Conan Doyle e a Medicina

Estou lendo uma biografia recente de Arthur Conan Doyle, escrita por Andrew Lycett, e acabo de passar pelos anos em que ele estudou Medicina em Edimburgo, na década de 70 do século retrasado. O retrato da prática e da ciência médica da época é meio chocante.
É interessante ver como a formação do médico naquela época (e naquele lugar) era um evento absurdamente “mão na massa”: as aulas em classe eram poucas e genéricas, envolvendo basicamente botânica, anatomia e drogas em geral, e o que os estudantes mais faziam era disputar vagas nas clínicas dos professores, para fazer coisas como preparar curativos, dar injeções e, no geral, levar uma vida de escraviário.
Os limites para o exercício da profissão também eram bem elásticos: aos 19 anos, Conan Doyle, ainda estudante, embarcou como médico de bordo numa expedição baleeira à Groenlândia.
O futuro criador de Sherlock Holmes também fez um pouco de pesquisa científica, tendo publicado alguns artigos no British Medical Journal. Como o próprio biógrafo reconhece, no entanto, nenhum desses trabalhos seria levado a sério como ciência hoje em dia, já que envolviam observações de casos únicos, sem controles. Num experimento específico, Conan Doyle testou uma planta venenosa em si mesmo, tomando doses progressivamente maiores, para descobrir o imite de tolerância do organismo, já que a dita-cuja parecia fazer bem para a dor de cabeça.
(Foi um teste sem controles e no qual Doyle não anotou que partes a planta estava usando em cada etapa, o que tornou o esforço todo meio inútil. Ele registrou uma forte diarreia, no entanto)
A ética médica da época também bem mais grosseira que a atual: um colega de faculdade do escritor enriqueceu montando uma clínica onde as consultas eram grátis, mas os remédios, misturados no porão pela esposa do doutor, não. Escolas de inglês usam um esquema parecido hoje em dia.
Mas os médicos vitorianos tinham senso de humor. Ao receber seu MB (grau de bacharel em Medicina), Conan Doyle fez um desenho comemorativo — ele tinha muitos parentes arquitetos, desenhistas e caricaturistas, e o talento parecia estar na família — com a legenda “Licenciado para Matar“.

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Discussão - 5 comentários

  1. Sandra disse:

    Anos atrás li um livro interessantíssimo sobre os irmãos Mayo, sobre a fundação da famosa clínica, enfim, foi muito interessante. Vou ver se localizo o título, talvez possa ser encontrado em algum sebo.
    Quanto a questão ética, infelizmente estas práticas ainda existem. Basta ver como certos profissionais fazem uso de procedimentos e terapias sem nenhuma indicação, somente por questões financeiras. Os jornais estão repletos de casos. Infelizmente.
    É sempre um prazer ler o seu blog.

  2. Cássio disse:

    Algumas escolas no Brasil seguem à risca os preceitos de ensinamento da década de 70… do século de Conan Doyle.

  3. Bessa disse:

    Tive a mesma impressão “hands on” sobre o curso de medicina em Edimburgo a partir da biografia de um outro aluno de lá, este nã década de 1820, mais ou menos. Darwin descreve ricamente como aprendeu a “anestesiar” com rum e amputar a perna de uma criança. Depois daquilo decidira deixar a medicina e voltar para casa.

  4. cretinas disse:

    Roberto, fui checar o post e ele já diz “retrasado”… Quanto às escolas, existem várias que oferecem mensalidade grátis, mas cobram o material didático (apostilas, etc).

  5. Conan Doyle, anos 70 do século passado? Retrasado, você quis dizer, não?
    Não entendi o lance das escolas de inglês. Talvez aulas de graça mas apostilas não?

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