Magistérios separados: #FAIL

Alguém já disse que a Igreja Católica parou de queimar hereges na estaca não porque tenha concluído que isso é errado, mas porque os governos seculares pararam de deixar.
(Este, aliás, é o grande ponto polêmico da peça Santa Joana, de Bernard Shaw: o argumento do dramaturgo é de que Joana d’Arc não foi vítima de um erro judiciário coisa nenhuma: a inquisição era aquilo mesmo)
Exagero ou não, o chiste sobre hereges e estacas chama atenção para um fato importante: religiões em geral só se tornam tolerantes e defensoras da liberdade de consciência quando acuadas.
O judaísmo só parou com os apedrejamentos de dissidentes depois que os romanos passaram o trator por cima da Palestina; os cristãos só apagaram as fogueiras após as revoluções republicanas; e o islã hoje é o rei dos dois pesos e duas medidas, queixando-se de perseguição em parte do mundo e exercendo tirania irrestrita em outra parte.
O padrão agora chega à Rússia, onde a Igreja Ortodoxa, de volta ao papel de ópio do povo e amparo dos poderosos que exercia tão graciosamente durante o regime dos czares, sente-se forte o suficiente para cobrar o ensino do criacionsimo nas escolas.
Enfim, a ideia dos “magistérios não sobrepostos” de Stephen Jay Gould talvez até pudesse funcionar, mas — com o perdão do trocadilho involuntário — faltou mesmo combinar com os russos.

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Discussão - 4 comentários

  1. Karla disse:

    Depois de alguns anos dando aulas de evolução e tentando compreender meus alunos cheguei à conclusão de que o problema não é a religião, e sim certas pessoas que se dizem religiosas… Existem aquelas que exercem domínio sobre as outras pessoas por estarem em posições hierárquicas elevadas nas diferentes religiões (imagino que crer em um deus e crer num representante dele na Terra faça do representante alguém muito especial). Estas fazem um mal genérico, mas, pelo menos no mundo ocidental de hoje, através de leis seculares, contornável…
    O que mais me preocupa são os seguidores de qualquer religião sem visão periférica, que acreditam saber uma verdade que deve ser imposta aos demais. Estes, na minha opinião, são os piores. É gente capaz de matar para defender o seu deus dos ateus malvados comedores de criancinhas. Já tive alguns problemas neste sentido e não desejo a ninguém um fundamentalista furioso como inimigo.
    Quanto a ensinar criacionismo nas escolas, sem comentários! Não consigo compreender porque essa discussão ainda existe. Espero que isso não volte à pauta no Brasil. Sei que algumas escolas religiosas insistem nisso, mas espero que isso nunca se torne uma política pública. De minha parte, tento formar professores de biologia da melhor forma possível.

  2. Yoda disse:

    Então, dessa forma, podemos pensar que o Estado também pode recuar nos mandos e desmandos a medida em que a sociedade evolui. As regras de simplificação do divórcio, que foi aprovada hoje no senado, fariam parte dessa regra?

  3. Cesar Reis disse:

    Em síntese. Os males do mundo residiram e residem nas religiões. Sem elas não haveria crimes, guerras, holocaustos, torturas, confíscos, tiranias, imperialismos, escravidões e…claro, bombas atômicas.
    Foi necessários que os bons homens, dos bons costumes emergissem das filosofias para mudar os regimes de governos a fim de que as criminosas religiões deixassem de assassinar a humanidade.
    Ainda bem que a era científica e tecnológica redimiu a humanidade….graças a Deus! Ops…heresia minha, desculpe.

  4. Buckaroo Banzai disse:

    Isso, dá a deixa para os criacionistas igualarem evolução a comunismo e censura estatal às religiões. Até fica difícil de discordar de que seria isso mesmo que está defendendo.
    Tomara que não vingue a idiotice da igreja ortodoxa e que a ciência e a educação russas não sofram como ocorreu com o lysenkoísmo.
    Não acho que isso será evitado considerando-se o conceito de magistérios não-sobrepostos como fracassado, apesar de nem considerar a idéia de magistérios não sobrepostos 100% válida — uma vez que as religiões não se restringem a questões de cunho moral, e que as suas considerações morais tomam como base premissas hipotéticas sobre coisas cuja existência é desconhecida. Apesar disso, ainda penso que é mais provavelmente mais ou menos por esse caminho que vai se conseguir melhores resultados, e não ignorando totalmente a possibilidade da religião continuar existindo numa forma mais branda com suas hipóteses não-testáveis mantidas quase que numa esfera pessoal, aceitando a liberdade de (des)crença alheia e até mesmo a ciência como método mais eficaz do que a revelação para questões como biologia e medicina.
    São os próprios religiosos — e a maioria deles — aceitando o princípio de magistérios não sobrepostos. Simplesmente não faz sentido desconsiderar-se isso por causa de alguns grupos, e então se considerar o conceito de magistérios não sobrepostos como problema ou como algo “falho”, e declarar, ou decretar, que religiões e ciência são irreconciliáveis, sugerindo implícita e vagamente a necessidade de “acuar” a religião para salvar a ciência.
    PS 1: Não entendi o “fail” para o conceito de magistérios não sobrepostos com esse anúncio de mais uma instância existência de criacionistas, uma vez que o próprio texto de SJ Gould não predata a existência dos mesmos.
    PS 2: Que trocadilho?

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