Um conto de duas raposas

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Essa imagem cristaliza o desafio do nosso tempo, adaptação e sobrevivência. Aqui observamos a luta pela vida entre a raposa do Ártico e a raposa vermelha que começou a adentrar ao norte invadindo o território das raposas do Ártico, competindo por recursos e ainda desempenhando uma dinâmica de Lotka-Volterra, ou seja predador/presa. A imagem representa também os efeitos das mudanças climáticas e do aquecimento global que já são sentidas pela vida, e impele os organismos a buscar novos ambientes e formas de viver. Uma vez que as raposas vermelhas são mais robustas, elas estão dilacerando a carne e a existência das raposas do Ártico, e aos pouco se adaptando ao ambiente frio e branco do norte. Parece que é somente a nossa espécie que não consegue realizar que a mudança é real, e que urge uma resposta rápida da nossa parte.

Mais informações:

“Exclusion by interference competition? The relationship between red and arctic foxes”

“Artic foxes and climate change – IUCN”

“Global warming and effects on the Arctic fox”

bioweb.uwlax.edu

biologicaldiversity.org

A imagem que ilustra o post “A tale of two foxes” do fotógrado Don Gutoski, foi premiada no concurso “2015 Wildlife Photographer”.

“Pando” e as árvores alienígenas

Conheçam “Pando”, o bosque de árvores mais antigo do planeta (1). Na verdade, é um sistema gigante de raízes que deu origem a uma floresta de clones, um “superorganismo” de 80 mil anos de idade, onde os primeiros brotos começaram a comer os pedaços do Sol quando a nossa espécie ainda vivia na África. Pando em latim significa “eu me espalho”, e realmente, essa espécie, a Populus tremuloides se espalhou por 42,9 hectares em forma de 40 mil troncos na região do “Fish Lake” do estado de Utah nos E.U.A, tornando-se também o organismo mais pesado da Terra, com 6.615 toneladas. Alguns autores indicam que o sistema pode até mesmo possuir 1 milhão de anos de idade (2), assim precedendo o próprio alvorecer da humanidade. Sabemos hoje que existem 3 trilhões de árvores no nosso planeta, isso dá em torno de 420 árvores para cada pessoa. O número é maior do que imaginávamos, e mesmo assim é muito pouco, já que são abatidas 15 bilhões de árvores por ano. Estima-se que desde a ultima era glacial (11 mil anos atrás; onde os primeiros indícios de atividade humana em termos globais são visíveis) 46% da cobertura arbórea original da Terra tenha sido destruída (2). Neste dia da árvore, não consigo pensar em uma forma de vida mais instigante do que essa, o superorganismo “Pando”, e queria lembrar da importância e grandeza das árvores. Sem elas, o planeta e o universo inteiro ficaria mais pobre, menos perfumado, com menos frutos, menos sombra e com menos vida. Quem sabe se as árvores só existam por aqui?

O bosque tremulante de clones

O bosque tremulante de clones

Referências:

(1) https://goo.gl/LSfO2I
(2) http://goo.gl/GR61a6
(3) http://goo.gl/o7CaAN

Imagem:http://goo.gl/BTlfk0

O Biólogo não está “de boas”

Ontem foi dia do Biólogo, então elaborei algumas palavras baseado em dados atuais sobre o quadro da vida no planeta e a nossa relação nesse quadro, humanos biólogos ou somente humanos.

Nesse dia do Biólogo eu não estou “de boas”. Talvez a nossa classe profissional não tenha muita coisa a comemorar, ao sair de uma perspectiva individual, imediatista e ir defronte a uma visão de teias complexas e vivas, no grande e antigo quadro cosmológico das coisas. A gente vem só perdendo ultimamente. Para abastecer a demanda de novos produtos para a humanidade (para aqueles que podem comprar) seria preciso de 1,6 planetas Terra atualmente com os mesmos recursos finitos (1). Em 2030 seria necessário existir dois planetas para suprir essa vontade das coisas. Em 2050 estima-se que todo o estoque pesqueiro do oceano irá colapsar (2). Também em 2050 é previsto que 99,8% das espécies de aves marinhas estarão comendo plásticos (3). O plâncton marinho vem se alimentando de plásticos há algum tempo, assim os componentes do plástico (em sua maioria tóxicos) se amplificam nas cadeias alimentares acumulando em grandes mamíferos comedores de plâncton como as baleias (4). Ainda na mãe oceano, a sobrepesca com o uso de dinamites e venenos destrói os recifes de corais de tal forma que 1/3 das espécies coralíneas se encontram em elevado risco de extinção (5). No Caribe prevê-se que nos próximos 20 anos não existirão mais corais nativos (6). Em 2100 se os níveis de dióxido de carbono (CO2) continuarem no mesmo ritmo os recifes de corais irão desaparecer (7). Em terra firme, análises indicam que 41% dos anfíbios, 26% dos mamíferos e 13% das aves estão seriamente ameaçados de extinção, o que irá caracterizar a sexta extinção em massa da história da vida na Terra (8). Os humanos são superpredadores, e ao longo da nossa história caçamos de forma insustentável em uma taxa 14 vezes maior do que os predadores selvagens topo de cadeia (9). O número de árvores diminuiu em 46% desde o início da civilização humana, sendo que 15 bilhões são cortadas a cada ano (10). As primeiras assinaturas humanas do planeta começaram em 1610, dando início a era geológica do Antropoceno, a marca da humanidade na superfície da Terra (11). A causa dessas mudanças na biosfera e no clima possuem evidências robustas das atividades industriais e humanas (12,13,14,15, 16,17). Essa “tragédia dos comuns” (18) constitui um problema ético e não tecnológico neste estado que nos encontramos, já que as mudanças dependem de decisões humanitárias, políticas e ideológicas. Existe uma tendência de diluir a culpa para toda a humanidade, e ao mesmo tempo privatizar o lucro que advém dessa destruição. Esses são os fatos e previsões, e não são nada bonitos. Tu pode querer ignorá-los, pode olhar para o lado, e dizer que “a Biologia não tem nada a ver com isso” ou ainda “que o consumismo e o nosso sistema econômico não tem culpa”, vá em frente. Mas cedo ou tarde os efeitos, que são independentes da crença de cada um, serão e já estão sendo sentidos em maior ou menor intensidade. Nós como Biólogos possuímos esse privilégio de estudar a vida que existe e existiu, e quem sabe, se a gente trabalhar pesado discutindo, brigando mais e influenciando quem realmente toma decisões no mundo, tornaremos possível a sua existência (e a nossa) por Eóns à frente, dando continuidade para a sinfonia orgânica que começou a ser escrita e tocada em uma sopa primordial em alguma esquina do terceiro planeta depois do Sol. Até onde sabemos esse planeta aqui é o único que possui vida. Então, para realmente a gente “ficar de boas” precisamos de muito mais “tretas” para resolver e enfrentar todos esses desafios que se desdobram e desacortinam diante de nossa existência. Biologia é o estudo da vida, e sem vida não existe Biologia.

"Por mais tretas e menos deboísmos"

“Por mais tretas e menos deboísmos”

Referências:

(1) http://migre.me/rpVmn
(2) http://migre.me/rpVo3
(3) http://migre.me/rpVrr
(4) http://migre.me/rpVsQ
(5) http://migre.me/rpVth
(6) http://bit.ly/1pIy2se
(7) http://migre.me/rpVwb
(8) http://migre.me/rpVwu
(9) http://migre.me/rpVDy
(10) http://migre.me/rpVDW
(11) http://migre.me/rpVEj
(12) http://migre.me/rpVEI
(13) http://migre.me/rpVIm
(14) http://migre.me/rpVKr
(15) http://migre.me/rpVN4
(16) http://migre.me/rpVNt
(17) http://migre.me/rpVO1
(18) http://migre.me/rpVOA

Superar a Terra.

Entramos na era planetária e ainda não separamos um tempo para pensar o que isso significa para o ser humano. A sonda “Voyager 1” neste exato momento já atravessou o cinturão solar e “libertou-se” da tremenda força gravitacional do sol. Além de constituir a prova cabal de que existe vida inteligente no universo (a terráquea) carrega em si mensagens, sons e conhecimentos registrados em forma de um disco de ouro para as hipotéticas civilizações que um dia talvez a consigam interceptar. Pode ser hoje, amanhã, ou daqui a milhares de anos.

Disco de ouro da Voyager com mensagens da Terra

Disco de ouro da Voyager com mensagens da Terra

Já encerramos o reconhecimento inicial e inventário do nosso sistema solar coroados com as imagens e informações sobre o planeta-anão Plutão, através da sonda “New Horizons” da NASA, que há poucos dias nos enviou após sua longa jornada de 9 anos, imagens extraordinárias de planícies de metano, montanhas de gelo, glaciares de nitrogênio, e rachaduras na sua geografia alienígena, captadas por olhos robóticos e apreciadas por olhos do animal humano, que agora permeiam o seu imaginário.

O "coração" de plutão em cores falsas

O “coração” de plutão em cores falsas

Ainda nesta semana ainda foi realizada mais uma importante descoberta atravessando a nossa fronteira solar, de um novo planeta, Kepler-452b orbitando a “zona habitável” (região onde é possível encontrar água no estado líquido) de uma estrela, Kepler-452 na constelação de Cisne, que possui temperatura semelhança ao nosso Sol, embora seja mais brilhante. Esse novo planeta é uma Super-Terra, ou seja, é semelhante à Terra mas possui massa e tamanho ligeiramente maiores, e aquém do tamanho dos gigantes gasosos como Júpiter e Saturno,  o que possibilita o surgimento de uma superfície rochosa, atmosfera, e quem sabe, condições para a vida florescer.

Comparação entre a Terra e o nosso Sol com o sistema Kepler -452

Comparação entre a Terra e o nosso Sol com o sistema Kepler -452

Ainda não sabemos as suas características físico-químicas, mas devido a sua posição neste novo sistema solar, constitui-se um candidato ideal de uma futura de busca por vida extraterrestre. Ele foi encontrado distante 1400 anos-luz da humanidade, pela missão “Kepler” que possui o objetivo de rastrear planetas extra-solares parecidas com a terra, ou seja, outros além da nossa vizinhança solar.

Planícies alienígenas em Kepler - 452b

Planícies alienígenas em Kepler – 452b

Certamente não iremos visitar este mundo alienígena neste tempo de vida que nos encontramos, mas a descoberta amplia as perspectivas sobre a abundância de planetas parecidos com o nosso, e ainda pode nos ajudar a compreender a origem e futuro do nosso próprio planeta. Ivan Turguenev, o escritor Russo, uma vez disse que vivemos sentados na lama, mas contemplamos as estrelas. Que as estrelas, e agora, os planetas alienígenas que realmente sabemos existir, continuem instigando a nossa espécie a continuar buscando e olhando para o céu, e a questionar se somos únicos, sozinhos e especiais, e quem sabe nos auxiliem a descobrir como superar o nosso tempo e modo de pensar, aqui na terceira rocha depois de uma estrela que chamamos de nosso Sol. Além da Terra e das Super-Terras.

Fontes:

http://voyager.jpl.nasa.gov/spacecraft/goldenrec.html

https://www.nasa.gov/image-feature/pluto-dazzles-in-false-color

https://www.nasa.gov/keplerbriefing0723

http://www.iflscience.com/say-hello-earth-20-historic-kepler-discovery-suggests-we-are-not-alone

O “beijo” da Nemertinea

 

Um vídeo de um animal estranhamente alienígena e vermiforme viralizou nessa semana, onde este que parecia um tipo de minhoca ou sanguessuga, liberava uma substância parecida com uma rede. Na verdade, este animal pertence ao filo Nemertea, e já foi descrito poética e biológicamente no nosso blog (1).

São vermes marinhos, batizados com esse nome em alusão às Nemertes, ninfas mitológicas que encantavam os marinheiros gregos. Essa estrutura liberada é uma projeção da probóscide (apêndice alongado do sistema bucal) que é utilizada para a captura das presas que servirão como alimento, que reliza giros, torções e espalhamento, embebedada em toxinas que imobillizam a presa. Alguns indivíduos deste filo possuem ainda a probóscide composta de calcário, e outros como dessa espécie que aparece no vídeo, Gorgonorhynchus repen, o verme Gorgônia, a estrutura lembra os tentáculos da medusa Gorgon (2).

Referências:

(1) Texto do blog “Espírito de Ninfa, corpo de verme” http://migre.me/pLzK3

(2) http://en.wikipedia.org/wiki/Nemertea

Espírito de ninfa, corpo de verme

Nemertes para os gregos antigos, era uma ninfa, um espírito oceânico que acompanhava Poseidon, o Deus dos mares, e algumas vezes era amigável aos marinheiros que se aventuravam em águas escuras e desconhecidas.

Ninfas da mitologia grega

As belas ninfas dos antigos oceanos mitológicos

Assim como nas histórias, nos oceanos existem criaturas bonitas e estranhas que cavalgam as ondas (embora algumas sejam de água doce e terrestres), alcançando entre 17 cm até 54 metros, de corpo vermiforme, sob diversas e chamativas cores, conhecidas como verme-arcoíris, ou verme-laço, recebendo seu nome Nemertinea, em alusão as ninfas dos contos da grécia. Enquanto algumas são hermafroditas (presença de ambos os sexos no mesmo indivíduo) boa parte das espécies desse filo realizam o acasalamento de forma “convencional”, onde a fêmea põe ovos, e o macho os fertiliza, e logo após ocorre o nascimento de larvinhas de Nemertinias.

Tubulanus-superbus

Tubulanus-superbus

Mas, em um grupo da ordem Heteronemertea, as larvas se assemelham a pequenas medusas, e se aventuram pelo oceano fazendo coisas que as larvas fazem, como se alimentar de plânctons que nadam pelas redondezas. Até que um dia, dentro da larva começa a se desenvolver uma outra criaturinha estranha e vermiforme.

Larva medusóide com a porção vermiforme se desenvolvendo

Larva medusóide com a porção vermiforme se desenvolvendo

É uma pequena nemertínea, que se nutre do que a larva adquire comendo plânctons, até que depois de um tempo, esse pequeno verme começa a se alimentar da própria larva (que é parte de seu corpo), até a consumir por inteiro, no processo conhecido como “metamorfose catastrófica”. E assim, atravessando dois estágios de vida ao mesmo tempo, um jovem verme marinho com espírito de ninfa, saboreia pela primeira vez a vida animal e a existência.

 

Post inspirado aqui: http://io9.com/this-worm-creates-a-new-self-inside-its-existing-self-1695163151

Escutando isso aqui: Pedro the Lion

Fontes: http://www.frontiersinzoology.com/content/7/1/30

http://en.wikipedia.org/wiki/Nemertea#Ecological_significance

Imagens:

http://icb.oxfordjournals.org/content/early/2010/07/19/icb.icq096/F1.expansion

http://www.juanjunoy.info/wp-content/uploads/2012/10/Tubulanus-superbus.jpg

https://c2.staticflickr.com/4/3174/5742589439_511c23d75e.jpg

A fêmea do Peixe-pescador

A fêmea é o lado mais interessante e inspirador da nossa espécie (provavelmente de todas as espécies). Mas também, o mais injustiçado. Que elas tenham ainda mais espaço, igualdade, liberdade, amor, felicidade, e até mesmo poder de escolha de não ser uma fêmea, na sociedade que estamos construindo diariamente. Mulher, o universo seria tão sem matizes, cheiros e formas sem a sua existência e, como eu disse esses tempos ao meu amor (que é uma jovem cientista): “Guarde as brigas boas para quando eu estiver por perto, não para te defender, mas para poder brigar ao teu lado.”

Uma fêmea do "Peixe-pescador" exibindo sua feminilidade em águas escuras

Para conhecer o fascinante “causo” biológico dos peixes-pescadores, olhe nas tirinhas do “The Oatmeal”

O dia do Biólogo

Em homenagem ao dia do Biólogo, e ao seu objeto de estudo que é a vida em suas infinitas formas de grande beleza, selvageria e estranheza, eu vos apresento um exemplar da entidade biológica mais abundante do planeta, os vírus. Em cada gota do mar existem em torno de 10 Bilhões de partículas virais. Mas vírus é vivo? bom, isso é um debate antigo, talvez sem uma única resposta e confesso que estou começando a me convencer sobre a vitalidade viral. De qualquer forma, eles são agentes da vida. Cada organismo vivo possui um vírus específico e somente seu. Os vírus também “pegam” vírus, vejam o caso dos virófagos, e definitivamente a interação virus-hospedeiro moldou a forma da vida como a conhecemos. Mas, o mais importante desta mensagem é que estudar a vida me levou a lugares inesperados e a conhecer pessoas incríveis que fazem uma diferença enorme na minha “vida”, e que agora me trouxe diante de vírus marinhos. Para onde vai me levar amanhã eu não sei, mas estou no caminho… Parabéns aos colegas biólogos : ) e que continuem no bom caminho. Viva as contaminações na árvore da vida e do conhecimento!

Bacteriófago T4, um vírus de bactérias

Bacteriófago T4, um vírus de bactérias

Sobre o #jornaldolab e uma divulgação científica desproposital

Sim meus caros, eu não morri! Minha ausência pode ser apenas explicada pelo atual estado de “fagocitamento por Mestrado” que venho sofrendo 🙂

Mas uma coisa vem acontecendo e eu achei que seria bem interessante compartilhar com os amigos leitores do nosso blog. Já fazem alguns meses, comecei um dia de bobeira a registrar alguns momentos engraçados no laboratório (devo informar que eles não são poucos) e publica-los no Instagram e Facebook, e marquei eles com uma tag que inventei, “#jornaldolab”. Comecei fotografando o Felipe barbudo sentado no chão num dia de calor torrencial aqui na Universidade, em outro dia registrei a galera avacalhando com o gelo seco, e assim foi indo.

Felipe curtindo o frescor do chão

Nada com um refrigerante com gelo seco, né Gui?

A brincadeira acabou envolvendo o pessoal do laboratório. Se já me tinham como a “papparazzi” (sim, eu adoro fotografar todo mundo nas situações mais inusitadas possíveis), o advento do #jornaldolab só veio incentivar meu apelido 🙂

Minhas queridas alunas de IC, Raquel e Lilian, preparando meio de cultura para Drosophila

De situações engraçadas passei também a registrar momentos bem particulares do nosso trabalho pelo lab, mais especificamente o cotidiano com ares de escravatura a que um drosofilista é submetido. Fotos das meninas fazendo meio para as moscas, imagens dos experimentos de fecundidade (que eu estava – e continuo – levando um pau pra fazer dar certo), larvas e pupas bem lindas e sorridentes.

Me disseram que parece capa do CD do RHCP, e eu concordo!

Sobre os benefícios da terapia de catar ovos de mosca!

Enquanto uns tentam preparar a amostra pra extrair DNA, outros se aplicam na arte da sabotagem.

Mas o que quero falar aqui, que achei extremamente satisfatório, foi o efeito que essas fotos tiveram na minha “comunidade” de amigos facebookianos sem qualquer relação com a Biologia, com a Genética, com moscas ou com a vida acadêmica.

Amigos, conhecidos, parentes, a instrutora da academia, todos eventualmente me chamando pra um canto e, depois de me chamar de “moscona” ou algum adjetivo relacionado, me perguntando: “Ô, Nati! Como é que é essa vida de ficar mexendo com essas moscas hein? Por que tu usa elas?”; “Ah! Mas como tu sabe que tem a bactéria dentro da mosca?”; “Mas o que elas comem??”, “mas afinal como funciona a pesquisa no teu laboratório?”. Meu coraçãozinho se aquece de alegria só de lembrar.

Ou seja, o que era para ser um simples e inocente compartilhamento de momentos do nosso cotidiano laboratorial, acabou gerando todo um interesse nas pessoas, e elas foram atrás de uma informação científica através de um canal totalmente inusitado e despropositado.

E o que é isso, senão divulgação científica, né meus caros? Gerar o interesse pela Ciência nas pessoas é certamente uma das coisas mais maravilhosas que pode me acontecer, e eu fico estarrecidamente feliz de ver que o #jornaldolab está levando ao menos um pouco deste mundo curioso para meus amigos! Tenho certeza que, se algum deles ver qualquer dia desses uma notícia que fale em “Drosophila”, eles vão prestar mais atenção do que prestariam há alguns meses atrás 🙂

 

Para quem quiser acompanhar o #jornaldolab, taí meu Instagram: nataliadorr. Vou ficar feliz de compartilhar esses momentos com vocês também 🙂

As algas e o prostíbulo

Existe uma infâme rua em Porto Alegre por onde passo todos os dias para ir ao trabalho, conhecida pelo grande número de casas da luz vermelha, e pela vizinhança não muito amigável. É uma das ruas mais velhas, sujas e esquecidas da Capital. Quando a gente passa por ali se sente no outro lado dos trilhos de uma Porto Alegre que não está nos cartões postais. Mas o que chama mais a minha atenção são as paredes tristes e esverdeadas daquela rua. Devido a um fenômeno periódico, que nessa entrada de outono torna-se pronunciado em suas cores, os microorganismos urbanos que ali perduram, colonizam e trocam de cor as paredes daquela velha rua. Penso nas algas, bactérias, fungos, musgos e líquens que ali chegaram como esporos, nasceram e sem os olhos da cidade perceber, atravessaram gerações tanto dos transeuntes quanto das mulheres que fazem ponto ali, indiferentes uns com os outros no correr dos dias e dos relógios. As mulheres ao me ver passar todos os dias ali, já me cumprimentam com um leve balançar de cabeça e até mesmo um “bom dia”. O que me lembra que elas são apenas mulheres tentando sobreviver, assim como as algas em seu trabalho de eras de fotossíntese, e ali, relacionadas estranhamente na trama da existência, uma não faz a mínima ideia da outra. Daqui a dez anos quando eu passar novamente por ali, as mulheres talvez já tenham mudado o seu ponto, envelhecido e talvez já não existam mais, mas suspeito que as algas por ali vão continuar, comendo as bordas do sol, invisíveis e desconhecidas em sua permanência, para os que se aventuram na rua das algas e dos prostíbulos do lado errado dos trilhos de Porto Alegre.

Ecossistemas secretos e urbanos

Ecossistemas secretos e urbanos

Imagem: m.rgbimg.com

 

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