Polêmica freudiana, again?

Sou só eu que bocejo toda vez que alguém “descobre” que a psicanálise não é ciência? Agora foi a vez do filósofo francês Michel Onfray. Se não me engano, o marxismo e a psicanálise foram os dois exemplos clássicos de pseudociência usados por Karl Popper ao definir o conceito, trololós de anos atrás.
(Resumo: uma pseudociência é um sistema de interpretação dos fatos do mundo dotado de lógica interna — real ou aparente — mas que só é capaz de oferecer explicações ad hoc e a posteriori, e não presta para fazer previsões com qualquer grau razoável de precisão. Geralmente é possível detectar uma pseudociência ao notar que ela não faz nenhuma afirmação que possa ser desmentida, de modo inambíguo, pelos fatos)
O que talvez seja mais assustador nessas “redescobertas” cíclicas é a absoluta incapacidade das humanidades de evoluírem, e de desfulanizar boa parte de suas questões.
Mal comparando: Descartes estava redondamente enganado em sua teoria da mente e em sua teoria dos vértices, e suas provas da existência de Deus estão cheias de falácias, mas nenhum usuário de geometria descritiva sai por aí aos berros, escandalizado, ao ouvir isso.
Nas palavras de Daniel Dennett, a psicanálise freudiana foi “a good try”, uma boa tentativa, de interpretar a mente humana por fora dos dogmas religiosos e com as ferramentas disponíveis há 100 anos. Mas a história provou que não era boa o suficiente. Let’s move on, people!

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Discussão - 12 comentários

  1. Luis Fernando disse:

    Michel Onfray é ingenuo demais e este post siplesmente desconsidera mais de um século de pesquisa e prática de um ciência genuína. Se Karl Popper delimita o que é ciência, isso não quer dizer que algum corpo teórico que não esteja dentro dos limíties “Popperianos”, não tenha seu valor (terapêutico, heurístico, metodológico etc.)
    Ficam entao dois trechos interessantes:
    “Para Popper, pelo menos, algumas versões da teoria da história de Marx, a psicanálise de Freud e a psicologia adleriana sofrem desta falha(ser falsificavel ou não)”.
    __
    “Como deverá estar claro, meu próprio ponto de vista é de que não existe um conceito universal e atemporal de ciência ou do método científico que possa servir aos propósitos exemplificados no parágrafo anterior. Não temos os recursos para chegar a tais noções e defendê-las. Não podemos defender ou rejeitar legitimamente itens de conhecimento por eles se conformarem ou não a algum critério pronto e acabado de cientificidade. Se, por exemplo, queremos tomar uma posição ilustrada sobre alguma visão do marxismo, devemos investigar quais são suas metas, os métodos empregados para alcançá-las, a extensão na qual essas metas foram alcançadas, e as forças ou fatores que determinam seu desenvolvimento. Estaríamos, então, em posição de avaliar a versão do marxismo em termos de desejabilidade do que ele quer, da extensão na qual seus métodos possibilitam que tais metas sejam alcançadas, e os interesses a que ele serve.”
    (Alan F. Chalmers – O que é Ciência afinal? Editora Brasiliense, 1993)
    200a

  2. glenn disse:

    a psicanálise não é só uma forma de entender o self, sendo totalmente subjetiva?
    não enxergo nem pq devesse ser ciência nem pq as pessoas se chocam com isso…
    enfim, essas discussões sempre me parecem inócuas, e assim sendo, apenas acho graça.

  3. Moc disse:

    Zé, o problema com o seu ponto de vista é que ele trata como iguais validações “pela sociedade” e validações “pelos fatos”. São coisas diferentes. Concordo, é possível criar hipóteses engenhosas sobre qualquer coisa, mas poucas delas escapariam de ser desmentidas pela natureza. E as que não têm como ser desmentidas pela natureza simplesmente ficam penduradas num vácuo — o filósofo Richard Rorty certa vez disse que “verdade é o que os meus contemporâneos aceitam” e alguém respondeu, “sou seu contemporâneo e não aceito sua definição de verdade”. E aí, como fica o relativismo?

  4. Zé Colmeia disse:

    Me parece precipitado subjulgar a psicanálise e outros domínios de saber que subsidiam representações de mundo que não as ciências duras.
    Mesmo as ciências físicas, por mais dinâmicas e rigorosas que sejam na construção do conhecimento, se alicerçam nada mais, nada menos do que em hipóteses fortes. Ainda assim, são hipóteses!, assim como a relação entre astros e o comportamento humano, obviamente sem a explicação de causa que todo cientista corprometido com a “verdade” preza.
    Se todas esses conhecimentos são construídos sobre hipóteses, posso criar meu sistema de valores, obviamente não positivista e cientificista como o seu, para provar que as ciências naturais são meras invençõs humanas e por isso são tão limitadas quanto o que você chama de pseudociência, o que, no entanto, não tira seu mérito enquanto visão de mundo. Com um discurso robusto, posso ser bem sucedido, principalmente dentro da Academia.
    Enfim, acho que você poderia ser mais maleável com suas verdades.
    Um abraço,

  5. Karl disse:

    Também vi essa matéria. Fiquei até com coceira para escrever. Ainda bem, porque não escreveria melhor. E depois outra, é melhor fazer o papel de “pedra” que de “vidraça”, hehe.
    Quase que não me sobra o que comentar, tal a qualidade dos comentários de seus leitores, Moc, parabéns.
    Concordo com o João. O termo pseudociência é depreciativo. Pior. Presume apenas *uma* visão do problema, o que para um bom cientista já é, em si, muito ruim. Concordo com a Patrícia também em discordar do Igor. Aprendi com o Érico, mas acho que faltou um argumento para coroar o seu comentário e tirar o ranço positivista do post (que foi a citação do Dennett). A psicanálise freudiana foi (e é) altamente criticada por vários outros autores mais recentes (de Jung e Lacan, à Maria Rita Kehl). Ou seja, críticas dentro de seu próprio terreno “pseudocientífico”. Entretanto, o tal “endeusamento” de Freud é mantido (quase como o de Darwin

  6. cretinas disse:

    Érico, Freud foi realmente um grande escritor e um gênio retórico.

  7. cretinas disse:

    Oi, Patrícia! Desculpe, você está certa, existe pesquisa digna do nome nas humanidades (em minha defesa, destaco o “boa parte” que usei na frase lá em cima). O problema é que essa parte dificilmente chega ao conhecimento (e ao debate) público. Mas agora fiquei na dúvida: Freud, nas escolas de psicologia do Brasil, é “objeto de estudo” ou “doutrina”?

  8. Patrícia Monteiro disse:

    “O que talvez seja mais assustador nessas “redescobertas” cíclicas é a absoluta incapacidade das humanidades de evoluírem, e de desfulanizar boa parte de suas questões”.
    Cuidado com as generalizações que faz! As ciências humanas fazem muita pesquisa falsificável, do gosto de Popper. E a psicanálise, apesar de estar na universidade, não se vende como ciência. Por acaso podemos chamar dança ou artes plásticas de ciência (não estou falando que psicanálise seja arte)? Claro que não. Apesar de poderem ser praticados e aprendidos fora da universidade, alguns campos do saber não-científico são válidos de serem estudados na academia.

  9. Érico disse:

    Opiniões contrárias à parte, fiquei bastante surpreendido com a repercussão dessa notícia porque tudo, absolutamente TUDO deste livro já fora descrito numa obra de quase 15 anos atrás, Por Que Freud Errou, em que o autor coloca todas essas questões, aliás, um livro de crítica com retoques de crueldade, o tal do Webster parece que tem uma rixa pessoal com o Freud! Ou seja, esse livro novo não tem nada de exatamente novo.
    Obviamente que psicanálise não é ciência. Na realidade o maior propósito de Freud, antes mesmo de ser “científico”, era de estabelecer leis, na verdade esta era a verdadeira obsessão dele. Assim sendo, ele só usou os bordões de ciência para tentar embasar a psicanálise porque de acordo com o paradigma vigente, a ciência era quem tinha o poder de estabelecer leis, então ele tentou colocar o status de sua teoria como ciência mais para fortalecer os pilares das leis que criava do que para ser exatamente “científico”. Nesse sentido, a psicanálise só é uma pseudociência se você levar a sério essa fixação (hehe) do Freud em considerá-la ciência.
    Mas acho que hoje é fácil contextualizar tudo isso, e acho possível ver a obra de Freud de outra perspectiva. Eu prefiro vê-la como um produto de introspecção extremamente refinado de um homem que tinha um poder de argumentação ímpar, que acabou criando uma teoria quase fantasiosa sobre a mente humana. Pra mim a psicanálise está muito mais próxima de Shakespeare do que de qualquer outra coisa baseado no método… e acho que assim ela deveria ser vista.
    E é realmente interessante ler Freud, pra ver como ele constrói a linha de raciocínio, vale mais do que qualquer aula de retórica!
    Lógico que a psicanálise é uma furada e como ciência totalmente inválida. Mesmo assim, por algum aspecto obscurto, pode até ser que funcione como terapia para algumas pessoas, não precisa ser ciência para funcionar! Mas ela não explica muita coisa mesmo.
    Mas eu respeito – e muito – Freud, acho que só quem teve contato com os livros dele sabe que ali tem algo literário muito forte, é só saber ajustar um pouquinho o ponto-de-vista. E Mal-Estar na Civilização continua sendo um dos melhores estudos culturais sobre pós-modernidade até hoje…
    É importante lembrar que Freud teve educação em ciência, numa época que tendia a se desprezar tudo que não se proclamava (ou se considerava) científico. Essa questão é interessante no campo das teorias, lembrei agora de Kuhn, que comenta logo no início de A Estrutura das Revoluções Científicas, das diferentes concepções sobre a luz ao longo da história de Newton, Fresnel, Einstein e Planck, algumas até divergentes, mas TODAS consideradas científicas. É sempre importante se flexibilizar, e o mais importante ainda, se contextualizar em ciência, pq como diria Bruno Latour, não há por que limitar o estudo da ciência à escrita do Livro da Natureza e esquecer de estudar esse Grande Livro da Cultura…

  10. cretinas disse:

    Talvez cabesse uma distinção, mesmo… o problema é que “pseudo-ciência”, no sentido amplo (picaretagem OU ciência em formação) já está meio consagrado. O que não nos impede, claro, de começar a fazer lobby pela distinção mais fina…

  11. Igor Santos disse:

    O problema é que, assim com homeopatia, psicanálise é uma matéria curricular em cursos superiores e isso cria a percepção de que são ciência.
    Isso e o fato de Freud ser daquele tipo de personagem sagrado do qual não pode se falar mal.

  12. João Carlos disse:

    Você talvez devesse fazer um “caveat”: o termo “pseudo-ciência” traz uma conotação depreciativa. Toda e qualquer “ciência” passou por essa fase. O erro está em querer fazer como os atuais astrólogos: insistir em aplicar noções sabidamente erradas a fatos cientificamente comprovados.
    Quem sabe não seria o caso de criar um neologismo, algo como “proto-ciência”, para esses primeiros esforços que até empregam um processo quase-científico?

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