>Vida a partir de vida

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Craig Venter conseguiu. Sintetizou em laboratório um genoma inteiro de uma bactéria e o inseriu numa célula vazia de outra espécie de bactéria. O genoma começou a “funcionar” normalmente na célula. Os dois estão muito bem, obrigado. Agora os dois são um. Bem vindo ao mundo, Mycoplasma mycoides JCVI-syn1.0.
Foi a notícia mais comentada da semana, e é com certeza, uma das aquisições mais impressionantes da história e dos esforços da biologia e da ciência. Suas implicações são enormes, na biologia, na ética, religião e para a sociedade como um todo. Mas o que Craig Venter e sua equipe (lógico que ele não o fez sozinho) fizeram? vida no laboratório? Bem, não exatamente.

Não, por que eles não criaram vida do zero, eles utilizaram nucleotídios, aquelas bases nitrogenadas, as letrinhas químicas C, T,G e A e o organizaram uma a uma para “imitar” o menor genoma conhecido, o da bactéria Mycoplasma mycoides, deletando algumas partes do genoma, e adicionando “marcas d’ agua” moleculares, para ajudar a distinguir um organismo com genoma sintético de um que não conseguisse “funcionar” como esse genoma. As palavras do grande escritor James Joyce, “To live, to err, to fall, to triumph, to recreate life out of life.” estão inscritas nesse genoma sintético, numa região não codificadora (que nao é traduzida em proteínas), o que ele pensaria a respeito? Suas palavras realmente escritas no “corpo” de um ser vivo! E o que melhor define de forma precisa esse esforço científico foi exatamente o que as palavras de Joyce queriam dizer, criar vida a partir de vida…Então o genoma sintético de Mycoplasma mycoides foi transplantado para uma célula de uma bactéria do mesmo gênero mas de outra espécie, a M. capricolum.

O Presidente estadunidense Barack Obama convocou seus conselheiros de bioética e biossegurança a discutirem a respeito da importância, aplicações e riscos dessas pesquisas.
O Vaticano já comentou sua opinião a respeito. Uma parte emitiu o velho bordão, que os cientistas querem ser Deus, e só Ele pode fazer vida, mas oficialmente declaram ser uma pesquisa importante e interessante, com aplicações sérias em medicina e energia.
Penso que esse fato, é de um peso enorme. São elementos químicos somente, assumindo de forma programada funções celulares, do incrível maquinário da vida. Algo que biólogos, químicos e físicos suspeitam a muita tempo. Mas será que nós estamos preparados para isto?

Nos blogs Ciência na mídia e no RNAm poderá encontrar mais informações importantes a respeito.
Artigo original da pesquisa: “Creation of a Bacterial Cell Controlled by a Chemically SynthesizedGenome”.
Imagem: Daqui.

>Funeral Blues

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Daí que ontem estava com vontade de ler algum livro. Escolhi da minha estante de madeira antiga o “Werther”, do Goethe. A primeira vez que o li tinha 15, 16 anos. A segunda já tinha uns 19 e a última, bem…
A história, já bem conhecida é sobre um jovem apaixonado pela vida e a natureza, O Werther que mais tarde conhece uma jovem, Carlota e se apaixona pela moça. Mas ela já esta comprometida, e mesmo assim o pobre jovem vive dias lindos de esperança e tudo que vem junto com esta. Até que percebe que nada pode fazer. Sabe aquela sensação de impotência? que nada do que a gente disse ou demonstrar adianta? então… O livro termina com o seu suicídio.
Comecei ontem a noite e o terminei ontem mesmo, nao tenho a mínima idéia da hora (de madrugada não gosto de saber que horas são, talvez por saber que outro cansativo dia já se aproxima).
Um filme muito bom que vi esses tempos foi o ultimo do Woody Allen, sobre um físico cheio de manias, que conhece uma garota, muitos anos mais nova e aprende a gostar dela aos poucos… Mas, como nada dura, um dia ela chega perto dele e diz que esta apaixonada por outro. Ele diz algo como: “Eu entendo, entendo perfeitamente. Minha querida, consigo entender a mecânica quântica…”. Ele tenta o suicídio duas vezes.

Geralmente, as mulheres quando cometem o suicídio, o fazem cortando os pulsos (uma maneira bagunçada, mas muito poética, onde o ideal e cortar no sentido das artérias) ou tomando calmantes misturados a uma bebida doce… Os homens são mais brutos e barulhentos, usam do fogo das armas, desfigurando o seu rosto.
Penso que existem coisas muito legais lá fora. Que é incrível viver nessa época, onde estamos visitando de verdade outros planetas e luas. Que estamos no início de um estudo profundo sobre as bases do fênomeno Vida. Que existem bilhões de pessoas aí fora, no meu bairro e cidade…
Muito triste deixar tudo isto para trás…
Acho que quando entendemos a fundo alguma coisa qualquer, desde a vida sexual de termites na Tazmania ou a nucleossíntese de elementos pesados nas estrelas, a mísera compreensão de um micromundo, reflete o que acontece no macro. Daí a crueza dos dias e a dureza das horas tocam mais fundo num loop contínuo uma canção um tanto sombria…

No enterro ao final do filme “Quatro casamentos e um funeral” um personagem lê o poema de W. H. Auden, “Funeral Blues”. Aqui traduzido por Nelson Ascher.

Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.

Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.

Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.

É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.

Obs: se conhece algum amigo especial que esteja pensando nisto, faça o possível para o fazer mudar de idéia.

>As cores de uma sombra

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Reproduzindo o chamado publicado no Coletivo ácido acético, sobre a paletra “Belas aplicações da Teoria das Cores de Young-Helmholtz: As sombras coloridas e as cores da Lua cheia” a ser realizada dia 18 de maio (terça-feira), às 19h, na Sala Multimeios do Planetário, ministrada pelo Prof. Fernando Lang da Silveira, do Instituto de Física da UFRGS, com entrada franca:

Resumo: A Teoria das Cores de Young-Helmholtz remonta ao início do século XIX e está concretizada, por exemplo, na tela dos nossos televisores e computadores. O preconceito de que as sombras não têm cores é revelado falso quando observamos o interessante efeito das sombras coloridas. Essa é apenas uma das aplicações de um conhecimento cujos fundamentos já possui mais de 200 anos.


Vide uma apresentação sobre as sombras coloridas aqui.

Veja a nota original aqui.

Imagem: as cores da sombra durante um oficina sobre a biofísica da visão e evolução do Olho que ministrei com colegas na Unisinos, ano passado.

>A mosca e o Jarro

>Encerro meus experimentos no “Jarro de moscas”. Não eram poemas e tão pouco poesia… Está na hora das larvas virarem moscas. Acho que era isso, um monte de larvas em forma de palavras, seladas e alimentadas nas horas certas.

Se quiserem conhecer ou se despedir fiquem a vontade. Talvez hoje ou amanhã abrirei a tampa do pote…

Obrigado a todos que leram, comentaram e sentiram alguma coisa, mesmo que seja repulsa ao ler uma hibridização frustrada talvez, de ciência e poesia.
E por último, um suspiro final disso que nao foi uma coisa nem outra, e sim algo no meio e diferente:

O Drosophilista:

“Querida e doce inflamação
escureça um pouco mais o meu pulmão
arranque os pedaços mais vermelhos
transforme minha carne em seu espelho
a sua tinta absorveu-me como papel
vou contar as moscas percorrendo o céu
e só tenho isso a te dizer
te adorei em nível atômico, molecular
um cadeado te prendeu num rio
e só com ele você soube amar…
E no fim, não merece nem um pouco de minha atenção

nem da quarta cavidade do meu coração.”

>Update do #PremioBeNeviani

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Por motivos alheios à nossa vontade, o Premio Bê Neviani teve seu período de vigência reduzido para 15 dias, do dia 23 de abril a 07 de maio de 2010.
Os vencedores serão anunciados via Twitter em 16 de maio de 2010, domingo.

>Sobre a mecânica de dois ungulados

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Quando alguém discorre a respeito de um assunto que não domina, corre o risco de ser superficial, simplório e equivocado. Sempre gostei de arte, antes mesmo de pensar nas coisas do universo natural (bem, o que fica de fora?) mas não sei definir se algo é arte ou não, e talvez mesmo os artistas não se preocupam com isto, em ter essa definição, mas não saberia dizer…O que posso dizer é que certas obras me agradam mais que outras, estéticamente. E se um artista diz que isto ou aquilo é arte, assim é. Perceba minha insegurança a falar a respeito…

Meu campo é a ciência. Estou familiarizado com seus métodos e linguagens, assim consigo definir de uma forma satisfatória se um assunto é científico ou não. E o fato de ser científico ou não ser, nao torna algo menos verdadeiro, importante ou interessante. Acho que consigo conviver com isto, com essa incerteza e imprecisão de algumas coisas, mesmo elas tendo sentido ou não…
Incríveis as esculturas do artista Sayaka Kajita Ganz que utilizou materiais reciclados para a confecção dos ungulados que decidi compartilhar aqui no meu espaço…

Via: Chris Tyrell’s Blog

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