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Astropaleobiologia: Uma ciência embrionária

 

Esta contribuição foi feita pelo aluno de graduação da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) chamado Rodolfo Otávio dos Santos. Atualmente ele se encontra no 6º período do curso de Ciências Biológicas e está estagiando no Laboratório de Paleontologia da UFU (https://www.facebook.com/PaleoUFU).

Devido ao seu interesse na área e de auxiliar na divulgação sobre tais assuntos, ele seguirá contribuindo com mais postagens sobre os mais variados tópicos. Rodolfo fez sua primeira contribuição tratando sobre a discrepância entre a abundância de dinossauros na Argentina x Brasil (aqui) e sua segunda discutindo sobre quais fósseis reais foram usados como base para os Pokemon fósseis (aqui). Hoje elecomenta brevemente sobre uma ciência que não é nova, mas que nas últimas décadas tem apresentado novas descobertas incríveis. A ciência em questão é a Astrobiologia, bastante em voga nas ultimas semanas devido a descoberta de novos planetas com potencial significativo de haver vida!


Uma forma bastante eficiente de se conhecer uma ciência é saber qual seu objeto de estudo, ou seja, quais perguntas ela busca responder. Dessa forma a Biologia, por exemplo, tem como objetivo final explicar a totalidade das questões relacionadas à vida. Para áreas emergentes da ciência, no entanto, delimitar as questões que as concernem não é uma tarefa muito simples, pois a maioria aborda temas cujo nosso conhecimento atual é demasiadamente pequeno. Podemos citar, como exemplo, estudos sobre a astropaleobiologia, o tema deste texto.

É preciso, de início, definir o termo astropaleobiologia, que é: área da ciência responsável pelo estudo dos fósseis encontrados fora do planeta Terra. Nesse sentido, é válido mencionar que o vocábulo astropaleontologia já era utilizado anteriormente, porém com outros significados, como: o estudo da evolução das estrelas e/ou o estudo de como os eventos astronômicos influenciaram a vida da Terra. Sendo assim, o termo astropaleobiologia é atualmente o mais utilizado para designar a área que estuda os restos de organismos vivos que porventura habitaram outros locais do nosso universo.

A partir do momento que os astrônomos começaram a estimar com maior precisão o tamanho do universo e se depararam com sua grandeza, logo perceberam que as escalas de medidas convencionais eram ineficazes para as distâncias cósmicas. A noção de que o universo é infinitamente grande e antigo fez com que novos questionamentos surgissem. Parece existir uma incongruência entre a quantidade de espaço disponível e o número de formas de vida no universo, conhecida popularmente como Paradoxo de Fermi. Em outras palavras, parafraseando o célebre astrônomo norte americano Carl Sagan: “Seria o universo um grande desperdício de espaço?”.

Fig. 1 (Créditos NASA)
Fig. 1: Foto conhecida como “O ponto pálido azul”, tirada pela espaçonave Voyager 1, a uma distância de 6,4 bilhões de km, próxima da órbita de Saturno. Nela, nosso planeta aparece como um pequeno ponto luminoso, em contraste com a imensidão e escuridão do espaço circundante. (Créditos: NASA)

Quando o assunto é a possibilidade de vida extraterrestre, outro tópico importante é a Equação de Drake. Trata-se de um famoso cálculo, criado por Frank Drake, que busca estimar a quantidade de civilizações presentes na galáxia, partindo do uso de algumas variáveis (até então impossíveis de serem mensuradas na época de sua criação, ainda que hoje algumas delas sejam razoavelmente conhecidas). A equação foi recentemente atualizada, havendo uma substituição de algumas variáveis por outras que atualmente são capazes de serem mensuradas, passando a ser conhecida como Equação de Seager.

Fig. 2 (Créditos Revista Época)
Fig. 2: Comparação entre as duas equações. A mais recente possui variáveis que podem ser mensuradas a partir de dados coletados principalmente pela Sonda Kepler, dando uma estimativa mais aproximada do número de planetas habitáveis. (Créditos: Revista Época)

 

A descoberta de organismos vivos fora da Terra traria implicações para toda nossa sociedade, principalmente para a ciência, filosofia e religião. Por exemplo, a possibilidade de múltiplas origens do que conhecemos como vida, ou o fato dos organismos vivos terem se originado em outros locais do universo e posteriormente terem colonizado a Terra (a famosa panspermia cósmica) revolucionariam toda a Sistemática Filogenética e, consequentemente, o modo como entendemos as relações de parentesco entre os seres vivos.

Mesmo nos dias atuais, não existe um consenso entre os biólogos sobre uma definição universal de vida. A existência de seres extraterrestres, que provavelmente teriam uma bioquímica muito diferente da nossa, poderia fazer com que a resposta para tal pergunta ficasse ainda mais difícil, pois ampliaria o leque de possibilidades para aquilo que definimos como um ser vivo. Em Titã, um dos satélites naturais de Saturno, cientistas têm especulado sobre um possível tipo de vida muito diferente da terrestre, baseado em hidrocarbonetos como o metano, dada a ausência de água líquida nessa lua.

Fig. 3 (Créditos Walter Myers)
Fig. 3: Representação artística de uma sonda explorando os lagos de hidrocarbonetos de Titã. Astrônomos descobriram que existe um ciclo de metano semelhante ao ciclo da água terrestre. Dessa forma, haveriam condições para o desenvolvimento de formas de vida muito diferentes das terráqueas, ainda que muito simples. (Créditos: Walter Myers)

 

Do ponto de vista astropaleobiológico, a hipótese mais interessante seria a de que, tal como ocorre na Terra, as taxas de extinções de seres vivos no universo sejam grandes, de forma que a grande maioria dos organismos já se extinguiram. Dessa forma, para conhecermos de fato essa diversidade inimaginável, teríamos que estudar os vestígios por eles deixados, provavelmente análogos ao que conhecemos como “fósseis”. Portanto, nesse momento, entra em cena a Astropaleobiologia.

Desde o final do século XX, graças às melhorias em nossa tecnologia, foi possível detectar os primeiros exoplanetas (planetas localizados fora do sistema solar). Atualmente, são conhecidos mais de 3000, alguns deles com características semelhantes às encontradas na Terra e consequentemente, os locais mais prováveis de encontrarmos vida fora de nosso planeta. Os radiotelescópios também têm ajudado os astrobiólogos na procura pela vida extraterrestre. Em 2016, a China inaugurou o maior até então já construído, o que pode ser um passo definitivo para respondermos a questão: estamos ou não sozinhos no universo?

Fig. 4 (Créditos Nan et al)
Fig. 4: Radiotelescópio chinês, conhecido como FAST (sigla para Five-hundred-meter Aperture Spherical Telescope). Estes aparelhos captam sinais (ondas de radio), emitidos naturalmente por estrelas, galáxias, quasares e outros objetos. Além disso, podem ser utilizados na procura de eventuais transmissões de civilizações extraterrestres. (Créditos: Nan et al)

 

Apesar do pequeno número de evidências, existem materiais para estudos astropaleobiológicos e, por mais paradoxal que possa parecer, esses materiais foram encontrados em nosso próprio planeta, porém suas origens remontam a um local distante. No passado, corpos celestes chocaram-se contra Marte, fazendo com que rochas marcianas fossem lançadas para o espaço. Eventualmente, algumas delas caíram na Terra e os cientistas, ao estudarem sua composição, perceberam que tais rochas não eram terrestres.

Em 1996, a notícia de que um meteorito (ALH 84001), encontrado na Antártica, continha estruturas muito semelhantes a fósseis de “bactérias marcianas” correu o mundo. Em 2006 cientistas analisaram outro meteorito, encontrado em 1911 no Egito, que possuía estruturas microtubulares, possível evidência de atividade microbiana. Mais recentemente, em 2014, outra rocha marciana (Y000593), encontrada no Japão, ganhou as manchetes por também apresentar microtúbulos, além de pequenas esferas, prováveis resquícios da presença de organismos vivos.

Alguns cientistas alegam que os microtúbulos seriam, na realidade, túneis escavados por estes organismos extraterrestres enquanto se alimentavam, de forma muito semelhante ao que é feito por algumas bactérias terrestres. Outros pesquisadores, entretanto, afirmam que tais estruturas teriam uma origem totalmente abiótica, sendo resultantes de reações físico-químicas desvinculadas de atividade biológica, pois não foram encontrados vestígios de moléculas capazes de se replicar. Há ainda a possibilidade de contaminação do material por organismos terrestres, o que dificulta os estudos.

Fig. 5 (Créditos McKay)

Fig. 5 (Domínio Público)
Fig. 5: Microscopia eletrônica do meteorito ALH 840001, acima, detalhando estruturas muito semelhantes a bactérias fossilizadas. Passado o alvoroço da descoberta, estudos posteriores mostraram que elas poderiam ter se originado a partir de processos físico químicos. Abaixo, microscopia do meteorito Y000593, evidenciando a presença de micro esferas ricas em Carbono no círculo vermelho (prováveis fósseis de “bactérias”), e microtúbulos, no círculo em azul, que teriam sido feitos por atividade biótica (um possível icnofóssil extraterrestre). (Modificado de McKay (1996)).

Porém, de nada adianta os organismos vivos deixarem restos de sua existência para trás se os futuros cientistas não conseguirem ter acesso aos materiais. Em nosso planeta, conseguimos ter acesso aos fósseis pois as camadas em que eles se encontram são soerguidas graças à forças vindas do interior da Terra, possibilitando aos paleontólogos acesso mais fácil aos materiais. Isso só é possível devido ao fato de que a Terra é um planeta geologicamente ativo. No sistema solar, corpos celestes como Vênus provavelmente compartilham essa característica, enquanto outros, como Mercúrio e Marte, são geologicamente inativos, fator que dificultaria, e muito, o trabalho dos futuros astropaleobiólogos.

É importante salientar que as buscas por vida extraterrestre são altamente enviesadas, pois nossa procura se concentra em locais semelhantes à Terra (restrita, portanto, a planetas rochosos e com água). De forma similar, a procura pelos “fósseis” extraterrestres também está limitada ao nosso conhecimento acerca dos processos de fossilização terrestres. Entretanto, muito provavelmente, a imensa biodiversidade universal, ainda oculta, deve carregar consigo uma gama ainda maior de processos que desafiam nosso conhecimento.

Fig. 6 (Créditos NASA)
Fig. 6: Sonda Espacial Kepler, lançada em 2009 e responsável pela descoberta de milhares de exoplanetas. Estimativas feitas por cientistas, com base nos dados por ela obtidos, indicam que podem haver aproximadamente 40 bilhões de planetas rochosos na Via Láctea. (Créditos: NASA)

A busca por organismos extraterrestres, estejam eles já extintos ou ainda vivos, é sobretudo uma forma de conhecermos a nós mesmos, de entendermos qual nosso papel no universo. No futuro, talvez o conhecimento adquirido com o estudo de possíveis “fósseis” extraterrestres, possamos definir e explicar de forma mais satisfatória o fenômeno que denominamos de vida. Quanto aos paleontólogos do presente, resta usar a imaginação, na tentativa de vislumbrar o passado de outros mundos, e aguardar pacientemente o progresso da ciência em sua procura por organismos extraterrestres.

Adendo: Duas descobertas recentes trouxeram grandes avanços para a Astropaleobiologia. A primeira pesquisa revelou a existência de um sistema composto por sete planetas rochosos, distante 39 anos-luz da Terra, orbitando a estrela TRAPPIST-1, dos quais três estão na chamada zona habitável, a região em que, caso exista água, ela se encontra no estado líquido, aumentando as chances de encontrarmos organismos vivos. Foi a primeira vez que um sistema contendo tantos planetas com grande potencial para abrigar vida foi encontrado.

Fig. 7 (Créditos NASA)
Fig. 7: Representação artística do recém-descoberto sistema planetário da estrela anã-vermelha TRAPPIST-1, com seus sete planetas rochosos, mostrados em escala de tamanho em relação ao planeta Terra. (Créditos: NASA)

 

A segunda pesquisa mostrou a existência de fósseis de bactérias com uma idade entre 3,8 e 4,3 bilhões de anos, os mais antigos encontrados até o momento. Os materiais foram encontrados no Nuvvuagittuq Supracrustal Belt, em Quebec. No passado, este local foi um sistema de fontes hidrotermais rico em ferro, elemento que era utilizado no metabolismo dessas bactérias, que deixaram vestígios na forma de pequenos túbulos. Essa descoberta indica que a vida na Terra apareceu pouco tempo após a formação dos oceanos.

Fig. 8 (Créditos Matthew Dodd)
Fig. 8: Fósseis das mais antigas formas de vida até então conhecidas, bactérias que viviam em fontes hidrotermais, numa região onde hoje se localiza o Canadá. (Créditos: Mathew Dodd)

 

Os autores do estudo ainda lembraram que as condições do planeta Marte há 4,3 bilhões de anos eram semelhantes às da Terra primitiva, um forte indício de que a vida possa ter prosperado também no planeta vermelho, ainda que por um curto período de tempo. Considerando tais estudos, a existência de vida extraterrestre ganhou fortes evidências a seu favor e agora é uma questão e tempo até que novas descobertas sobre o assunto sejam encontradas, confirmando a existência de vida extraterrestre.

 

Referências Bibliográficas:

Astropaleobiologia:

COX, G. Astropaleobiology. Disponível em: <https://starscapescientific.wordpress.com/2012/06/09/astropaleobiology/>. Acesso em 4 de mar. 2017.

Paradoxo de Fermi:

NUNES, J. O Paradoxo de Fermi. Disponível em: <http://www.universoracionalista.org/o-paradoxo-de-fermi/>. Acesso em 4 de mar. 2017.

Equação de Drake e Seager:

OLIVEIRA, D. R. A. Equação de Drake para a vida alienígena recebe um upgrade. Disponível em: <http://www.universoracionalista.org/equacao-de-drake-para-a-vida-alienigena-recebe-um-upgrade/>. Acesso em 4 de mar. 2017.

PONTES, F. A caçadora de extraterrestres: A exótica missão da astrônoma Sara Seager, em busca de planetas habitáveis pelo Universo. Disponível em: <http://epoca.globo.com/vida/noticia/2013/08/cacadora-de-bextraterrestresb.html>. Acesso em 4 mar. 2017.

Vida em Titã:

HRALA, J. Life “Not as We Know It” Might Be Possible on Titan. Disponível em: <http://www.sciencealert.com/life-on-titan-might-be-completely-different-than-the-life-we-re-familiar-with>. Acesso em 4 de mar 2017.

Radiotelescópio Chinês:

O’NEILL, I. Monster Chinese Telescope the Next ET Hunter?. Disponível em: <http://www.seeker.com/monster-chinese-telescope-the-next-et-hunter-1765285433.html>. Acesso em 4 de mar. 2017.

Vida em Marte e Meteoritos:

SÉRVULO, F. Como procurar por vida em Marte?. Disponível em: <http://www.universoracionalista.org/como-procurar-por-vida-em-marte>. Acesso em: 4 de mar. 2017.

MCKAY, D. S. et al. Search for past life on Mars: Possible relic biogenic activity in martian meteorite ALH84001. Science, Washington, v. 273, p. 924-930, ago. 1996.

MIKOUCHI, T. et al. Mineralogy and petrology of Yamato 000593: Comparison with other Martian nakhlite meteorites. Antarctic Meteorite Research, Washington, v. 16, p. 34-57, fev. 2003.

MCKAY, D. S. et al. Life on Mars: new evidence from martian meteorites. Proceedings of SPIE Annual Meeting, Bellingham, v. 7441, p. 80-102, ago. 2009.

WARMFLASH, D.; WEISS, B. Dis life come from another world?. Disponível em: <http://www.bibliotecapleyades.net/ciencia/esp_ciencia_life09.htm>. Acesso em 4 de mar. 2017.

Missão Kepler:

NASA. Importance of Planet Detection. Disponível em: <https://kepler.nasa.gov/Mission/QuickGuide/>. Acesso em 4 de mar. 2017.

CLARK, S. Kepler space telescope in emergency mode. Disponível em: <https://spaceflightnow.com/2016/04/09/kepler-space-telescope-in-emergency-mode/>. Acesso em 4 de mar. 2017.

Exoplanetas:

SCHNEIDER, J. et al. Defining and cataloging exoplanets: the exoplanet.eu database. Astronomy & Astrophysics. Paris, v. 532, p. 79-90, jul. 2011.

LOPES, M. Métodos de Detecção de Planetas Extrasolares. Disponível em: <http://www.astropt.org/2013/11/20/metodos-de-deteccao-de-planetas-extrasolares/>. Acesso em 4 de mar. 2017.

Planetas geologicamente ativos:

SANCEVERO, S. Vênus é um planeta geologicamente ativo?. Disponível em: <http://www.astropt.org/2016/11/30/venus-e-um-planeta-geologicamente-ativo/>. Acesso em: 4 de mar. 2017.

Planetas em TRAPPIST-1:

BARSTOW, J. K.; IRWIN, P. G .J. Habitable worlds with JWST: transit spectroscopy of the TRAPPIST-1 system?. Monthly Notices of the Royal Astronomy Society, Oxford, v. 461, n. 1, p. 92-96, mai. 2016.

Fósseis mais antigos já encontrados:

DODD, M. S. et al. Evidence for early life in Earth’s oldest hydrothermal vent precipitates. Nature, Londres, v. 543, p. 60-64, jan. 2017.

A História de Franz Nopcsa: o Barão paleontólogo que foi o pai da Paleobiologia

Olá a todos! Após um breve periodo sem postagens finalmente volto com uma grande contribuição de meu estimado colega Giovanne Mendes Cidade. Em seu texto ele apresenta um pouco sobre a história de um renomado e famoso paleontologo,  Franz Nopcsa! Com sua escrita leve e divertida, o Giovanne nos mostra um pouco sobre quais foram as contribuições e dilemas deste paleontologo pioneiro.

Sem mais delongas, vamos ao texto:


Um homem excêntrico, de personalidade difícil. Homossexual, não fazia questão nenhuma de esconder sua sexualidade.

Hoje em dia, esta descrição se encaixa em praticamente todo o paleontólogo que você poderá conhecer um dia. No entanto, entre o fim do século XIX e o começo do século XX, esta descrição, muito provavelmente, levaria qualquer pessoa a pensar em um único nome: o do Barão Franz Nopcsa von Felső-Szilvás – que ficaria mais conhecido no meio científico e paleontológico simplesmente como Franz Nopcsa ou Barão Nopcsa.

E as razões pelas quais ele ficaria conhecido no mundo científico e paleontológico não foram poucas: considerado o pai da chamada Paleobiologia (que, neste sentido, pode ser definida como um ramo da Paleontologia que se dedica a inferir como os animais eram, quando vivos, a partir de seus restos fossilizados, seja em termos de anatomia de tecidos moles, comportamento, fisiologia, entre outros). Portanto, na prática, Franz Nopcsa foi um dos primeiros paleontólogos que tentou “colocar carne nos ossos fossilizados” numa época em que a maioria de seus colegas se preocupava apenas em “reunir” ossos fossilizados e simplesmente lhes dar nomes bonitinhos em latim.

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Figura 1: Franz Nopcsa (1877-1933).

Origens

Nascido de uma família de etnia húngara em 3 de maio de 1877 nas cercanias da vila de Szacsal, na Transilvânia (então parte do chamado Império Austro-Húngaro, ou Áustria-Hungria, mas que hoje faz parte da Romênia), a trajetória de Franz Nopcsa pela paleontologia começaria em 1895, quando a sua irmã, Ilona, descobriu alguns “ossos petrificados” perto da propriedade da família. Ela levou esses materiais ao seu irmão, que se interessou por eles e terminou por levá-los, que no mesmo ano os mostrou a um professor de geologia da Universidade de Viena chamado Eduard Seuss, que os identificou como restos de dinossauros e propôs a Nopcsa que os estudasse, além de incentivá-lo a fazer mais escavações na área em que eles haviam sido encontrados.

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Figura 2: O castelo da família Nopcsa em Szacsal (então Áustria-Hungria, hoje Romênia).

 

De acordo com um artigo de um blog da Scientific American [1], quando Nopcsa perguntou a Seuss por conselhos e literatura sobre osteologia de dinossauros, o professor teria simplesmente respondido “ – Estude-os!” – o que nos dá uma indicação de que as relações entre orientadores e alunos não mudaram substancialmente nos últimos 120 anos.

Apesar de tudo, a descoberta desses fósseis de dinossauros incentivou Nopcsa a se matricular em um curso de geologia na Universidade de Viena em 1897. Ele progrediu em seus estudos rapidamente, apresentando em apenas dois anos a primeira parte de uma planejada série monográfica de 5 volumes sobre os “Dinossauros da Transilvânia”. Embora ele tivesse progredido rapidamente em seus estudos e muitos reconhecessem o seu brilhantismo, Nopcsa também era apontado por muitos como um sujeito um tanto arrogante e dotado de uma personalidade difícil, com quem por vezes se era difícil de conviver.

Nopcsa concluiu seus estudos em 1903 e a partir daí, aproveitando-se da grande riqueza de sua família, que fazia com que ele não precisasse ter um emprego fixo (praticamente a melhor agência de fomento que um pesquisador poderia ter), ele se dedicou quase exclusivamente às suas pesquisas paleontológicas. Suas pesquisas envolveram principalmente uma série de répteis do Mesozoico (de dinossauros a serpentes, envolvendo também crocodilos, pterossauros e tartarugas, entre outros) e aos seus estudos sócio-antropológicos sobre o povo, a cultura, a sociedade e a linguagem da Albânia – um pequeno país da região dos Balcãs, no sudeste da Europa – até 1914: quando começou a Primeira Guerra Mundial. O Império Austro-Húngaro se envolveu na guerra e Nopcsa chegou a atuar como um espião para o seu país, além de arregimentar um grupo de voluntários albaneses para lutar ao lado da Áustria-Hungria.

Paleontologia

O trabalho de Nopcsa abordou vários grupos de vertebrados fósseis sob as variadas perspectivas. Neste artigo, no entanto, se abordará principalmente as contribuições que ele deu através de uma abordagem paleobiológica – ou seja, aquelas em que ele manifestou uma preocupação em utilizar as informações contidas nos fósseis para tentar inferir a anatomia dos tecidos moles, a fisiologia, o comportamento, a ecologia ou as razões para as extinções dos diferentes grupos de vertebrados que ele estudou.

Começando com os dinossauros, grupo com o qual Nopcsa trabalhou mais extensivamente (mais de 40 dos seus 101 artigos científicos em paleontologia são sobre dinossauros [2]), o autor não só descreveu várias espécies novas como trabalhou extensivamente com os Ornitischia (um grupo de dinossauros majoritariamente quadrúpedes e herbívoros cujo arranjo dos ossos cintura lembra o de uma ave). Em 1915, ele defendeu que os ornitísquios que possuíam extensas armaduras ósseas junto à parte externa do corpo, incluindo os famosos Stegosaurus e Ankylosaurus, deveriam ser agrupados em um mesmo grupo, ao qual ele denominou Thyreophora. A ideia dos Thyreophora como um grupo não recebeu muito suporte à época de Nopcsa, mas acabou se tornando aceita entre os paleontólogos a partir de 1970 até hoje, quando Thyreophora passou a ser o nome de um clado (veja o artigo de Thompson et al., 2011 [3]).

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Figura 3: Fósseis de Telmatosaurus transsylvanicus, um dinossauro ornitísquio descrito por Nopcsa em 1899: uma mandíbula esquerda (acima) e algumas vértebras (abaixo).

Nopcsa também foi um dos primeiros a tentar pesquisar sobre como a musculatura e o sistema nervoso dos dinossauros poderia ter sido através de análises dos restos fósseis. Além disso, ele também procurou compreender o comportamento e a ecologia do grupo, sendo um dos primeiros a cogitar, por exemplo, que dinossauros adultos exibiam uma espécie de hierarquia social e cuidado parental; esta última ideia, em particular, só ganharia suporte muito tempo depois – particularmente em 1979, quando da descoberta do famoso dinossauro ornitísquio Maiasaura peeblesorum, cujos fósseis encontrados – que incluíam ninhos contendo ovos com embriões e animais jovens – indicavam, também por evidências histológicas, que esta espécie efetivamente exibia um comportamento de cuidado parental.

E, assim como quase todo mundo, Nopcsa também dedicou um bom tempo e energia para falar de sexo. Particularmente, sexo em dinossauros. Ele foi um dos primeiros a propor que dinossauros poderiam ter estruturas e comportamentos de display sexual (ou seja, uma estrutura utilizada por indivíduos de um dos sexos, mais frequentemente o macho, para atrair indivíduos do sexo oposto). Em um trabalho de 1905, ele chegou a argumentar que um osso previamente identificado como uma clavícula era na verdade uma espécie de osso peniano, que comprovaria a existência de pênis nos dinossauros saurópodes. Esta ideia, no entanto, foi rejeitada por praticamente todos os seus contemporâneos e o continua sendo até hoje, já que, por exemplo, répteis atuais não apresentam ossos penianos, embora crocodilianos atuais possuam pênis que contém cartilagem.

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Figura 4: Uma reconstrução feita por Nopcsa do dinossauro ornitísquio Struthiosaurus (1915).

Porém, outra sugestão de Nopcsa sobre sexo em dinossauros acabou gerando desdobramentos mais interessantes: em uma série de trabalhos a partir de 1915, ele passou a argumentar que algumas diferenças morfológicas presentes em dinossauros, especialmente em ornitísquios do grupo dos Hadrosauridae (os chamados dinossauros de “bico de pato”) eram na verdade caracteres sexuais secundários, e que poderiam ser usados para diferenciar machos de fêmeas. Entre estes caracteres, estavam o formato do crânio, a morfologia das vértebras e o tamanho relativo dos ossos dos membros. Embora muitas dessas observações de Nopcsa sobre caracteres sexuais secundários se revelariam posteriormente incorretas [vejam detalhes em 4], a ideia de que diferenças morfológicas observáveis poderiam ser caracteres sexuais secundários se tornou recorrente nas pesquisas paleontológicas, não só de hadrossaurídeos como de praticamente todos os grupos de vertebrados fósseis em que a existência de sexos diferentes pode ser presumida.

Nopcsa também fez algumas propostas sobre como teria sido a evolução das aves a partir de dinossauros não-avianos. Embora esta ideia não fosse nem um pouco nova – já tendo sido defendida por Thomas Huxley no século XIX –, Nopcsa inovou em propor que as aves teriam surgido de dinossauros que se moviam com as pernas sobre o solo, “correndo”, e que eventualmente, com a evolução das penas, estes animais teriam adquirido a capacidade de voar. Esta teoria contrastava com a teoria predominante até então, que dizia que as aves teriam surgido a partir de dinossauros que habitavam as copas ou as regiões mais altas das árvores, tendo evoluído sua capacidade de voo a partir de uma primordial capacidade de planar, adquirida ao “saltar” dessas regiões mais altas de árvores. A teoria defendida por Nopcsa, chamada às vezes de “ground-up” (“do chão para cima”) também não foi muito defendida ou discutida em sua época, ganhando um pouco de atenção apenas na década de 1960.

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Figura 5: Um desenho feito por Nopcsa de fósseis do lagarto Bavariasaurus dentro da barriga do dinossauro terópode Compsognathus (1903), ambos do Jurássico da Alemanha.

No entanto, descobertas recentes de dinossauros penosos, principalmente na China, têm não só evidenciado a proximidade entre dinossauros a aves (hoje já praticamente consenso na paleontologia de vertebrados) como também têm reforçado a hipótese de que os primeiros dinossauros voadores, que dão origem às aves, eram na verdade habitantes dos altos das árvores ao invés de animais de solo, indo contra a teoria de Nopcsa. Apesar disso, como nota o paleontólogo David Weishampel em [5] “Nopcsa estava fazendo boas perguntas, até mesmo quando ele não conseguia as respostas corretas”, fazendo um tributo à sua curiosidade intelectual.

Ao estudar fósseis de dinossauros vindos de depósitos do Cretáceo Superior de uma região chamada Haţeg, numa área hoje localizada na Romênia, Nopcsa percebeu que, no que dizia respeito aos fósseis encontrados naquela região, “enquanto as tartarugas, crocodilianos e animais similares do Cretáceo Superior atingiam o seu tamanho normal, os dinossauros quase sempre eram de um tamanho menor” se comparados com indivíduos de grupos semelhantes provenientes de outras localidades. Eventualmente, com base nesta e em outras observações, Nopcsa concluiu que a região estudada teria sido uma ilha durante o Cretáceo, enquanto o tamanho menor dos dinossauros representaria um caso do hoje conhecido fenômeno denominado “Nanismo Insular”. Neste, restrições ambientais presentes nas ilhas (como alimento e espaço) fazem com que animais de pequeno porte sejam favorecidos em detrimento de espécies e/ou indivíduos de maior tamanho, o que pode fazer com que animais originalmente grandes terminem por diminuir de tamanho ao longo de sua história evolutiva.

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Figura 6: À esquerda, outro exemplo de nanismo insular ocorrido entre as décadas de 1970 e 1980 do século passado.

Esta ideia de Nopcsa para os dinossauros da região de Haţeg (e também a ideia de que a região era uma ilha) seria reforçada por muitos estudos posteriores, incluindo um estudo muito recente de Benton e colaboradores (2010) [6] que contou até com análises histológicas e concluiu que os indivíduos de dinossauros encontrados na região eram realmente adultos de pequeno tamanho, e não simplesmente animais juvenis.

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Figura 7: Um mapa mostrando onde seria a ilha de Haţeg (indicada com o ponto vermelho) na região da atual Europa no Cretáceo Superior. Imagem retirada de [7].
Outros grupos e outros ramos da ciência

Nopcsa foi um dos primeiros a propor que os pterossauros (conhecido grupo de répteis voadores do Mesozoico) teriam “sangue quente” – isto é, seriam capazes de manter uma temperatura corporal constante e alta, ao invés de possuírem uma temperatura corporal que oscilaria junto com o ambiente. Também esta ideia de Nopcsa, como tantas outras, estava muito à frente de seu tempo: segundo [5], a ideia de que os pterossauros (e também os dinossauros) seriam homeotérmicos não seria consideradamente de maneira séria de novo até a década de 1970.

Com relação aos crocodilomorfos, Nopcsa se destacou por propor que um táxon do Cretáceo Superior do Egito que possui um rostro em formato de “bico de pato”, Stomatosuchus inermis, possuiria uma espécie de “saco gular” no palato inferior, com o qual formaria um tipo de “rede de pesca” para capturar as presas. Esta estrutura (e o comportamento associado com ela), que sem dúvida diferem bastante do que se observa na grande maioria dos crocodilomorfos extintos ou atuais, seria aproveitada por outros pesquisadores para outro grupo de crocodilomorfos do Mioceno da América do Sul, Mourasuchus, o qual é bem distante filogeneticamente de Stomatosuchus, mas desenvolveu uma morfologia bastante parecida com aquele táxon de forma convergente (ou, como também se disse no jargão filogenético, homoplásica).

Além disso, Nopcsa também foi um dos primeiros paleontólogos a se propor a utilizar histologia como ferramenta de análise sobre a fisiologia, a taxonomia e a ontogenia de táxons fósseis, em um tempo onde a obtenção de cortes histológicos certamente era mais difícil do que hoje.

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Figura 8: Trecho de uma carta ao paleontólogo Friedrich von Huene, de 1925, em que Nopcsa desenha e aponta para diferenças nas estruturas histológicas de dois sinápsidos basais do grupo dos Sphenacodontia: Palaeohatteria (esquerda) e Pantelosaurus (direita).

Franz Nopcsa também se interessou pela ciência com a qual a paleontologia sempre se imiscui: a geologia. Nopcsa publicou 35 trabalhos nessa área, mostrando um especial interesse pela tectônica de placas, sendo um dos primeiros cientistas a apoiar a Teoria da Deriva Continental proposta por Alfred Wegener.

Albânia

O outro grande interesse de Franz Nopcsa, além da Paleontologia, foi absolutamente tudo o que envolvia a Albânia – um pequeno país dos Balcãs, na costa leste do Mar Adriático, não muito longe da terra Natal de Nopcsa. O excêntrico Barão percorreu grandes áreas do país entrevistando pessoas e tirando fotografias (uma tecnologia ainda relativamente nova na época) coletando informações que o levaram a escrever muitos volumes sobre a Albânia, seu país e seu povo – muitos dos quais, no entanto, não chegou a ser publicados enquanto ele vivia. Uma coleção das fotos tiradas por Nopcsa nas suas viagens à Albânia pode ser vista em [8].

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Figura 9: Franz Nopcsa enquanto jovem, vestido como um “guerreiro albanês”.

Outra ligação forte entre Nopcsa e a Albânia se deve ao fato de que o seu secretário, melhor amigo – e, segundo todas as fontes, namorado –, o geólogo Bajazid Elmaz Doda, era albanês. Doda e Nopcsa viveram juntos por mais de 20 anos, realizando também várias viagens por toda a Albânia juntos. Nopcsa até chegou a nomear, em homenagem a Doda, uma tartaruga fóssil que ele descreveu do Cretáceo Superior da Romênia: Kallokibotion bajazidi. Foi uma homenagem, com certeza, mas podemos ficar nos perguntando se homenagear o parceiro com uma tartaruga não seria uma espécie de indireta depois de uma DR particularmente difícil.

Seu fascínio pela Albânia era tanto que, quando o país se tornou independente do Império Otomano em 1913, Nopcsa se prontificou a ser um dos candidatos a se tornar o rei do novo país, que seria definido em um Congresso na cidade de Trieste naquele mesmo ano. Nopcsa, no entanto, acabou por desistir de sua candidatura, e um dos fatores mais elencados como motivo de sua desistência foi o fato de ele não só ser um homossexual, como o de não fazer absolutamente nenhuma questão de esconder isso. Na época, muitas pessoas viram isso de maneira negativa, muito embora Nopcsa tenha chegado a declarar que, se ele conseguisse se tornar rei, poderia fazer o sacrifício de se casar com uma mulher rica que aceitasse pagar uma boa soma em dinheiro para se tornar uma rainha. Este dinheiro, então, seria usado para a construção de obras de infra-estrutura que a Albânia tanto precisava, como estradas e hospitais.

No entanto, Nopcsa acabou por desistir mesmo de se tornar rei e nada disso se tornou uma realidade. O que é uma pena, porque a Albânia poderia ter se tornado o único país do mundo em que o orçamento para pesquisas em Paleontologia seria praticamente infinito.

 

Últimos anos, Morte e Legado

Depois que o Império Austro-Húngaro foi derrotado na Primeira Guerra Mundial, em 1918, a área onde ficavam as propriedades de Nopcsa foram transferidas à Romênia, que fez com que todos os nobres de origem austro-húngara perdessem suas terras. Isso forçou o nobre Nopcsa a, pela primeira na vida, procurar um emprego assalariado – e ele acabou arranjando um no Instituto Geológico Húngaro, no recém-criado país independente da Hungria, em 1925.

No entanto, a nova vida de trabalhador assalariado aparentemente não se encaixou bem para Nopcsa. De acordo com as publicações sobre sua vida, Nopcsa distraía-se muito em seu trabalho e eventualmente pediu demissão em 1929. Desempregado, ficou com depressão e acumulou dívidas a ponto de ter que vender sua coleção de fósseis para o Museu de História Natural de Londres e, depois, vendeu também vários livros que possuía. O quadro depressivo foi se acumulando até que, no dia 25 de abril de 1933, Franz Nopcsa cometeu suicídio em seu apartamento em Viena, na Áustria. Antes, porém, ele também assassinou com um tiro seu secretário, amigo e namorado de longa data Bajazid Doda. Em uma carta de suicídio, Nopcsa declarou que a razão de ter matado Doda foi porque ele não queria, ao suicidar-se, abandonar seu companheiro “doente, na miséria e sem um centavo, porque ele acabaria sofrendo muito”, quase como dizendo que matar alguém, às vezes, é apenas uma maneira um pouco peculiar de dizer “eu te amo”.

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Figura 10: Bajazid Elmaz Doda (esquerda) e Franz Nopcsa.

Mas hoje, mais de 80 anos depois de sua morte, o legado de Franz Nopcsa – o pai da Paleobiologia – como paleontólogo (e albanologista) continua vivo – embora não muito frequentemente lembrado – como um dos mais polivalentes, criativos, ousados e dinâmicos cientistas da nossa área.

Referências

[1] Baron Nopcsa: More than just Transylvanian dinosaurs

https://blogs.scientificamerican.com/history-of-geology/baron-nopcsa-more-than-just-transylvanian-dinosaurs/

[2] Weishampel, D.B & Kerscher, O. 2013. Franz Baron Nopcsa, Historical Biology: An International. Journal of Paleobiology 25:4, 391-544, DOI: 10.1080/08912963.2012.689745

[3] Richard S. Thompson, Jolyon C. Parish, Susannah C. R. Maidment and Paul M. Barrett (2011). “Phylogeny of the ankylosaurian dinosaurs (Ornithischia: Thyreophora)”. Journal of Systematic Palaeontology10 (2): 301–312. doi:10.1080/14772019.2011.569091.

[4] Weishampel, D.B & Wolf-Ernst Reif, W-E. 1984. The Work of Franz Baron Nopcsa (1877-1933): Dinosaurs, Evolution and Theoretical TectonicsJahrbuch der Geologischen Bundesanstalt 127(2):187-203.

[5] Nopcsa, Baron Franz

http://www.glbtqarchive.com/ssh/nopcsa_bf_S.pdf

[6] Benton, M.J., Csiki, Z., Grigorescu, D., Redelstorff, R., Sander, P.M., Stein, K., and Weishampel, D.B. (2010).Dinosaurs and the island rule: The dwarfed dinosaurs from Haţeg Island. Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, 293(3-4): 438–454.

http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0031018210000386

[7] http://planetdinosaur.wikia.com/wiki/Ha%C8%9Beg_Island

[8] The Photo Collection of Franz Nopcsa

http://www.albanianphotography.net/nopcsa/

 

Leituras Complementares:

Baron, Scientist, Swashbuckler, Spy: The Colorful Life and Tragic Death of Franz Nopcsa

https://chasmosaurs.blogspot.com.br/2016/04/baron-scientist-swashbuckler-spy.html

History Forgot This Rogue Aristocrat Who Discovered Dinosaurs and Died Penniless

http://www.smithsonianmag.com/history/history-forgot-rogue-aristocrat-discovered-dinosaurs-died-penniless-180959504/

 

Fontes das Figuras:

[1]: http://www.albanianhistory.net/1907_Nopcsa1/index.html

[2]: Weishampel, D.B & Kerscher, O. 2013. Franz Baron Nopcsa, Historical Biology: An International. Journal of Paleobiology 25:4, 391-544, DOI: 10.1080/08912963.2012.689745

[3, Figura de cima], [4], [9], [11]: http://www.smithsonianmag.com/history/history-forgot-rogue-aristocrat-discovered-dinosaurs-died-penniless-180959504/

[3, Figura de baixo]: https://en.wikipedia.org/wiki/Telmatosaurus#/media/File:Telmatosaurus_transsylvanicus_vertebrae.JPG

[4]  Nopsca, F. (1915). “Die Dinosaurier der siebenburgischen Landesteile Ungarns”. Mit. a. d. Jahrb. d. kgl. ungar. Geolog. Reichsanst.

https://archive.org/stream/cbarchive_109076_nopcsaf1915diedinosaurierdersi1873/nopcsaf1915diedinosaurierdersi1873#page/n13/mode/

[5]: https://diogenesii.wordpress.com/tag/paleobiology/

[6]: http://seriesedesenhos.com/index.php/series-antigasda-tv/item/672-a-ilha-da-fantasia-1977

[7] http://planetdinosaur.wikia.com/wiki/Ha%C8%9Beg_Island

[8] https://blogs.scientificamerican.com/history-of-geology/baron-nopcsa-more-than-just-transylvanian-dinosaurs/


16735619_1201225939972881_1202071666_oGiovanne Mendes Cidade, Bacharel em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Mestre e atualmente Doutorando em Biologia Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), campus de Ribeirão Preto. Estuda principalmente crocodilianos fósseis, com ênfase em sistemática, taxonomia, biogeografia e anatomia de crocodilianos do Cenozoico, em especial do grupo dos Alligatoroidea. Também tem interesses diletantes em história da Paleontologia e em filosofia da Ciência como um todo, e da Biologia em particular, além de Evolução. 

 

Tetrapodophis amplectus e a história sem fim da “cobra” de quatro patas: uma perspectiva interna.

Em 2015, um fóssil proveniente do Brasil veio à tona com uma publicação feita por Martill e colaboradores. A repercussão dessa publicação foi imensa por vários motivos, como por exemplo, o fato de se tratar de um espécime muito bem preservado de uma suposta cobra de quatro patas. No entanto, nem tudo foram flores, críticas acerca da procedência duvidosa do material e até mesmo da sua designação como uma serpente foram levantadas. Para sabermos um pouco mais sobre o assunto e a importância das discussões levantadas convidamos o Doutorando Tiago Rodrigues Simões, especialista no estudo da origem e evolução de Squamata (lagartos e cobras), para escrever o esclarecedor texto abaixo.

Obs: Agradeço ao colega João Francisco Botelho pela sugestão do tema, que me motivou a convidar o Tiago para redigir tal texto.

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 (TEXTO POR TIAGO SIMÕES)   

Tetrapodophis amplectus e a história sem fim da “cobra” de quatro patas: uma perspectiva interna

Fósseis espetaculares costumam chamar a atenção da comunidade científica e da mídia ao redor do mundo. Em parte pelo fascínio que a paleontologia como um todo (especialmente através dos dinossauros) causa em muitos, em parte pelas novas perspectivas que certos fósseis fornecem acerca da evolução dos seres vivos. Dentro desse último aspecto encontra-se um réptil fóssil denominado Tetrapodophis amplectus (Figura 1), da Formação Crato da Bacia do Araripe, que viveu a cerca de 115 milhões de anos atrás. A espécie, originalmente publicada como uma cobra de quatro patas (Martill, Tischlinger & Longrich, 2015) criou grande comoção na comunidade científica internacional no ano de 2015. Contudo, logo após a sua publicação, o estudo foi alvo de uma série de controversas envolvendo tanto a procedência do material, quanto a ciência por trás da descoberta. No relato abaixo, eu forneço um relato e as minhas perspectivas sobre o assunto do ponto de vista de um brasileiro, especialista em lagartos fósseis e diretamente envolvido na nova pesquisa sobre a Tetrapodophis.

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Figura 1: Espécime (holótipo) de Tetrapodophis amplectus. Créditos: Michael W. Caldwell

Problemas na caracterização anatômica e classificação

A posição ocupada pela Tetrapodophis na evolução do grupo que compreende as cobras e lagartos (Squamata, ou escamados) é sem dúvida o aspecto mais problemático na interpretação científica do fóssil. No último encontro da Society of Vertebrate Paleontology (SVP) em Salt Lake City, nos EUA, um time de colaboradores liderados por Michael Caldwell (University of Alberta, Canadá), e que também inclui Robert Reisz (University of Toronto, Canadá), Randall Nydam (Midwestern University, EUA), Alessandro Palci (Flinders University, Austrália), além de mim (afiliação abaixo), apresentou uma série de dados novos sobre a Tetrapodophis. Em resumo, aspectos da morfologia dentária (Figura 2), craniana e das vértebras indicam que o indivíduo se parece mais com um grupo extinto de lagartos aquáticos denominados dolicossaurídeos (proximamente relacionados aos mosassauros) do que com qualquer cobra vivente ou fóssil conhecida. Um dos aspectos mais relevantes dos novos dados obtidos é que a informação anatômica presente na descrição original do espécime ou está errada, ou é impossível de ser visualizada. Além disso, partes do material preservam impressões da morfologia do crânio (Figura 3) que foram simplesmente ignoradas no estudo original. É de se espantar que tal informação não tenha sido incluída no estudo original, já que tais impressões em baixo relevo do crânio fornecem informações valiosas sobre alguns ossos que são importantes para a classificação dessa espécie dentre os escamados (Squamata).

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Figura 2: Imagem dos dentes presentes no holótipo de Tetrapodophis amplectus . a) material original; b) representação esquemática, enumerando os dentes. Créditos: Michael W. Caldwell
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Figura 3: Imagens do crânio de Tetrapodophis amplectus . Principais ossos preservados, bem como as impressões de ossos completa ou parcialmente destruidos. Créditos: Michael W. Caldwell

O leitor pode se perguntar como que erros em tamanho volume podem ter sido cometidos em um estudo publicado num periódico de tamanho escalão como a Science? Pois bem, você não é o único. Diversos outros especialistas em escamados presentes na reunião anual da SVP ficaram igualmente espantados sobre a falta de cuidado na correta interpretação anatômica da Tetrapodophis. Alguns já desconfiavam de diversos erros ao comparar as fotos publicadas com a descrição escrita do material no artigo original, mas somente agora com os novos dados fornecidos pelo nosso time de colaboradores puderam confirmar tais suspeitas (veja relato do Dr. Jason Head, Cambridge University: http://news.nationalgeographic.com/2016/11/snakes-tetrapodophis-fossils-ethics-science/).

Uma outra pergunta que aqueles que não são especialistas em cobras e lagartos podem fazer (e extremamente relevante nessa discussão) é: como um animal alongado e de patas curtas não é uma cobra? O que ocorre é que diversas linhagens de lagartos adquiriram um corpo alongado seguido de redução dos membros durante a sua história evolutiva, incluindo as cobras, dolicossaurídeos, anfisbênias, dibamídeos, pigopodídeos, diversas grupos de anguídeos, scincídeos, entre outros. Dessa forma, a redução de membros e presença de um corpo alongado estão longe de ser um aspecto exclusivamente observado nas cobras. Para se reconhecer uma cobra como tal, deve-se analisar a morfologia das vértebras e, em especial, do crânio. Sendo assim, a combinação de dados que foram mal-interpretados ou ignorados certamente influenciou os resultados apresentados por Martill e co-autores, inclusive a análise filogenética realizada pelos mesmos.

Problemas na interpretação do hábito de vida

A interpretação inicial do fóssil como um animal fossorial foi um dos pontos que mais me chamou a atenção na descrição por parte de Martill e colaboradores. O indivíduo possui os ossos do pulso e do tornozelo pouco ou não ossificados. Apesar de essa característica poder ser indicativa de um estágio juvenil em répteis, especialmente no estágio embrionário ou recém-nascido, nenhum outro aspecto da morfologia do animal indica um estágio de desenvolvimento tão jovem. Uma outra hipótese, no entanto, explica de forma mais parcimoniosa esse baixo grau de ossificação: um hábito de vida aquático, conforme observado em inúmeras linhagens de répteis que adquiriram um hábito aquático em sua história evolutiva (ex: mosassauros, plesiossauros, talatossauros, entre outros). Além disso, a baixa ossificação dos ossos do pulso e tornozelo tornariam as patas da Tetrapodophis pouco úteis para atividades como escavar ou escalar. Outros argumentos também foram utilizados em um estudo mais recente para demonstrar empiricamente que a Tetrapodophis não possui o leque de adaptações que normalmente se observa em lagartos ou cobras fossoriais (Lee et al., 2016).

Problemas legais e éticos

O outro aspecto controverso sobre a Tetrapodophis, e que concerne de forma mais direta a paleontologia brasileira, é como esse material foi parar em uma coleção particular na Alemanha. A legislação brasileira proíbe, desde 1942, a venda de fósseis ou a sua retirada do país sem permissão legal. No entanto, toneladas de fósseis deixam o Brasil ilegalmente para serem vendidos no exterior, especialmente aqueles da bacia do Araripe (região de procedência da Tetrapodophis)—para mais detalhes sobre a legislação brasileira sobre os fósseis e o problema do contrabando de fósseis, veja Simões and Caldwell (2015). Os autores do trabalho relataram não saber sobre a exata época em que o fóssil saiu do Brasil (http://www.sciencemag.org/news/2015/07/four-legged-snake-fossil-stuns-scientists-and-ignites-controversy). Na realidade, depoimentos por parte do autor principal (Martill) sobre a saída do material do Brasil demonstram o quão preocupado com as normas éticas e legais o autor parecia estar no momento de sua publicação “pessoalmente, eu não dou a mínima para como e quando o fóssil saiu do Brasil” [tradução livre] (veja o relato de Martill no link anterior). Contudo, o fato do fóssil pertencer a uma coleção particular e devido ao longo histórico de tráfico de fósseis da região do Araripe criam uma situação muito suspeita acerca da procedência do material e as circunstâncias da sua saída do país. Isso levou a abertura de um processo criminal para se investigar a saída desse fóssil do Brasil (http://www.nature.com/news/four-legged-snake-fossil-sparks-legal-investigation-1.18116).

Um dos grandes problemas envolvendo coleções particulares e venda de fósseis é a perda de conhecimento sobre a biodiversidade pretérita devido a exemplares que terminam em gavetas de indivíduos particulares, ao invés de serem estudados por especialistas em museus e universidades. No caso da Tetrapodophis, o exemplar havia sido depositado em um museu na região de Solnhofen à época da publicação. Contudo, o material pertence a um colecionador particular e o dono detém os direitos de retirar o espécime do museu quando bem entender. Em algum momento entre o fim de 2015 e início de 2016, soubemos da notícia que o dono do material havia retirado o espécime do museu em Solnhofen e que, portanto, o holótipo e único espécime conhecido de Tetrapodophis não estava mais disponível para estudo. As observações do espécime feitas por Martill e co-autores, seguidas das realizadas por Caldwell e Reisz em uma visita ao museu logo após a publicação da espécie, poderão permanecer como as únicas existentes acerca desse material, talvez por muitos anos a frente. Nesse contexto, e ao meu entendimento, fica clara a resposta a pergunta: quem ganha com materiais científicos depositados em coleções particulares? Certamente, não é a ciência.

Referências para os artigos citados acima:

Lee MSY, Palci A, Jones MEH, Caldwell MW, Holmes JD, Reisz RR. 2016. Aquatic adaptations in the four limbs of the snake-like reptile Tetrapodophis from the Lower Cretaceous of Brazil. Cretaceous Research 66: 194-199.

Martill DM, Tischlinger H, Longrich NR. 2015. A four-legged snake from the Early Cretaceous of Gondwana. Science 349: 416-419.

Simões TR, Caldwell MW. 2015. Fósseis e legislação: breve comparação entre Brasil e Canadá. Ciência e Cultura 67: 50-53.

Dados sobre o autor:

12645264_10207058817362317_831737693683863186_nTiago Rodrigues Simões possui graduação e mestrado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e atualmente está concluindo o doutorado na University of Alberta (Edmonton, Canandá). A sua pesquisa consiste no estudo da origem e evolução de Squamata (lagartos e cobras), utilizando dados de espécies fósseis e viventes (https://www.researchgate.net/profile/Tiago_Simes2).