>A construção do brilhantismo

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Lí há alguns dias numa Scientific American de 2006, se não me engano, uma reportagem bem interessante, e vou compartilhá-la rapidamente com vocês.
Desde sempre a sociedade é recheada pelos chamados “gênios”, “mentes brilhantes”, aqueles com um dom para o conhecimento, independente da esfera que for, acima da média, surpreendente.
Pois bem, diversos estudos estão mostrando que, na verdade, esse brilhantismo todo não vem tanto de uma capacidade “superior” inata. Pelo contrário, o desenvolvimento de uma habilidade está mais ligado à disciplina, comprometimento e esforço, que qualquer outra coisa.
Como chegaram a essas conclusões? Bem, um dos grupos mais estudados para verificação deste tipo de coisa é o dos enxadristas. Eles são considerados, no mínimo, o máximo, não é? Pelo menos os chamados “mestres”, ou “grandes mestres”.
Então, sempre se acreditava que esses tais melhores enxadristas tivessem uma capacidade de memória, raciocínio e estratégia muito acima da média. Imagine só, tem aquelas situações em que vários iniciantes ficam com seu tabuleiro, e o grande mestre vai passando por cada um e, em 10 segundos, simplesmente destrói qualquer tentativa de cheque mate de todos eles.
Mas como isso é possível?
Bem, o jeito para verificar isso foi testar a memória desse povo. Todos os testes foram realizados comparando-se um enxadrista iniciante e um muito experiente.
No xadrez existem diversas posições típicas, de ataque ou defesa. Os pesquisadores, então, dispunham para cada um dos enxadristas avaliados um tabuleiro com as peças dispostas de tal forma que fossem “típicas” e possíveis de ocorrerem em um jogo, e outro com as peças randomizadas, dispostas aleatoriamente. Eles podiam olhar o tabuleiro por menos de um minuto. Depois disso, eles tinham que reposicionar todas as peças no lugar. O que foi visto? Bem, os mestres conseguiam redispor praticamente todas as peças no lugar correto no caso do tabuleiro com posição típica de jogo. Enquanto isso, no caso do reposicionamento das peças dispostas aleatoriamente, o acerto dos mestres foi estatisticamente igual ao dos iniciantes.
O que isso mostra? Que na verdade, os grandes enxadristas simplesmente já viram o tabuleiro muito mais vezes, jogaram muito mais vezes. Assim, a experiência conta para uma memória mais acertada, simplesmente pela repetição sucessiva de uma suposição ao longo dos anos jogando.
Diversos outros testes de memória foram feitos com os grandes mestres, e seus resultados também não superaram estatisticamente os resultados dos iniciantes.
Então, o que acontece quando o grande mestre consegue superar todos os inciantes? Pois bem, ele já viu esse filme tantas vezes, já participou de tantos jogos que, quando vê o tabuleiro, consegue identificar a melhor possibilidade de jogo quase instantaneamente, enquanto que um iniciante quebra a cabeça supondo todos os contra-ataques que o oponente pode vir a futuramente um dia talvez quem sabe pensar, antes de mudar sua peça de lugar.
Trocando em miúdos, a capacidade de “enxadrar” extremamente bem advém da prática e da dedicação que a pessoa dispôs para aprender as técnicas e os feelings do jogo.
A possibilidade de se tornar brilhante hoje em dia, aliás, é maior do que há alguns bons anos atrás. É só parar para analisar a quantidade de jogos on line, livros, googles e anfins, e até mesmo pessoas, que existem por aí à disposição para alimentar a fome de aprendizado dos mais dedicados.
Entretanto, como esses estudos mencionaram, o que hoje se ganha em agilidade para o aprendizado do brilhantismo (existe um mestre enxadrista de 12 anos, meu chapéu…), e até mesmo em técnica (as estratégias de jogo do xadrez dos grandes mestres atuais são muito mais elaboradas e certeiras que as dos mestres do final do século XIX, por exemplo), se perde em criatividade e espontaneidade.
Isso não é uma constante apenas no xadrez, mas na música também, por exemplo. Hoje é, pelo menos em teoria, mais fácil aprender a tocar algum instrumento. De fato, muito músicos extremamente talentosos são lançados.
Mas vai comparar com o Beethoven ou com o Chopin! A capacidade de arranjo inusitado e composição desses caras supera as de hoje… É a perfeita situação para aquela expressão”vamos aos trancos e barrancos”, mas se saindo muito bem.
Já foi e está sendo comprovado cada vez mais o fator genético da inteligência.
Entretanto, nem todo inteligente é brilhante.
Esse provém de um algo a mais, um esforço, um afinco, e, acima de tudo, tempo e paciência para se formar a capacidade advinda da experiência.
Não é interessante?
Certamente essa notícia me impulsionou a ter ainda mais vontade de ler e me dedicar ao que eu amo. Você também?
Aqui você pode ver pelo menos parte da reportagem original.

Se emocionou com a possibilidade de virar um grande mestre do xadrez? Seus problemas acabaram! Entre aqui e comece já a aprender.

A figura é o Beethoven (como uma singela sugestão na parte inferior da foto mostra) encantando com sua música.

>O novo queridinho da ciência

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Aquele renegado durante anos como um “simples” pombo correio de mensagens codificadas, ou, usando uma vestimenta diferente, atuando como maquinaria tradutora de códons, o ácido ribonucléico (RNA) hoje está nos spotlights da ciência, virando a vedete da terapia gênica e da decodificação funcional de genomas.

O chamado RNA de interferência (RNAi) foi descoberto em petúnias, relativamente por acaso. Acabou sendo descrito, com o passar dos anos, como uma importante maquinaria de regulação da expressão gênica em células animais, vegetais e de fungos.Esta “espécie” de RNA inicia seu caminho como um double strand RNA (dsRNA), proveniente de regiões do genoma, de elementos genéticos móveis ou ainda de vírus. Esta fita dupla de RNA é então clivada por uma enzima RNase conhecida como Dicer, liberando os chamados siRNA (short interference RNA). Cada um destes, por sua vez, são englobados por um complexo de proteínas conhecido como Risc (Complexo de Silenciamento Induzido por RNA). No desenrolar do processo, fica apenas uma das fitas do siRNA dentro do Risc, e ele então sai à cata de mRNAs que estejam dando sopa pelo citoplasma, e que sejam homólogos à sequência do siRNA.
Se o mRNA e o siRNA do Risc forem quase identicamente complementares, o Risc, sem dó nem piedade, destroça esse mRNA, impedindo que ele venha ser traduzido por ribossomos em proteínas ativas. Ou, se o match não for tão perfeito, o Risc emperra os ribossomos no mRNA, impedindo a tradução de qualquer forma.
Uma via tão interessante como essa acabou se mostrando extremamente eficaz em diversos estudos sendo desenvolvidos ao redor do mundo. A ferramenta pode ser utilizada, por exemplo, para observar as vias funcionais de genes específicos, que podem ter seu mRNA silenciado por um RNAi exógeno (sintetizado de diversas formas possíveis), e, assim, o efeito de sua não-expressão pode ser verificado em fenótipos a diferentes níveis de observação.
Outra aplicação interessante é a própria terapia gênica, uma vez que, sabendo-se quais os genes envolvidos no desenvolvimento de alguma doença (o próprio câncer, por exemplo), pode-se utilizar interferência por RNA para “desligá-los” (por isso este tipo de mecanismo é conhecido como PTGS: Post-transcriptional gene silencing; porque, na verdade, o gene é silenciado no seu mRNA, ou seja, após a transcrição da mensagem do DNA em RNA)

Nesse site tem animações bem interessantes sobre o RNAi, e diversas informações.

Aqui você pode ver outras informações legais sobre o assunto. É desse site que vem o esquema do post.

E aqui você pode descobrir o que as petúnias tem a ver com tudo isso.

>Espertinho

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Com essa literalmente me caíram os butiás do bolso.
Cá estava eu procurando figuras e fotografias carregadas de ilusão de óptica, e me deparei com esta foto de Christian Ziegler que segue abaixo, a das formigas.
Está se perguntando por que uma delas está com o abdômen vermelho?
Pois bem, segure seus bolsos para seus butiás não cairem também.
Um tipo de nematóide tetradonematídeo (que nome bacana!) gosta muito de ser papado por esta espécie de formiga (aliás, esta belezinha se chama Cephalotes atratus).
E sabe por que?
Sendo papado, este nematóide ocasiona efeitos morfológicos e comportamentais nas formigas, tornando o abdômen delas avermelhado como um apetitoso frutinho da estação na floresta tropical do Panamá, além de “fazer” esses insetos literalmente levantarem o traseiro, para serem mais bem vistas por aves frugívoras, as quais são o verdadeiro objetivo final do nematóide.
Assim, a pobre formiga-fruta é comida pela ave e, com ela, como presente de grego, chegam milhões de ovinhos dos nematóides, que então podem ser dispersos para outras colônias de formigas, alcançando áreas muito mais extensas.
Stephen Yanoviak, da University of Florida, e outros colaboradores de universidades estadunidenses estudaram bem a fundo o quadro explanado acima. Observando uma colônia em especial, verificaram que 5% das formigas tinham seu abdômen vermelho, e estas eram 12% menores e 41% mais pesadas que suas primas desacompanhadas. E mais, esses abdômens coloridos são muito parecidos com os frutos de espécies de Psychotria , que estava aparecendo na floresta no mesmo período de avaliação.
Mas já que a intenção era ilusão de óptica, divirtam-se com uma versão talvez não tão “natureba”, do genial artista holandês M.C. Escher, chamada “Relativity”, as escadas impossíveis. Esse senhor muito talentoso era especialista em criar cenários intrincados, misturando perfeição normal com o aparente absurdo, colocando pontos de vista contraditórios dentro de um mesmo plano.

Outras belas fotografias de mímica na natureza você pode olhar aqui.

>Ballad of the Bat

>Quem diria que o animal a tomar posto junto com pássaros e baleias como elaborado cantor de serenatas amorosas seria o morcego?
Pois pode acreditar!
Padrões sonoros de uma espécie deste mamífero alado com rostinho pouco atraente, conhecido como “Mexican (*ou Brazilian!) -free-tailed-bat“, foram avaliados por pesquisadores da Texas A&M University, em duas regiões do Texas densamente povoadas por estes morcegos.
Baseados em gravaçõe das duas localidades, os estudiosos puderam perceber que as “canções de amor” dos morceguitos continham frases com padrões de pios, zumbidos e trinados.Claro que tanto esforço só poderia vir da parte dos machos tentando conquistar as morceguitas! Como se não bastasse toda a cantoria, eles a fazem durante vôos elaborados, acompanhados pela liberação de um odor (fedor?) simplesmente encantador para as fêmeas.
Estes tais sons na verdade não são acompanhados pelo ouvido humano com toda a maestria que o é para os morcegos. Ao nosso “gosto” o som pode parecer um tanto estridente. Entretanto, os pesquisadores “lentearam” as gravações em até oito vezes, para tornar as músicas entendíveis para nós. Assim, foi possível verificar frases compostas por sílabas específicas, com diferentes combinações de notas. Justamente esta complexidade que diferencia o som dos morcegos do de outros mamíferos, que preferem ficar riscando o mesmo dico repetidamente.Ainda foi possível observar que as músicas seguem um certo padrão de início e fim, geralmente começando com pios e terminando com zumbidos. E mais! Esses machos esforçados não tem o costume de copiar o charme do vizinho! Assim como músicos talentosos de jazz, inventam suas próprias canções, juntando espontaneamente novas combinações de sons, tudo para tentar agradar a pretendida.

Gurias, agora já sabem!!
Peçam para o pretendente se inspirar em um morcego, na próxima vez que ele vier com cantadinha fraca pra cima de ti!

Este texto foi adaptado desta reportagem, por sua vez, inspirou-se no artigo publicado na revista PLoS ONE de agosto.

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