O Vaticano e as células-tronco

A soi-disant Santa Sé vai financiar um estudo americano que busca determinar se as células-tronco do aparelho digestivo têm pluripotência. Trata-se, evidentemente, de um avanço sobre a política anterior — que provavelmente não será abandonada — de pressionar políticos para que absorvam dogmas de fé na legislação de países supostamente laicos.
Em vez de simplesmente cacarejar sobre alternativas inexistentes, a hierarquia católica tentará produzir algumas alternativas concretas ao uso de células embrionárias.
A notícia foi divulgada na sexta-feira por agências internacionais.
Preocupante é o uso publicitário a que os resultados da pesquisa serão submetidos, sejam quais forem; se as células adultas forem bem-sucedidas, este certamente será um aríete de relações públicas na tentativa de coibir a liberdade de investigação científica. Se malsucedidas, alguma outra instrumentalização criativa do resultado surgirá.
De qualquer forma, trata-se de um investimento saudável do dinheiro da igreja. Melhor, certamentre, do que a compra de báculos, ostensórios e turíbulos.

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Discussão - 7 comentários

  1. cretinas disse:

    A única diferença entre um tumor, uma placenta e um embrião é que este último tem, dadas as condições adequadas, 30% de chance de vir a se desenvolver num ser humano. Pondo de lado o fato de que a tecnologia da clonagem talvez venha a eliminar essa distinção muito em breve, não considero que a diferença seja trivial, mas também não considero que seja forte o bastante para deter estudos que podem salvar a vida de seres humanos reais e não apenas potenciais.

  2. Artur Pecegueiro disse:

    É difícil dialogar com quem se acha “científico” a mais não poder, ao mesmo tempo que não sabe a diferença que existe entre um ser humano, uma placenta e um tumor. Por acaso disseram a você que sua mãe jogou fora a criança e criou a placenta, e você acreditou?
    Sr. Cretino: placentas não crescem e não se desenvolvem até o ponto de tornarem-se blogueiros. Tumores também não.
    Arthur, o embrião está vivo no sentido de que e um conjunto de células humanas que se alimentam e se reproduzem. Mas, primeiro, não é um “indivíduo”, nem no sentido etimológico que você cita — simplesmente porque ainda pode se dividir em dois, três, e dar origem a gêmeos — e nem no sentido jurídico, de pessoa portadora de direitos.
    O que você entende de direito, Sr. “Científico”? Por acaso nunca leu o Código Civil, onde se diz que os nascituros têm direitos?
    Art. 2o A personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro.
    http://www.planalto.gov.br/ccivil/leis/2002/L10406.htm
    O Código Civil argentino chega a reconhecer (como era a tese de Clovis Bevilacqua no Brasil) a personalidade civil desde a concepção:
    http://campus.usal.es/~derepriv/refccarg/ccargent/libro1_secc1_titulo1al5.htm#titulo3
    A existência de uma “pessoa” — com direito à vida, liberdade, busca da felicidade — é predicada na existência de uma personalidade que possa apreciar a vida, gozar da liberdade e desejar a felicidade.
    Esta é uma afirmação totalmente gratuita, isto é, não provada. Diz apenas o que você acha a respeito do assunto, sem que possa impugnar uma opinião contrária. Você pode achar isso. Porém, minha opinião é outra: é a de que todo ser humano tem uma dignidade intrínseca, independente de outra circunstância que não a de ser humano. Você defende um princípio hedonista; eu, a dignidade intrínseca do ser humano.
    Ademais, aponte-me alguém que hoje pode “apreciar a vida, gozar da liberdade e desejar a felicidade” que não tenha sido antes um embrião humano. Se é lícito matar um embrião, por que não seria lícito matá-los todos?
    A ideia de que o embrião é um ser humano leva, portanto, à conclusão de que 70% da população da Terra morre de causas naturais antes de nascer!
    E qual o problema nisso?
    O limbo deve ser um lugar muito lotado.
    O senhor acredita no limbo?????

  3. cretinas disse:

    Arthur, o embrião está vivo no sentido de que e um conjunto de células humanas que se alimentam e se reproduzem. Mas, primeiro, não é um “indivíduo”, nem no sentido etimológico que você cita — simplesmente porque ainda pode se dividir em dois, três, e dar origem a gêmeos — e nem no sentido jurídico, de pessoa portadora de direitos.
    A existência de uma “pessoa” — com direito à vida, liberdade, busca da felicidade — é predicada na existência de uma personalidade que possa apreciar a vida, gozar da liberdade e desejar a felicidade. O embrião não tem isso, a menos que se assuma o dogma de que a personalidade não é, como indica a ciência, o fruto da interação do sistema endócrino com o nervoso (coisas que o embrião não tem), e sim uma “alma” depositada ali no instante da concepção.
    Vida humana biológica sem personalidade simplesmente não conta: senão, teríamos de considerar que culturas de células cancerosas mantidas em laboratório para fins de pesquisa são seres humanos escravizados e submetidos a experimentos antiéticos, já que (a) estão vivas, crescem, alimentam-se, multiplicam-se; (b) têm DNA humano completo.
    Poder-se-ia argumentar que o embrião tem uma personalidade “em potencial”, e que interferir com o desenvolvimento desse potencial é, em princípio, errado. Mas no caso dos estudos com células-tronco embrionárias, o que está em jogo são supostos diretos potenciais (do ser a quem o embrião poderia dar origem) contra direitos reais (dos cientistas, de estudar; e das pessoas que hão de beneficiar-se as pesquisas, de serem curadas).
    De resto, a ideia de que o produto da fecundação torna-se, ipso facto, um indivíduo humano gera mais paradoxos do que resolve. A placenta, por exemplo, é fruto da fecundação e, mais do que isso, geneticamente idêntica ao embrião. Portanto, deveria ser resgatada após o parto e mantida viva, por meio de aparelhos.
    Além disso, gêmeos reabsorvidos – quando o embrião se divide em dois e, depois, um dos irmãos “engole” o outro – teriam de ser tratados como vítimas de um homicídio cometido pelo nascituro.
    Um aparte: cerca de 70% de todos os óvulos fecundados se perdem naturalmente – seja por falha na implantação no útero (mais de 50%) ou por aborto espontâneo no início da gravidez (30% dos que sobreviveram à prova anterior). A ideia de que o embrião é um ser humano leva, portanto, à conclusão de que 70% da população da Terra morre de causas naturais antes de nascer! O limbo deve ser um lugar muito lotado.

  4. Artur Pecegueiro disse:

    Quanto à moralidade dos transplantes, não seja tão simplista assim. Talvez você ignore, mas existe polêmica na academia sobre isso:
    http://www.unifesp.br/dneuro/mortencefalica.php

  5. Artur Pecegueiro disse:

    A sua resposta é falaciosa, a menos que por absurdo você ignore as diferenças entre a vida e a morte — parafraseando Vieira: quereis saber o que é a vida? olhai para um corpo sem vida. Ademais, é também ignorância chamar um cadáver de indivíduo humano — indivíduo, etimologicamente, é aquilo que não se pode dividir sem destruição (o que se aplica tanto ao embrião, como ao ser humano adulto). Um cadáver não é um indivíduo, mas um corpo humano em decomposição.
    Se entre o indivíduo vivo e o cadáver existe o facto morte, o mesmo não ocorre entre o embrião humano e o correspondente indivíduo adulto. A vida do indivíduo é um processo iniciado com a fusão dos gametas e que se desenvolve, sem solução de continuidade, até o facto irreversível morte. Isso não é artigo de fé, mas um facto empiricamente constatável. No mais, é um flagrante absurdo sustentar que o embrião está mortinho da silva e que, de repente, em determinado momento que ninguém sabe quando, torna-se milagrosamente um ser humano vivente. Isto sim é artigo de fé, e milagre mais difícil de se crer que a imaculada conceição…

  6. cretinas disse:

    É um artigo de fé a ideia de que um “embrião de ser humano” seja um “indivíduo humano em estágio embrionário”. A mesma formulação permitiria definir um corpo humano sem vida como “indivíduo humano em estágio cadavérico” e declarara imorais todos os transplantes de órgãos.

  7. Artur Pecegueiro disse:

    Suponho que “por absorver dogmas de fé na legislação de países supostamente laicos” o autor entenda “proibir a destruição de indivíduos humanos em estágio embrionário para fins científicos e/ou outros”.
    1. Se assim for, o autor não sabe o que é um “dogma de fé”, e que ele se distingue de “preceitos de moral”. Um dogma de fé é uma proposição a ser crida (por exemplo: que Jesus Cristo é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus); um preceito de moral é uma norma, uma proposição a ser praticada (por exemplo: não roubar, não matar).
    2. O respeito à vida do ser humano não é um dogma de fé, não é uma afirmação a ser crida ou não, mas uma prescrição a ser praticada ou não. Ademais, é uma norma que não é patrimônio exclusivo da Igreja católica: inúmeras outras religiões e filosofias compartilham do mesmo preceito ético.
    3. A “liberdade de investigação científica” não pode ser independente de restrições jurídicas e éticas. O conceito de “liberdade de investigação científica” que o autor defende é absolutamente o mesmo do Mengele.

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