>O ano dos Ceratopsia !!

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E os dinossauros com cifres fazem a festa

O primeiro semestre de 2010 realmente foi dos dinos ceratopsianos. Somente até o mês de julho, sete novas espécies foram descritas, incluindo o primeiro ceratopsídeo chinês e o primeiro mexicano. Além disso, um pequeno Ceratopsia encontrado na Hungria veio acrescentar muito à complexidade da biogeografia do grupo. O restante das espécies descritas são crias da América do Norte…

Eu lhes apresento, Coahuilaceratops, Sinoceratops, Mojoceratops, Ajkaceratops, Diabloceratops, Ojoceratops e finalmente Medusaceratops.- UFA!!!

Mas calma…. Antes de falar um pouquinho desses caras aí, vamos recordar:

CERATOPSIA!!

O nome Ceratopsia vem do latim, que significa “Lagartos com cifre frontal/ ou na face”.

Ceratopsia são dinos ornitísquios marginocefalianos. Suas formas ancestrais viveram no Jurássico, mas os primeiros exemplares desse grupo datam do começo do Cretáceo (aproximadamente 140 milhões de anos atrás), como Yinlong (considerado o mais primitivo) e Hongshanosaurus da China, além das diferentes espécies de Psittacosaurus asiáticos. A maior diversificação do grupo, no entanto, ocorreu durante a parte mais tardia desse período (Eocretáceo – por volta de 100 milhões de anos atrás), tendo sido recordada principalmente nas regiões da América do Norte e da Ásia.


Eram dinos herbívoros, possuíam um bico córneo e tinham tamanhos muito variados (de 1 à 9 metros). Suas formas primitivas tinham postura bípede e eram de pequeno porte. As formas derivadas eram quadrúpedes e normalmente bem maiores (i.e. Centrosaurus e Triceratops). Os chifres e escudos cefálicos característicos somente foram adquiridos ao longo da evolução da linhagem. Membros basais não os possuíam e acredita-se que estes caracteres tenham tido funções relacionadas com a proteção, display ou ainda termorregulação (?!) – ou uma combinação entre estes.  A quantidade de chifres e a conformação e ornamentações dos escudos cefálicos variavam imensamente. Os escudos podiam ser sólidos ou vazados, com rugosidades e ornamentações elaboradas, ou ainda simplesmente lisos. Marcas nos crânios de alguns desses animais indicam que disputas, pelo menos dentro algumas espécies, eram freqüentes (Triceratops).


Um significativo dimorfismo sexual foi bem documentado em Protoceratops e um estudo detalhado de variações ontogenéticas pode ser feito com esse mesmo gênero. A ontogenia também foi bem documentada em Psittacosaurus, assim como a presença de cuidado parental (Um fóssil de um adulto foi encontrado junto com os pequenos esqueletos articulados de 34 indivíduos juvenis).

Várias formas de ceratopsídeos derivados apresentavam comportamentos gregários, especialmente Centrosaurus e sua parentela.  Há indicações de que alguns desses animais eram os herbívoros dominantes em seus ecossistemas e tinham um impacto significativo no ambiente, assim como deveriam servir como fonte principal de alimento para carnívoros de grande porte.

Um espécime ímpar de Psitacosaurus provindo da China, ainda não atribuído a nenhuma espécie em particular, apresentou evidências bem preservadas do seu integumento, o que acabou por ajudar na compreensão de como seria a aparência externa desses animais. O fóssil indica, que a maior parte do corpo desses bichos era coberta de escamas – algumas grandes dispostas irregularmente, entremeadas por numerosas menores – , mas isso já havia sido observado em impressões de pele de ceratopsídeos como  Chasmosaurus e Centrosaurus. O mais excepcional desse exemplar, todavia, é a presença de uma série do que parecem ser cerdas tubulares ocas arranjadas numa fileira na porção dorsal da cauda. Os pesquisadores concordam que não deviam tratar-se de estruturas homólogas às proto-penas e penas dos dinos terópodes, já que são estruturalmente diferentes, entretanto, provavelmente eram utilizadas em funções semelhantes, como comunicação e display (não a termorregulação).


Aparentemente o grupo se originou na Ásia e teria dispersado para a América do Norte pelo Estreito de Behring por volta do Cretáceo Médio. Já quanto à origem dos Ceratopsidae, o grupo mais derivado dentro de Ceratopsia, essa questão ainda é discutida. Acreditava-se que eram endêmicos da América do Norte, porém o controverso fóssil de Turanoceratops, asiático, gerou discórdia quanto a essa questão. Teriam eles se originado também na Ásia e migrado? Ou Turanoceratops que teria migrado da América do Norte para a Ásia? Parece que um dos Ceratopsia de 2010 vem incendiar ainda mais essa questão…..

Ok, agora sim, vamos às novas figurinhas de 2010:

Coahuilaceratops magnacuerna  Loewen et al 2010



Encontrado no México, Coahuilaceratops é o dinossauro com os maiores chifres já descrito. Brincadeiras à parte, estes mediam 1,2 metros de comprimento! “Coahuila” faz referência à região onde o animal foi encontrado e “magnacuerna” é uma combinação latina para “grande chifre”.

Os fósseis são provenientes das rochas da Formação Cerro Del Pueblo, que datam entre 71,5 e 72,5 milhões de anos atrás. As rochas dessa formação também contêm uma grande quantidade de material desarticulado de dinossauros hadrossaurídeos. Ela parece ter se formado durante o que teriam sido grandes eventos de tempestades e furacões que acabaram por ocasionar morte em massa de animais.



Coahuilaceratops representa a primeira ocorrência de uma espécie identificável de dinossauro ceratopsiano para o México e acrescenta ao entendimento sobre a biogeografia, evolução e diversificação do grupo.

Sinoceratops zhuchengensis Xing et al 2010



Descoberto na China, no Grupo Wangshi em Zhucheng, na província de Shandong, em rochas do Cretáceo Superior, Sinoceratops trata-se de um ceratopsídeo basal. “Sino” faria referência à China e “zhucheng” ao local onde o material fóssil foi descoberto.

A análise cladística de Sinoceratops o colocou entre os Centrosaurinae, porém, Sinoceratops mostra-se consideravelmente maior que outros dinossauros desse grupo ceratopsiano. Seu tamanho é equivalente ao de Chasmosaurinae basais e, além disso, várias de suas características também o aproximam desse outro grupo peculiar. A distinção, nessa perspectiva, se torna incerta. Os pesquisadores destacam que essa descoberta acrescenta informações relevantes à transição morfológica dos dinos não –ceratopsídeos para os ceratopsídeos.

Sinoceratops vem ainda incendiar a questão biogeográfica do grupo:  De acordo com a proposta filogenética do trabalho de Xing e colaboradores, tudo indicaria que os Ceratopsidae teriam se originado na Ásia e posteriormente migrado para a América do Norte, aonde encontraram paleoambientes mais favoráveis para especiação. Eventos de dispersão múltiplos teriam ocorrido na evolução ceratopsiana e todos eles teriam ocorrido a partir da Ásia em direção à América do Norte. Esse padrão de dispersão também já fora sugerido para outros grupos de dinossauros como Tyrannosauroidea e Ornitomimosauria derivados.

Parece que o endemismo de Ceratopsidae para a América do Norte morre aqui.

Ajkaceratops kozmai Õsi et al 2010



Ajkaceratops vem mudar outra teoria arraigada na biogeografia de dinossauros ceratopsianos. A de que eles eram geograficamente limitados à América do Norte e a Ásia (apenas com registros controversos em outros continentes).

Descrito para o Cretáceo Superior de Iharkút, na Hungria, Ajkaceratops vem demonstrar que os ceratopsianos também ocuparam a região da Europa e, considerando a recente descoberta de dentes leptoceratopsídeos da Suécia, tudo indicaria que o clado deve ter alcançado a Europa em pelo menos duas ocasiões diferentes.

A fauna dinossauriana do Neocretáceo da Europa era caracterizada como uma mistura de taxa relictuais endêmicos e taxa gondwânicos, sendo ausente grupos norteamericanos e asiáticos. Esse novo dinossauro, no entanto, demonstra que essa hipótese biogeográfica prevalente é muito simplificada e requer uma revisão. Iharkút, na Hungria, fazia parte da porção oeste do arquipélago de Tethys, uma série de cadeias de ilhas tectonicamente complexas entre a África e a Europa. A ocorrência de um dinossauro ceratopsiano nessa localidade pode representar um evento de dispersão do estilo “saltadores-de-ilhas” cruzando o Oceano de Tethys.

Ajkaceratops é similar à ‘bagaceratopsídeos’ como Bagaceratops e Magnirostris, conhecidos do Cretáceo superior do leste asiático.

Diabloceratops eatoni Kirkland et al 2010



Diabloceratops foi descrito com base em um magnífico crânio desarticulado, parte do inventário que a Utah Geological Survey estava conduzindo na Formação Wahweap no sul do Estado de Utah, EUA. Apesar da parte direita do crânio estar danificada, no seu lado oposto, todos os aspectos craniais estavam preservados. Assim sendo, um minucioso trabalho de reconstrução foi feito e finalmente pode-se apreciar por completo toda distribuição de caracteres diagnósticos próprios para posicionar o animal confortavelmente em seu contexto filogenético.



Os autores destacam que Diabloceratops seria um dos mais antigos Ceratopsidae conhecidos e um Centrosaurinae basal, mas o mais interessante seria a presença de uma característica peculiar bem preservada, cuja significância nunca havia sido considerada antes dessa descoberta: A fenestra antorbital acessória (FAA). Os autores examinaram a distribuição desse distinto caráter entre os ceratopsídeos e concordam que sua utilização pode fornecer respostas filogenéticamente interessantes para resolver questões sobre a origem e radiação dos ceratopsídeos.

Dados os cenários evolutivos possíveis considerados por Kirkland e colaboradores, aparentemente a FAA teria sido perdida pelo menos vezes distintas entre os Ceratopsia. Os autores, no entanto, pretendem avaliar mais rigorosamente essa proposta. Por enquanto sugerem que isso poderia se dar por pressões evolutivas comportamentais, que teriam levado à necessidade de reforçar o crânio do animal, como por exemplo o estresse de combate.

 A mensagem de Diabloceratops é que por vezes pode ser muito mais significativo identificar um novo caráter filogenéticamente interessante para entender a origem e evolução de um grupo, do que descrever uma nova espécie de dinossauro – não importa quão legal isso possa parecer.

Ojoceratops fowleri Sullivan & Lucas 2010



Ojoceratops mostrou-se um dos maiores dinossauros ceratopsianos conhecidos. Encontrado no Novo México, USA, em rochas de 70 milhões de anos, esse animal rivaliza em tamanho com Torosaurus e os maiores espécimes de Triceratops.

O nome do animal é derivado da formação rochosa onde ele foi encontrado, Ojo Alamo. A descoberta se deu ainda no ano de 2005, pelo na época assistente de campo e hoje estudante de PhD, Denver Fowler.

Os autores destacam que Ojoceratops seria um dos últimos dinossauros ceratopsídeos sobreviventes e pertenceria ao grupo dos Chasmosaurinae.

Restos desarticulados desse animal provavelmente foram confundidos com Torosaurus durante os últimos 30 anos. O resgate desse material com características diagnósticas suficientes para descrição de uma nova espécie vem a acrescentar significativamente ao conhecimento do Cretáceo Superior do Novo México, até então basicamente caracterizado por pedaços e cacos de dinossauros.

Embora o material dessa nova espécie não represente um crânio completo, há caracteres suficientes para estabelecer algumas de suas relações. É possível destacar sua afinidade com Triceratops: ele é mais antigo e possivelmente pode ser um ancestral, mas não pode-se descartar que talvez não passe de somente uma forma diferenciada do sul.

Mojoceratops perifania Longrich 2010


O nome desse animal foi escolhido numa mesa de bar e regado a muita cerveja. Apesar de ter sido selecionado inicialmente como uma brincadeira em referência aos filmes da série Austin Powers, o nome colou e só depois é que o autor notou que até que ele fazia sentido.

Ao buscar a etimologia da palavra “mojo”, Longrich descobriu que se tratava de um termo afro-americano utilizado no início do século 20 para designar “charme” ou “talismã” para atrair o sexo oposto e, pensando bem, é justamente para isso que o animal em questão deveria utilizar o seu escudo cefálico adornado e em formato de coração.

“Perifania” vem do grego e significa “orgulho”.  Supostamente nomes de origem grega ou latina deveriam ser utilizados para denominar gêneros e espécies, no entanto Longrich argumenta “que se pode fazer boa ciência e ainda ter um pouco de diversão. Não é mesmo?”.

Mojoceratops trata-se de mais um Chasmosaurinae. Seus restos foram resgatados em Alberta, Canadá, na região do Dinosaur Provincial Park. As rochas desses depósitos datam de 75 milhões de anos.

Os exemplares estudados por Longrich estavam depositados no museu de História Natural de Nova York, aonde ele vinha estudando a coleção de fósseis desde 2008. Ele notou algumas características diferentes em alguns espécimes classificados supostamente como Chasmosaurus, incluindo chifres mais longos que o usual e adornos peculiares no escudo cefálico. Algumas viagens a museus no oeste do Canadá ajudaram a confirmar a sua hipótese. Somam-se até agora 8 crânios parciais da nova espécie.



É uma surpresa que depois de tanto tempo de estudo com fósseis da região do Dinosaur Provincial Park, uma nova espécie de dinossauro de grande porte seja descoberta. A fauna dinossauriana dessa região tem se mostrado a mais diversa de todo mundo, e até agora se procuram explicações convincentes de porque isso teria se dado.

Medusaceratops lokii Ryan et al. 2010


Do Cretáceo de Montana, Canadá, da famosa Formação Judith River, Medusaceratops um Chasmosaurinae de 7 metros de comprimento e 2 toneladas vem encerrar esse post sobre os Ceratopsia.

“Medusa”, do grego, faz alusão ao monstro mitológico da Grécia com cabelos de serpente, já “Loki”, ao deus nórdico da trapaça e travessura, fazendo referência ao quão difícil foi para os pesquisadores identificarem o animal.

Apesar de recém descrito, o dinossauro foi encontrado 15 anos atrás por uma companhia comercial de fósseis contratada para analisar um afloramento numa fazenda ao longo do Milk River na fronteira dos Estados de Alberta e Montana. A partir daí, demoraram anos até que a nova espécie fosse diferenciada de outra similar, encontrada um pouco mais ao norte – Albertaceratops – , além de outras aparentadas da mesma família.

Ryan, o pesquisador que coordenou o estudo, destaca o fato de que materiais de bone-beds, como o da região, são muito difíceis de serem trabalhados. Por serem em geral desarticulados e fragmentados, dificultam imensamente o processo diagnóstico e outros tipos de análises mais derivadas.

Medusaceratops coloca-se como um representante basal dos Chasmosaurinae, mas num ramo diferente dos Albertaceratops.

Apesar de fabuloso, o escudo cefálico de Medusaceratops provavelmente não era utilizado para a defesa contra predadores, mas como uma propaganda para atrair parceiros, destacam por fim os pesquisadores.

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Ainda estamos em julho… o que mais virá????
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“New Perspectives on Horned Dinosaurs” livro editado por Michael J. Ryan, Brenda J. Chinnery-Allgeier e Davis A. Eberth, resultado do Royal Tyrrel Museum Ceratopsian Symposium é a referência de maior destaque do ano para esse fantástico grupo de dinossauros. Clique aqui para acessá-lo parcialmente no google books.
Não só várias espécies de novos ceratopsianos são ali descritas (como alguns dos aqui citados), mas várias novidades no estudo desses dinossauros. Em próximas/breves oportunidades podemos voltar ao assunto.

>Vida multicelular há 2,1 BILHÕES de anos??? WHOAAAA!!!!!

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Fósseis espetaculares para a paleontologia foram descobertos no leste da África. Eles empurram a aurora da vida multicelular na Terra de 600-700 milhões de anos para pelo menos 2.1 bilhões de anos atrás. O paper que descreve essa novidade foi publicado na revista britânica Nature neste 1º de julho.

Créditos da imagem: CNRS

Os pelo menos 250 fósseis em bom estado de conservação, encontrados no Gabão, África, seriam os primeiros registros da presença de vida macroscópica no planeta Terra. Eles foram encontrados por um grupo internacional e multidisciplinar de cientistas, coordenado por Abderrazak El Albani, da Univerdidade de Poitiers da França.


Sítio no Gabão aonde foram encontrados os fósseis de 2,1 bilhões de anos.

Constituem-se de estruturas com até 12 centímetros, de formas variadas, mas bastante características. Elas apresentam um padrão básico simples de camadas flexíveis enrugadas, geralmente organizadas em uma constituição radial. Esses novos fósseis implicam que a origem da vida multicelular é muito mais antiga do que se pensava, desafiando o atual conhecimento sobre a evolução da vida complexa no Planeta Terra.

 Exatamente quão complexos eram esses organismos recém descobertos?

Isso será debate ainda por um bom tempo. Os pesquisadores sugerem que os padrões de crescimento deduzidos pela morfologia dos fósseis indicam que os organismos apresentavam sinalização celular e respostas coordenadas, sinais típicos de organização multicelular. Não eram, portanto, somente um amontoado de células.

A descoberta é fantástica porque demonstra a existência de fauna multicelular 1,5 bilhão de anos antes do que se pensava. É um importante acréscimo ao entendimento da evolução da vida no planeta.

Análises geoquímicas dos sedimentos indicam que os organismos viviam a aproximadamente 30 ou 40 metros de profundidade, numa coluna d’água oxigenada. Dados isotópicos sugerem que as estruturas eram sim distintos objetos biogênicos, fossilizados por piritização no início da formação da rocha.




Foram utilizadas tecnologias de scanneamento 3D para reconstituir as amostras e assim acessar o grau de sua organização interna com maior detalhe sem destruir os fósseis.  O método permitiu aos cientistas definir claramente que a forma dos mesmos indicava grau de complexidade na organização:  Eles deveriam realmente tratar-se de eucariotos multicelulares.

Créditos da imagem: CRNS – Recontituição tridimensional das estruturas.

Os estudos ainda sugerem que esses organismos podem ter vivido em colônias: mais de 40 espécimes  por vezes foram coletados juntos dentro de meio metro quadrado.

Foto de divulgação da Revista Nature

Os pesquisadores agora planejam dar continuidade aos estudos e se possível determinar como esses organismos viviam, além de procurar categorizá-los.


Referências: 


El Abani, A. et al. 2010. Large colonial organisms with coordinated growth in oxygenated environments 2.1Gyr ago.  Nature 466, 100-104 (1 July 2010) | doi:10.1038/nature09166

>Monstros marinhos de sangue-quente

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Durante a Era Mesozóica os oceanos eram habitados por uma diversa fauna de répteis marinhos. Plesiossauros, Ictiossauros e Mosassauros compunham esse elenco de famosos monstros bizarros. Mas uma questão que sempre motivou discussões foi quanto o metabolismo desses animais: seriam eles endotérmicos, ou seja, capazes de regularem a temperatura corporal?

A Paleontologia alinhada à Geoquímica trouxeram uma resposta à essa questão. Pesquisadores franceses realizaram estudos recentes com isótopos de oxigênio (O-18/O-16) contidos em fósseis dos três mais famosos grupos de répteis marinhos mesozóicos: os Plesiossauros, os Ictiossauros e Mosassauros. Eles compararam a composição dos isótopos de oxigênio no fosfato dos dentes daqueles grupos com os de peixes que coabitaram os mesmos ambientes.

O valor de O-18 contido no fosfato de vertebrados indicam ambos: a temperatura corporal e a composição da água ingerida. No caso dos répteis estudados, a valor de O-18 reflete o sangue durante o processo de formação dos dentes. Assumindo que ambos os répteis e peixes estudados viveram sob as mesmas condições de massa de água, o O-18 indicaria a temperatura corporal deles. E assim foi feito, analisando amostras do mundo todo. Veja a tabela abaixo:



Abaixo estão as tabelas com os valores específicos para todo o material encontrado em uma mesma camada de sedimento. Os erros estão elevados pois tiveram de ser considerados os processos diagenéticos (de formação do fóssil), onde pode ter ocorrido uma variação da composição original dos matérias coletados.

           
Apesar de todas as variáveis existentes, é possível observar a partir dos gráficos acima, que mesmo com a variação da temperatura da água, os répteis marinhos estudados conseguiam manter relativamente sua temperatura corporal, com exceção dos Mosassauros, que permitiriam que sua temperatura diminuísse levemente a medida que a temperatura da água também diminuísse.

A endotermia não é característica de um grupo apenas. A endotermia total ou parcial surgiu ao longo do tempo em diferentes espécies de diferentes linhagens. É sabido que alguns tipos de tubarões e atuns possuem endotermia parcial, assim como também alguns insetos e até mesmo vegetais. Acredita-se que a origem da endotermia total tenha ocorrido somente no Permiano, com os Sinápsidos. 

No grupo dos Arcossauros, propuseram a endotermia para dinossauros e pterossauros. Já quanto aos crocodilianos, ainda é tópico de debate sobre se alguns de seus ancestrais  teriam desenvolvido tal capacidade, tendo em vista que o coração de seus representantes atuais possui quatro câmaras assim como o das aves e mamíferos.

A termorregulação pode ser um indicador para o sucesso evolutivo dos répteis marinhos gigantes, afinal, eles deveriam necessitar de uma enorme quantidade de energia para suas atividades predatórias. Essa peculiaridade fisiológica lhes teria dado maior flexibilidade comportamental.

À respeito dos grupos comentados

As três linhagens de répteis marinhos gigantes enfocadas no texto representam adaptações de diferentes grupos à vida marinha. Os Ictiossauros evoluíram a partir de répteis neodiápsidos basais. Tinham o formato de corpo parecido com o dos golfinhos atuais, sem pescoço, mas uma cauda parecida com a de um peixe. Já os Plesiossauros eram diápsidos derivados — Sauropterygia, o grupo irmão dos Lepidosauria (cobras e lagartos). Tinham fortes patas em forma de pás e um longo pescoço. Os Mosassauros eram varanóides anguimorfos altamente adaptados à vida marinha. Possuiam o corpo alongado, cauda larga e chata na vertical e patas em formas de pás. 

Tanto a morfologia dentária e o conteúdo estomacal desses três grupos de répteis marinhos indicam que eram predadores. Sua fisiologia indica que eram excelentes nadadores, resistentes a diferentes temperaturas, sobretudo os Mosassauros e Plesiossauros, que poderiam realizar longas jornadas em mar aberto.





Referências Bibliográficas:

. A. Bernard, C. Lecuyer, P. Vincent, R. Amiot, N. Bardet, E. Buffetaut, G. Cuny, F. Fourel, F. Martineau, J.-M. Mazin & A. Prieur, 2010. Regulation of Body Temperature by Some Mesozoic Marine Reptiles. Science, 328 (5984): 1379 DOI: 10.1126/science.1187443

. R. Montani, 2010. Warm-blooded Sea Dragons. Science, 328 (5984).

Um blog sobre Paleontologia e ciências afins.