>Montando a guarda

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Quem poderia afirmar que, na forma mais literal possível, um componente bacteriano é indispensável à maturação do sistema imune? É isso que explica o estudo da equipe do dr. Sarkis K. Mazmanian (aliás, que belo nome!), da Harvard Medical School, publicado na revista científica Cell: “An Immunomodulatory Molecule of Symbiotic Bacteria Directs Maturation of the Host Immune System”.
A “hipótese da higiene”, já proposta em 1989 por David Strachan, já falava que ambientes com uma menor exposição a microrganismos tem uma relação direta com uma maior incidência de alergias. Diversos estudos mais recentes têm comprovado que as relações simbióticas entre mamíferos e microrganismos (principalmente bactérias) vão muito além das “zilhões” de E.coli que habitam nosso intestino e os “strepto” e “staphilo” transeuntes em nossas mucosas. Pelo que tem se percebido, o pleno desenvolvimento e funcionamento do organismo dos mamíferos são muito mais dependentes dos simpáticos microrganismos do que se poderia imaginar.
O estudo do dr. Mazmanian é bastante complexo, mas, para vias de entendimento “drive-through”, ele e sua equipe utilizaram o modelo (beeem antigo, por sinal) de “ratos livres de micróbios” (mantidos em câmaras especiais) para avaliar a ação de certos polissacarídeos da superfície da bactéria Bacteroides fragilis no desenvolvimento e maturação do sistema imune destes animais.
Esta bactéria é um importante componente da microbiota normal do intestino dos mamíferos. Apesar de cápsula formada por polissacarídeos ser um componente comum em diversas espécies bacterianas, B. fragilis apresenta um conjunto de 8 polissacarídeos distintos de superfície sem outros precedentes na natureza.
Esses polissacarídeos são do tipo “zwitteriônicos” (ZPS) (simplificando, com carga positiva e negativa), e são antígenos dependentes de células-T que mediam especificamente a proliferação de células CD4+T in vitro. Essas tais células CD4+T são componentes extremamente importantes do sistema imunológico, requeridas para aspectos vitais do funcionamento imunológico apropriado, desde reação a agentes infecciosos, até o controle de reações autoimunes e cânceres.
Modelos experimentais têm mostrado que respostas ao polissacarídeo A (PSA), o mais imunodominante dos ZPSs de B. fragilis, são conferidas por células CD4+T, não por células B ou outras células T. Assim, os polissacarídeos zwitteriônicos parecem ter atividades biológicas desenhadas pela coevolução com o sistema imunológico do hospedeiro.

Os experimentos do estimado doutor e seu team se basearam no seguinte: um conjunto de ratos totalmente estéreis (sem nadica de nada de microbiota), ratos colonizados com estirpe selvagem (com os 8 polissacarídeos, incluindo PSA) de B. fragilis, e estirpe mutante (sem o gene codificante da PSA).
Os ratos estéreis seguiram o mesmo padrão de desenvolvimento conhecido do modelo de ratos estéreis (ficaram barrigudos… mas muitos problemas na fisiologia), padrão este apresentado também pelos ratos colonizados pela estirpe mutante. Porém, contudo e entretanto, os ratos colonizados pela estirpe selvagem de B. fragilis (com PSA) apresentaram correção de sérios problemas imunológicos encontrados no organismo dos animais sem a ação do polissacarídeo (problemas estes diretamente relacionados com um balanço de células ligadas àquelas CD4+T).
Mais muitos outros experimentos e modelos serão testados pela equipe. Mas pensa só que legal… o sistema de simbiose desta bactéria (que traz junto consigo este único e indispensável polissacarídeo) com mamíferos foi coevoluindo… e hoje, a maturação de uma parte importatíssima do sistema imunológico é dependente da ação deste PSA!

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