Arquivo da categoria: Cretáceo

>O ano dos Ceratopsia !!

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E os dinossauros com cifres fazem a festa

O primeiro semestre de 2010 realmente foi dos dinos ceratopsianos. Somente até o mês de julho, sete novas espécies foram descritas, incluindo o primeiro ceratopsídeo chinês e o primeiro mexicano. Além disso, um pequeno Ceratopsia encontrado na Hungria veio acrescentar muito à complexidade da biogeografia do grupo. O restante das espécies descritas são crias da América do Norte…

Eu lhes apresento, Coahuilaceratops, Sinoceratops, Mojoceratops, Ajkaceratops, Diabloceratops, Ojoceratops e finalmente Medusaceratops.- UFA!!!

Mas calma…. Antes de falar um pouquinho desses caras aí, vamos recordar:

CERATOPSIA!!

O nome Ceratopsia vem do latim, que significa “Lagartos com cifre frontal/ ou na face”.

Ceratopsia são dinos ornitísquios marginocefalianos. Suas formas ancestrais viveram no Jurássico, mas os primeiros exemplares desse grupo datam do começo do Cretáceo (aproximadamente 140 milhões de anos atrás), como Yinlong (considerado o mais primitivo) e Hongshanosaurus da China, além das diferentes espécies de Psittacosaurus asiáticos. A maior diversificação do grupo, no entanto, ocorreu durante a parte mais tardia desse período (Eocretáceo – por volta de 100 milhões de anos atrás), tendo sido recordada principalmente nas regiões da América do Norte e da Ásia.


Eram dinos herbívoros, possuíam um bico córneo e tinham tamanhos muito variados (de 1 à 9 metros). Suas formas primitivas tinham postura bípede e eram de pequeno porte. As formas derivadas eram quadrúpedes e normalmente bem maiores (i.e. Centrosaurus e Triceratops). Os chifres e escudos cefálicos característicos somente foram adquiridos ao longo da evolução da linhagem. Membros basais não os possuíam e acredita-se que estes caracteres tenham tido funções relacionadas com a proteção, display ou ainda termorregulação (?!) – ou uma combinação entre estes.  A quantidade de chifres e a conformação e ornamentações dos escudos cefálicos variavam imensamente. Os escudos podiam ser sólidos ou vazados, com rugosidades e ornamentações elaboradas, ou ainda simplesmente lisos. Marcas nos crânios de alguns desses animais indicam que disputas, pelo menos dentro algumas espécies, eram freqüentes (Triceratops).


Um significativo dimorfismo sexual foi bem documentado em Protoceratops e um estudo detalhado de variações ontogenéticas pode ser feito com esse mesmo gênero. A ontogenia também foi bem documentada em Psittacosaurus, assim como a presença de cuidado parental (Um fóssil de um adulto foi encontrado junto com os pequenos esqueletos articulados de 34 indivíduos juvenis).

Várias formas de ceratopsídeos derivados apresentavam comportamentos gregários, especialmente Centrosaurus e sua parentela.  Há indicações de que alguns desses animais eram os herbívoros dominantes em seus ecossistemas e tinham um impacto significativo no ambiente, assim como deveriam servir como fonte principal de alimento para carnívoros de grande porte.

Um espécime ímpar de Psitacosaurus provindo da China, ainda não atribuído a nenhuma espécie em particular, apresentou evidências bem preservadas do seu integumento, o que acabou por ajudar na compreensão de como seria a aparência externa desses animais. O fóssil indica, que a maior parte do corpo desses bichos era coberta de escamas – algumas grandes dispostas irregularmente, entremeadas por numerosas menores – , mas isso já havia sido observado em impressões de pele de ceratopsídeos como  Chasmosaurus e Centrosaurus. O mais excepcional desse exemplar, todavia, é a presença de uma série do que parecem ser cerdas tubulares ocas arranjadas numa fileira na porção dorsal da cauda. Os pesquisadores concordam que não deviam tratar-se de estruturas homólogas às proto-penas e penas dos dinos terópodes, já que são estruturalmente diferentes, entretanto, provavelmente eram utilizadas em funções semelhantes, como comunicação e display (não a termorregulação).


Aparentemente o grupo se originou na Ásia e teria dispersado para a América do Norte pelo Estreito de Behring por volta do Cretáceo Médio. Já quanto à origem dos Ceratopsidae, o grupo mais derivado dentro de Ceratopsia, essa questão ainda é discutida. Acreditava-se que eram endêmicos da América do Norte, porém o controverso fóssil de Turanoceratops, asiático, gerou discórdia quanto a essa questão. Teriam eles se originado também na Ásia e migrado? Ou Turanoceratops que teria migrado da América do Norte para a Ásia? Parece que um dos Ceratopsia de 2010 vem incendiar ainda mais essa questão…..

Ok, agora sim, vamos às novas figurinhas de 2010:

Coahuilaceratops magnacuerna  Loewen et al 2010



Encontrado no México, Coahuilaceratops é o dinossauro com os maiores chifres já descrito. Brincadeiras à parte, estes mediam 1,2 metros de comprimento! “Coahuila” faz referência à região onde o animal foi encontrado e “magnacuerna” é uma combinação latina para “grande chifre”.

Os fósseis são provenientes das rochas da Formação Cerro Del Pueblo, que datam entre 71,5 e 72,5 milhões de anos atrás. As rochas dessa formação também contêm uma grande quantidade de material desarticulado de dinossauros hadrossaurídeos. Ela parece ter se formado durante o que teriam sido grandes eventos de tempestades e furacões que acabaram por ocasionar morte em massa de animais.



Coahuilaceratops representa a primeira ocorrência de uma espécie identificável de dinossauro ceratopsiano para o México e acrescenta ao entendimento sobre a biogeografia, evolução e diversificação do grupo.

Sinoceratops zhuchengensis Xing et al 2010



Descoberto na China, no Grupo Wangshi em Zhucheng, na província de Shandong, em rochas do Cretáceo Superior, Sinoceratops trata-se de um ceratopsídeo basal. “Sino” faria referência à China e “zhucheng” ao local onde o material fóssil foi descoberto.

A análise cladística de Sinoceratops o colocou entre os Centrosaurinae, porém, Sinoceratops mostra-se consideravelmente maior que outros dinossauros desse grupo ceratopsiano. Seu tamanho é equivalente ao de Chasmosaurinae basais e, além disso, várias de suas características também o aproximam desse outro grupo peculiar. A distinção, nessa perspectiva, se torna incerta. Os pesquisadores destacam que essa descoberta acrescenta informações relevantes à transição morfológica dos dinos não –ceratopsídeos para os ceratopsídeos.

Sinoceratops vem ainda incendiar a questão biogeográfica do grupo:  De acordo com a proposta filogenética do trabalho de Xing e colaboradores, tudo indicaria que os Ceratopsidae teriam se originado na Ásia e posteriormente migrado para a América do Norte, aonde encontraram paleoambientes mais favoráveis para especiação. Eventos de dispersão múltiplos teriam ocorrido na evolução ceratopsiana e todos eles teriam ocorrido a partir da Ásia em direção à América do Norte. Esse padrão de dispersão também já fora sugerido para outros grupos de dinossauros como Tyrannosauroidea e Ornitomimosauria derivados.

Parece que o endemismo de Ceratopsidae para a América do Norte morre aqui.

Ajkaceratops kozmai Õsi et al 2010



Ajkaceratops vem mudar outra teoria arraigada na biogeografia de dinossauros ceratopsianos. A de que eles eram geograficamente limitados à América do Norte e a Ásia (apenas com registros controversos em outros continentes).

Descrito para o Cretáceo Superior de Iharkút, na Hungria, Ajkaceratops vem demonstrar que os ceratopsianos também ocuparam a região da Europa e, considerando a recente descoberta de dentes leptoceratopsídeos da Suécia, tudo indicaria que o clado deve ter alcançado a Europa em pelo menos duas ocasiões diferentes.

A fauna dinossauriana do Neocretáceo da Europa era caracterizada como uma mistura de taxa relictuais endêmicos e taxa gondwânicos, sendo ausente grupos norteamericanos e asiáticos. Esse novo dinossauro, no entanto, demonstra que essa hipótese biogeográfica prevalente é muito simplificada e requer uma revisão. Iharkút, na Hungria, fazia parte da porção oeste do arquipélago de Tethys, uma série de cadeias de ilhas tectonicamente complexas entre a África e a Europa. A ocorrência de um dinossauro ceratopsiano nessa localidade pode representar um evento de dispersão do estilo “saltadores-de-ilhas” cruzando o Oceano de Tethys.

Ajkaceratops é similar à ‘bagaceratopsídeos’ como Bagaceratops e Magnirostris, conhecidos do Cretáceo superior do leste asiático.

Diabloceratops eatoni Kirkland et al 2010



Diabloceratops foi descrito com base em um magnífico crânio desarticulado, parte do inventário que a Utah Geological Survey estava conduzindo na Formação Wahweap no sul do Estado de Utah, EUA. Apesar da parte direita do crânio estar danificada, no seu lado oposto, todos os aspectos craniais estavam preservados. Assim sendo, um minucioso trabalho de reconstrução foi feito e finalmente pode-se apreciar por completo toda distribuição de caracteres diagnósticos próprios para posicionar o animal confortavelmente em seu contexto filogenético.



Os autores destacam que Diabloceratops seria um dos mais antigos Ceratopsidae conhecidos e um Centrosaurinae basal, mas o mais interessante seria a presença de uma característica peculiar bem preservada, cuja significância nunca havia sido considerada antes dessa descoberta: A fenestra antorbital acessória (FAA). Os autores examinaram a distribuição desse distinto caráter entre os ceratopsídeos e concordam que sua utilização pode fornecer respostas filogenéticamente interessantes para resolver questões sobre a origem e radiação dos ceratopsídeos.

Dados os cenários evolutivos possíveis considerados por Kirkland e colaboradores, aparentemente a FAA teria sido perdida pelo menos vezes distintas entre os Ceratopsia. Os autores, no entanto, pretendem avaliar mais rigorosamente essa proposta. Por enquanto sugerem que isso poderia se dar por pressões evolutivas comportamentais, que teriam levado à necessidade de reforçar o crânio do animal, como por exemplo o estresse de combate.

 A mensagem de Diabloceratops é que por vezes pode ser muito mais significativo identificar um novo caráter filogenéticamente interessante para entender a origem e evolução de um grupo, do que descrever uma nova espécie de dinossauro – não importa quão legal isso possa parecer.

Ojoceratops fowleri Sullivan & Lucas 2010



Ojoceratops mostrou-se um dos maiores dinossauros ceratopsianos conhecidos. Encontrado no Novo México, USA, em rochas de 70 milhões de anos, esse animal rivaliza em tamanho com Torosaurus e os maiores espécimes de Triceratops.

O nome do animal é derivado da formação rochosa onde ele foi encontrado, Ojo Alamo. A descoberta se deu ainda no ano de 2005, pelo na época assistente de campo e hoje estudante de PhD, Denver Fowler.

Os autores destacam que Ojoceratops seria um dos últimos dinossauros ceratopsídeos sobreviventes e pertenceria ao grupo dos Chasmosaurinae.

Restos desarticulados desse animal provavelmente foram confundidos com Torosaurus durante os últimos 30 anos. O resgate desse material com características diagnósticas suficientes para descrição de uma nova espécie vem a acrescentar significativamente ao conhecimento do Cretáceo Superior do Novo México, até então basicamente caracterizado por pedaços e cacos de dinossauros.

Embora o material dessa nova espécie não represente um crânio completo, há caracteres suficientes para estabelecer algumas de suas relações. É possível destacar sua afinidade com Triceratops: ele é mais antigo e possivelmente pode ser um ancestral, mas não pode-se descartar que talvez não passe de somente uma forma diferenciada do sul.

Mojoceratops perifania Longrich 2010


O nome desse animal foi escolhido numa mesa de bar e regado a muita cerveja. Apesar de ter sido selecionado inicialmente como uma brincadeira em referência aos filmes da série Austin Powers, o nome colou e só depois é que o autor notou que até que ele fazia sentido.

Ao buscar a etimologia da palavra “mojo”, Longrich descobriu que se tratava de um termo afro-americano utilizado no início do século 20 para designar “charme” ou “talismã” para atrair o sexo oposto e, pensando bem, é justamente para isso que o animal em questão deveria utilizar o seu escudo cefálico adornado e em formato de coração.

“Perifania” vem do grego e significa “orgulho”.  Supostamente nomes de origem grega ou latina deveriam ser utilizados para denominar gêneros e espécies, no entanto Longrich argumenta “que se pode fazer boa ciência e ainda ter um pouco de diversão. Não é mesmo?”.

Mojoceratops trata-se de mais um Chasmosaurinae. Seus restos foram resgatados em Alberta, Canadá, na região do Dinosaur Provincial Park. As rochas desses depósitos datam de 75 milhões de anos.

Os exemplares estudados por Longrich estavam depositados no museu de História Natural de Nova York, aonde ele vinha estudando a coleção de fósseis desde 2008. Ele notou algumas características diferentes em alguns espécimes classificados supostamente como Chasmosaurus, incluindo chifres mais longos que o usual e adornos peculiares no escudo cefálico. Algumas viagens a museus no oeste do Canadá ajudaram a confirmar a sua hipótese. Somam-se até agora 8 crânios parciais da nova espécie.



É uma surpresa que depois de tanto tempo de estudo com fósseis da região do Dinosaur Provincial Park, uma nova espécie de dinossauro de grande porte seja descoberta. A fauna dinossauriana dessa região tem se mostrado a mais diversa de todo mundo, e até agora se procuram explicações convincentes de porque isso teria se dado.

Medusaceratops lokii Ryan et al. 2010


Do Cretáceo de Montana, Canadá, da famosa Formação Judith River, Medusaceratops um Chasmosaurinae de 7 metros de comprimento e 2 toneladas vem encerrar esse post sobre os Ceratopsia.

“Medusa”, do grego, faz alusão ao monstro mitológico da Grécia com cabelos de serpente, já “Loki”, ao deus nórdico da trapaça e travessura, fazendo referência ao quão difícil foi para os pesquisadores identificarem o animal.

Apesar de recém descrito, o dinossauro foi encontrado 15 anos atrás por uma companhia comercial de fósseis contratada para analisar um afloramento numa fazenda ao longo do Milk River na fronteira dos Estados de Alberta e Montana. A partir daí, demoraram anos até que a nova espécie fosse diferenciada de outra similar, encontrada um pouco mais ao norte – Albertaceratops – , além de outras aparentadas da mesma família.

Ryan, o pesquisador que coordenou o estudo, destaca o fato de que materiais de bone-beds, como o da região, são muito difíceis de serem trabalhados. Por serem em geral desarticulados e fragmentados, dificultam imensamente o processo diagnóstico e outros tipos de análises mais derivadas.

Medusaceratops coloca-se como um representante basal dos Chasmosaurinae, mas num ramo diferente dos Albertaceratops.

Apesar de fabuloso, o escudo cefálico de Medusaceratops provavelmente não era utilizado para a defesa contra predadores, mas como uma propaganda para atrair parceiros, destacam por fim os pesquisadores.

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Ainda estamos em julho… o que mais virá????
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“New Perspectives on Horned Dinosaurs” livro editado por Michael J. Ryan, Brenda J. Chinnery-Allgeier e Davis A. Eberth, resultado do Royal Tyrrel Museum Ceratopsian Symposium é a referência de maior destaque do ano para esse fantástico grupo de dinossauros. Clique aqui para acessá-lo parcialmente no google books.
Não só várias espécies de novos ceratopsianos são ali descritas (como alguns dos aqui citados), mas várias novidades no estudo desses dinossauros. Em próximas/breves oportunidades podemos voltar ao assunto.

>Morrinhosuchus luziae, mais um bizarro crocodilomorfo do Cretáceo brasileiro

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Recentemente mais um novo crocodilomorfo notossúquio foi descrito para o Cretáceo do Brasil:  Morrinhosuchus luziae.

Morrinhosuchus foi descrito com base em um espécime encontrado no município de Monte Alto, SP, e  vem juntar-se à família das bizarrices crocodilianas da Bacia Bauru.

Notossúquios foram crocodiliformes que viveram durante o Período Cretáceo (110-65 m.a.a.). Seus fósseis são encontrados na América do Sul, África e Ásia. Eram animais essencialmente terrestres que apresentavam características peculiares adaptadas a esse estilo de vida, como um crânio alto e lateralmente achatado, narinas externas e em posição frontal, órbitas lateralmente localizadas, redução no número de dentes e membros mais desenvolvidos à locomoção cursorial. Ocuparam variados nichos ecológicos, com formas carnívoras, onívoras e possivelmente até herbívoras, tendo atingido variados tamanhos. A partir disso, não é difícil de concluir que se verifica uma considerável variação morfológica entre as espécies desse grupo, principalmente no crânio e em especial nos padrões de dentição, que incluem heterodontia e alta especialização dentária.

A Bacia Bauru, de onde proveio o espécime de Morrinhosuchus, é uma bacia sedimentar que se distribui no Brasil pelos estados de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Minas Gerais e Goiás. No total ela abrange uma área de aproximadamente 370 000 Km2.  Sua sedimentação ocorreu num ambiente de clima quente, semi-árido nas bordas e desértico no interior. A principal fase de deposição se deu durante o Cretáceo Superior entre o Coniaciano e o Maastrichtiano.

Mapa geológico da Bacia Bauru

Já haviam sido descritas formalmente para essa bacia 10 espécies de crocodiliformes – Sphagesaurus huenei, Mariliasuchus amarili, Adamantinasuchus navae, Mariliasuchus robustus, Sphagesaurus montealtensis, Armadillosuchus arrudai,Baurusuchus salgadoensis, Baurusuchus pachecoi, Stratiotosuchus maxhechti, Uberabasuchus terrificus e Montealtosuchus arrudacamposi -, uma forma mais extraordiária que a outra. O último deles a ser publicado foi, Armadillosuchus arrudai, ou “crocodilo-tatu” como foi apelidado. O apelido se baseia em algumas características peculiares do animal, como a couraça de proteção em seu dorso.

Voltando a Morrinhosuchus, apesar de ter sido descrito com base em somente um espécime, constituído apenas das regiões distais do crânio e mandíbula, os autores puderam identificar uma série de características relevantes para a definição de uma nova espécie.

Ele apresenta uma morfologia dentária semelhante à encontrada no gênero Mariliasuchus, com dentes globosos, porém de arranjo distinto. A estrutura  geral do rosto, que se mostra bastante alta e estreita, também sublinha  diferenças. Esse animal vem ampliar a diversidade de formas de notossúquios gondwânicos e contribuir para o conhecimento faunístico e dos ecossistemas cretácicos da Bacia Bauru.

Reconstituição de Morrinhosuchus por Deverson da Silva


Parabéns Fabiano! Abraço dos Colecionadores!


IORI, F.V. & CARVALHO, I.S. 2009. Morrinhosuchus luziae, um novo Crocodylomorpa Notosuchia da Bacia Bauru, Brasil. Revista Brasileira de Geociências, 39(4): 717-725.

>O Maranhão no tempo dos dinossauros

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PARTE I –A ILHA DO CAJUAL

Essas semanas sem postagens têm uma boa justificativa…

Recentemente os colecionadores de ossos estiveram reunidos no Estado do Maranhão para uma viagem no tempo. Estivemos todos mergulhados no Cretáceo maranhense em busca dos famosos fósseis da Ilha do Cajual.

A Ilha do Cajual já é lendária na paleontologia. Além de ser cenário inspirador com seu ar pré-histórico, ela guarda um dos mais importantes afloramentos fossilíferos do país, com mais fósseis de dinossauros por metro quadrado do que qualquer outro no território nacional.

Sua geologia e paleontologia são peculiares e no post de hoje vamos resumir um pouco dessa história fascinante.

Antes de iniciar essa viagem no tempo com vocês, não podemos deixar de destacar nossos agradecimentos ao Prof. Manuel Alfredo Medeiros e a toda equipe de paleontologia da UFMA, e sublinhar aqui também, com admiração, o seu fantástico empenho e trabalho na região.

A Bacia de São Luís-Grajaú

A Bacia de Grajaú se estende por grande parte do Estado do Maranhão. Ela foi atrelada à Bacia de São Luís, ao norte, por considerar-se afinidades no seu arcabouço estrutural e na natureza de seu preenchimento sedimentar. Estudos demonstram ainda, que estas bacias se comportaram como depressões individualizadas somente até o Albiano (meados do Cretáceo, entre 113 e 97 milhões de anos atrás), quando então passaram a se comportar como uma única grande bacia sedimentar.

Localização das Bacias São Luís – Grajaú

A Bacia de São Luís-Grajaú tem sua origem relacionada em parte devido ao processo de fragmentação do Gondwana e a separação da América do Sul e a África. Sua área total é de 250 000 km2, com uma parcela expressiva englobando o Estado do Maranhão. Sua seqüência sedimentar é predominantemente de idade cretácica e é bastante espessa, chegando a alcançar 4000 m em algumas localidades.

O Grupo Itapecuru

O Grupo Itapecuru, no topo da seqüência sedimentar da Bacia de São Luís-Grajaú, é composto por 3 unidades litoestratigráficas depositadas durante o Eocretáceo (início do Albiano, 113 milhões de anos atrás) até o fim do Neocretáceo e início do Paleógeno (65 milhões de anos atrás). Essa sucessão de estratos contém um importante registro fóssil de vertebrados, muito promissor para pesquisas paleontológicas.

A Formação Alcântara

A Formação Alcântara, unidade litoestratigráfica predominante em exposição no litoral maranhense, contém a mais diversificada fauna de vertebrados fósseis conhecida do grupo Itapecuru.
É de idade Albiana-Eocenomaniana (Cretáceo Médio – entre 113 e 95 milhões de anos atrás) e é composta por um conjunto de arenitos estratificados, folhelhos sílticos, com a presença de lentes de calcário e eventuais conglomerados, estes formados por processos de tempestades de grande intensidade e, subordinariamente, correntes de maré em ambientes marinhos rasos transicionais.

A Ilha do Cajual e a Laje do Coringa

A Ilha do Cajual está localizada no lado oeste da Baía de São Marcos, próximo a cidade de Alcântara, MA. Essa ilha abriga o afloramento da Laje do Coringa, o mais fossilífero dos níveis da Formação Alcântara.

 
Localização da Ilha do Cajual

A Laje do Coringa localiza-se na borda oriental da ilha. Descoberta em 1994, ela é reconhecida como um bone-bed: Uma área com elevada concentração de fósseis de por metro quadrado. Ela concentra mais fósseis dinossauros por unidade de área do que qualquer outro afloramento do país. Têm cerca de 4 hectares e contém uma grande variedade de formas dinossaurianas, além de restos de peixes, crocodilos, quelônios, pterossauros e diferentes formas vegetais. Reúne uma mistura de fauna marinha e continental, documentando um paleoambiente típico costeiro.

A fauna que habitou o norte-nordeste brasileiro durante o meso-cretáceo e que está representada no registro fossilífero da Ilha do Cajual e imediações é muito similar à fauna africana da mesma época. A composição faunística abrange dinossauros saurópodes (Grandes herbívoros com cauda e pescoço comprido – Titanosauridae, Andesauridae e Diplodocoidea) e terópodes (dinossauros bípedes predadores – Carcharodontosauridae, Spinosauridae e Dromeosauridae), além pterossauros, crocodilomorfos, plesiossauros (répteis marinhos de pescoço comprido), quelônios e numerosas ocorrências de peixes, tanto ósseos quanto cartilaginosos (Lepidotes, Mawsonia, tubarões hybodontiformes, peixes pulmonados e raias Sclerorhynchidae). Quanto a paleoflora são comuns troncos de coníferas, que deviam atingir mais de 20 m de altura, associados a samambaias arborescentes com 3 m de altura e equisetos (tipo de planta primitiva a grosso modo parecida com o Bambu), que se alastravam pelas margens dos rios e lagos compondo uma espécie de mata ciliar. 


O clima da região era de árido à semi-árido, com uma temperatura média de 45 graus Celsius, mas ainda assim comportava bolsões de vegetação luxuriosa confinados às proximidades dos cursos d’água.


Os fósseis da Laje do Coringa, via de regra são encontrados desarticulados e por terem sofrido processo de retrabalhamento, apresentam diferentes graus de desgaste. Quanto a materiais de dinossauros, por exemplo, são comuns centros vertebrais isolados de seus respectivos complexos neurais, fragmentos de ossos longos em geral não identificáveis e dentes. A gênese da Laje do Coringa é interpretada como tendo se dado em um contexto marinho raso, que reuniu elementos retrabalhados de diferentes fontes, com pelo menos algumas delas de origem fluvial. Os elementos isolados e desgastados tem utilidade limitada nas diagnoses, entretanto quando se dispões somente destes elementos para identificação, um esforço extra tem que ser feito para se realizar um diagnóstico efetivo.


Icnofósseis de vertebrados e invertebrados também são comuns. A grande quantidade de coprólitos encontrada poderia, segundo Prof. Manuel Alfredo, ser relacionada principalmente a pterossauros. Ele argumenta que é possível que o local abrigasse um grande ninhal, dado a grande quantidade de dentes e coprólitos desses animais encontrados ali.


Dos peixes são comuns escamas e dentes, mas também fragmentos ósseos do crânio, em especial de Mawsonia. Os exemplares de Mawsonia da região, devido a proporção dos ossos encontrados, deveriam apresentar tamanhos descomunais, maiores de 3 metros de comprimento. As tartarugas são representadas por placas ósseas da carapaça e plastrão, os crocodiliformes por dentes e placas ósseas e os plesiossauros (répteis marinhos) por raros dentes isolados. 


As coníferas, pteridóftas e equisetaceas são representadas pela preservação de suas porções mais lignificadas, como troncos e frondes.

Reconstrução do cenário cretácico maranhense por Felipe Elias. Representados: Dinossauro terópode Spinosauridae, Peixe (Mawsonia), dinossauro saurópode Titanosauridae e crocodilomorfo (Candidodon).

A Laje do Coringa fica imersa 2 metros embaixo d’água durante a maré cheia. Ela fica exposta somente algumas horas durante o dia. Nesse período é possível percorrer a pé o tapete de fósseis e se surpreender com a quantidade de material coletado em poucas horas.

Infelizmente, com a ação do maré, bancos de areia estão cobrindo a laje e a cada subida da mesma, várias partes da rocha se soltam. É um processo natural, mas que infelizmente destrói muitos fósseis e vem tornando inacessível algumas partes do afloramento.

Uma grande coleção de fósseis da Laje do Coringa e outros afloramentos da Formação Itapecuru da Ilha do Cajual estão depositados no museu da UFMA, em São Luís, outros, abrigados no Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão. É típica a sua coloração escura, de castanho a negro e seu aspecto desgastado, de quem sobreviveu a mais de 95 milhões de anos de história….

Os fósseis maranhenses ajudam a reforçar uma importante interpretação da história dos continentes. A similaridade faunística entre o norte maranhense e o norte africano em meados do Cretáceo, nos ajuda a entender que um dia estes continentes já estiveram unidos em um único bloco de terra emersa: o Gondwana. “Seria impossível explicar esta similaridade entre as faunas se considerássemos que a posição dos continentes sempre foi a mesma que hoje. Temos que admitir que a África e a América do Sul já estiveram unidas num passado remoto”,  destaca o paleontólogo Manuel Alfredo Medeiros (UFMA).

Referências Bibliográficas

Medeiros M.A. & Schultz C.L. 2002. A fauna dinossauriana  da “Laje do Coringa”, Cretáceo Médio do Nordeste do Brasil. Arquivos do Museu Nacional, 60:155-162.

Medeiros M.A. & Schultz C.L. 2001. Uma paleocomunidade  de vertebrados do Cretáceo médio, Bacia de São Luís. In: Rossetti D.F., Góes A.M., Truckenbrodt W. (eds.) Cretáceo na Bacia de São Luís-Grajaú. Coleção Friedrich Katzer, Ed. Museu Paraense Emílio Goeldi, p. 209- 221.

Medeiros, M.A. 2003. Terra de Gigantes. Produção independente, 69 p.

Rossetti D.F. 2001. Arquitetura deposicional da Bacia de São Luís-Grajaú. In: Rossetti D.F., Góes A.M., Truckenbrodt W. (eds.) O Cretáceo na Bacia de São Luís-Grajaú. Coleção Friedrich Katzer, Ed. Museu Paraense Emílio Goeldi, p. 31-46.