Abusos sexuais na Igreja Católica: uma avaliação

Agora que a ação proposta por Richard Dawkins contra Bento XVI provavelmente vai jogar a questão dos padres pedófilos no centro das “culture wars” entre ciência e religião, acho que é uma boa ideia tentar aclarar alguns dos conceitos e princípios que me parecem estar em jogo, e que andam meio submersos na gritaria de parte a parte.
Individualização da pena: Todo castigo coletivo é absurdo. Um crime é cometido diretamente por um indivíduo, com o concurso de um ou mais cúmplices, e são essas pessoas que devem ser punidas. Condenar ou punir a totalidade do clero católico pelos abusos cometidos por padres individuais é tão odioso quanto culpar todos os ciganos, todos os negros, todos os judeus, etc, por crimes cometidos por um ou outro membro desses grupos.
A tradição do acobertamento: O princípio da individualização da pena, no entanto, não deve servir como pretexto para que as autoridades eclesiásticas responsáveis sejam eximidas da culpa, quando houver, pelo acobertamento, pela relutância em entregar pedófilos às autoridades policiais, pela continuada complacência com pedófilos e acobertadores. O cardeal emérito de Boston, Bernard Law, que atuou durante décadas pondo “panos quentes” em casos de pedofilia cometidos em sua arquidiocese, nunca foi formalmente punido, e sua transferência para Roma — onde atua até hoje — pode muito bem ser interpretada como uma tentativa de afastá-lo do braço da justiça dos Estados Unidos. Law sequer foi impedido de votar na eleição de Bento XVI para o papado.
O celibato: A política de celibato obrigatório do clero no catolicismo de rito romano pode não ser, como às vezes se diz, um estímulo ao abuso sexual de jovens, mas não é difícil argumentar que ela faz da carreira eclesiástica um atrativo para pessoas com esse tipo de tendência. Da mesma forma que necrófilos buscam trabalhar em casas funerárias, é bem possível que homens que se sentem atraídos por meninos busquem o clero. Principalmente em comunidades católicas conservadoras, que melhor pretexto, além da batina, um homem adulto teria para se manter solteiro e em contato constante com crianças?
A ação contra o papa: O homem Joseph Ratzinger certamente não está acima da lei, e durante décadas exerceu postos de alta responsabilidade na administração do clero católico. Foi ele, por exemplo, quem puniu Leonardo Boff por supostos erros doutrinários. Não é, portanto, exagerado ou absurdo suspeitar que tenha desempenhado um papel na longa história de acobertamentos da qual o cardeal Law é apenas o exemplo mais evidente. Se não como réu, certamente seu depoimento como testemunha seria útil em pelo menos alguns casos como, por exemplo, no da carta revelada pela Associated Press.

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Discussão - 1 comentário

  1. Boa.
    Eu só discordo um pouco da questão do celibato como atrativo para pedolágnicos. O ponto mais central parece ser a facilidade de acesso às crianças – independentemente de se precisa ser solteiro ou casado, afinal parece que o magistério é também uma função que atrai pedolágnicos.
    []s,
    Roberto Takata

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