Estréia: PaleoCast !!

Expedição Araripe – Parte 1 / Araripe Expedition – Part 1

Idioma Português, legendas em Inglês.

Licença Creative Commons
PaleoCast de Colecionadores de Ossos & Titossauro.com é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Baseado no trabalho em titossauro.com.

 

Nós já vínhamos pensando em desenvolver um canal de VideoCasts há um bom tempo… mas é claro: havia uma série de empecilhos. Para começar, o tempo do qual dispunhamos para organizar isso, segundo, a vergonha, terceiro, o material (“mas que câmera horrível!”, “eu não sei mexer nesse programa!”, “putz, que amador!”) e quarto, o medo de não dar certo.

É claro que isso não ia levar a gente a lugar nenhum… Então, já que tudo tem que ter um ponta-pé inicial, arregaçamos as mangas, enchemos o peito de coragem e deixamos de nos preocupar com o amadorismo nesse primeiro momento.

O resultado??

Bom, aqui está – depois de algumas crises – o nosso primeiro videocast!!!!!!!!

Resolvemos batizar o canal de PaleoCast, para não perder o costume dos paleontólogos de utilizarem esse sufixo para tudo. Este será nosso canal de multimídia de agora em diante e procuraremos sempre  trazer novidades. A idéia é fazer documentários que mostrem a Paleontologia brasileira na prática e de forma descontraída.

Para estrear o PaleoCast, iremos apresentar o capítulo introdutório de um documentário que gravamos em nossa última saída de campo ao Cariri. Ele será dividido em vários capítulos de 5 minutos cada um.

A expedição foi realizada em busca de fósseis na Chapada Araripe, no interior do nordeste brasileiro.

Filmamos e editamos esse material com orçamento zero, pelo simples prazer de divulgar conhecimento. =)

Esperamos que gostem!! Os erros se consertam com o tempo!

O sertão no tempo dos dinossauros – Parte 1

Qualquer viagem ao passado precisa começar em algum lugar aonde encontramos evidências de tempos antigos ou de vidas passadas, como por exemplo: a tumba de um faraó, o leito de morte de um mastodonte ou ainda um cemitério de trilobitas… É verdade também, que qualquer viagem no tempo começa, geralmente, em algum lugar empoeirado, muito frio ou muito quente e – quase sempre – …  distante.

Essa nossa viagem no tempo nos levou por quase 2.200 km de estradas Brasil a dentro, para um lugar muito quente, onde a água que cai do céu é um verdadeiro tesouro. Chegamos lá na estação das chuvas, todavia, eu mesma – que já estive lá por outras vezes – nunca vi o Sertão tão verde.

Rumo aos fósseis. Foto de Aline Ghilardi

O interior do nordeste brasileiro guarda pedaços de vários momentos da história geológica de nosso planeta. É o paraíso de qualquer geólogo ou paleontólogo. Trata-se de um lugar tão especial, que foi escolhido para abrigar o primeiro Geopark brasileiro: o Geopark Araripe.

A história que esta terra semi-árida guarda é tão fantástica, que parece até ironia do destino: a profecia de que “o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão“, sim, é verdadeira. Na escala do tempo geológico isso é quase uma brincadeira…

Neste mês, vocês terão a oportunidade de acompanhar aqui no “Colecionadores” uma série de pequenos posts sobre a paleontologia do nordeste brasileiro. Vamos falar um pouco sobre a diversidade e a peculiaridade desse patrimônio nacional e esperamos que isso ajude a formar uma identidade entre o povo  e mais um tipo riqueza natural que muitos poucos reconhecem…

O sertão no tempo dos dinossauros – Parte 1

Nós, paleontólogos, cientistas que estudamos o passado remoto, damos a lugares com evidências de vidas antigas, uma multiplicidade de nomes: Afloramentos, seções estratigráficas, exposições, estratos, camadas…etc. Todos são nomes para indicar rochas que possivelmente abrigam fósseis e que, por muito tempo, esconderam segredos do passado.

Lugares assim são muito comuns, o que são raros mesmo são o que chamamos de ‘afloramentos-modelo’. Aqueles, cujos estratos guardam muitos fósseis ou fósseis bem preservados, bem articulados e sob todos os aspectos, considerados excepcionais

O nordeste brasileiro possui lugares assim. Hoje vamos conhecer um deles, os conhecidos afloramentos do Membro ou Formação Crato (o título depende da proposta litoestratigráfica que você adotar…).

O Membro Crato representa um dos estratos da Formação Santana, unidade estratigráfica da bacia sedimentar do Araripe* (Veja imagem). Seus fósseis são conhecidos internacionalmente e posso apostar, que você, com certeza, já deve ter visto um….

Cladocyclus, peixe fóssil do Membro Crato, Formação Santana - Por Aline Ghilardi

Desenho esquemático e localização da Bacia do Araripe

A qualidade de preservação de seus fósseis é tão impressionante, que detalhes da pele ou dos órgãos internos dos organismos ficaram conservados. Além do mais, é muito comum também a preservação de impressões de membranas alares de pterossauros, penas de aves (ou dinossauros) e o padrão de coloração das asas de insetos fósseis.

Libélula fóssil, procedente do Membro Crato, Fm. Santana

Depósitos com essa qualidade são conhecidos como Lagerstätte. Uma denominação de abrangência internacional, que caracteriza depósitos fossilíferos excepcionais (assim como aquele aonde foi encontrado o Archaeopteryx - o primeiro dino-ave com penas conhecido).

A idade do Membro Crato foi atribuída como pertencente ao Cretáceo, o último período da ‘Era dos Dinossauros’ (A Era Mesozóica). Com base em estudos aplicados de estratigrafia, acredita-se que os  seus estratos sejam, mais especificamente, de idade Aptiana-Albiana (~120 milhões de anos).

O que tudo nos indica é que a região aonde hoje são encontrados estes fósseis, tenha sido, no passado, um enorme lago, que em alguns pontos poderia atingir mais de 50 km de extensão (!).

Insetos fósseis procedentes do Membro Crato, Fm. Santana

Este paleo-lago apresentava condições perfeitas para preservação de fósseis: águas calmas e um fundo anóxico (com ausência de oxigênio), que impedia a ação de bactérias na decomposição dos cadáveres de organismos.

São comuns fósseis de peixes (principalmente do gênero Dastilbe), insetos, aracnídeos, moluscos, crustáceos, quelônios, anfíbios, pterossauros, crocodilos, lagartos e aves, assim como fósseis de vários tipos de vegetais (algas, gimnospermas e angiospermas).

A unidade é hoje caracterizada por calcários laminados de coloração amarela a creme, avermelhada ou cinza, com estratificação plano-paralela. A sua beleza atraiu desde o início muitos mineradores, que ainda hoje extraem as rochas para o uso na construção civil – principalmente de aplicação ornamental (utilização como azulejos).

De forma cotidiana, essas lajes de pedra são conhecidas como “Pedras Cariri”.

Pedreira de extração das "Pedras Cariri". Ao fundo, o afloramento. Foto por Aline Ghilardi.

A região de ocorrência desses afloramentos engloba o entorno da Chapada do Araripe, principalmente o interior do estado do Ceará.

Destacam-se os arredores das cidades de Santana do Cariri, Nova Olinda, Crato, Barbalha, Missão Velha, Porteiras e Jardim.

Continua….

Leia mais sobre isso na publicação feita pelo do SIGEP: http://sigep.cprm.gov.br/sitio005/sitio005.pdf

Paleocurtas! Duas novidades do mundo da Paleontologia!

Uma nova espécie de mamífero fóssil foi encontrada e para surpresa: ela parece o Scrat da série de filmes ‘Era do Gelo’! Cara de um, focinho do outro. Além disso, temos uma novidade brasileira: mais um dinossauro tupiniquim. Confira: Aelosaurus maximus, mais um titã do Brasil.


Encontraram o fóssil do Scrat !?



Acima: Foto do personagem Scracth, dos filmes “Era do Gelo”. Direitos autorais da 20th Century Fox.

É fato que foi publicado ainda esta semana na revista Nature, um trabalho descrevendo um pequeno mamífero muito semelhante ao bichinho engraçado dos filmes da série “Era do Gelo”. O crânio do pequeno animal foi encontrado em afloramentos do início do Cretáceo Superior, em camadas de aproximadamente 93 milhões de anos, em uma região conhecida como “La Buitrera”, localizada na belíssima província de Río Negro, sul da Argentina. 

O que assemelha o novo mamífero cretácico ao carismático esquilo da “Era do Gelo”, são os formidáveis “dentes de sabre” e o longo focinho. Todavia, o novo animalzinho tem muito pouco a ver com o personagem do desenho animado. Ele pertence a um grupo de mamíferos extintos não aparentado com nenhuma espécie vivente e nem de longe enfrentou a temida Era do Gelo de Scrat: Dezenas de milhões de anos separam as glaciações pleistocênicas do pequeno mamífero cretácico argentino. Ah! E naquela época não existiam bolotas de carvalho…


Imagens originais do artigo ilustrando o crânio do novo mamífero do Cretáceo argentino
A respeito da idade do animalzinho, ele traz um panorâma novo para a idade cretácica sulamericana. Antes da presente descoberta, conheciam-se apenas mamíferos do início desse período geoglógico na América do Sul. Com a descoberta de Cronopios dentiacutus, como foi batizado o novo animal, temos uma idéia de como teria sido um momento diferente dentro do Cretáceo sulamericano para os mamíferos.

Reconstituição artística de como seria em vida Cronopio dentiacutus, por Jorge Gonzalez
Sobrevivendo entre os gigantes dinossauros patagônicos, especialmente os colossais saurópodes, o animal seria diminuto. Teria uma dieta insetívora, a julgar pelos seus dentes peculiares, e muito provavelmente apresentaria hábitos noturnos.

Os paleontólogos Guillermo Rougier, Sebastián Apesteguía e Leandro Gaetano descreveram o novo material com base apenas em evidências craniais e o batizaram como Cronopio em homenagem ao escritor Belgo-Argentino, Cortázar – Cronópio é um personagem conhecido dos livros desse autor.

Cronopio dentiacutus pertenceu a um grupo de mamíferos extintos chamados de ‘Dryolestóides’ e é peculiar por apresentar uma dentição muito especializada. Está proximamente relacionado com formas do Jurássico da Laurásia, porém denota um possível endemismo de formas gondwanicas que deve ser melhor revelado com a continuidade das prospecções fossilíferas mundo a fora.


Novo dinossauro brasileiro!! Aelosaurus maximus

Materiais de titanossauros são elementos muito comuns na Bacia Bauru. Essa unidade geológica de idade cretácica cobre uma extensa área do país, incluindo os estados de São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. O novo dinossauro é paulista. Foi encontrado no interior do estado, em uma cidade já famosa pelos fósseis de dinossauro: Monte Alto.

A história desse bicho é antiga. Ele foi encontrado há muitos anos pelo Prof. Antônio Celso de Arruda Campos e sua equipe do Museu de Paleontologia de Monte Alto, que tiveram um árduo trabalho para recuperar o material. Os fósseis estão em exposição no museu da pequena cidade há anos, porém só agora, o paleontólogo Rodrigo Santucci o descreveu formalmente como um novo animal.


Finalmente com identidade, pela primeira vez formaliza-se, com vasta descrição, a presença de titanossauros do grupo Aelosaurini no Brasil. O novo animal foi batizado de Aelosaurus maximus. Maximus‘ devido ao seu tamanho.

Muitos trabalhos já haviam citado informalmente a presença de ‘aelossauros’ em território brasileiro, porém este é o primeiro que discute a questão de forma ampla e fornece inclusive um novo panorâma filogenético para esse grupo de dinossauros saurópodes como um todo.  Esses animais foram primeiramente encontrados na região patagônica da Argentina e o gênero Aelosaurus já é até mesmo conhecido. A. maximus seria apenas uma nova espécie dentro desse gênero, que inclui outras duas de nacionalidade ‘hermana’.


Parabéns ao colega Rodrigo e a toda equipe do Museu de Paleontologia de Monte Alto!!!

Acima: Reconstrução de Aeolosaurus. Direitos autorais do Museu de História Natural de Londres.
Acima: Localização dos achados e fósseis de Aeolosaurus maximus, a disposição dos fósseis como foram encontrados no afloramento e a reconstituição do animal evidenciando os elementos ósseos encontrados. Santucci & Arruda-Campos, 2011.


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Bibligrafia:

Rougier, G.W.; Apesteguía, S. & Gaetano, L. C. 2011. Higly specialized mammalian skulls from the Late Cretaceous of South America. Nature, 479, 98-102.

Santucci, R.M. & Arruda-Campos,A.C. 2011. “A new sauropod (Macronaria, Titanosauria) from the Adamantina Formation, Bauru Group, Upper Cretaceous of Brazil and the phylogenetic relationships of Aeolosaurini”. Zootaxa 3085.

>A fauna do Paleo-deserto Botucatu – O Paleo-deserto Botucatu, Parte II

>

“O paleodeserto Botucatu foi um gigantesco deserto de dunas, que existiu durante o final do Período Jurássico (145 milhões de anos atrás) e começo do Período Cretáceo (há 130 Milhões de anos), quando os atuais continentes do hemisfério sul ainda estavam reunidos formando o chamado mega-continente austral Gondwana. Este antigo deserto abrangia algo como 1.500.000 Km² e se estendia desde o Estado de Minas Gerais até o Uruguai – em latitude – e da Bolívia até onde antes estava acomodada a África, na costa leste brasileira… Tratava-se de uma verdadeira imensidão de areia, com um clima seco rigoroso e condições aparentemente pouco propícias à vida…. mas apenas aparentemente… – Veja a primeira parte desta reportagem AQUI.

Reconstituição artística do antigo ambiente do deserto Botucatu por Ariel Milani.
Em um lugar perdido em um pretérito tão remoto, numa era de animais tão diferentes, a curiosidade nos leva a perguntar: que tipo de criaturas viveram em condições tão adversas? É sobre isso que vamos tratar neste post do Colecionadores de Ossos.

Em um ambiente extremamente árido como foi o deserto do Botucatu, dificilmente são preservados fósseis de restos corporais de animais, tais como, ossos ou conchas…… Quanto a partes moles, então, nem pensar. Desta forma, a única maneira de saber quais animais viviam nesse deserto é por meio dos icnofósseis.

Icnofósseis, de forma geral, são registros de um comportamento de um determinado organismo que acabaram por ser preservados em um substrato que, depois de passar por processos químicos e físicos (Litificação), veio a tornar-se rocha.

Os tipos de icnofósseis mais comuns na Formação Botucatu (conjunto de rochas que representam hoje o antigo deserto Botucatu) são pegadas de vertebrados e invertebrados e evidências de alimentação de invertebrados endoestratais (“de dentro do substrato” ou “escavadores”).
Exemplos de comportamento que produzem icnofósseis: locomoção, alimentação, descanso, reprodução, etc. Exemplos de tipos de icnofósseis deixados por estes comportamentos: pegadas, perfurações, ovos, coprólitos (fezes fósseis), etc.

Os icnofósseis na Formação Botucatu são raros em alguns níveis. No entanto, existem estratos onde eles são extremamente abundantes, como por exemplo, aqueles que afloram nas cidades de São Carlos e Araraquara, no interior do Estado de São Paulo. Acredita-se que esta abundância relativa de rastros nas imediações destas cidades seja porque na época em que o antigo Deserto Botucatu existiu, haviam diversos oásis espalhados pela imensidão de areia. Estes abrigavam uma diversificada fauna e atraíam animais a procura de água. A existência destes oásis é corroborada com a própria preservação das pegadas, favorecida somente por causa da umidade.
Mas agora a pergunta que não quer calar: quem eram esses animais?
PERIGO !!!!. Apesar de ser irresistível e tentador atribuir um organismo produtor a icnofósseis… temos que tomar muito cuidado ! Não foram raras as vezes em que a atribuição de produtores a um determinado icnofóssil se mostrou totalmente equivocada, principalmente em se tratando de rastros de invertebrados. Pode-se dizer que, na icnologia de vertebrados isso é mais aceitável, afinal existe uma diferença mais conspícua entre os rastros de um dinossauro e de um mamífero , e dificilmente, eles produziriam um rastro semelhante – ainda assim isso poder acontecer… Entretanto, entre os invertebrados isto é comum, ou seja, grupos de invertebrados pouco aparentados – muito diferentes – podem produzir marcas muito semelhantes e, um mesmo grupo de animais – até mesmo da mesma espécie! – podem produzir rastros muito diferentes. Pense nisto!

Quando não existem fósseis de restos corporais, como é o caso do deserto do Botucatu, os cientistas recorrem, com muita parcimônia e cuidado, aos icnofósseis para saber que animais viviam naquele lugar.
Talvez o mais interessante sobre o Deserto Botucatu seja que, apesar de ser um deserto de mais de 130 milhões de anos, ele se parecia muito com um deserto atual, exceto pelas espécies hoje extintas, claro. Ele abrigava uma fauna adaptada ao ambiente desértico com uma composição semelhante ecológica a que vemos em desertos contemporâneos… vamos ver por quê.
Começando do alto da cadeia alimentar:
Hoje, esta posição é ocupada por mamíferos carnívoros de maior porte, répteis diversos e dinossauros terópodes do grupo dos coelurossauros com penas – as aves! Outrora, no antigo deserto, era ocupada também por dinossauros terópodes, como as aves atuais, mas por representantes de ramos ancestrais hoje extintos. A figura 1 mostra uma pegada de terópode coelurossaurídeo encontrado na Fm. Botucatu. Esta pegada apresenta um comprimento maior do que a sua largura, três dígitos com evidência de garras, sendo o dígito do meio o maior de todos.
Figura 1 – Pegadas de dinossauros atribuídas a Theropoda Coelurosauria encontradas na Formação Botucatu (Fotografias por Marcelo Adorna Fernandes).
Habitando o antigo deserto, ainda, poderia ser encontrado outro grupo de terópode, e sabemos disso por causa da presença de outro tipo de pegada. Estas também com os três dígitos, também com marcas de garras, porém os dedos mais espaçados: características típicas do grupo dos carnossauros (Figura 2). Veja a diferença.
Figura 2 – Pegadas de dinossauros atribuídas a Theropoda Carnossauria encontradas na Formação Botucatu (Fotografia por Marcelo A. Fernandes).
Os carnossauros, e também os coelurossaros, de fato estariam no topo da cadeia alimentar, já que são os maiores organismos carnívoros identificados no registro icnológico.
Existem evidências também de dinossauros herbívoros do grupo dos ornitópodes. Animais bípedes, reconhecidos por pegadas tão compridas quanto largas, com três dedos de extremidades arredondadas (sem marcas de garras), como mostrado na figura 3.
Figura 3 – Pegadas atribuídas a dinossauros ornitópodes encontradas na Formação Botucatu (Fotografia por Marcelo Adorna Fernandes).
E como não poderia deixar de ser dito, destoando da maioria das pegadas de dinossauros geralmente encontradas – todas de porte pouco avantajado – foi encontrada ainda uma trilha muito curiosa pelo tamanho do seu produtor. As pegadas gigantes seriam atribuídas a um grande dinossauro ornitópode, e foram encontradas pelo Prof. Dr. Marcelo Adorna (Figura 4). É muito estranho encontrar pegadas de um animal herbívoro tão grande em um lugar com tão poucos recursos vegetais para sustentá-lo.
Figura 4 – Pegadas atribuídas a um grande dinossauro ornitópode encontradas na Formação Botucatu. Ao fundo o Professor Marcelo Adorna, um grande estudioso dos icnofósseis desta Formação.
Nos desertos atuais existem ainda pequenos mamíferos muito bem adaptados às árduas condições dos ambientes desérticos. No deserto do Botucatu não faltavam estes animais. Eles ocupavam uma posição intermediária na cadeia alimentar, como as várias espécies de roedores atuais. A figura 5 mostra os característicos rastros deixados por eles. A figura 6 mostra uma cena que seria comum quando o deserto do Botucatu existia: uma interação entre dinossauro e um mamífero da época.
Figura 5 – Rastros identificados como Brasilichnium elusivum - atribuídos a mamíferos de pequeno porte – encontrados na Formação Botucatu (Marcelo Adorna Fernandes). Escala = 10cm.

Figura 6 – Uma interação comum entre um representante do grupo dos Dinossauros Theropoda e um mamífero durante o final do Jurássico, começo do Cretáceo, na região que compreendia o deserto do Botucatu.
Figura 7 – Reconstrução do paleoambiente durante o final do Jurássico, começo do Cretáceo, no deserto do Botucatu, com integrantes comuns da sua fauna: escorpiões, insetos e pequenos mamíferos.
Atualmente é muito comum encontrar em desertos diversos grupos de artrópodes adaptados a ambientes áridos, tais como, aranhas, escorpiões e variados insetos….. no Deserto Botucatu não era diferente. Existem icnofósseis atribuídos a esses animais que atestam a existência pretérita de animais muito semelhantes aos atuais no paleo-deserto (Figura 7).

Entre os invertebrados, além dos que deixam marcas na superfície (epiestratais), existem também registros de Taenidium isp, que consistem em escavações sinuosas e meniscadas (em forma de menisco) atribuídas a anelídeos ou insetos coleópteros (Figura 8).

Figura 8 – Rastros identificados como Taenidium isp. Atribuídos a invertebrados (anelídeos ou insetos). Esta laje em especial antes de ser tombada no Museu de Hist;oria Natural Prof. Dr. Mário Tolentino, na UFSCar, era usada como pavimentação de uma calçada na cidade de Araraquara, SP.
Esses invertebrados poderiam ter servido de alimento para os mamíferos, já que estes animais conviveram juntos.

Os rastros fósseis do Botucatu são um testemunho muito interessante sobre um ambiente bastante particular do passado: um colossal deserto com dunas esparsamente pontuadas de oásis. Conhecer a diversidade biológica deste lugar é um desafio por causa da escassez de restos corporais preservados de animais e plantas. Até agora, apenas troncos fóssilizados foram encontrados, todos retirados da região de Minas Gerais.
Estes indicam a presença de gimnospermas, plantas do grupo dos pinheiros e araucárias. Já quanto a fauna, representativos e bem preservados icnofósseis nos permitem obter uma sólida idéia de como seria o cenário Juro-cretácico. Eles fornecem uma verdadeira e fantástica janela para que possamos vislumbrar a vida e as interações dos habitantes daquele ambiente passado.
Referências Bibliográficas
FERNANDES, M. A. Paleoicnologia em ambientes desérticos: análise da icnocenose de vertebrados da pedreira São Bento (Formação Botucatu, Jurássico Superior – Cretáceo Inferior, Bacia do Paraná), Araraquara, SP. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza. Instituto de Geociências. Rio de Janeiro, 2005.


FERNANDES, M. A.; CARVALHO, I. DE S. Revisão diagnóstica para a icnoespécie de tetrápode Mesozóico Brasilichnium elusivum ( Leonardi , 1981 ) ( Mammalia ) da Formação Botucatu , Bacia do Paraná , Brasil. Ameghiniana, v. 45, n. 1, p. 167-173, 2008.


FERNANDES, A. C. S.; CARVALHO I DE S.; NETTO, R. G. Ichnofósseis de invertebrados da Formação Botucatu, São Paulo (Brasil). Anais da Academia Brasileira de Ciências, v 62, n. 1, p. 45 – 49, 1990

A seguir, continuando a série de artigos sobre a Icnologia da Formação Botucatu: Um estranho gigante nas dunas e Xixi de dinossauro.

>Novos vertebrados do Mesozóico brasileiro – Começamos bem 2011!

>

Depois do anúncio de Tapuiasaurus em fevereiro, somam-se à lista de vertebrados mesozóicos do Brasil o gigante dino carnívoro Oxalaia, mais um bizarro crocodilomorfo terrestre - Pepesuchus - e Brasiliguana, um pequeno lagarto da região de Presidente Prudente, SP… 
Mas isso não é só, ainda há muito mais por vir!!

Tapuiasaurus foi descrito ainda em fevereiro na revista científica de divulgação livre, PLoS ONE (acesse o artigo aqui). O anúncio do bicho foi um sucesso: Dinossauro na cabeça! Um crânio completo foi apresentado por Zaher e colaboradores e o estado de conservação do material deixou pesquisadores do mundo inteiro boquiabertos. Tapuiasaurus pertence a um grupo de dinossauros chamado de saurópodes (dinos gigantes de pescoço e cauda longos) e mais especificamente a um ramo chamado de ‘titanossaurídeos’. Crânios de dinossauros saurópodes são relativamente raros, já que tendem a logo se desarticular do corpo depois da morte do animal. Por isso Tapuiasaurus foi recebido com tanta festa.!
A idade do fóssil está entre 125 e 112 milhões de anos. Ele foi encontrado nos estratos cretácicos da Bacia Sanfranciscana, nas imediações do município de Coração de Jesus, Minas Gerais, próximo a divisa com a Bahia.
Não só o crânio, mas vértebras, partes da escápula, um rádio e um fêmur também foram descritos.
O crânio é impressionante. Com o focinho alongado e a abertura nasal na altura dos olhos, ele lembra aquele de outros titanossauros como Rapetosaurus e Nemegtosaurus. Porém, Tapuiasaurus viveu bem antes destes animais – pelo menos 30 milhões de anos antes. Em termos evolutivos, essa é uma informação muito importante. Tudo indica que este formato craniano, comumente encontrado em dinossauros saurópodes titanossaurídeos do final do Período Cretáceo, já havia evoluído bem antes do que se pensava.
Uma exposição temática com os fósseis do animal está sendo apresentada no Museu de Zoologia da USP em São Paulo. Vale a pena visitar!! Exposição “Cabeça Dinossauro”.

O crânio de Tapuiasaurus macedoi.

Reconstituição do animal pelo paleoartista Leandro Sanchez.

Quanto a Oxalaia, anunciado à imprenssa brasileira no dia 16 de março, temos um registro bem menos impressionante, mas tão importante quanto o de Tapuiasaurus. Oxalaia tratava-se de um imenso dinossauro carnívoro espinossaurídeo (da família do Espinossauro e do Suchomimus, dinos com o focinho alongado e achatado como o dos crocodilos), que devia medir entre 12 e 14 metros. Seria o segundo maior dinossauro dessa família de terópodes. Os restos do animal foram encontrados ainda em 1999 durante uma expedição da equipe de paleontólogos do Museu Nacional à Ilha do Cajual, no Estado do Maranhão (Leia aqui!). Encontrado na famosa ‘Laje do Coringa’, o nível mais fossilífero da Formação Alcântara, o bicho parece ter sido um elemento comum no ambiente pretérito daquela região, onde são encontrados abundantes dentes do animal. Foram descritos por Kellner e colaboradores dois fragmentos de crânio, considerados suficientes para definir a nova espécie. O trabalho foi apresentado numa edição especial dos Anais da Academia Brasileira de Ciências e pode ser acessado aqui. Oxalaia pode ser considerado hoje o maior dinossauro carnívoro brasileiro. Três espécies de espinossaurídeos já foram descritas para o Brasil: Irritator challengeri, Angaturama limai e Oxalaia quilombensis. O nome Oxalaia faz referência a divindade africana Oxalá e quilombensis à um antigo Quilombo da região da Ilha do Cajual.

Fragmentos do crânio de Oxalaia, descritos por Kellner e colaboradores.

Reconstituição artística do animal por Maurílio de Oliveira.

Pepesuchus pode parecer um nome estranho, mas foi uma homenagem ao Prof. José Martin Suaréz (conhecido por seus colegas como Pepe) para nomear o mais novo crocodilomorfo terrestre barsileiro. Descrito por Diógenes de Almeida Campos e colaboradores, a nova espécie conta com dois crânios quase completos e mandíbulas. O material é proveniente do famoso sítio “Tartaruguito” (Fm. Presidente Prudente, Grupo Bauru, Bacia Bauru), próximo às cidades de Pirapozinho e Presidente Prudente, no Estado de São Paulo. A nova espécie foi classificada como um peirossaurídeo e acrescenta ainda mais ao conhecimento desses animais na Bacia Bauru, Cretáceo Superior brasileiro. Os peirossaurídeos parecem ter sido um dos clados de Mesoeucrocodylia mais bem representados no paleocontinente austral, Gondwana. O material pós-craniano da nova espécie será descrito separadamente.

Reconstituição do crânio de Pepesuchus.
Reconstituição artística de Pepesuchus.

Por fim, não poderíamos deixar de falar de Brasiliguana, também publicado na edição especial dos Anais da Academia Brasileira de Ciências (acesse aqui). Brasiliguana trata-se de um pequeno lagarto dos estratos do Cretáceo Superior da Formação Adamantina, Bacia Bauru, da região do município de Presidente Prudente, SP. O registro de squamatas no Brasil é raro e inclui somente 6 apontamentos: Tijubina, Olindalacerta e squamata indeterminado, da Bacia do Araripe, e Pristiguana e 2 registros também não específicos da Bacia Bauru. Brasiliguana viria a acrescentar este conhecimento.
O animal foi descrito por William Nava e Agustín Martinelli com base em um fragmento cranial, cujos formato e implantação dos dentes, de acordo com os autores, são semelhantes a dos lagartos iguanídeos.

Material descrito de Brasiliguana prudentensis.


Já que falamos tanto da edição especial dos Anais da Academia Brasileira de Ciências, vale a pena checar os outros artigos. Você os encontra disponíveis aqui.

Não deixe de dar uma olhada naquele de Bittencourt & Langer (aqui). O amigo Johnny fez uma fantástica revisão sobre as ocorrências de dinossauros no Brasil e as suas relações biogeográficas. Referência!
As novidades por enquanto são estas, mas fiquem de olho porque tem muito mais por vir!


>As pegadas fósseis do interior paulista – O Grande deserto Botucatu, Parte I

>

Texto original por Marcelo Adorna Fernandes – adaptações por Aline Ghilardi

Há aproximadamente 140 milhões de anos, durante o final do Período Jurássico e início do Período Cretáceo, a região onde hoje se localizam as cidades de Araraquara e São Carlos, no interior de São Paulo, era coberta por um imenso deserto que se extendia por uma superfície de cerca 1.600.000 km2 (do sul de Minas Gerais até o Uruguai).

Imagem ilustrativa de como se pareceria o antigo deserto de Botucatu.

Este antigo deserto, chamado de Botucatu, foi um dos maiores que já existiu na história do Planeta Terra, e nele, dinossauros e pequenos mamíferos caminharam em busca de água, que brotava em pontuadas lagoas – oásis – formadas entre as gigantescas dunas de areia. Estes animais pré-históricos deixaram suas pegadas enquanto prosseguiam em suas jornadas diárias, e fortuitamente, estes registros fossilizaram, deixando pistas valiosas sobre a vida misteriosa do passado.
As pegadas fossilizadas são encontradas hoje em lajes de arenito retiradas de algumas pedreiras de Araraquara e São Carlos. Estas lajes foram vastamente utilizadas durante os séculos passados para o calçamento público de diversas cidades do interior paulista. Hoje, as calçadas dessas cidades guardam um tesouro precioso de dezenas de milhões de anos….

Reconstituição da fauna extinta do antigo deserto Botucatu. Por Ariel Milani e Aline Ghilardi.

Como as pegadas fossilizaram?

Pegada de dinossauro carnívoro.

As pegadas deixadas pelos animais que habitavam o paleodeserto de Botucatu eram delicadamente recobertas pela areia trazida pelo vento, que formava camadas sobrepostas protegendo a pista do animal. Depois de milhões de anos, a areia das dunas compactou-se de tal maneira – por cimentação natural dos grãos devida aos sais minerais de sua composição – que transformou-se em rocha (arenito), preservando o registro da vida extinta.
As dunas do antigo deserto continham um certo teor de umidade que também ajudava na preservação das pegadas. Porém, a umidade não era suficiente para favorecer a fossilização dos restos ósseos de animais que ali caminhavam. O clima rigoroso, associado ao desgaste pela ação erosiva dos grãos de areia e o vento, destruía completamente os corpos dos animais. Por isso não encontramos fósseis corporais de dinossauros – ou outros bichos -, mas somente suas pegadas.

Pista de pequeno mamífero.

A raridade de fósseis nesse tipo de ambiente faz com que todas as informações a respeito da vida nos paleodesertos restrinja-se sempre à impressões – vestígios indiretos – como pegadas e escavações para fuga ou habitação, por exemplo.

Pista de pequeno dinossauro carnívoro e detralhe de uma pegada.

Os arenitos da Formação Botucatu

Com o passar do tempo, a areia deste imenso deserto foi sofrendo um processo de compactação. As camadas inferiores de areia foram sendo gradativamente cobertas por novas camadas que o vento trazia, e as pegadas foram “guardadas” num “arquivo sedimentar”. Camada após camada, a areia endureceu formando as rochas conhecidas como arenito, da Formação Botucatu, pertencente à Bacia do Paraná, a mesma rocha que compõe o Aqüífero Guarani.

Diagrama litoestratigráfico indicando o posicionamento da F,. Botucatu dentro da Bacia do Paraná.

Pedreira na cidade de Araraquara, SP, onde afloram os arenitos da Formação Botucatu. Ainda pode-se observar a inclinação da antiga paleoduna.

Calcamento de arenito em Araraquara, SP.

Pegadas no calçamento. Algumas são cobertas com cimento: Alguns moradores as tinham como ‘defeitos’ na calçada.
O arenito foi muito utilizado para calçamentos de vias públicas em Araraquara e região, conseqüentemente muitas pegadas são encontradas ainda hoje nas próprias calçadas de diversas cidades do interior paulista e inclusive na Capital.

O estudo do registro icnofossilífero

O estudo de um icnofóssil (vestígio preservado da atividade de um organismo) é de grande importância, pois pode auxiliar nas interpretações paleoambientais e paleoecológicas de um determinado período de tempo geológico, assim como evidenciar o comportamento dos diversos organismos fósseis.
As pegadas fósseis podem estar preservadas basicamente como impressões (epirrelevo côncavo), correspondendo a moldes das plantas dos pés do animal, e como contra-moldes (hiporrelevo convexo) produzidos pelos sedimentos sobrejacentes nas impressões originais. Devido ao peso, alguns animais poderiam ainda provocar deformações nas camadas inferiores do sedimento, formando as undertracks ou subpegadas.
A partir das pegadas fossilizadas é possível reconstruir o esqueleto do pé do animal, saber como era a pele e musculatura do pé. Também é possível conhecer relações ecológicas destes seres primitivos e sua influência nos ecossistemas. O estudo destes vestígios torna-se algo fascinante e que nos permite reconstruir, passo a passo, a trajetória da vida no Planeta.
O final da existência dos dinossauros do deserto no interior paulista foi selado por um grande evento magmático (registrado como a Fm. Serra Geral), no qual grandes fissuras na crosta terrestre derramaram magma sobre o paleodeserto, mudando o clima e a paisagem e determinando o fim do antigo ambiente do Botucatu. Isso se deu há pelo menos 135 milhões de anos.

Pegadas de pequeno mamífero.

Ilustração representando a antiga fauna do deserto Botucatu. Por Ariel Milani.

Maiores informações sobre o sítio paleontológico de Araraquara no site:
– Em próximos posts: “A fauna do Paleo-Deserto Botucatu”, “Xixi de dinossauro” e “Um estranho gigante nas dunas”

>Eodromaeus, um novo dino basal da Argentina e Eoraptor, um Sauropodomorpha

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Reconstituição de Eodromaeus por Todd Marshall.
A última década tem experimentado uma renascença no estudo dos dinossauros basais e, recentemente, vários deles têm sido descritos, tanto para América do Norte, como América do Sul (Veja síntese de Langer et al., 2010 e Brusatte et al., 2010): o brasileiro Saturnalia, o Saurischia sauropodomorfo Panphagia, ChromogosaurusSanjuansaurus e o recém-descoberto terópode basal, Tawa. A parte disso, uma série de redescrições, reanalíses e trabalhos de filogenia também têm sido feitos, como aqueles de Chindesaurus, Staurikosaurus e Pisanosaurus. Parece ser um momento promissor para os estudiosos da origem e evolução dos dinossauros…

Esta semana na Science, Martinez e colaboradores vieram descrever mais uma figurinha para este álbum: Eodromaeus murphi, da Formação Ischigualasto, Triássico da Argentina. 


Com boa parte de seu esqueleto preservado, sendo que pelo menos 6 espécimes foram encontrados - todos incompletos - , o animal era pequeno e não devia passar dos dois metros de comprimento. Seu crânio era leve e tinha o número de dentes reduzido em comparação com outros dinossauros primitivos, mas curvados e serrilhados, bem característicos daqueles dos dinos carnívoros.

As análises filogenéticas realizadas por Martinez e colaboradores colocaram este novo dinossauro num posicionamento basal dentro do agrupamento dos chamados dinossauros terópodes (que incluem todos os dinos carnívoros). Eodromaeus representaria um  grupo irmão de Neotheropoda e os primitivos herrerassaurídeos. Este status era ocupado antes por Tawa, que com a nova descoberta, foi realocado para dentro dos Neotheropoda.


O que mais chamou atenção nesse trabalho, no entanto, é a recuperação que os autores fizeram de Eoraptor lunensis Rogers & Monetta 1993 em suas análises filogenéticas. Este dinossauro posicionou-se como um Eusaurischia, stem-sauropodomorpha, em politomia com Panphagia e Saturnalia (Saturnaliine, de acordo com Ezcurra, 2010). Sim, o grupo que eventualmente daria origem aos imensos herbívoros saurópodes! Este posicionamento já fora apontado antes por Martinez e Alcobar (2009), mas é a primeira vez que ganha suporte de uma análise filogenética.

Crânio de Eoraptor sendo preparado, Foto de Louie Psihoyos.

Crânio de Eoraptor lunensis, por Digimorph.

Este novo trabalho sem dúvida irá causar um bom debate entre os estudiosos de dinos basais, especialmente considerando-se questões como amostragem de taxa e inclusão de caracteres. Martinez e colaboradores não consideraram vários taxa que entenderam como incompletos ou muito pouco conhecidos.  Esta se trata de uma matrix atualizada do trabalho de Sereno (1999) e não utiliza muitos caracteres observados em outros estudos como os de Langer e Benton (2006), Ezcurra (2006) e Nebsitt e colaboradores (2009). É difícil querer comparar trabalhos que apresentam tantas diferenças no conjunto de dados utilizados.

De qualquer forma, se Eoraptor for de fato um Sauropodomorpha basal, isto é de grande interesse, pois nos aproxima de vislumbrar como teria sido o ancestral comum entre terópodes (grupo que inclui todos os dinos carnívoros) e sauropodomorfos (grupo que daria origem aos gigantes herbívoros de pescoço longo). É importante lembrar, que esta nova interpretação de Eoraptor é somente uma hipótese. Há a demanda de novas investigações, análises e descobertas para determinar realmente qual era a natureza desse animal.

Comparativamente, os dentes de Eoraptor teriam um formato diferenciado e seriam mais bem adaptados para uma dieta variada, provavelmente onívora e talvez com consumo regular de plantas. Diferente da dentição encontrada em Eodromaeus, apropriada para uma alimentação estritamente carnívora.

Os pesquisadores por trás deste estudo fazem ainda outras observações interessantes em seu artigo, como sobre o padrão evolutivo dos dinossauros basais ao longo do Triássico. Para ler mais sobre isso visitem o site da Science… que infelizmente não disponibiliza seus artigos livremente… :

Martinez, R., Sereno, P., Alcober, O., Colombi, C., Renne, P., Montanez, I., & Currie, B. (2011). A Basal Dinosaur from the Dawn of the Dinosaur Era in Southwestern Pangaea Science, 331 (6014), 206-210 DOI: 10.1126/science.1198467


Outras referências fundamentais:


Brusatte et al., 2010. The origin and early radiation of dinosaurs. Earth-Science Reviews, 101 (1-2): 68-100.
Langer et al., 2010. The origin and early evolution of dinosaurs. Biological Reviews, 85: 55-110.

>Dinossauros Emplumados: A Origem das Aves II

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Este breve artigo procura dar continuidade à história que começamos a contar neste post aqui. A idéia era discorrer sobre a biografia de alguns importantes grupos de dinossauros terópodes, que ajudaram a lançar luz sobre o estudo da evolução das Aves. Para compreender a evolução desses animais, primeiro nós precisamos investigar e aprender mais sobre os principais grupos de dinossauros proximamente relacionados a elas. O foco da narrativa, então, serão os dinossauros coelurossauros.

Os Coelurosauria são um ramo basal dentro do agrupamento dos dinossauros terópodes (dinossauros bípedes que incluem todos aqueles predadores e algumas curiosas famílias de hábitos herbívoros ou onívoros). O nome refere-se à natureza ‘oca’ das vértebras desses animais, e significa, literalmente, “lagarto oco”. Foi dentro deste clado que ocorreu um dos mais fantásticos eventos evolucionários da história dos vertebrados terrestres: A evolução das aves. Ainda que haja alguma controvérsia sobre qual família dinossauriana teria dado origem às aves modernas, é bem consolidado que ela teria pertencido a esse grupo.

No primeiro post sobre “A Origem das Aves” discorremos brevemente sobre a linhagem dos poderosos tiranossauros (aqui), que formariam o grupo mais basal dentro de Coelurosauria. Já no post de hoje, abordaremos um pouco sobre a história dos Ornithomimosauria, os dinossauros que “imitavam aves”.


Figura 1. Cladograma evidenciando as relações evolutivas entre os vários grupos de Coelurosauria. Por Thomas Holz.

Em meados da década de 1980, Jacques Gauthier, então paleontólogo de vertebrados e sistemata na Universidade da Califórnia, Berkeley, identificou em um grupo de dinossauros predadores (terópodes) uma característica que até então era considerada como exclusiva das aves: Penas! Gauthier, entusiasmado, logo inseriu esse novo e importante dado em suas análises filogenéticas. Foi a partir de então, que seu trabalho começou a consolidar àquela que seria conhecida como a hipótese ave-dinossauro. Esta hipótese logo obscureceu as outras menos robustas sobre a origem das aves. Hoje, podemos dizer que a evolução das aves a partir dos dinossauros é uma das mais aceitas e incontestáveis hipóteses dentro do estudos sobre a evolução dos vertebrados. Há um forte apoio dado por um conjunto de caracteres anatômicos peculiares encontrados somente em aves e alguns dinossauros terópodes. Estas características definem não apenas o padrão de evolução do esqueleto entre as aves e dinossauros, mas também abrangem um conjunto de características fisiológicas semelhantes (isto é passível de teste em aves e répteis modernos), que revelam as etapas de transformação de um dinossauro corredor até um pássaro capaz de vôo ativo.

Ornithomimosauria: “Os lagartos que imitavam aves”


Figura 2. Ilustração de Peter Schouten – Grupo de Ornithomimosauria


“De fato, as comparações entre este dinossauro e um avestruz, em vários aspectos de sua anatomia, são tão impressionantes que ele é freqüentemente referido como “o dinossauro mímico de avestruz”". 

Edwin Colbert, 1969, em “Evolution of the Vertebrates“, página 201.

Os ornitomimossauros são melhor entendidos quando os imaginamos como uma “versão esportiva” dos dinossauros. Construídos para velocidade, eles eram um grupo de terópodes cuja vida deveria ser muito semelhante àquela das aves ratitas atuais (como os avestruzes, emas e casuares). Eles deveriam, em sua maioria, ser onívoros (apesar de um deles ter sido encontrado com seu conteúdo estomacal preservado indicando uma dieta herbívora - Sinornithomimus) e essencialmente sociais.

Recentemente, a descoberta de membros bastante primitivos desse grupo ajudou a compreender melhor como se deu a evolução e radiação desses animais. Hoje eles são considerados basais dentro da linhagem dos terópodes, e estão colocados entre celurossauros primitivos e o grupo mais derivado destes,  que inclui os chamados  ”maniraptores” (e.g. terezinossauros, alvarezssauros, ovirraptorossauros, troodontídeos, dromeossauros e aves) (Figura 1).

O primeiro fóssil de ornitomimossauro foi encontrado em 1889 por George Cannon, em rochas de idade cretácica no Estado do Colorado, Estados Unidos. Charles Othniel Marsh nomeou os fragmentos encontrados – pertencentes à membros posteriores de um animal adulto-  como Ornithomimus, significando “o mímico de ave”, já que os considerou muito semelhantes à ossos dos pés de aves atuais. 

Figura 3. Gallimimus – Ilustração de Peter Schouten.

Foi somente em 1917, no entanto, que um esqueleto relativamente completo desses animais foi encontrado e a sua anatomia pode ser melhor investigada. Lawrence Lambe foi quem encontrou os restos parciais expostos nos afloramentos de Alberta, mas foi Henry Fairfield Osborn que os nomeou como Struthiomimus, “o mímico de avestruz”. Osborn perceptivamente observou que este dinossauro possuía muitas similaridades à ave ratita atual.

A mais significante série de descobertas de ornitomimossauros, todavia, veio somente a partir da década de 1960, com as expedições poloneso-mongóis e na década de 1990 por meio de sítios recém descobertos na Espanha e na China.

Tudo indicava que estes animais eram construídos para correr rápido. Tratavam-se de velocistas. Possuíam uma cauda longa, horizontal e rígida, pernas alongadas e uma constituição leve, com cabeça pequena e pescoço grácil e alongado. Trilhas de pegadas fossilizadas atribuídas à ornitomimossauros sugerem que estes animais poderiam alcançar velocidades acima de 57km/h, tornando-os os mais rápidos de todos os dinossauros conhecidos, tão velozes quanto cavalos de corrida.

Figura 4. Esqueleto quase completo de ornitomimídeo.

O membro mais primitivo desse grupo é Pelecanimimus, encontrado no famoso depósito de Las Hoyas, Espanha, do início do Cretáceo. Pelecanimimus  (“mímico de pelicano”) é, por enquanto, o único membro deste grupo a apresentar numerosos e pequeninos dentes sem serrilha em suas mandíbulas (cerca de 220 no total). Apenas poucos outros ornitomimossauros também possuem dentes como característica, e estes em geral os possuem restritos à parte frontal do rostro somente (e.g. como Shenzhosaurus de Shenzhou, província de Lioning, na China, e Harpymimus de Dundgov, na Mongólia). O restante dos ornitomimossauros não possuem dentes, mas sim bicos bem desenvolvidos. Algumas formas (Shenzhosaurus e Sinornithomimus por exemplo) foram encontradas com pequenos pedregulhos, denominados gastrólitos, em seus estômagos. Estes pedregulhos eram provavelmente utilizados para ajudar a digerir o alimento. Atualmente somente animais herbívoros utilizam-se dessas pedras para auxiliar a moer o material vegetal resistente (sementes, por exemplo) em seus tratos digestivos.

Figura 5. Reconstituição de Pelicanimimus (nome do autor não informado).

Uma teoria postula que os ornitomimossauros deveriam alimentar-se como os flamingos, filtrando a água com os seus bicos curvos, porém outros especialistas discordam, afirmando que as estruturas especiais no palato desses animais eram somente para sustentar o bico e não uma especialização para alimentar-se por filtração. 

Não se sabe ainda ao certo como os ornitomimossauros protegiam os seus jovens e filhotes e como organizavam seus bandos. No entanto, recentemente, um conjunto de 14 Sinornithomimus foram encontrados fossilizados juntos na Mongólia. Onze dos animais demonstraram ser jovens ou sub-adultos e estes estavam acompanhados de animais maduros. Os últimos provavelmente estavam protegendo o grupo de mais novos.

Figura 6. Crânio de Sinornitomimus.


Os ornitomimossauros mais especializados  estão divididos em dois grupos. Um norte-americano, que compreende Struthiomimus, Dromiceiomimus e Ornithomimus, e um  asiático, composto por Gallimimus e Anserimimus. Ornithomimus demonstra o típico formato de um crânio avançado de Ornithomimosauria, possuindo olhos grandes e um focinho delgado e curvado, com a mandíbula inferior pouco mais alongada que a superior. 

As grandes órbitas dos ornitomimossauros são freqüentemente preservadas com os ossículos escleróticos, que ajudavam a sustentar o olho em vida. Tudo indica que esses animais teriam um senso de visão bastante desenvolvido. Eles possuíam um cérebro grande, comparável àquele de aves modernas e inclusive àquele bem desenvolvido dos troodontídeos. Embora o grupo seja caracterizado pela presença de pernas e braços longos, a mecânica dos membros anteriores de Struthiomimus sugere que eles não eram equipados para escavar, mas eram sim instrumentos gráceis mais adequados para agarrar galhos e folhas.

Figura 7. Crânio de Gallimimus.


A herbivoria parece ter evoluído bastante cedo na história evolutiva desse grupo. Shenzhousaurus foi encontrado com gastrólitos em sua região estomacal e esta espécie é considerada como uma forma relativamente primitiva dentro do grupo. Ela é considerada primitiva não somente pela presença de dentes, mas por outras características esqueletais como o comprimento do ‘polegar’, mais curto que os outros dígitos (nas formas derivadas ele tem o comprimento semelhante ao dos outros dedos).

Figura 8. Cladograma de Ornithomimosauria indicando a posição basal de Pelicanimimus e Shenzhousaurus (Makovicky, 2009).

Figura 9. Outro cladograma de Ornithomimosauria. Fonte: www.dinodata.org, baseado em Makovicky et al., 2004.


Uma das mais recentes descobertas do grupo foi Beishanlong, do Cretáceo chinês, animal muito parecido com Harpymimus, outro ornitomimossauro da China. Porém, a característica mais impressionante de Beishanlong é o seu tamanho. Definitivamente trata-se do maior ornitomimossauro já descrito e o mais interessante: análises histológicas demonstraram que o indivíduo analisado ainda encontrava-se em fase de crescimento. A partir do material encontrado foi estimado para o animal uma massa de 626kg. É interessante observar um paralelismo do gigantismo em diferentes linhagens de celurossauros herbívoros (ver Shuzhousaurus (Therezinosauria) e Gigantoraptor (Oviraptorosauria)).

Figura 10. Esquema indicando o tamanho de Beishanlong proporcionalmente a um ser humano.


Inicialmente acreditava-se que estes animais estariam presentes somente na América do Norte e na Ásia, mas depois da descoberta do primitivo Pellicanimimus na Europa, a história começou a ficar mais clara e as noções biogeográficas e de origem do grupo a solucionarem-se. Sem dúvida, o que pode-se dizer por enquanto, é que trata-se de um grupo restrito aos continentes do norte (laurasianos), com sua origem provavelmente européia.


Apesar das tantas semelhanças com as aves, que foram inclusive batizados em alusão a elas, não foi dentro deste grupo que as nossas colegas emplumadas tiveram sua origem. Os Ornithomimosauria são apenas parentes próximos. A história continua. Sem dúvida as aves tiveram origem dentro do grupo dos Maniraptora e é para aí que se aproxima ainda mais a próxima parte de nossa história.
No próximo capítulo:  À um passo dos maniraptora…

Referências Bibliográficas:

Makovicky, P. J., Kobayashi, Y. & Currie, P. J. 2004. Ornithomimosauria. In Weishampel, D. B., Dodson, P. & Osmólska, H. (eds) The Dinosauria, Second Edition. University of California Press (Berkeley), pp. 137-150.
Barrett, P. M. 2005. The diet of ostrich dinosaurs (Theropoda: Ornithomimosauria). Palaeontology48, 347-358.
Kobayashi, Y. & Lü, J.-C. 2003. A new ornithomimid dinosaur with gregarious habits from the Late Cretaceous of China. Acta Palaeontologica Polonica 48, 235-259.
Norell, M. A., Makovicky, P. & Currie, P. J. 2001. The beaks of ostrich dinosaurs. Nature 412, 873-874.
Russell, D. A. 1972. Ostrich dinosaurs from the Late Cretaceous of western Canada. Canadian Journal of Earth Sciences 9, 375-402.
Long, J. & Schouten, P., 2008. Feathered Dinosaurs: The Origin of Birds. Oxford university Press. Oxford, New York.
Naish, D. – The Tet Zoo field guide to ostrich dinosaurs (Part I) and (Part II). In: Tetrapod Zoology.


>O Ano dos Ceratopsia !! – Parte 2

>

Continuando…

No post passado ficou faltando falar de mais algumas figurinhas ceratopsianas de 2010, como lembrei nos comentários. Sendo assim, retorno agora para lhes apresentar: Rubeosaurus ovatus, o Styracosaurus que não era; Tatankaceratops sacrisonorum, um novo pequeno e controverso Charmosaurinae e Archaeoceratops yujingziensis, uma nova espécie de um gênero já conhecido.

Rubeosaurus ovatus McDonald & Horner, 2010 – originalmente decrito por Gilmore (1930) como “Styracosaurus” ovatus


Styracosaurus ovatus foi descrito por Gilmore em 1930 a partir de fragmentos de um escudo cefálico (partes de um osso parietal) destacado por ser bastante oval em seu aspecto e por possuir dois pares de chifres epocipitais e não três como Styracosaurus albertensis. Novos materiais, de um crânio parcial, permitiram, todavia identificar esse táxon como não relacionado ao gênero Styracosaurus, mas mais proximamente relacionado à Einiosaurus procuryicornis. Dessa forma, o antigo S. ovatus ganhou um novo nome: Rubeosaurus ovatus.


Rubeosaurus aumenta para 3 o número de centrosaurinae válidos da Formação Two Medicine, Montana, Canadá, e torna Stauricosaurus um táxon monotípico confinado à Formação Dinosaur Park de Alberta, Canadá.


McDonald, A. T. & Horner, J. R., 2010. New material of “Styracosaurus” ovatus from the Two Medicine Formation of Montana. In: Michael J. Ryan, Brenda J. Chinnery-Allgeier, and David A. Eberth (eds), New Perspectives on Horned Dinosaurs: The Royal Tyrrell Museum Ceratopsian Symposium, Indiana University Press, 656 pp.

Tatankaceratops sacrisonorum Ott & Larson 2010


Tatankaceratops foi preliminarmente descrito com base em um crânio parcial e fragmentos de um esqueleto provindos da Formação Hell Creek, South Dakota, EUA. Tatankaceratops representaria um novo táxon de um pequeno ceratopsiano chasmosaurinae, cujo comprimento do crânio teria aproximadamente 1 m e o tamanho total do animal não passaria de 3m. Os autores discutem que todos os elementos esqueletais, apesar do tamanho, pertenceriam a um animal adulto, e isso, somado a diferenças morfológicas significativas entre o material desse espécime e o de outros ceratopsídeos contemporâneos suportaria a designação de um novo táxon.

Os autores examinaram hipóteses alternativas, como considerando esse animal como proximamente relacionado ou possivelmente descendente de Triceratops. Se esse fosse o caso, os autores sugeriram que isso poderia representar um caso de pedomorfose (retenção de caracteres juvenis na forma adulta). Porém, a análise cladística realizada não suportou essa alternativa. Assim como também descartou a hipótese de se tratar de alguma forma de nanismo em Triceratops dada por algum grau de isolamento populacional (como no caso dos saurópodes anões alemães – em breve uma revisão sobre “Dinos anões” aqui no Colecionadores).

Tudo aponta para afinidades com os ceratopsídeos chasmosaurinae, no entanto os autores destacam que uma melhor preparação do material é necessária e que a descoberta de outros espécimes com caracteres preservados que sejam mais filogenéticamente informativos tornariam mais claras as relações desse táxon com outras formas neoceratopsianas.

Houve certo questionamento sobre a qualificação de “adulto” desse espécime. Talvez análises histológicas em comparação com o que se é conhecido para a ontogenia (desenvolvimento) de Triceratops deveriam ser feitas para confirmar esse status. A validez de “Tatankaceratops” se mostra controversa.

Estudos posteriores devem ser realizados para confirmar toda história.

O nome “Tatanka” é um desígnio indígena (Lakota) para o Bisão das planícies. (Alguém aí assistiu “Dança com lobos”??)

Christopher J. Ott & Peter L. Larson, 2010. A New, Small Ceratopsian Dinosaur from the Latest Cretaceous Hell Creek Formation, Northwest South Dakota, United States: A Preliminary Description. In: Ryan, M.J., Chinnery-Allgeier, B.J., and Eberth, D.A. (eds.) New Perspectives on Horned Dinosaurs: The Royal Tyrrell Museum Ceratopsian Symposium, Bloomington, Indiana University Press, 656 pp.

Archaeoceratops yujingziensis You & Dodson 2010

Archaeoceratops trata-se de um gênero já conhecido de Ceratopsia basal do início do Cretáceo (Aptiano) da China. Eram animais pequenos (cerca de 1m de comprimento), com uma cabeça comparativamente grande em relação ao corpo e provavelmente bípedes. Não possuíam chifres e tinham apenas um tímido escudo cefálico projetando-se da cabeça.

O gênero foi proposto em 1997 por Dong & Azuma e a espécie tipo foi designada A. oshimai.

Archaeoceratops yunjingziensis foi descrito com base em um espécime coletado no Grupo Xingminpu da Bacia de Yujingzi, região de Mazongshan, noroeste da China. É representado por um crânio parcial e fragmentos do esqueleto. Os autores diferem A. yunjingziensis da espécie tipo por uma série de caracteres específicos do crânio e da dentição. Esse novo táxon amplia a distribuição geográfica do gênero em cerca de 100 km para sudoeste, ainda na mesma bacia.

Reconstituição artística de Archaeoceratops oshimai


You H.-l., Tanoue K. & Dodson, P. 2010. A new species of Archaeoceratops (Dinosauria: Neoceratopsia) from the Early Cretaceous of the Mazongshan area, northwestern China. I:n Ryan, M.J.; Chinnery-Allgeier, B.J. & Eberth D.A. (eds.) New Perspectives on Horned Dinosaurs: the Royal Tyrrell Museum Ceratopsian Symposium, Bloomington, Indiana university Press. p59-67.

O que mais virá?

>O ano dos Ceratopsia !!

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E os dinossauros com cifres fazem a festa

O primeiro semestre de 2010 realmente foi dos dinos ceratopsianos. Somente até o mês de julho, sete novas espécies foram descritas, incluindo o primeiro ceratopsídeo chinês e o primeiro mexicano. Além disso, um pequeno Ceratopsia encontrado na Hungria veio acrescentar muito à complexidade da biogeografia do grupo. O restante das espécies descritas são crias da América do Norte…

Eu lhes apresento, Coahuilaceratops, Sinoceratops, Mojoceratops, Ajkaceratops, Diabloceratops, Ojoceratops e finalmente Medusaceratops.- UFA!!!

Mas calma…. Antes de falar um pouquinho desses caras aí, vamos recordar:

CERATOPSIA!!

O nome Ceratopsia vem do latim, que significa “Lagartos com cifre frontal/ ou na face”.

Ceratopsia são dinos ornitísquios marginocefalianos. Suas formas ancestrais viveram no Jurássico, mas os primeiros exemplares desse grupo datam do começo do Cretáceo (aproximadamente 140 milhões de anos atrás), como Yinlong (considerado o mais primitivo) e Hongshanosaurus da China, além das diferentes espécies de Psittacosaurus asiáticos. A maior diversificação do grupo, no entanto, ocorreu durante a parte mais tardia desse período (Eocretáceo – por volta de 100 milhões de anos atrás), tendo sido recordada principalmente nas regiões da América do Norte e da Ásia.


Eram dinos herbívoros, possuíam um bico córneo e tinham tamanhos muito variados (de 1 à 9 metros). Suas formas primitivas tinham postura bípede e eram de pequeno porte. As formas derivadas eram quadrúpedes e normalmente bem maiores (i.e. Centrosaurus e Triceratops). Os chifres e escudos cefálicos característicos somente foram adquiridos ao longo da evolução da linhagem. Membros basais não os possuíam e acredita-se que estes caracteres tenham tido funções relacionadas com a proteção, display ou ainda termorregulação (?!) – ou uma combinação entre estes.  A quantidade de chifres e a conformação e ornamentações dos escudos cefálicos variavam imensamente. Os escudos podiam ser sólidos ou vazados, com rugosidades e ornamentações elaboradas, ou ainda simplesmente lisos. Marcas nos crânios de alguns desses animais indicam que disputas, pelo menos dentro algumas espécies, eram freqüentes (Triceratops).


Um significativo dimorfismo sexual foi bem documentado em Protoceratops e um estudo detalhado de variações ontogenéticas pode ser feito com esse mesmo gênero. A ontogenia também foi bem documentada em Psittacosaurus, assim como a presença de cuidado parental (Um fóssil de um adulto foi encontrado junto com os pequenos esqueletos articulados de 34 indivíduos juvenis).

Várias formas de ceratopsídeos derivados apresentavam comportamentos gregários, especialmente Centrosaurus e sua parentela.  Há indicações de que alguns desses animais eram os herbívoros dominantes em seus ecossistemas e tinham um impacto significativo no ambiente, assim como deveriam servir como fonte principal de alimento para carnívoros de grande porte.

Um espécime ímpar de Psitacosaurus provindo da China, ainda não atribuído a nenhuma espécie em particular, apresentou evidências bem preservadas do seu integumento, o que acabou por ajudar na compreensão de como seria a aparência externa desses animais. O fóssil indica, que a maior parte do corpo desses bichos era coberta de escamas – algumas grandes dispostas irregularmente, entremeadas por numerosas menores – , mas isso já havia sido observado em impressões de pele de ceratopsídeos como  Chasmosaurus e Centrosaurus. O mais excepcional desse exemplar, todavia, é a presença de uma série do que parecem ser cerdas tubulares ocas arranjadas numa fileira na porção dorsal da cauda. Os pesquisadores concordam que não deviam tratar-se de estruturas homólogas às proto-penas e penas dos dinos terópodes, já que são estruturalmente diferentes, entretanto, provavelmente eram utilizadas em funções semelhantes, como comunicação e display (não a termorregulação).


Aparentemente o grupo se originou na Ásia e teria dispersado para a América do Norte pelo Estreito de Behring por volta do Cretáceo Médio. Já quanto à origem dos Ceratopsidae, o grupo mais derivado dentro de Ceratopsia, essa questão ainda é discutida. Acreditava-se que eram endêmicos da América do Norte, porém o controverso fóssil de Turanoceratops, asiático, gerou discórdia quanto a essa questão. Teriam eles se originado também na Ásia e migrado? Ou Turanoceratops que teria migrado da América do Norte para a Ásia? Parece que um dos Ceratopsia de 2010 vem incendiar ainda mais essa questão…..

Ok, agora sim, vamos às novas figurinhas de 2010:

Coahuilaceratops magnacuerna  Loewen et al 2010



Encontrado no México, Coahuilaceratops é o dinossauro com os maiores chifres já descrito. Brincadeiras à parte, estes mediam 1,2 metros de comprimento! “Coahuila” faz referência à região onde o animal foi encontrado e “magnacuerna” é uma combinação latina para “grande chifre”.

Os fósseis são provenientes das rochas da Formação Cerro Del Pueblo, que datam entre 71,5 e 72,5 milhões de anos atrás. As rochas dessa formação também contêm uma grande quantidade de material desarticulado de dinossauros hadrossaurídeos. Ela parece ter se formado durante o que teriam sido grandes eventos de tempestades e furacões que acabaram por ocasionar morte em massa de animais.



Coahuilaceratops representa a primeira ocorrência de uma espécie identificável de dinossauro ceratopsiano para o México e acrescenta ao entendimento sobre a biogeografia, evolução e diversificação do grupo.

Sinoceratops zhuchengensis Xing et al 2010



Descoberto na China, no Grupo Wangshi em Zhucheng, na província de Shandong, em rochas do Cretáceo Superior, Sinoceratops trata-se de um ceratopsídeo basal. “Sino” faria referência à China e “zhucheng” ao local onde o material fóssil foi descoberto.

A análise cladística de Sinoceratops o colocou entre os Centrosaurinae, porém, Sinoceratops mostra-se consideravelmente maior que outros dinossauros desse grupo ceratopsiano. Seu tamanho é equivalente ao de Chasmosaurinae basais e, além disso, várias de suas características também o aproximam desse outro grupo peculiar. A distinção, nessa perspectiva, se torna incerta. Os pesquisadores destacam que essa descoberta acrescenta informações relevantes à transição morfológica dos dinos não –ceratopsídeos para os ceratopsídeos.

Sinoceratops vem ainda incendiar a questão biogeográfica do grupo:  De acordo com a proposta filogenética do trabalho de Xing e colaboradores, tudo indicaria que os Ceratopsidae teriam se originado na Ásia e posteriormente migrado para a América do Norte, aonde encontraram paleoambientes mais favoráveis para especiação. Eventos de dispersão múltiplos teriam ocorrido na evolução ceratopsiana e todos eles teriam ocorrido a partir da Ásia em direção à América do Norte. Esse padrão de dispersão também já fora sugerido para outros grupos de dinossauros como Tyrannosauroidea e Ornitomimosauria derivados.

Parece que o endemismo de Ceratopsidae para a América do Norte morre aqui.

Ajkaceratops kozmai Õsi et al 2010



Ajkaceratops vem mudar outra teoria arraigada na biogeografia de dinossauros ceratopsianos. A de que eles eram geograficamente limitados à América do Norte e a Ásia (apenas com registros controversos em outros continentes).

Descrito para o Cretáceo Superior de Iharkút, na Hungria, Ajkaceratops vem demonstrar que os ceratopsianos também ocuparam a região da Europa e, considerando a recente descoberta de dentes leptoceratopsídeos da Suécia, tudo indicaria que o clado deve ter alcançado a Europa em pelo menos duas ocasiões diferentes.

A fauna dinossauriana do Neocretáceo da Europa era caracterizada como uma mistura de taxa relictuais endêmicos e taxa gondwânicos, sendo ausente grupos norteamericanos e asiáticos. Esse novo dinossauro, no entanto, demonstra que essa hipótese biogeográfica prevalente é muito simplificada e requer uma revisão. Iharkút, na Hungria, fazia parte da porção oeste do arquipélago de Tethys, uma série de cadeias de ilhas tectonicamente complexas entre a África e a Europa. A ocorrência de um dinossauro ceratopsiano nessa localidade pode representar um evento de dispersão do estilo “saltadores-de-ilhas” cruzando o Oceano de Tethys.

Ajkaceratops é similar à ‘bagaceratopsídeos’ como Bagaceratops e Magnirostris, conhecidos do Cretáceo superior do leste asiático.

Diabloceratops eatoni Kirkland et al 2010



Diabloceratops foi descrito com base em um magnífico crânio desarticulado, parte do inventário que a Utah Geological Survey estava conduzindo na Formação Wahweap no sul do Estado de Utah, EUA. Apesar da parte direita do crânio estar danificada, no seu lado oposto, todos os aspectos craniais estavam preservados. Assim sendo, um minucioso trabalho de reconstrução foi feito e finalmente pode-se apreciar por completo toda distribuição de caracteres diagnósticos próprios para posicionar o animal confortavelmente em seu contexto filogenético.



Os autores destacam que Diabloceratops seria um dos mais antigos Ceratopsidae conhecidos e um Centrosaurinae basal, mas o mais interessante seria a presença de uma característica peculiar bem preservada, cuja significância nunca havia sido considerada antes dessa descoberta: A fenestra antorbital acessória (FAA). Os autores examinaram a distribuição desse distinto caráter entre os ceratopsídeos e concordam que sua utilização pode fornecer respostas filogenéticamente interessantes para resolver questões sobre a origem e radiação dos ceratopsídeos.

Dados os cenários evolutivos possíveis considerados por Kirkland e colaboradores, aparentemente a FAA teria sido perdida pelo menos vezes distintas entre os Ceratopsia. Os autores, no entanto, pretendem avaliar mais rigorosamente essa proposta. Por enquanto sugerem que isso poderia se dar por pressões evolutivas comportamentais, que teriam levado à necessidade de reforçar o crânio do animal, como por exemplo o estresse de combate.

 A mensagem de Diabloceratops é que por vezes pode ser muito mais significativo identificar um novo caráter filogenéticamente interessante para entender a origem e evolução de um grupo, do que descrever uma nova espécie de dinossauro – não importa quão legal isso possa parecer.

Ojoceratops fowleri Sullivan & Lucas 2010



Ojoceratops mostrou-se um dos maiores dinossauros ceratopsianos conhecidos. Encontrado no Novo México, USA, em rochas de 70 milhões de anos, esse animal rivaliza em tamanho com Torosaurus e os maiores espécimes de Triceratops.

O nome do animal é derivado da formação rochosa onde ele foi encontrado, Ojo Alamo. A descoberta se deu ainda no ano de 2005, pelo na época assistente de campo e hoje estudante de PhD, Denver Fowler.

Os autores destacam que Ojoceratops seria um dos últimos dinossauros ceratopsídeos sobreviventes e pertenceria ao grupo dos Chasmosaurinae.

Restos desarticulados desse animal provavelmente foram confundidos com Torosaurus durante os últimos 30 anos. O resgate desse material com características diagnósticas suficientes para descrição de uma nova espécie vem a acrescentar significativamente ao conhecimento do Cretáceo Superior do Novo México, até então basicamente caracterizado por pedaços e cacos de dinossauros.

Embora o material dessa nova espécie não represente um crânio completo, há caracteres suficientes para estabelecer algumas de suas relações. É possível destacar sua afinidade com Triceratops: ele é mais antigo e possivelmente pode ser um ancestral, mas não pode-se descartar que talvez não passe de somente uma forma diferenciada do sul.

Mojoceratops perifania Longrich 2010


O nome desse animal foi escolhido numa mesa de bar e regado a muita cerveja. Apesar de ter sido selecionado inicialmente como uma brincadeira em referência aos filmes da série Austin Powers, o nome colou e só depois é que o autor notou que até que ele fazia sentido.

Ao buscar a etimologia da palavra “mojo”, Longrich descobriu que se tratava de um termo afro-americano utilizado no início do século 20 para designar “charme” ou “talismã” para atrair o sexo oposto e, pensando bem, é justamente para isso que o animal em questão deveria utilizar o seu escudo cefálico adornado e em formato de coração.

“Perifania” vem do grego e significa “orgulho”.  Supostamente nomes de origem grega ou latina deveriam ser utilizados para denominar gêneros e espécies, no entanto Longrich argumenta “que se pode fazer boa ciência e ainda ter um pouco de diversão. Não é mesmo?”.

Mojoceratops trata-se de mais um Chasmosaurinae. Seus restos foram resgatados em Alberta, Canadá, na região do Dinosaur Provincial Park. As rochas desses depósitos datam de 75 milhões de anos.

Os exemplares estudados por Longrich estavam depositados no museu de História Natural de Nova York, aonde ele vinha estudando a coleção de fósseis desde 2008. Ele notou algumas características diferentes em alguns espécimes classificados supostamente como Chasmosaurus, incluindo chifres mais longos que o usual e adornos peculiares no escudo cefálico. Algumas viagens a museus no oeste do Canadá ajudaram a confirmar a sua hipótese. Somam-se até agora 8 crânios parciais da nova espécie.



É uma surpresa que depois de tanto tempo de estudo com fósseis da região do Dinosaur Provincial Park, uma nova espécie de dinossauro de grande porte seja descoberta. A fauna dinossauriana dessa região tem se mostrado a mais diversa de todo mundo, e até agora se procuram explicações convincentes de porque isso teria se dado.

Medusaceratops lokii Ryan et al. 2010


Do Cretáceo de Montana, Canadá, da famosa Formação Judith River, Medusaceratops um Chasmosaurinae de 7 metros de comprimento e 2 toneladas vem encerrar esse post sobre os Ceratopsia.

“Medusa”, do grego, faz alusão ao monstro mitológico da Grécia com cabelos de serpente, já “Loki”, ao deus nórdico da trapaça e travessura, fazendo referência ao quão difícil foi para os pesquisadores identificarem o animal.

Apesar de recém descrito, o dinossauro foi encontrado 15 anos atrás por uma companhia comercial de fósseis contratada para analisar um afloramento numa fazenda ao longo do Milk River na fronteira dos Estados de Alberta e Montana. A partir daí, demoraram anos até que a nova espécie fosse diferenciada de outra similar, encontrada um pouco mais ao norte – Albertaceratops – , além de outras aparentadas da mesma família.

Ryan, o pesquisador que coordenou o estudo, destaca o fato de que materiais de bone-beds, como o da região, são muito difíceis de serem trabalhados. Por serem em geral desarticulados e fragmentados, dificultam imensamente o processo diagnóstico e outros tipos de análises mais derivadas.

Medusaceratops coloca-se como um representante basal dos Chasmosaurinae, mas num ramo diferente dos Albertaceratops.

Apesar de fabuloso, o escudo cefálico de Medusaceratops provavelmente não era utilizado para a defesa contra predadores, mas como uma propaganda para atrair parceiros, destacam por fim os pesquisadores.

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Ainda estamos em julho… o que mais virá????
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“New Perspectives on Horned Dinosaurs” livro editado por Michael J. Ryan, Brenda J. Chinnery-Allgeier e Davis A. Eberth, resultado do Royal Tyrrel Museum Ceratopsian Symposium é a referência de maior destaque do ano para esse fantástico grupo de dinossauros. Clique aqui para acessá-lo parcialmente no google books.
Não só várias espécies de novos ceratopsianos são ali descritas (como alguns dos aqui citados), mas várias novidades no estudo desses dinossauros. Em próximas/breves oportunidades podemos voltar ao assunto.

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By Tito Aureliano, 2010. Afloramentos Cretácicos (Fm. Alcântara), Ilha do Cajual, Maranhão, Brasil. Reservo direitos de uso sobre essa fotografia. Sua cópia não está autorizada.

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