Bambiraptor? Pintosaurus!?– Os nomes mais estranhos da Paleontologia!
Com contribuição de Thiago Marinho
O bicho é meu e eu coloco o nome que eu quiser nele!!!
Pintossauro, Gasossauro, Dinheirossauro, Fodonyx, Bambiraptor…? A lista é longa! Um mais estranho que o outro! Mas porque eles foram batizados assim?
Veja aqui uma amostra dos nomes mais estranhos da Paleontologia!
Ai Ai Estou Morrendo Seu Idiota da Silva Sauro
- Quem não lembra do episódio da Família Dinossauro em que Baby é levado para o grande sábio afim de receber um nome, mas algo inesperado acontece? Ele acaba recebendo um nome meio que, digamos… incomum: ”Ai Ai Estou Morrendo Seu Idiota da Silva Sauro”.
(se você nunca assistiu, veja o episódio AQUI :) ).
Isso nos leva a pensar: Afinal, como são escolhidos os nomes dos dinossauros??
Certamente não é como no episódio da família dinossauro (ver post anterior), mas ainda assim parecem surgir alguns resultados meio… incomuns.
Neste post vamos reunir alguns dos nomes mais inusitados já escolhidos por paleontólogos.
Não são só os dinossauros que sofrem, mas toda ‘sorte’ de criatura extinta…
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Os 10 mais!
And the Oscar goes to:
1) PINTOSAURUS: gênero basal de procolofonídeo. Procolofoquê? Procolofonídeo! Procolofonídeos são pararépteis que lembram muito um “tipo robusto de lagarto”, mas na verdade não tem nada a ver com eles (Veja AQUI e AQUI para saber mais). Pintosaurus foi descrito em 2004, encontrado em rochas de idade Permo-triássicas do Uruguai. Pinto- foi escolhido para homenagear o Dr. Iraja Damiani Pinto, paleontólogo gaúcho que contribuiu substancialmente para paleontologia sulamericana. (…)
2) CHUPACABRACHELYS: Trata-se de uma tartaruga do período Cretáceo, que foi encontrada no Texas, USA. Não tem muito a dizer… o nome realmente foi em homenagem ao “chupa-cabra”…
3) GASOSAURUS CONSTRUCTUS: Dinossauro terópode chinês de médio porte. O nome foi escolhido para homenagear uma empresa de combustível. O dinossauro foi encontrado durante sua construção, por isso o nome da espécie é ‘constructus‘.
4) DINHEIROSAURUS LOURINHANENSIS: Uma espécie de dinossauro saurópode gigante, aparentado ao Diplodocus. Ele foi encontrado na região da Praia de Porto Dinheiro, concelho de Lourinhã, em Portugal. O nome deriva do local aonde ele foi encontrado. Tinha que ser um dinossauro português..
5) BAMBIRAPTOR: Sim, esse é um dinossauro que foi nomeado em homenagem ao Bambi. Isso mesmo, aquele personagem da Disney (…!!). Trata-se de um pequeno dinossauro carnívoro, com menos de 1m de comprimento. O nome foi escolhido porque aparentemente o espécime encontrado era um juvenil.
6) FODONYX: Rincossauro do Triássico Médio da Inglaterra. O nome significa “garra escavadora”. Em latim “fodere“=escavar e “onyx“=garra. “Tchau! vou ‘fodere’ dinossauros!”
7) MINOTAURASAURUS: Tipo de dinossauro anquilossaurídeo proveniente da Ásia. Foi descrito em 2008. O nome significa “Homem-touro-lagarto”.
8) GOJIRASAURUS: Gênero dúbio de dinossauro terópode encontrado em rochas triássicas do Novo México, EUA. O nome foi em homenagem ao monstro mitológico japonês. Gojira…. Gojira….Gojira…

Incisivosaurus – não é só o nome que é feio…
9) INCISIVOSAURUS: Um pequeno dinossauro terópode da China, provavelmente de hábito herbívoro. Sua dentição peculiar, com dentes proeminentes como os e um roedor, foi o que lhe rendeu o nome estranho.
10) PIKAIA: Representante basal do grupo dos cordados. O nome dessa criaturinha Cambriana encontrada em Burgess Shale significa “da Pika”. Pika é um tipo de pequeno mamífero aparentado dos coelhos, comumente encontrado na região aonde os fósseis de Pikaia foram descobertos. (Eu ri!)
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No mínimo exóticos:
- Enigmosaurus: Grande dinossauro terópode herbívoro (Therezinosauróide) do Cretáceo da Mongólia. Quando os seus restos foram encontrados, a anatomia não usual da pélvis do bicho deixou os seus descobridores tão confusos, que lhes pareceu um verdadeiro enigma. Assim sendo, resolveram nomeá-lo dessa forma.
- Camelotia: Gênero de um dinossauro prossaurópode do Triássico Inglaterra. Seu nome significa “de Camelot”. Camelot trata-se do lugar lendário na Grã-Bretanha, que teria abrigado o castelo e a corte do Rei Arthur.
- Erectopus: Dinossauro terópode allossauróide do Cretáceo da França. Descoberto no final do Século XIX, o seu nome significa: “Erecto=em pé”, “Pous=Pé”. Hm…
- Minmi: Dinossauro australiano da infraordem Ankylosauria. O nome é devido à Minmi Crossing, o lugar onde seus fósseis foram descobertos.
- Hallucigenia: Gênero de invertebrado fóssil do Período Cambriano. O nome é devido a sua forma bizarra, que aos olhos dos descobridores mais parecia uma alucinação. Já viu né!!
- Drinker: Pequeno dinossauro hypsilofodontídeo do Jurássico da América do Norte. O nome, traduzido do inglês significa “bebedor”, mas essa não foi a intenção, ele foi proposto para homenagear o renomado paleontólogo Edward Drinker Cope.
- Gargoyleosaurus: Um dos mais antigos anquilossauros já descobertos. Gargoyleasaurus foi encontrado em Wyoming, em rochas de idade Jurássica. Seu nome significa “lagarto gárgula”.
- Xixiasaurus: Dinossauro terópode troodontídeo descrito em 2010. Seus restos foram encontrados na região administrativa de Xixia, na província de Henan, China.
- Pawpawsaurus: Gênero de dinossauro da família Nodosauridae, da infraordem Ankylosauria. Seus restos foram encontrados na Formação Paw Paw, Texas, USA. Eu não consigo falar sem rir!
- Pedopenna: Dinossauro manirraptor do Jurássico da China. Pedopenna significa “pena no pé”. Este dinossauro recebeu esse nome por apresentar evidências da existência de longas penas inseridas ao longo de seus metatarsos.
- Ozraptor: Dinossauro terópode encontrado na Austrália, descrito em 1998. “Oz” faz referência ao apelido dado aos australianos,“Ozzies”.
- Borogovia: O nome deste dinossauro carnívoro troodontídeo é derivado dos “borogoves”, criaturas de um poema de Lewis Carroll, Jabberwocky, parte da obra “Alice no país das Maravilhas”.
- Appalachiosaurus: Gênero de dinossauro terópode tiranossauróide do Cretáceo da América do Norte. O nome faz referência a região estadunidense conhecida como Appalachia, onde o fóssil do animal foi encontrado.
- Petrobrassaurus puestohernandezi: Dinossauro saurópode argentino. Foi descrito em 2011. O nome do gênero realmente é devido a companhia de petróleo brasileira, Petrobrás, e o nome específico se refere a “Puesto Hernandez”, um dos centros de extração da companhia, aonde o dinossauro foi encontrado. Ahhh, invejosos! Queridos!!
- Atlascopcosaurus: Este dinossauro australiano recebeu seu nome em homenagem a companhia Atlas Copco. Esta companhia forneceu o equipamento para a expedição paleontológica que resultou na descoberta do novo dinossauro. Capessaurus, Fapespsaurus, Cnpqsaurus, vamo lá, galera!!
- Qantassaurus: Este dinossauro hypsilofodontídeo foi nomeado para homenagear a empresa aérea australiana, Qantas, que ajudou no transporte dos fósseis. Conclusão: australiano não sabe dar nome pra dinossauro!!
- Panamericansaurus: Outro gênero de dinossauro saurópode da Patagônia argentina. Foi descrito em 2010. O nome foi para homenagear a companhia petrolífera Pan American Energy, que deu apoio financeiro às pesquisas.
- Argentinosaurus – Ah…Esse só pra sacanear mesmo. Bonito nome.
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Homenagens curiosas:
Utahraptor spielbergi – Esse dinossauro raptor foi descoberto na semana de estréia do filme Jurassic Park. O nome da espécie foi escolhido para homenagear Stephen Spielberg, diretor de “Jurassic Park”. Posteriormente re-descrito, o nome da espécie mudou para ostrommaysorum. Depois de ganhar milhões com Jurassic Park, acho que S. Spielberg não deve ter ficado chateado….
Arthurdactylus conan-doylensis - Este pterossauro recebeu seu nome em homenagem a Sir Arthur Conan-Doyle, autor de “O Mundo Perdido“, mais conhecido pela sua série de livros “Sherlock Holmes”.
Tianchisaurus nedegoapeferima (Informalmente chamado de Jurassosaurus) - Tendo doado dinheiro para pesquisa de dinossauros na China, Stephen Spielberg sugeriu para esse dinossauro o nome de Jurassosaurus – em razão do lançamento do filme Jurassic Park em 1993. O nome esdrúxulo só pegou na informalidade. Porém ainda assim, o nome da espécie (nedegoapeferima) homenageia Jurassic Park: ele é formado pelas letras iniciais dos sobrenomes dos principais atores/atrizes que participaram do filme: Sam Neil, Laura Dern, Jeff Goldblum, Richard Attenborough, Bob Peck, MartinFerrero, Ariana Richards e Joseph Mazzello.
Dracorex hogwarsia - O coitado desse bicho foi batizado como um tributo a obra de J.K. Rowling, “Harry Potter“. - hogwarsia faz alusão a ‘Hogwarts’, a escola de magia.
Mimatuta morgoth - O Professor da Universidade de Chigado, Leigh Van Valen, nomeou uma série de mamíferos paleocênicos com base em personagens da série de livros “Senhor dos Anéis”. Morgoth foi em homenagem ao “The Dark Lord”, mas além dele ainda temos:
Alletodon mellon - mellon é a palavra élfica para “amigo” e a senha para a entrada nas minas de Moria.
Mithrandir onostus - Mithrandir sendo outro nome para Gandalf.
Oxyprimus galadrielae - Em homenagem a Lady Galabriel.
Protungulatum gorgun - ‘gorguns’ são os orcs.
Bom gosto esse cara.
Masiakasaurus knopfleri – Esse pequeno dinossauro predador recebeu seu nome em homenagem a Mark Knopfler, guitarrista da banda Dire Straits. De acordo com Scott Sampson, seu descobridor, o time resolveu batizar assim o dinossauro depois de escutar Dire Straits durante a escavação. De acordo com eles, novos dinossauros só eram encontrados quando esse som estava no rádio. Já tentamos essa tática, mas pra gente só funciona com “Hotel California” do Eagles… #sarcasmo
Aegrotocatellus jaggeri - Essa espécie de trilobita foi nomeada realmente a fim de homenagear estrelas do rock! O nome da espécie (jaggeri) foi um tributo a Mick Jagger, vocalista do Rolling Stones, enquanto que o nome do gênero “Aegrotocatellus” significa em latim “Sick Puppie” (ver a banda de rock alternativo australiana ‘Sick Puppies‘).
Um dos caras que ajudou a descrever esse trilobita (Greg Edgecombe), não satisfeito, nomeou uma outra série desses artrópodes primitivos com nomes de integrantes de bandas! Ele homenageou Sex Pistols (Arcticalymene viciousi, A. Rotteni, A. jonesi, A. cooki, A. matlocki), Ramones (Mackenziurus johnnyi, M. joeyi, M. deedeei, M. ceejayi), John Lennon, Ringo Star e Simon & Garfunkel (Avalanchurus lennoni, A. starri, A. simoni, A. Garfunkeli).
Norasaphus monroae -Esse trilobita foi uma homenagem de Richard Fortey, paleontólogo inglês, a Marlin Monroe.
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Trava-línguas:
- Malawisuchus mwakayasyunguti - Malawisuchus m(coloque-letras-nesse-espaço)
- Piatzinigkosaurus - WTF? Isso foi sacanagem dos argentinos.
- Huehuecanauhtlus tiquichensis - uheuheueheuh!!
- Nqwebasaurus - Primeiro dinossauro com o som de “CLICK” em seu nome. Pronuncia-se: N – (som de click com a língua) – KWE – BA – SAU – RUS. Nqweba é o nome do lugar aonde o dinossauro foi encontrado, na África do Sul. Trata-se de uma palavra na língua da tribo Bantu.
- Jinfengopteryx - China 1
- Jingshanosaurus - China 2
- Szechuanosaurus - China 3
- Jinzhousaurus - China 4. Os nomes chineses sempre são os mais impossíveis!
- Phuwiangosaurus - Tailândia.
- Bruhathkayosaurus - Índia. Correção: Os nomes asiáticos são sempre os mais impossíveis.
–> Agora-fale-tudo-junto!!!!
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“Éééé do brasiiilll!!!”
Como se já não bastasse o Baurusuchus e lanches salgadoensis (Veja o post anterior), ainda temos uma série de crocodilos tupiniquins com nomes estranhos:
- Morrinhosuchus - Ganhou seu nome em homenagem a um morro (!) que fica próximo ao local de coleta do fóssil, o “Morrinho de Santa Luzia”.
- Barreirosuchus – Mais uma alusão ao local de coleta, o bairro de Barreiros, em Monte Alto, SP;
- Caipirosuchus paulistans - que significa “o crocodilo caipira de São Paulo”.
- Pepesuchus – O nome foi uma homenagem ao Prof. José Martin Suárez (conhecido pelos colegas como Pepe).
Fora os dinossauros:
- Oxalaia quilombensis - O gênero é uma referência a divindade africana ‘Oxalá’ e a espécie refere-se aos alojamentos quilombolas da Ilha do Cajual (local onde o fóssil foi encontrado).
- Irritator challengeri - Dinossauro brasileiro nomeado por pesquisadores estrangeiros (David Martill e colegas) que ficaram “extremamente irritados” devido a “restauração” feita pelo seu coletor amador. Buscando fazer o fóssil parecer mais completo e valioso, o coletor clandestino acabou obscurecendo a real natureza do animal e dificultando o trabalho dos pesquisadores. Isso que dá comprar fóssil ilegalmente Dr. Martill!!! O nome da espécie foi uma homenagem ao Prof. Challenger, personagem do livro “O Mundo Perdido” de Arthus Conan Doyle.
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E para encerrar, Panamericansaurus pra vocês:
* Agradecimentos aos colegas paleontólogos que contribuíram ajudando (pelo facebook!) a reunir os nomes mais bizarros de seus respectivos campos do conhecimento!
O mundo depois do Apocalipse
Como o planeta Terra recuperou-se após o famoso K-T (o evento de extinção dos dinossauros)? No Brasil, um importante depósito fossilífero nos dá uma idéia de como o mundo se parecia pouco depois dessa catástrofe. Conheça a Bacia de São José de Itaboraí! O único depósito brasileiro que registrou a primeira irradiação dos mamíferos continentais após a extinção dos dinossauros. Er! E é claro… qual é a lição disso tudo para a história do “fim do mundo em 2012″…

A Bacia de Itaboraí no início do século XXI
Sem sombra de dúvida os dinossauros sempre foram a grande vedete da paleontologia. A fama deles chega por vezes a ofuscar outros personagens do nosso passado geológico. Todavia, não há momento mais importante para nós mamíferos, do que o período logo após a extinção desses gigantes. São as criaturas dessa era pós-apocaliptica que começaram a revolucionar o mundo para que ele fosse o que é hoje. Os sobreviventes da catástrofe e os emergentes pós-catástrofe é que ditaram as regras do período Cenozóico. Toda a história a partir daí, culminaria no cenário evolutivo e na distribuição atual dos organismos.
O Paleoceno trata-se da primeira época da Era Cenozóica. Ele sucede o Cretáceo, o último período da Era Mesozóica.
O Paleoceno está compreendido entre 65 e 55 milhões de anos atrás – aproximadamente – e é seguido pelo Eoceno, Oligoceno, Mioceno, Plioceno, Pleistoceno e Holoceno (Recente), respectivamente (Veja imagem abaixo).

Escala do tempo geológico enfatizando a Era Cenozóica
Com relação ao clima e a geografia, durante o Paleoceno o mundo era muito semelhante àquele cretácico. O clima era relativamente mais quente que o atual – tendo atingido um pico térmico no final do período (Veja “Terra Febril”) – e os continentes continuavam a sua lenta marcha para a posição atual. Biologicamente, no entanto, o planeta estava radicalmente mudado. As criaturas nos mares não eram mais as mesmas, as plantas terrestres também não (progressão da ascensão das Aniospermas) e os tetrápodes que dominavam os continentes – os arcossauros – encontravam-se baqueados com a baixa dinossauriana… Tinha início a revolução mammaliana!
Os espaços deixados vagos pelos grandes dinossauros foram logo ocupados por mamíferos (nós!) e as aves (os descendentes dos ‘lagartos terríveis’).
As origens evolutivas das famílias mammalianas que herdaram a Terra ainda permanecem uma questão controversa. Trata-se de um enigma difícil de resolver. O início da história evolutiva dos mamíferos modernos foi sem dúvida mais complexo do que se imagina. A radiação parece ter raiz no Cretáceo, mas o Paleoceno demonstra-se um momento crucial.
Os depósitos paleocênicos são raros e os mais conhecidos concentram-se na América do Norte (i.e. Crazy Montain, USA). Aí está a importância da Bacia de São José de Itaboraí. Hoje conhecida mundialmente, já recebeu a visita de pesquisadores do mundo todo para que estudassem o seu excepcionail registro fóssil. Até chegou a ganhar um andar próprio na escala de tempo geológico internacional!
A Bacia de Itaboraí nos dá uma idéia de como teria sido o interior do Rio Janeiro logo depois da extinção K-T, o golpe duro contra os arcossauros dinossaurianos.
Se você nunca ouviu falar sobre este patrimônio geo-paleontológico brasileiro, aqui vai uma oportunidade de conhecê-lo.
Convidamos a Dra. Lilian P. Bergqvist e sua aluna Stella Barbara S. Prestes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, para nos contar parte da história desse importante depósito sedimentar, que tem revelado fragmentos importantes do início da história da fauna neotropical moderna.
– Dra. Lilian P. Bergqvist atualmente é professora do Departamento de Geologia da UFRJ, ela estuda os mamíferos fósseis da Bacia de Itaboraí desde o início de sua carreira acadêmica e melhor do que ninguém pode nos introduzir à história e a importância deste lugar.
– Stella Barbara S. Prestes é graduanda em Ciências Biológicas pela UFRJ e participa ativamente dos trabalhos realizados na região, além de atualmente desenvolver um projeto educacional e de divulgação em relação ao Parque Paleontológico de São José de Itaboraí.
A BACIA DE SÃO JOSÉ DE ITABORAÍ
Por Stella Barbara S. Prestes e Lilian P. Bergqvist
A Bacia de São José de Itaboraí está localizada no estado do Rio de Janeiro. Trata-se de uma das menores bacias sedimentares brasileiras (cerca de 1.000 metros de comprimento por 500 m de largura), contendo o mais antigo registro continental Cenozóico do Brasil.
Localização da Bacia de Itaboraí
Possui registros de rochas que variam de cerca de 70-65 milhões de anos até depósitos recentes relacionados ao homem pré-histórico (8.100 anos). Esta bacia sedimentar é preenchida principalmente por deposição química de calcários em uma depressão associada aos fenômenos tectônicos que originaram a Serra do Mar. Também são encontrados depósitos detríticos. Alguns autores associam a origem do calcário à dissolução dos mármores do embasamento cristalino por ação de fenômenos de vulcanismo. O fato é que, em suas bordas, são encontradas lavas vulcânicas (rocha denominada ankaramito), cuja idade foi datada como de 52 milhões de anos. Esta lava “fritou” os sedimentos da base da bacia, carbonizando pedaços de vegetais, evidenciados pela presença de galhos e troncos fósseis.
Desde 1928 a Bacia de Itaboraí vinha sendo explorada como mina de calcário pela Companhia Mauá de Cimento, o terreno foi doado ao município em 1984, quando a empresa encerrou suas atividades na região. O cimento produzido neste local foi utilizado para a construção do estádio Maracanã e da ponte Rio-Niterói. Ao encerrar atividades, a empresa deixou uma cava de 70 metros de profundidade que foi preenchida por água subterrânea e das chuvas, criando um lago artificial que atualmente abastece os moradores do bairro São José.
Bacia de Itaboraí em 1957
Cimento Mauá, produzido por meio do calcário da região de Itaboraí
Bacia de Itaboraí em 2010 - Fonte: Prefeitura de Itaboraí
Dentro das fendas que cortavam os calcários foram encontrados fósseis da época Paleoceno do período Paleogeno de Itaboraí, relacionados aos existentes na Patagônia e sem outros representantes nas Américas. Eles são responsáveis pela definição, reconhecida na coluna internacional de tempo geológico, como andar Itaboraiense.
Esta Bacia é ricamente fossilífera, tendo sido coletados milhares de fósseis de animais (gastrópodes, mamíferos, aves, répteis e anfíbios) e vegetais. Os gastrópodes e os mamíferos são os fósseis mais abundantes. Os primeiros são comuns no calcário argiloso cinzento que formava o assoalho da bacia, enquanto os mamíferos são predominantes nos sedimentos que preenchiam as fendas que cortavam verticalmente os calcários. Restos de preguiça gigante, mastodonte e tartaruga foram encontrados em pequeno depósito de cascalho ao sul da bacia.
Reconstituição artística de como a região da Bacia de Itaboraí seria durante o Paleoceno - por Wagner Bromerschenkel, 2005
Reconstituição de Protodidelphis, uma das espécies de mamíferos fósseis encontrados na Bacia de Itaboraí - Por Maurílio de Oliveira
Reconstituição esqueletal de Carodnia vierai, um dos mais ilustres mamíferos fósseis paleocênicos da Bacia de São José de Itaboraí, foto por Paul Jürgens. Este animal teria 2,20m de comprimento e chegaria a 400kg.
No ano de 1990, a prefeitura municipal de Itaboraí declarou a área antes explorada pela companhia de cimento como utilidade pública, e em 1995, finalmente foi criado o Parque Paleontológico de Itaboraí.
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Bom… quanto ao Parque Paleontológico de Itaboraí, aí já é outra história da qual também se tem muito para contar! Profa. Lilian e Stella já estão convidadas a voltar.
O que nos resta a dizer, é exaltar mais uma vez a importância dessa área sedimentar. Além do registro paleocênico, Itaboraí também guarda a inestimável evidência da presença de fauna pleistocênica e a ocorrência de artefatos arqueológicos. Estes dois últimos, bem mais recentes…
Agora, voltando ao ‘mundo pós-apocalipto, o que Itaboraí nos mostra é que, mesmo pouco depois da extinção K-T, o mundo transbordava de vida e os mamíferos se diversificavam em um planeta quente e úmido. O Paleoceno foi um período importante de recolonização e reconquista de espaço para os Synapsida. Mesmo que a fauna paleocênica tenha sido quase toda extinta até o meio do Eoceno, como acredita-se, este período de tempo foi estratégico e funcionou como o gatilho para a franca expansão mammaliana e a sua soberania no que diz respeito a ocupação de nichos aquáticos (como topo de cadeia) e terrestres atuais. A recuperação foi relativamente rápida!
A nossa lição para 2012: o mundo sempre florecerá depois das catástrofes. Geralmente o que acontece é uma “troca de personagens principais”.
Com relação ao “fim do mundo”, portanto, independente de profecia maia ou qualquer outra coisa, se ocorresse alguma catástrofe global que levasse a extinção humana, rapidamente algum outro grupo de animais tomaria a frente, assim como os mamíferos fizeram logo após a queda dos dinossauros….! Portanto, ‘fica a dica’ do Ian Malcom: “Life always finds a way”.
Referências
Bergqvist, l.P.; Moreira, a.L. & Pinto, d.R. 2006. Bacia de São José de Itaboraí-75 anos de história e ciência. Rio de Janeiro, CPRM- MMe, p. 81.
Veja mais informações e detalhes sobre a Bacia de Itaboraí no SIGEP – clique AQUI - Bacia de São José do Itaboraí, berço dos mamíferos no Brasil
Terra Febril
O Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno (MTPE) e as suas lições para a atualidade – Conhecer o passado é a chave para revelar o futuro:
Localizando-se temporalmente: Dentro da Era Cenozóica (na qual se deu o reinado dos mamíferos, após a extinção dos dinossauros não-avianos), do Período Paleógeno, a primeira época é o Paleoceno, que se inicia a 65 milhões de anos atrás, seguida pelo Eoceno, há aproximadamente 56 milhões de anos. O MTPE teria se dado na transição Paleoceno-Eoceno – verifique o lado inferior direito da tabela. **O termo “Terciário”, de acordo com a mais recente tabela oficial da GSA, é considerado somente informalmente**
>Novo Croc gigante do Paleoceno Colombiano e pistas sobre a origem dos Dyrosauridae
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