota, United States: A Preliminary Description. In: Ryan, M.J., Chinnery-Allgeier, B.J., and Eberth, D.A. (eds.) New Perspectives on Horned Dinosaurs: The Royal Tyrrell Museum Ceratopsian Symposium, Bloomington, Indiana University Press, 656 pp.

Archaeoceratops yujingziensis You & Dodson 2010

Archaeoceratops trata-se de um gênero já conhecido de Ceratopsia basal do início do Cretáceo (Aptiano) da China. Eram animais pequenos (cerca de 1m de comprimento), com uma cabeça comparativamente grande em relação ao corpo e provavelmente bípedes. Não possuíam chifres e tinham apenas um tímido escudo cefálico projetando-se da cabeça.

O gênero foi proposto em 1997 por Dong & Azuma e a espécie tipo foi designada A. oshimai.

Archaeoceratops yunjingziensis foi descrito com base em um espécime coletado no Grupo Xingminpu da Bacia de Yujingzi, região de Mazongshan, noroeste da China. É representado por um crânio parcial e fragmentos do esqueleto. Os autores diferem A. yunjingziensis da espécie tipo por uma série de caracteres específicos do crânio e da dentição. Esse novo táxon amplia a distribuição geográfica do gênero em cerca de 100 km para sudoeste, ainda na mesma bacia.

Reconstituição artística de Archaeoceratops oshimai


You H.-l., Tanoue K. & Dodson, P. 2010. A new species of Archaeoceratops (Dinosauria: Neoceratopsia) from the Early Cretaceous of the Mazongshan area, northwestern China. I:n Ryan, M.J.; Chinnery-Allgeier, B.J. & Eberth D.A. (eds.) New Perspectives on Horned Dinosaurs: the Royal Tyrrell Museum Ceratopsian Symposium, Bloomington, Indiana university Press. p59-67.

O que mais virá?

>O ano dos Ceratopsia !!

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E os dinossauros com cifres fazem a festa

O primeiro semestre de 2010 realmente foi dos dinos ceratopsianos. Somente até o mês de julho, sete novas espécies foram descritas, incluindo o primeiro ceratopsídeo chinês e o primeiro mexicano. Além disso, um pequeno Ceratopsia encontrado na Hungria veio acrescentar muito à complexidade da biogeografia do grupo. O restante das espécies descritas são crias da América do Norte…

Eu lhes apresento, Coahuilaceratops, Sinoceratops, Mojoceratops, Ajkaceratops, Diabloceratops, Ojoceratops e finalmente Medusaceratops.- UFA!!!

Mas calma…. Antes de falar um pouquinho desses caras aí, vamos recordar:

CERATOPSIA!!

O nome Ceratopsia vem do latim, que significa “Lagartos com cifre frontal/ ou na face”.

Ceratopsia são dinos ornitísquios marginocefalianos. Suas formas ancestrais viveram no Jurássico, mas os primeiros exemplares desse grupo datam do começo do Cretáceo (aproximadamente 140 milhões de anos atrás), como Yinlong (considerado o mais primitivo) e Hongshanosaurus da China, além das diferentes espécies de Psittacosaurus asiáticos. A maior diversificação do grupo, no entanto, ocorreu durante a parte mais tardia desse período (Eocretáceo – por volta de 100 milhões de anos atrás), tendo sido recordada principalmente nas regiões da América do Norte e da Ásia.


Eram dinos herbívoros, possuíam um bico córneo e tinham tamanhos muito variados (de 1 à 9 metros). Suas formas primitivas tinham postura bípede e eram de pequeno porte. As formas derivadas eram quadrúpedes e normalmente bem maiores (i.e. Centrosaurus e Triceratops). Os chifres e escudos cefálicos característicos somente foram adquiridos ao longo da evolução da linhagem. Membros basais não os possuíam e acredita-se que estes caracteres tenham tido funções relacionadas com a proteção, display ou ainda termorregulação (?!) – ou uma combinação entre estes.  A quantidade de chifres e a conformação e ornamentações dos escudos cefálicos variavam imensamente. Os escudos podiam ser sólidos ou vazados, com rugosidades e ornamentações elaboradas, ou ainda simplesmente lisos. Marcas nos crânios de alguns desses animais indicam que disputas, pelo menos dentro algumas espécies, eram freqüentes (Triceratops).


Um significativo dimorfismo sexual foi bem documentado em Protoceratops e um estudo detalhado de variações ontogenéticas pode ser feito com esse mesmo gênero. A ontogenia também foi bem documentada em Psittacosaurus, assim como a presença de cuidado parental (Um fóssil de um adulto foi encontrado junto com os pequenos esqueletos articulados de 34 indivíduos juvenis).

Várias formas de ceratopsídeos derivados apresentavam comportamentos gregários, especialmente Centrosaurus e sua parentela.  Há indicações de que alguns desses animais eram os herbívoros dominantes em seus ecossistemas e tinham um impacto significativo no ambiente, assim como deveriam servir como fonte principal de alimento para carnívoros de grande porte.

Um espécime ímpar de Psitacosaurus provindo da China, ainda não atribuído a nenhuma espécie em particular, apresentou evidências bem preservadas do seu integumento, o que acabou por ajudar na compreensão de como seria a aparência externa desses animais. O fóssil indica, que a maior parte do corpo desses bichos era coberta de escamas – algumas grandes dispostas irregularmente, entremeadas por numerosas menores – , mas isso já havia sido observado em impressões de pele de ceratopsídeos como  Chasmosaurus e Centrosaurus. O mais excepcional desse exemplar, todavia, é a presença de uma série do que parecem ser cerdas tubulares ocas arranjadas numa fileira na porção dorsal da cauda. Os pesquisadores concordam que não deviam tratar-se de estruturas homólogas às proto-penas e penas dos dinos terópodes, já que são estruturalmente diferentes, entretanto, provavelmente eram utilizadas em funções semelhantes, como comunicação e display (não a termorregulação).


Aparentemente o grupo se originou na Ásia e teria dispersado para a América do Norte pelo Estreito de Behring por volta do Cretáceo Médio. Já quanto à origem dos Ceratopsidae, o grupo mais derivado dentro de Ceratopsia, essa questão ainda é discutida. Acreditava-se que eram endêmicos da América do Norte, porém o controverso fóssil de Turanoceratops, asiático, gerou discórdia quanto a essa questão. Teriam eles se originado também na Ásia e migrado? Ou Turanoceratops que teria migrado da América do Norte para a Ásia? Parece que um dos Ceratopsia de 2010 vem incendiar ainda mais essa questão…..

Ok, agora sim, vamos às novas figurinhas de 2010:

Coahuilaceratops magnacuerna  Loewen et al 2010



Encontrado no México, Coahuilaceratops é o dinossauro com os maiores chifres já descrito. Brincadeiras à parte, estes mediam 1,2 metros de comprimento! “Coahuila” faz referência à região onde o animal foi encontrado e “magnacuerna” é uma combinação latina para “grande chifre”.

Os fósseis são provenientes das rochas da Formação Cerro Del Pueblo, que datam entre 71,5 e 72,5 milhões de anos atrás. As rochas dessa formação também contêm uma grande quantidade de material desarticulado de dinossauros hadrossaurídeos. Ela parece ter se formado durante o que teriam sido grandes eventos de tempestades e furacões que acabaram por ocasionar morte em massa de animais.



Coahuilaceratops representa a primeira ocorrência de uma espécie identificável de dinossauro ceratopsiano para o México e acrescenta ao entendimento sobre a biogeografia, evolução e diversificação do grupo.

Sinoceratops zhuchengensis Xing et al 2010



Descoberto na China, no Grupo Wangshi em Zhucheng, na província de Shandong, em rochas do Cretáceo Superior, Sinoceratops trata-se de um ceratopsídeo basal. “Sino” faria referência à China e “zhucheng” ao local onde o material fóssil foi descoberto.

A análise cladística de Sinoceratops o colocou entre os Centrosaurinae, porém, Sinoceratops mostra-se consideravelmente maior que outros dinossauros desse grupo ceratopsiano. Seu tamanho é equivalente ao de Chasmosaurinae basais e, além disso, várias de suas características também o aproximam desse outro grupo peculiar. A distinção, nessa perspectiva, se torna incerta. Os pesquisadores destacam que essa descoberta acrescenta informações relevantes à transição morfológica dos dinos não –ceratopsídeos para os ceratopsídeos.

Sinoceratops vem ainda incendiar a questão biogeográfica do grupo:  De acordo com a proposta filogenética do trabalho de Xing e colaboradores, tudo indicaria que os Ceratopsidae teriam se originado na Ásia e posteriormente migrado para a América do Norte, aonde encontraram paleoambientes mais favoráveis para especiação. Eventos de dispersão múltiplos teriam ocorrido na evolução ceratopsiana e todos eles teriam ocorrido a partir da Ásia em direção à América do Norte. Esse padrão de dispersão também já fora sugerido para outros grupos de dinossauros como Tyrannosauroidea e Ornitomimosauria derivados.

Parece que o endemismo de Ceratopsidae para a América do Norte morre aqui.

Ajkaceratops kozmai Õsi et al 2010



Ajkaceratops vem mudar outra teoria arraigada na biogeografia de dinossauros ceratopsianos. A de que eles eram geograficamente limitados à América do Norte e a Ásia (apenas com registros controversos em outros continentes).

Descrito para o Cretáceo Superior de Iharkút, na Hungria, Ajkaceratops vem demonstrar que os ceratopsianos também ocuparam a região da Europa e, considerando a recente descoberta de dentes leptoceratopsídeos da Suécia, tudo indicaria que o clado deve ter alcançado a Europa em pelo menos duas ocasiões diferentes.

A fauna dinossauriana do Neocretáceo da Europa era caracterizada como uma mistura de taxa relictuais endêmicos e taxa gondwânicos, sendo ausente grupos norteamericanos e asiáticos. Esse novo dinossauro, no entanto, demonstra que essa hipótese biogeográfica prevalente é muito simplificada e requer uma revisão. Iharkút, na Hungria, fazia parte da porção oeste do arquipélago de Tethys, uma série de cadeias de ilhas tectonicamente complexas entre a África e a Europa. A ocorrência de um dinossauro ceratopsiano nessa localidade pode representar um evento de dispersão do estilo “saltadores-de-ilhas” cruzando o Oceano de Tethys.

Ajkaceratops é similar à ‘bagaceratopsídeos’ como Bagaceratops e Magnirostris, conhecidos do Cretáceo superior do leste asiático.

Diabloceratops eatoni Kirkland et al 2010



Diabloceratops foi descrito com base em um magnífico crânio desarticulado, parte do inventário que a Utah Geological Survey estava conduzindo na Formação Wahweap no sul do Estado de Utah, EUA. Apesar da parte direita do crânio estar danificada, no seu lado oposto, todos os aspectos craniais estavam preservados. Assim sendo, um minucioso trabalho de reconstrução foi feito e finalmente pode-se apreciar por completo toda distribuição de caracteres diagnósticos próprios para posicionar o animal confortavelmente em seu contexto filogenético.



Os autores destacam que Diabloceratops seria um dos mais antigos Ceratopsidae conhecidos e um Centrosaurinae basal, mas o mais interessante seria a presença de uma característica peculiar bem preservada, cuja significância nunca havia sido considerada antes dessa descoberta: A fenestra antorbital acessória (FAA). Os autores examinaram a distribuição desse distinto caráter entre os ceratopsídeos e concordam que sua utilização pode fornecer respostas filogenéticamente interessantes para resolver questões sobre a origem e radiação dos ceratopsídeos.

Dados os cenários evolutivos possíveis considerados por Kirkland e colaboradores, aparentemente a FAA teria sido perdida pelo menos vezes distintas entre os Ceratopsia. Os autores, no entanto, pretendem avaliar mais rigorosamente essa proposta. Por enquanto sugerem que isso poderia se dar por pressões evolutivas comportamentais, que teriam levado à necessidade de reforçar o crânio do animal, como por exemplo o estresse de combate.

 A mensagem de Diabloceratops é que por vezes pode ser muito mais significativo identificar um novo caráter filogenéticamente interessante para entender a origem e evolução de um grupo, do que descrever uma nova espécie de dinossauro – não importa quão legal isso possa parecer.

Ojoceratops fowleri Sullivan & Lucas 2010



Ojoceratops mostrou-se um dos maiores dinossauros ceratopsianos conhecidos. Encontrado no Novo México, USA, em rochas de 70 milhões de anos, esse animal rivaliza em tamanho com Torosaurus e os maiores espécimes de Triceratops.

O nome do animal é derivado da formação rochosa onde ele foi encontrado, Ojo Alamo. A descoberta se deu ainda no ano de 2005, pelo na época assistente de campo e hoje estudante de PhD, Denver Fowler.

Os autores destacam que Ojoceratops seria um dos últimos dinossauros ceratopsídeos sobreviventes e pertenceria ao grupo dos Chasmosaurinae.

Restos desarticulados desse animal provavelmente foram confundidos com Torosaurus durante os últimos 30 anos. O resgate desse material com características diagnósticas suficientes para descrição de uma nova espécie vem a acrescentar significativamente ao conhecimento do Cretáceo Superior do Novo México, até então basicamente caracterizado por pedaços e cacos de dinossauros.

Embora o material dessa nova espécie não represente um crânio completo, há caracteres suficientes para estabelecer algumas de suas relações. É possível destacar sua afinidade com Triceratops: ele é mais antigo e possivelmente pode ser um ancestral, mas não pode-se descartar que talvez não passe de somente uma forma diferenciada do sul.

Mojoceratops perifania Longrich 2010


O nome desse animal foi escolhido numa mesa de bar e regado a muita cerveja. Apesar de ter sido selecionado inicialmente como uma brincadeira em referência aos filmes da série Austin Powers, o nome colou e só depois é que o autor notou que até que ele fazia sentido.

Ao buscar a etimologia da palavra “mojo”, Longrich descobriu que se tratava de um termo afro-americano utilizado no início do século 20 para designar “charme” ou “talismã” para atrair o sexo oposto e, pensando bem, é justamente para isso que o animal em questão deveria utilizar o seu escudo cefálico adornado e em formato de coração.

“Perifania” vem do grego e significa “orgulho”.  Supostamente nomes de origem grega ou latina deveriam ser utilizados para denominar gêneros e espécies, no entanto Longrich argumenta “que se pode fazer boa ciência e ainda ter um pouco de diversão. Não é mesmo?”.

Mojoceratops trata-se de mais um Chasmosaurinae. Seus restos foram resgatados em Alberta, Canadá, na região do Dinosaur Provincial Park. As rochas desses depósitos datam de 75 milhões de anos.

Os exemplares estudados por Longrich estavam depositados no museu de História Natural de Nova York, aonde ele vinha estudando a coleção de fósseis desde 2008. Ele notou algumas características diferentes em alguns espécimes classificados supostamente como Chasmosaurus, incluindo chifres mais longos que o usual e adornos peculiares no escudo cefálico. Algumas viagens a museus no oeste do Canadá ajudaram a confirmar a sua hipótese. Somam-se até agora 8 crânios parciais da nova espécie.



É uma surpresa que depois de tanto tempo de estudo com fósseis da região do Dinosaur Provincial Park, uma nova espécie de dinossauro de grande porte seja descoberta. A fauna dinossauriana dessa região tem se mostrado a mais diversa de todo mundo, e até agora se procuram explicações convincentes de porque isso teria se dado.

Medusaceratops lokii Ryan et al. 2010


Do Cretáceo de Montana, Canadá, da famosa Formação Judith River, Medusaceratops um Chasmosaurinae de 7 metros de comprimento e 2 toneladas vem encerrar esse post sobre os Ceratopsia.

“Medusa”, do grego, faz alusão ao monstro mitológico da Grécia com cabelos de serpente, já “Loki”, ao deus nórdico da trapaça e travessura, fazendo referência ao quão difícil foi para os pesquisadores identificarem o animal.

Apesar de recém descrito, o dinossauro foi encontrado 15 anos atrás por uma companhia comercial de fósseis contratada para analisar um afloramento numa fazenda ao longo do Milk River na fronteira dos Estados de Alberta e Montana. A partir daí, demoraram anos até que a nova espécie fosse diferenciada de outra similar, encontrada um pouco mais ao norte – Albertaceratops – , além de outras aparentadas da mesma família.

Ryan, o pesquisador que coordenou o estudo, destaca o fato de que materiais de bone-beds, como o da região, são muito difíceis de serem trabalhados. Por serem em geral desarticulados e fragmentados, dificultam imensamente o processo diagnóstico e outros tipos de análises mais derivadas.

Medusaceratops coloca-se como um representante basal dos Chasmosaurinae, mas num ramo diferente dos Albertaceratops.

Apesar de fabuloso, o escudo cefálico de Medusaceratops provavelmente não era utilizado para a defesa contra predadores, mas como uma propaganda para atrair parceiros, destacam por fim os pesquisadores.

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Ainda estamos em julho… o que mais virá????
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“New Perspectives on Horned Dinosaurs” livro editado por Michael J. Ryan, Brenda J. Chinnery-Allgeier e Davis A. Eberth, resultado do Royal Tyrrel Museum Ceratopsian Symposium é a referência de maior destaque do ano para esse fantástico grupo de dinossauros. Clique aqui para acessá-lo parcialmente no google books.
Não só várias espécies de novos ceratopsianos são ali descritas (como alguns dos aqui citados), mas várias novidades no estudo desses dinossauros. Em próximas/breves oportunidades podemos voltar ao assunto.