O “beijo” da Nemertinea

 

Um vídeo de um animal estranhamente alienígena e vermiforme viralizou nessa semana, onde este que parecia um tipo de minhoca ou sanguessuga, liberava uma substância parecida com uma rede. Na verdade, este animal pertence ao filo Nemertea, e já foi descrito poética e biológicamente no nosso blog (1).

São vermes marinhos, batizados com esse nome em alusão às Nemertes, ninfas mitológicas que encantavam os marinheiros gregos. Essa estrutura liberada é uma projeção da probóscide (apêndice alongado do sistema bucal) que é utilizada para a captura das presas que servirão como alimento, que reliza giros, torções e espalhamento, embebedada em toxinas que imobillizam a presa. Alguns indivíduos deste filo possuem ainda a probóscide composta de calcário, e outros como dessa espécie que aparece no vídeo, Gorgonorhynchus repen, o verme Gorgônia, a estrutura lembra os tentáculos da medusa Gorgon (2).

Referências:

(1) Texto do blog “Espírito de Ninfa, corpo de verme” http://migre.me/pLzK3

(2) http://en.wikipedia.org/wiki/Nemertea

Espírito de ninfa, corpo de verme

Nemertes para os gregos antigos, era uma ninfa, um espírito oceânico que acompanhava Poseidon, o Deus dos mares, e algumas vezes era amigável aos marinheiros que se aventuravam em águas escuras e desconhecidas.

Ninfas da mitologia grega

As belas ninfas dos antigos oceanos mitológicos

Assim como nas histórias, nos oceanos existem criaturas bonitas e estranhas que cavalgam as ondas (embora algumas sejam de água doce e terrestres), alcançando entre 17 cm até 54 metros, de corpo vermiforme, sob diversas e chamativas cores, conhecidas como verme-arcoíris, ou verme-laço, recebendo seu nome Nemertinea, em alusão as ninfas dos contos da grécia. Enquanto algumas são hermafroditas (presença de ambos os sexos no mesmo indivíduo) boa parte das espécies desse filo realizam o acasalamento de forma “convencional”, onde a fêmea põe ovos, e o macho os fertiliza, e logo após ocorre o nascimento de larvinhas de Nemertinias.

Tubulanus-superbus

Tubulanus-superbus

Mas, em um grupo da ordem Heteronemertea, as larvas se assemelham a pequenas medusas, e se aventuram pelo oceano fazendo coisas que as larvas fazem, como se alimentar de plânctons que nadam pelas redondezas. Até que um dia, dentro da larva começa a se desenvolver uma outra criaturinha estranha e vermiforme.

Larva medusóide com a porção vermiforme se desenvolvendo

Larva medusóide com a porção vermiforme se desenvolvendo

É uma pequena nemertínea, que se nutre do que a larva adquire comendo plânctons, até que depois de um tempo, esse pequeno verme começa a se alimentar da própria larva (que é parte de seu corpo), até a consumir por inteiro, no processo conhecido como “metamorfose catastrófica”. E assim, atravessando dois estágios de vida ao mesmo tempo, um jovem verme marinho com espírito de ninfa, saboreia pela primeira vez a vida animal e a existência.

 

Post inspirado aqui: http://io9.com/this-worm-creates-a-new-self-inside-its-existing-self-1695163151

Escutando isso aqui: Pedro the Lion

Fontes: http://www.frontiersinzoology.com/content/7/1/30

http://en.wikipedia.org/wiki/Nemertea#Ecological_significance

Imagens:

http://icb.oxfordjournals.org/content/early/2010/07/19/icb.icq096/F1.expansion

http://www.juanjunoy.info/wp-content/uploads/2012/10/Tubulanus-superbus.jpg

https://c2.staticflickr.com/4/3174/5742589439_511c23d75e.jpg

A fêmea do Peixe-pescador

A fêmea é o lado mais interessante e inspirador da nossa espécie (provavelmente de todas as espécies). Mas também, o mais injustiçado. Que elas tenham ainda mais espaço, igualdade, liberdade, amor, felicidade, e até mesmo poder de escolha de não ser uma fêmea, na sociedade que estamos construindo diariamente. Mulher, o universo seria tão sem matizes, cheiros e formas sem a sua existência e, como eu disse esses tempos ao meu amor (que é uma jovem cientista): “Guarde as brigas boas para quando eu estiver por perto, não para te defender, mas para poder brigar ao teu lado.”

Uma fêmea do "Peixe-pescador" exibindo sua feminilidade em águas escuras

Para conhecer o fascinante “causo” biológico dos peixes-pescadores, olhe nas tirinhas do “The Oatmeal”

O dia do Biólogo

Em homenagem ao dia do Biólogo, e ao seu objeto de estudo que é a vida em suas infinitas formas de grande beleza, selvageria e estranheza, eu vos apresento um exemplar da entidade biológica mais abundante do planeta, os vírus. Em cada gota do mar existem em torno de 10 Bilhões de partículas virais. Mas vírus é vivo? bom, isso é um debate antigo, talvez sem uma única resposta e confesso que estou começando a me convencer sobre a vitalidade viral. De qualquer forma, eles são agentes da vida. Cada organismo vivo possui um vírus específico e somente seu. Os vírus também “pegam” vírus, vejam o caso dos virófagos, e definitivamente a interação virus-hospedeiro moldou a forma da vida como a conhecemos. Mas, o mais importante desta mensagem é que estudar a vida me levou a lugares inesperados e a conhecer pessoas incríveis que fazem uma diferença enorme na minha “vida”, e que agora me trouxe diante de vírus marinhos. Para onde vai me levar amanhã eu não sei, mas estou no caminho… Parabéns aos colegas biólogos : ) e que continuem no bom caminho. Viva as contaminações na árvore da vida e do conhecimento!

Bacteriófago T4, um vírus de bactérias

Bacteriófago T4, um vírus de bactérias

Sobre o #jornaldolab e uma divulgação científica desproposital

Sim meus caros, eu não morri! Minha ausência pode ser apenas explicada pelo atual estado de “fagocitamento por Mestrado” que venho sofrendo :)

Mas uma coisa vem acontecendo e eu achei que seria bem interessante compartilhar com os amigos leitores do nosso blog. Já fazem alguns meses, comecei um dia de bobeira a registrar alguns momentos engraçados no laboratório (devo informar que eles não são poucos) e publica-los no Instagram e Facebook, e marquei eles com uma tag que inventei, “#jornaldolab”. Comecei fotografando o Felipe barbudo sentado no chão num dia de calor torrencial aqui na Universidade, em outro dia registrei a galera avacalhando com o gelo seco, e assim foi indo.

Felipe curtindo o frescor do chão

Nada com um refrigerante com gelo seco, né Gui?

A brincadeira acabou envolvendo o pessoal do laboratório. Se já me tinham como a “papparazzi” (sim, eu adoro fotografar todo mundo nas situações mais inusitadas possíveis), o advento do #jornaldolab só veio incentivar meu apelido :)

Minhas queridas alunas de IC, Raquel e Lilian, preparando meio de cultura para Drosophila

De situações engraçadas passei também a registrar momentos bem particulares do nosso trabalho pelo lab, mais especificamente o cotidiano com ares de escravatura a que um drosofilista é submetido. Fotos das meninas fazendo meio para as moscas, imagens dos experimentos de fecundidade (que eu estava – e continuo – levando um pau pra fazer dar certo), larvas e pupas bem lindas e sorridentes.

Me disseram que parece capa do CD do RHCP, e eu concordo!

Sobre os benefícios da terapia de catar ovos de mosca!

Enquanto uns tentam preparar a amostra pra extrair DNA, outros se aplicam na arte da sabotagem.

Mas o que quero falar aqui, que achei extremamente satisfatório, foi o efeito que essas fotos tiveram na minha “comunidade” de amigos facebookianos sem qualquer relação com a Biologia, com a Genética, com moscas ou com a vida acadêmica.

Amigos, conhecidos, parentes, a instrutora da academia, todos eventualmente me chamando pra um canto e, depois de me chamar de “moscona” ou algum adjetivo relacionado, me perguntando: “Ô, Nati! Como é que é essa vida de ficar mexendo com essas moscas hein? Por que tu usa elas?”; “Ah! Mas como tu sabe que tem a bactéria dentro da mosca?”; “Mas o que elas comem??”, “mas afinal como funciona a pesquisa no teu laboratório?”. Meu coraçãozinho se aquece de alegria só de lembrar.

Ou seja, o que era para ser um simples e inocente compartilhamento de momentos do nosso cotidiano laboratorial, acabou gerando todo um interesse nas pessoas, e elas foram atrás de uma informação científica através de um canal totalmente inusitado e despropositado.

E o que é isso, senão divulgação científica, né meus caros? Gerar o interesse pela Ciência nas pessoas é certamente uma das coisas mais maravilhosas que pode me acontecer, e eu fico estarrecidamente feliz de ver que o #jornaldolab está levando ao menos um pouco deste mundo curioso para meus amigos! Tenho certeza que, se algum deles ver qualquer dia desses uma notícia que fale em “Drosophila”, eles vão prestar mais atenção do que prestariam há alguns meses atrás :)

 

Para quem quiser acompanhar o #jornaldolab, taí meu Instagram: nataliadorr. Vou ficar feliz de compartilhar esses momentos com vocês também :)

As algas e o prostíbulo

Existe uma infâme rua em Porto Alegre por onde passo todos os dias para ir ao trabalho, conhecida pelo grande número de casas da luz vermelha, e pela vizinhança não muito amigável. É uma das ruas mais velhas, sujas e esquecidas da Capital. Quando a gente passa por ali se sente no outro lado dos trilhos de uma Porto Alegre que não está nos cartões postais. Mas o que chama mais a minha atenção são as paredes tristes e esverdeadas daquela rua. Devido a um fenômeno periódico, que nessa entrada de outono torna-se pronunciado em suas cores, os microorganismos urbanos que ali perduram, colonizam e trocam de cor as paredes daquela velha rua. Penso nas algas, bactérias, fungos, musgos e líquens que ali chegaram como esporos, nasceram e sem os olhos da cidade perceber, atravessaram gerações tanto dos transeuntes quanto das mulheres que fazem ponto ali, indiferentes uns com os outros no correr dos dias e dos relógios. As mulheres ao me ver passar todos os dias ali, já me cumprimentam com um leve balançar de cabeça e até mesmo um “bom dia”. O que me lembra que elas são apenas mulheres tentando sobreviver, assim como as algas em seu trabalho de eras de fotossíntese, e ali, relacionadas estranhamente na trama da existência, uma não faz a mínima ideia da outra. Daqui a dez anos quando eu passar novamente por ali, as mulheres talvez já tenham mudado o seu ponto, envelhecido e talvez já não existam mais, mas suspeito que as algas por ali vão continuar, comendo as bordas do sol, invisíveis e desconhecidas em sua permanência, para os que se aventuram na rua das algas e dos prostíbulos do lado errado dos trilhos de Porto Alegre.

Ecossistemas secretos e urbanos

Ecossistemas secretos e urbanos

Imagem: m.rgbimg.com

 

A borda

“O aumento do conhecimento é como uma esfera dilatando-se no espaço: quanto maior a nossa compreensão, maior o nosso contacto com o desconhecido.”
~Blaise Pascal

Hoje começam as aulas de algumas escolas e universidades ao longo do país, e então me inspirei a escrever e dedicar algumas linhas sobre essa fase da vida onde todos já estiveram, estão ou permanecerão por longos anos.

Para os meus ex-colegas, ex-alunos e amigos que estão nessa caminhada que se encontra na borda entre o que sabemos, o que aprendemos e aquilo que nos é obscuro ainda. Acreditem no poder transformador da educação. Semeie a dúvida razoável, a descrença e deixe crescer essa coisa viva, amebóide e autopoética que é a curiosidade. E acima de tudo apreciem a vista, não foquem no cume da montanha (o fim dos estudos) e sim a caminhada que tu percorre até lá. Estejam em suas salas, no pátio, no corredores e na cantina, e não em outro lugar, e falo de suas mentes alinhadas ao seu estar físico.
Boas andarilhagens nesse caminho…

"Sunstitua o medo do desconhecido por curiosidade"

“Substitua o medo do desconhecido por curiosidade”

Imagem da citação de Danny Gokey

O “Big Bang” nosso de cada dia

Uma colega me pergunta sobre uma aplicação do “Big Bang” no nosso dia a dia. Na verdade, uma outra colega que fez a pergunta a ela,  pois  precisava preencher relatórios do seu estágio obrigatório em licenciatura (aquele onde pela primeira vez muitos futuros professores entram numa sala de aula), onde deveria estar descrito um tema a ser trabalhado, nesse caso “A origem do universo”.
Um dos campos de tal documento é: aplicações do conhecimento no dia a dia.

Bom, primeiro, penso cá comigo, qual é a aplicação da teoria do big bang na vida das pessoas?

A origem de todas as coisas

A origem de todas as coisas

Primeiro, enquanto a origem do universo é um fato (estamos aqui, cogitamos e não é um sonho), inferido das observações da sua natureza, a teoria do big bang é o modelo explicativo de tal fato. O termo “Big Bang” foi cunhado por Fred Hoyle, o físico, escritor e cavaleiro da Rainha, em desdém a ideia que tudo se iniciou com uma grande explosão. O que aconteceu não foi uma explosão, mas sim do rápido crescimento cósmico, de um ponto infinitesimal até as proporções atuais, sendo que em seus primeiros segundos, a temperatura era tão quente, que os blocos de matéria (já que matéria não existia) estavam em forma de um gás quente e ionizado, o plasma de quarks primordial. Não podemos falar de um “antes”, já que o tempo surgiu com o big bang, e um “onde”, pois não existiam espaços, onde as coisas estavam distanciadas, assim não existindo “um local” onde se encontrava o tal ponto. Tudo estava uno, e absurdamente quente, e então as dimensões surgiram e as coisas que formariam a matéria (entre eles quarks e átomos leves) foram impelidas, jogadas em todas as direções. Mas existe um “quando”, que aconteceu a ~14 bilhões de anos atrás.
As evidências mais fortes para esse cenário são: as galáxias estão se distanciando. Existe um “rúido” eletromagnético, uma luz muito fraca e bamboleante desse momento hiperquente do universo, conhecida como radiação de fundo ( a estática no rádio e na tv quando se troca de estação) e a abundância de elementos leves como o hidrogênio, que deram origem (e ainda dão) as estrelas e estruturas complexas do cosmo, como os quasares e a mente feminina.
A rede cósmica  que conecta o universo

A rede cósmica que conecta o universo

Agora, voltando a questão que moveu este escriba a voltar a escrever por aqui, qual seria a aplicação desse conhecimento nas nossas vidas?
Penso que (e sei que não estou sozinho) querer saber de onde viemos, de onde tudo surgiu, e para onde vai isso tudo, são alguns dos questionamentos mais importantes e profundos que existem, que ajudam a construir a nossa identidade no mundo, e a ter humildade perante a grandeza das escalas e de tempo da existência. Quando chegamos no mundo não sabemos nada, e ele já está aqui. Existiu  um momento que não existíamos, nossos pais, avós e bisávos não existiam, bom, nada existia, e depois tudo veio a ser, e chegará um momento que nada mais, talvez venha a existir. O que importa é o que fazemos, e o que escolhemos fazer nesse meio tempo, que é a nossa vida. Embora os conhecimentos que a ciência, e a filosofia (afinal, são questões clássicamente filosóficas) não possam nos dizer qual é o nosso papel a ser desempenhado nesse drama cosmogônico, esse conhecimento e forma de raciocinar, nos dá liberdade e poderes para criar um sentido, que é pessoal, mas transferível e que pode ser o de melhorar as nossas vidas, e ser mais legal uns com os outros, já que é efêmero o tempo concedido a nós, e até mesmo chamar para sair aquela pessoa legal que tu ficas curtindo as fotos do facebook, mas não cria coragem para conversar.
Já que estamos fadados a grande expansão cósmica, que tal chamar alguém para sair?

Já que estamos fadados a grande expansão cósmica, que tal chamar alguém para sair?

Coisas que já foram ditas antes, de Buda, Jesus, Lao Tsé e o He-man no final de cada desenho, mas que muita gente esquece. Quiçá, construiremos uma ponte para as estrelas,  pois se o modelo do big bang estiver correto, a matéria existente não seria suficiente para frear a rápida expansão cósmica (sim o universo se expande meus caros amigos, embora o Brooklin não esteja se expandindo) e em um futuro distante,  depois de sermos legais uns com os outros, iremos agregar matéria, utilizando de Engenharia Galáctica para tanto, e diminuir a distância entre nós e as galáxias. Ah sim, isso seria uma aplicação não é mesmo?
Fontes:
http://science.nasa.gov/astrophysics/focus-areas/what-powered-the-big-bang/
http://curious.astro.cornell.edu/question.php?number=71
Imagens:
http://en.wikipedia.org/wiki/Big_Bang
https://blogs.stsci.edu/livio/2012/06/12/from-spider-webs-to-the-cosmic-web/

Sobre o crepúsculo, a anáfase e a sala de aula

Um aluno do sexto ano durante o meu estágio obrigatório para encerrar minha licenciatura em Biologia um dia perguntou, “professor, o que é anáfase?” na qual eu respondi “bom, é uma das fases da divisão celular, onde os cromossomos, que são os agrupamentos de nucleotídeos que formam o DNA, apresentam uma determinada característica”, e daí ele disse “ah bom” e eu emendei “mas ainda falta alguns anos para tu estudar isso na escola, então não precisa se preocupar agora” e então perguntei por que ele queria saber, e ele me disse “é que tem uma parte no Crepúsculo (filme) que o Edward e a Bella estão no laboratório ohando o microscópio e daí eles começam a dizer “anáfase” e eu disse “ah sei, eu vi…”

Jovens...

Jovens…

Mas o que eu estou tentando dizer com esse texto? Primeiro que tanto o meu aluno, quanto o Edward Cullen e a Bella Swan estão a perder tempo, um precioso tempo na era de ouro da juventude, decorando nomes e características que não terão uso algum (sei que isso não é um dos melhores argumentos) ou que irão melhorar a vida deles, ou que farão diferença na vida deles, a não ser um dia quando precisarem responder, provavelmente numa prova da escola, do enem, do vestibular ou da faculdade, as perguntas “o que é anáfase”, ou “em qual fase os cromossomos estão blábláblá”. Isso não é educação! Penso que seria mais importante os alunos, e as pessoas terem ciência que existem coisas chamadas cromossomos, que metade deles recebemos do pai e metade da mãe, que eles se dividem, que permutam e que são únicos, e claro que existem diversas fases dessa divisão, diversas estruturas e nomenclaturas, tamanhos e formas, mas que somente quem estuda isso a fundo, como um estudante de ciências biológicas ou afins que deveria saber tais detalhes. Imaginem quanto tempo seria aproveitado. Educação não é fazer que os alunos decorem um monte de nomes (me sinto o capitão óbvio dizendo isso), para irem bem na prova, para passarem de ano, para fazerem o enem ou o vestibular, para fazer a disciplina de genética, para acertar a pergunta da anáfase na prova, e para se formar e nunca mais ver isso. Voltando a esse dia, eu fiz uma pergunta para esse meu aluno: Já prestou atenção nas coisas que tu tens do teu pai, e da tua mãe? de quem veio teus olhos castanhos, teu cabelo escuro e etc…Daí ele ficou a pensar, e eu disse “essas coisas estão nos teus cromossomos, e por enquanto é tudo o que tu precisas saber”. Claro que essa história de aprendizagem ao longo da vida, e a vida escolar como conhecemos poderia ser diferente. O estudante que foi instigado não a decorar, mas sim a se maravilhar com os fenômenos naturais, a compreender os conceitos, e as relações de causa e efeito, poderia virar futuramente um estudante  de ciências. Esse estudante poderia virar um pesquisador, buscando genes que ocorrem na anáfase e poderia descobrir novos mecanismos, consertar defeitos de replicação e divisão mitótica, assim contribuindo para melhor compreensão de um fenômeno vivo, que ocorre nas entranhas celulares, e quem sabe com isso poderia salvar alguma vida, ou milhões. A dele já estaria salva.

Aprendendo a levar baile de mosca: uma Crônica

Pois vejam bem vocês, queridos leitores. O tal ano que prometidamente seria recheado de posts no blog está ficando meio mofado, enhô. Quanta vergonha, peloamor!

Como forma solene de pedir desculpas, coloco públicas certas imagens não tão satisfatórias destes blogueiros.

Como vocês provavelmente sabem (caso não, voilà!), nós dois trabalhamos com o estudo da relação simbiótica estabelecida e desenvolvida entre Wolbachia, a bactéria manipuladora feminista, e Drosophila, a famosa mosca da fruta. A verdade é que mais trabalhamos com o DNA dos ditos cujos, e o manejo das moscas mesmo se resume a manter a criação semanalmente (isso significa ficar colocando as moscas em meios de cultura novos e dar fermento pra elas ficarem felizes). Relação deveras superficial, diria eu.

Na semana passada, however, tivemos um mini curso teórico-prático de identificação de drosofilídeos aqui na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), onde eu (Natália) desenvolvo meu Mestrado em Genética e Biologia Molecular. O meu Lab na real se chama “Lab de Drosophila”, e eu admito que morria de vergonha (até semana passada! hoho) de não saber praticamente nada sobre a taxonomia e identificação morfológica das bichinhas. Meu caro colega de laboratório, o Lucas, que faz doutorado na Biologia Animal, nos ensinou o basicão, e também nos ajudou a nos sentirmos completos idiotas 😛

Explico: para nossa extrema sorte, o grupo de Drosophila que mais trabalhamos (“willistoni”) é composto por 5 espécies crípticas. Isso não é mérito apenas desse grupo, muitos outros drosofilídeos são crípticos. Isso significa que, colocando qualquer mosca do grupo sob uma lupa, vai ser impossível diferenciá-las. Que beleza, hein.

Mas não priemos cânico, meus caros! Basta DISSECAR A MOSCA e verificar a forma do EDEAGO (porção da genitália do macho)!! No caso do grupo willistoni, consegue ser ainda “melhor”: basta ver a forma do HIPÂNDRIO, UMA MINI MEMBRANA LIGADA AO EDEAGO! A resposta para tudo é: senta e chora. Ou melhor, senta e te mata pra dissecar a mosca.

Seguem algumas fotos do sofrimento público pelo qual passamos. Se visualizar a mosca na lupa já é difícil, vocês imaginem ter que decepar a parte final do abdômen da pequena, e ficar catando uma estruturinha minúscula e que tu nem sabe a forma hehehehhe. Uma satisfação!

Uma olha na lupa, o outro fica agourando! :D

Uma olha na lupa, o outro fica agourando! :D

Felipe usando a força da barba pra virar a mosca de "barriga pra cima"

Felipe usando a força da barba pra virar a mosca de “barriga pra cima”

Natália com olhar de desespero

Natália com olhar de desespero

 

 

Após o dramalhão típico, fica a dica: trabalhar com Drosophila é demais! <3

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