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Astropaleobiologia: Uma ciência embrionária

 

Esta contribuição foi feita pelo aluno de graduação da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) chamado Rodolfo Otávio dos Santos. Atualmente ele se encontra no 6º período do curso de Ciências Biológicas e está estagiando no Laboratório de Paleontologia da UFU (https://www.facebook.com/PaleoUFU).

Devido ao seu interesse na área e de auxiliar na divulgação sobre tais assuntos, ele seguirá contribuindo com mais postagens sobre os mais variados tópicos. Rodolfo fez sua primeira contribuição tratando sobre a discrepância entre a abundância de dinossauros na Argentina x Brasil (aqui) e sua segunda discutindo sobre quais fósseis reais foram usados como base para os Pokemon fósseis (aqui). Hoje elecomenta brevemente sobre uma ciência que não é nova, mas que nas últimas décadas tem apresentado novas descobertas incríveis. A ciência em questão é a Astrobiologia, bastante em voga nas ultimas semanas devido a descoberta de novos planetas com potencial significativo de haver vida!


Uma forma bastante eficiente de se conhecer uma ciência é saber qual seu objeto de estudo, ou seja, quais perguntas ela busca responder. Dessa forma a Biologia, por exemplo, tem como objetivo final explicar a totalidade das questões relacionadas à vida. Para áreas emergentes da ciência, no entanto, delimitar as questões que as concernem não é uma tarefa muito simples, pois a maioria aborda temas cujo nosso conhecimento atual é demasiadamente pequeno. Podemos citar, como exemplo, estudos sobre a astropaleobiologia, o tema deste texto.

É preciso, de início, definir o termo astropaleobiologia, que é: área da ciência responsável pelo estudo dos fósseis encontrados fora do planeta Terra. Nesse sentido, é válido mencionar que o vocábulo astropaleontologia já era utilizado anteriormente, porém com outros significados, como: o estudo da evolução das estrelas e/ou o estudo de como os eventos astronômicos influenciaram a vida da Terra. Sendo assim, o termo astropaleobiologia é atualmente o mais utilizado para designar a área que estuda os restos de organismos vivos que porventura habitaram outros locais do nosso universo.

A partir do momento que os astrônomos começaram a estimar com maior precisão o tamanho do universo e se depararam com sua grandeza, logo perceberam que as escalas de medidas convencionais eram ineficazes para as distâncias cósmicas. A noção de que o universo é infinitamente grande e antigo fez com que novos questionamentos surgissem. Parece existir uma incongruência entre a quantidade de espaço disponível e o número de formas de vida no universo, conhecida popularmente como Paradoxo de Fermi. Em outras palavras, parafraseando o célebre astrônomo norte americano Carl Sagan: “Seria o universo um grande desperdício de espaço?”.

Fig. 1 (Créditos NASA)
Fig. 1: Foto conhecida como “O ponto pálido azul”, tirada pela espaçonave Voyager 1, a uma distância de 6,4 bilhões de km, próxima da órbita de Saturno. Nela, nosso planeta aparece como um pequeno ponto luminoso, em contraste com a imensidão e escuridão do espaço circundante. (Créditos: NASA)

Quando o assunto é a possibilidade de vida extraterrestre, outro tópico importante é a Equação de Drake. Trata-se de um famoso cálculo, criado por Frank Drake, que busca estimar a quantidade de civilizações presentes na galáxia, partindo do uso de algumas variáveis (até então impossíveis de serem mensuradas na época de sua criação, ainda que hoje algumas delas sejam razoavelmente conhecidas). A equação foi recentemente atualizada, havendo uma substituição de algumas variáveis por outras que atualmente são capazes de serem mensuradas, passando a ser conhecida como Equação de Seager.

Fig. 2 (Créditos Revista Época)
Fig. 2: Comparação entre as duas equações. A mais recente possui variáveis que podem ser mensuradas a partir de dados coletados principalmente pela Sonda Kepler, dando uma estimativa mais aproximada do número de planetas habitáveis. (Créditos: Revista Época)

 

A descoberta de organismos vivos fora da Terra traria implicações para toda nossa sociedade, principalmente para a ciência, filosofia e religião. Por exemplo, a possibilidade de múltiplas origens do que conhecemos como vida, ou o fato dos organismos vivos terem se originado em outros locais do universo e posteriormente terem colonizado a Terra (a famosa panspermia cósmica) revolucionariam toda a Sistemática Filogenética e, consequentemente, o modo como entendemos as relações de parentesco entre os seres vivos.

Mesmo nos dias atuais, não existe um consenso entre os biólogos sobre uma definição universal de vida. A existência de seres extraterrestres, que provavelmente teriam uma bioquímica muito diferente da nossa, poderia fazer com que a resposta para tal pergunta ficasse ainda mais difícil, pois ampliaria o leque de possibilidades para aquilo que definimos como um ser vivo. Em Titã, um dos satélites naturais de Saturno, cientistas têm especulado sobre um possível tipo de vida muito diferente da terrestre, baseado em hidrocarbonetos como o metano, dada a ausência de água líquida nessa lua.

Fig. 3 (Créditos Walter Myers)
Fig. 3: Representação artística de uma sonda explorando os lagos de hidrocarbonetos de Titã. Astrônomos descobriram que existe um ciclo de metano semelhante ao ciclo da água terrestre. Dessa forma, haveriam condições para o desenvolvimento de formas de vida muito diferentes das terráqueas, ainda que muito simples. (Créditos: Walter Myers)

 

Do ponto de vista astropaleobiológico, a hipótese mais interessante seria a de que, tal como ocorre na Terra, as taxas de extinções de seres vivos no universo sejam grandes, de forma que a grande maioria dos organismos já se extinguiram. Dessa forma, para conhecermos de fato essa diversidade inimaginável, teríamos que estudar os vestígios por eles deixados, provavelmente análogos ao que conhecemos como “fósseis”. Portanto, nesse momento, entra em cena a Astropaleobiologia.

Desde o final do século XX, graças às melhorias em nossa tecnologia, foi possível detectar os primeiros exoplanetas (planetas localizados fora do sistema solar). Atualmente, são conhecidos mais de 3000, alguns deles com características semelhantes às encontradas na Terra e consequentemente, os locais mais prováveis de encontrarmos vida fora de nosso planeta. Os radiotelescópios também têm ajudado os astrobiólogos na procura pela vida extraterrestre. Em 2016, a China inaugurou o maior até então já construído, o que pode ser um passo definitivo para respondermos a questão: estamos ou não sozinhos no universo?

Fig. 4 (Créditos Nan et al)
Fig. 4: Radiotelescópio chinês, conhecido como FAST (sigla para Five-hundred-meter Aperture Spherical Telescope). Estes aparelhos captam sinais (ondas de radio), emitidos naturalmente por estrelas, galáxias, quasares e outros objetos. Além disso, podem ser utilizados na procura de eventuais transmissões de civilizações extraterrestres. (Créditos: Nan et al)

 

Apesar do pequeno número de evidências, existem materiais para estudos astropaleobiológicos e, por mais paradoxal que possa parecer, esses materiais foram encontrados em nosso próprio planeta, porém suas origens remontam a um local distante. No passado, corpos celestes chocaram-se contra Marte, fazendo com que rochas marcianas fossem lançadas para o espaço. Eventualmente, algumas delas caíram na Terra e os cientistas, ao estudarem sua composição, perceberam que tais rochas não eram terrestres.

Em 1996, a notícia de que um meteorito (ALH 84001), encontrado na Antártica, continha estruturas muito semelhantes a fósseis de “bactérias marcianas” correu o mundo. Em 2006 cientistas analisaram outro meteorito, encontrado em 1911 no Egito, que possuía estruturas microtubulares, possível evidência de atividade microbiana. Mais recentemente, em 2014, outra rocha marciana (Y000593), encontrada no Japão, ganhou as manchetes por também apresentar microtúbulos, além de pequenas esferas, prováveis resquícios da presença de organismos vivos.

Alguns cientistas alegam que os microtúbulos seriam, na realidade, túneis escavados por estes organismos extraterrestres enquanto se alimentavam, de forma muito semelhante ao que é feito por algumas bactérias terrestres. Outros pesquisadores, entretanto, afirmam que tais estruturas teriam uma origem totalmente abiótica, sendo resultantes de reações físico-químicas desvinculadas de atividade biológica, pois não foram encontrados vestígios de moléculas capazes de se replicar. Há ainda a possibilidade de contaminação do material por organismos terrestres, o que dificulta os estudos.

Fig. 5 (Créditos McKay)

Fig. 5 (Domínio Público)
Fig. 5: Microscopia eletrônica do meteorito ALH 840001, acima, detalhando estruturas muito semelhantes a bactérias fossilizadas. Passado o alvoroço da descoberta, estudos posteriores mostraram que elas poderiam ter se originado a partir de processos físico químicos. Abaixo, microscopia do meteorito Y000593, evidenciando a presença de micro esferas ricas em Carbono no círculo vermelho (prováveis fósseis de “bactérias”), e microtúbulos, no círculo em azul, que teriam sido feitos por atividade biótica (um possível icnofóssil extraterrestre). (Modificado de McKay (1996)).

Porém, de nada adianta os organismos vivos deixarem restos de sua existência para trás se os futuros cientistas não conseguirem ter acesso aos materiais. Em nosso planeta, conseguimos ter acesso aos fósseis pois as camadas em que eles se encontram são soerguidas graças à forças vindas do interior da Terra, possibilitando aos paleontólogos acesso mais fácil aos materiais. Isso só é possível devido ao fato de que a Terra é um planeta geologicamente ativo. No sistema solar, corpos celestes como Vênus provavelmente compartilham essa característica, enquanto outros, como Mercúrio e Marte, são geologicamente inativos, fator que dificultaria, e muito, o trabalho dos futuros astropaleobiólogos.

É importante salientar que as buscas por vida extraterrestre são altamente enviesadas, pois nossa procura se concentra em locais semelhantes à Terra (restrita, portanto, a planetas rochosos e com água). De forma similar, a procura pelos “fósseis” extraterrestres também está limitada ao nosso conhecimento acerca dos processos de fossilização terrestres. Entretanto, muito provavelmente, a imensa biodiversidade universal, ainda oculta, deve carregar consigo uma gama ainda maior de processos que desafiam nosso conhecimento.

Fig. 6 (Créditos NASA)
Fig. 6: Sonda Espacial Kepler, lançada em 2009 e responsável pela descoberta de milhares de exoplanetas. Estimativas feitas por cientistas, com base nos dados por ela obtidos, indicam que podem haver aproximadamente 40 bilhões de planetas rochosos na Via Láctea. (Créditos: NASA)

A busca por organismos extraterrestres, estejam eles já extintos ou ainda vivos, é sobretudo uma forma de conhecermos a nós mesmos, de entendermos qual nosso papel no universo. No futuro, talvez o conhecimento adquirido com o estudo de possíveis “fósseis” extraterrestres, possamos definir e explicar de forma mais satisfatória o fenômeno que denominamos de vida. Quanto aos paleontólogos do presente, resta usar a imaginação, na tentativa de vislumbrar o passado de outros mundos, e aguardar pacientemente o progresso da ciência em sua procura por organismos extraterrestres.

Adendo: Duas descobertas recentes trouxeram grandes avanços para a Astropaleobiologia. A primeira pesquisa revelou a existência de um sistema composto por sete planetas rochosos, distante 39 anos-luz da Terra, orbitando a estrela TRAPPIST-1, dos quais três estão na chamada zona habitável, a região em que, caso exista água, ela se encontra no estado líquido, aumentando as chances de encontrarmos organismos vivos. Foi a primeira vez que um sistema contendo tantos planetas com grande potencial para abrigar vida foi encontrado.

Fig. 7 (Créditos NASA)
Fig. 7: Representação artística do recém-descoberto sistema planetário da estrela anã-vermelha TRAPPIST-1, com seus sete planetas rochosos, mostrados em escala de tamanho em relação ao planeta Terra. (Créditos: NASA)

 

A segunda pesquisa mostrou a existência de fósseis de bactérias com uma idade entre 3,8 e 4,3 bilhões de anos, os mais antigos encontrados até o momento. Os materiais foram encontrados no Nuvvuagittuq Supracrustal Belt, em Quebec. No passado, este local foi um sistema de fontes hidrotermais rico em ferro, elemento que era utilizado no metabolismo dessas bactérias, que deixaram vestígios na forma de pequenos túbulos. Essa descoberta indica que a vida na Terra apareceu pouco tempo após a formação dos oceanos.

Fig. 8 (Créditos Matthew Dodd)
Fig. 8: Fósseis das mais antigas formas de vida até então conhecidas, bactérias que viviam em fontes hidrotermais, numa região onde hoje se localiza o Canadá. (Créditos: Mathew Dodd)

 

Os autores do estudo ainda lembraram que as condições do planeta Marte há 4,3 bilhões de anos eram semelhantes às da Terra primitiva, um forte indício de que a vida possa ter prosperado também no planeta vermelho, ainda que por um curto período de tempo. Considerando tais estudos, a existência de vida extraterrestre ganhou fortes evidências a seu favor e agora é uma questão e tempo até que novas descobertas sobre o assunto sejam encontradas, confirmando a existência de vida extraterrestre.

 

Referências Bibliográficas:

Astropaleobiologia:

COX, G. Astropaleobiology. Disponível em: <https://starscapescientific.wordpress.com/2012/06/09/astropaleobiology/>. Acesso em 4 de mar. 2017.

Paradoxo de Fermi:

NUNES, J. O Paradoxo de Fermi. Disponível em: <http://www.universoracionalista.org/o-paradoxo-de-fermi/>. Acesso em 4 de mar. 2017.

Equação de Drake e Seager:

OLIVEIRA, D. R. A. Equação de Drake para a vida alienígena recebe um upgrade. Disponível em: <http://www.universoracionalista.org/equacao-de-drake-para-a-vida-alienigena-recebe-um-upgrade/>. Acesso em 4 de mar. 2017.

PONTES, F. A caçadora de extraterrestres: A exótica missão da astrônoma Sara Seager, em busca de planetas habitáveis pelo Universo. Disponível em: <http://epoca.globo.com/vida/noticia/2013/08/cacadora-de-bextraterrestresb.html>. Acesso em 4 mar. 2017.

Vida em Titã:

HRALA, J. Life “Not as We Know It” Might Be Possible on Titan. Disponível em: <http://www.sciencealert.com/life-on-titan-might-be-completely-different-than-the-life-we-re-familiar-with>. Acesso em 4 de mar 2017.

Radiotelescópio Chinês:

O’NEILL, I. Monster Chinese Telescope the Next ET Hunter?. Disponível em: <http://www.seeker.com/monster-chinese-telescope-the-next-et-hunter-1765285433.html>. Acesso em 4 de mar. 2017.

Vida em Marte e Meteoritos:

SÉRVULO, F. Como procurar por vida em Marte?. Disponível em: <http://www.universoracionalista.org/como-procurar-por-vida-em-marte>. Acesso em: 4 de mar. 2017.

MCKAY, D. S. et al. Search for past life on Mars: Possible relic biogenic activity in martian meteorite ALH84001. Science, Washington, v. 273, p. 924-930, ago. 1996.

MIKOUCHI, T. et al. Mineralogy and petrology of Yamato 000593: Comparison with other Martian nakhlite meteorites. Antarctic Meteorite Research, Washington, v. 16, p. 34-57, fev. 2003.

MCKAY, D. S. et al. Life on Mars: new evidence from martian meteorites. Proceedings of SPIE Annual Meeting, Bellingham, v. 7441, p. 80-102, ago. 2009.

WARMFLASH, D.; WEISS, B. Dis life come from another world?. Disponível em: <http://www.bibliotecapleyades.net/ciencia/esp_ciencia_life09.htm>. Acesso em 4 de mar. 2017.

Missão Kepler:

NASA. Importance of Planet Detection. Disponível em: <https://kepler.nasa.gov/Mission/QuickGuide/>. Acesso em 4 de mar. 2017.

CLARK, S. Kepler space telescope in emergency mode. Disponível em: <https://spaceflightnow.com/2016/04/09/kepler-space-telescope-in-emergency-mode/>. Acesso em 4 de mar. 2017.

Exoplanetas:

SCHNEIDER, J. et al. Defining and cataloging exoplanets: the exoplanet.eu database. Astronomy & Astrophysics. Paris, v. 532, p. 79-90, jul. 2011.

LOPES, M. Métodos de Detecção de Planetas Extrasolares. Disponível em: <http://www.astropt.org/2013/11/20/metodos-de-deteccao-de-planetas-extrasolares/>. Acesso em 4 de mar. 2017.

Planetas geologicamente ativos:

SANCEVERO, S. Vênus é um planeta geologicamente ativo?. Disponível em: <http://www.astropt.org/2016/11/30/venus-e-um-planeta-geologicamente-ativo/>. Acesso em: 4 de mar. 2017.

Planetas em TRAPPIST-1:

BARSTOW, J. K.; IRWIN, P. G .J. Habitable worlds with JWST: transit spectroscopy of the TRAPPIST-1 system?. Monthly Notices of the Royal Astronomy Society, Oxford, v. 461, n. 1, p. 92-96, mai. 2016.

Fósseis mais antigos já encontrados:

DODD, M. S. et al. Evidence for early life in Earth’s oldest hydrothermal vent precipitates. Nature, Londres, v. 543, p. 60-64, jan. 2017.

“Paleo-Meteorítica”

Meteoritos são materiais extraterrestres que sempre estiveram presentes na história do nosso planeta. Desde sua formação, há cerca de 4,5 bilhões de anos, o planeta Terra teve sua massa continuamente acrescida por esses corpos originários do espaço. Muitos trouxeram consigo diversos elementos que ajudaram a calibrar a composição do que é hoje a nossa litosfera. Mas não só isso, alguns meteoritos tornaram-se famosos pelas suas proporções e os impactos que tiveram no curso da evolução da vida no planeta. Eles moldaram não só a litosfera, mas a vida como é conhecida hoje (e quem sabe não a tenham carregado consigo?)

O planeta foi e é continuamente bombardeado por materiais dessa natureza. Porém, apesar de serem rochosos e/ou metálicos, os meteoritos são originários do espaço, onde estão praticamente inertes, ou seja, estão fora do alcance de quaisquer reagentes químicos e da maioria dos fatores que possam causar sua deterioração. Quando alcançam a superfície da Terra, no entanto, passam a ter contato com o intemperismo, água e a uma atmosfera oxidante, que causam uma decomposição dos minerais originais do meteorito, tornando-os essencialmente materiais terrestres. Quando não vaporizados após o impacto, a assinatura do que restou pode se perder em alguns milhares de anos… Mas não em alguns casos.
Bem-vindos ao mundo dos “paleo-meteoritos” , por GABRIEL GONÇALVEZ SILVA:
Os meteoritos podem ter diversas origens, mas todos possuem idades que remontam a formação do nosso Sistema Solar, pouco mais velhos do que nosso planeta. Espere. Então, sob essa perspectiva, são todos paleo-meteoritos??
Não. Quando falamos de paleo-meteoritos, nos referimos a idade dos meteoritos a partir do momento que entraram em contato com a superfície terrestre, e não das suas idades absolutas (idade de sua formação). De forma simples, portanto: Paleo-meteoritos são todos aqueles que atingiram nosso planeta num tempo passado.
Apesar de não existir uma ciência específica que estuda o que chamamos de paleo-meteoriros, eles são, em geral, alvo de estudo da Meteorítica, que, neste caso, passa a ter apoio da geologia e da paleontologia.
A Geologia e a Paleontologia por sua veztentam estabelecer os fatores envolvidos na queda deste material.
Podemos classificar Paleo-meteoritos em diferentes classes de acordo com as características únicas que possuem e vamos listá-las abaixo. São basicamente três classes:
1) Primeiramente, existem os meteoritos que, devido às condições climáticas favoráveis, acabaram se preservando sem grandes alterações durante muitos anos.
Alguns autores limitam para 100 mil anos o tempo que um meteorito pode durar na superfície da Terra em condições normais e 1 milhão de anos se este estiver submetido à condições favoráveis.
Dhofar 025 – Don Edwards
Como já mencionado, apesar de serem formados por materiais semelhantes a rochas e metal, os meteoritos são originários do espaço, onde estão inertes, fora do alcance do intemperismo. Porém quando alcançam a superfície da Terra, passam a ter contato com a água e a uma atmosfera oxidante, que causam uma decomposição dos minerais originais do meteorito.
Mesmo apresentando-se como um ambiente hostil, existem alguns locais na Terra que favorecem a uma maior durabilidade dos meteoritos: os desertos. Quando nos referimos aos desertos, estamos englobando os desertos frios e os quentes, pois ambos apresentam as características necessárias para a preservação dos meteoritos: eles apresentam baixa umidade e permitem baixa exposição dos meteoritos a compostos químicos que podem levar a sua decomposição.

Nestas condições, o meteorito mais antigo é o Dhofar 025 (lunar), com cerca de 500 mil anos, seguido do Dhofar 908 (lunar) e o Dhofar 019 (marciano), com respectivamente 360 e 340 mil anos, todos encontrados nos desertos quentes de Omã. Destaca-se o fato de que os meteoritos acondritos (subclasse dos meteoritos rochosos onde se classificam os meteoritos lunares e marcianos) parecem ser os mais resistentes ao intemperismo terrestre.
2) Existem também meteoritos que se preservaram em condições semelhantes a fósseis e são encontrados em camadas sedimentares que datam de vários milhões de anos. Esses meteoritos caíram e se alojaram em locais onde sedimentos se depositavam e acabaram sendo englobados nos pacote sedimentar. Ainda preservam suas características originais, como a presença dos minerais originais formados no espaço.
Lake Murray – Rob Elliott, Fernlea
Dentre esses, destaca-se o meteorito de Lake Murray, um meteorito ferroso (octaedrito) encontrado em Oklahoma (Estados Unidos) em 1933. Uma única massa de 270 kg foi encontrada em um arenito datado do Cretáceo Inferior, de cerca de 120 milhões de anos atrás, formado em depósitos litorâneos. Apesar de o exterior estar altamente oxidado, seu interior preserva todas as características e compostos minerais originais. Ele é considerado o meteorito ainda intacto mais antigo da Terra.
3) Existem, porém, outros tipos de materiais que podem ser considerados os registros meteoríticos mais antigos da Terra: Os meteoritos “fósseis” ou meteoritos “relíquias” são materiais encontrados em condições semelhantes às citadas acima, porém que já perderam sua identidade como material extraterrestre.
Österplana – B. Schmitz & M. Tassinari
Meteoritos fósseis são todos aqueles em que já houve a substituição de pelo menos 95% de seus minerais por minerais terrestres, assim como ocorre com os fósseis de seres vivos. Nesta categoria destacam-se os meteoritos rochosos suecos de Österplana e Brunflo, encontrados em arenitos que datam do período Ordoviciano, respectivamente com 480 e 463 milhões de anos.
Partícula férrica meteorítica presa em rocha sedimentar – Hagstrum, Firestone, West, Stefanka, Revay
O meteorito Österplana, além de ser o mais antigo, ainda apresenta outras singularidades: foram encontrados cerca de 50 fragmentos distribuídos por 6000 m2 e em camadas com diferença total de 1,75 milhões de anos, o que pode evidenciar cerca de 12 eventos de quedas diferentes, um possível indicativo de que na época a quantidade de quedas poderia ser de 10 a 100 vezes maior do que o fluxo atual.

Além destes achados, os meteoritos podem estar ainda mais intimamente relacionados com a paleontologia:

Há não muito tempo foram encontrados uma série de 6 presas de mamutes e 1 par de chifres de bisão, todos datados do Pleistocenodo Alaska, contendo várias inclusões diminutas de pequenas partículas férricas.
Análises confirmaram que essas partículas são de origem meteorítica e podem ter sido originadas de um grande impacto, cujos estilhaços, em alta velocidade, foram espalhados por extensas áreas de maneira a cravar pequenos fragmentos nesses animais. Como as presas e os chifres estavam expostos no momento do impacto, ao se fossilizarem, mantiveram esse material que hoje vem sendo usado para estudar a possível relação deste impacto com uma grande extinção regional (e talvez de maior amplitude) de várias espécies desta época, há cerca de 32 mil anos atrás.
Meteorito
País
Data
Classe
Idade ma°
Österplana
Suécia
1987
Condrito L
480
Gullhögen
Suécia
2000
Condrito L
470
Brunflo
Suécia
1980
Condrito H
463
Lake Murray
EUA
1933
Ferroso IIAB
120
“Hawaii” (Kyte)
Havaí
1998
Condrito CM
65
Sardis*
EUA
1940
Ferroso IAB
5-23
Gay Gulch*
Canadá
1901
Ferroso IAB
2-5
Skookum*
Canadá
1905
Ferroso IVB
2-5
Ider
EUA
1957
Ferroso IIIAB
3.1
Tamarugal
Chile
1903
Ferroso IIIAB
2.7
* Idade terrestre exata ainda a ser determinada, estimativa baseada na idade dos estratos.
° Idades dadas em milhões de anos (ma).
Fonte: http://www.meteoris.de/basics/charts3.html
Apesar das diferenças acima citadas, todos os casos nos ajudam a contar parte da história do planeta e também dos seres vivos de diferentes épocas de estiveram de alguma forma envolvidos.
Uma forma de estudar a evolução da Terra e suas condições climáticas, por exemplo, é quando observamos a evolução dos desertos nos últimos 500 mil anos por meio de meteoritos lá encontrados. Podemos ainda, examinar as possíveis extinções regionais, ou em massa da biota, cruzar com informações sobre as condições do Sistema Solar há milhões de anos, e com isso inferir quais eram as probabilidades de impactos de grandes asteróides potencialmente perigosos no nosso planeta – Assim se fazem as projeções para os dias atuais. Por fim, ainda existe a possibilidade de estudar os próprios meteoritos, que por si só são grandes fontes de informação sobre a formação e evolução do Sistema Solar, e analisar a interação entre eles e a superfície terrestre.

Referências:

CLASSEN, Norbert. “IMCA Insights – April 2009.” I.M.C.A. International Meteorite Collectors Association – Home. Web. 09 Apr. 2010. http://www.imca.cc/insights/2009/IMCA-Insights04.htm&gt;.


CLASSEN, Norbert. “Meteorite Charts 3.” Meteoris.de – Planetary Meteorites. 2006. Web. 09 Apr. 2010.


http://www.meteoris.de/basics/charts3.html&gt;.HAGSTRUM, J.T., FIRESTONE, R.B., WEST, A., STEFANKA, Z., REVAY, Z. “Micrometeorite Impacts in Beringian Mammoth Tusks.” Web. 9 Apr. 2010. http://ie.lbl.gov/mammoth/TunguskaConferenceA4_Hagstrum.pdf&gt;.


“Meteoritical Bulletin: Search the Database.” USGS Mineral Resources On-Line Spatial Data. Web. 09 Apr. 2010. <http://tin.er.usgs.gov/meteor/metbull.php>.


VISSCHER, Channon. “FOSSIL METEORITES.” The Department of Earth and Planetary Sciences at Washington University in Saint Louis. 2003. Web. 09 Apr. 2010. http://epsc.wustl.edu/~visscher/research/fossil_files/frame.htm&gt;.


Obrigada pela maravilhosa viagem, Gabriel!!! Volte a escrever sempre!!


Gabriel Gonçalvez Silva é estudante de Engenharia Química na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), campus de São Carlos, SP. Apaixonado desde pequeno por meteorítica, e fã de geologia e paleontologia, não podia deixar de ser convidado pelo ‘Colecionadores’ para dar uma “palinha”.
Obrigada mais uma vez, Gabriel!