>Eu, um aglomerado de átomos, a ponderar sobre os átomos que formam eu e você

>É incrível até onde podemos ir com o pensamento. A lógica (que é pensamento, por fim matéria) pode te levar de “A” a “B”, mas a imaginação te leva a qualquer lugar do universo, como dizia o velho Einstein… Precisamos manter a mente aberta, mas a tal ponto de não deixar transbordar o cerébro para fora (Dawkins). Para podermos hipotetizar novas formas de vida, precisamos entender e estabelecer de comum acordo o que é isso, a vida. E já possuímos uma definição, talvez nao satisfatória para alguns, de que a vida como a conhecemos, a única, a nossa e dos outros organismos terrestres, se baseia nos átomos da tabela periódica.

Não em todos é claro, pois eles precisam possuir algumas propriedades “especiais”, como formar longas cadeias estáveis (carbono), doar ou receber energia na forma de eletricidade (comunicação e interatividade que faz o hidrogênio e oxigênio ), formação em conjunto de maior complexidade como o nitrogênio, que é a base dos ácidos nucleicos e aminoácidos, acelerar, dar estrutura e energizar as reações quimícas, um dos papéis do fósforo e o enxofre que faz ligação com algumas proteínas (note que cada vez mais a complexidade e o nível hierárquico aumenta). Aqui temos o acrônimo mnemônico “CHONPS”, os elementos básicos para a vida na Terra.

A alguns dias atrás, descobrimos que ao menos um desses átomos, o fósforo (P) talvez possa ser substituído por arsênico (As) e desempenhar funções semelhantes num organismo vivo, a agora famosa bactéria Halomonadaceae, estirpe “GFAJ-1”, descrita no trabalho da Dra. Felisa Wolve-Simon da Astrobiologia da NASA. Bom, ainda não chegamos lá na nossa definição de vida (imagine uma lista de compras de supermercado). Os átomos detalhados acima não são suficientes, para manter um ser vivo, outros, como o Ferro (Fe) que forma a molécula da hemoglobina, tem papel fundamental no transporte de oxigênio em alguns animais, já outros possuem uma molécula semelhante, como os fotossintetizadores que possuem a clorofila mas outro átomo que faz esse papel, o magnésio (Mg), já alguns cefalópodes como os polvos e as lulas, possuem o Cobre (Cu) em molécula e papel semelhante.

Não é um trabalho fácil não é mesmo? por que ainda não paramos por aí, pois um organismo vivo troca, rouba e devolve energia para o meio ambiente, e também precisa nao somente se replicar (forma uma cópia de si) mas se reproduzir (formar uma cópia de si de forma “autônoma”), um dos motivos dos vírus não entrarem no escopo de seres vivos (pois eles utilizam o maquinário da célula invadida para tal). Esse sistema vivo ainda precisa mudar, sofrer mutações, ou adições e deleções e por fim evoluir.
Aqui estamos, talvez tenha conseguido descrever a forma de vida mais simples de todas, uma bactéria.

Mas e outras “vidas”? outros seres? Nós estamos aqui, mas onde estão todos os outros? isso se eles existem… No próximo post, vamos continuar em cima dessa questão. Então ainda dá tempo de preparar o café, limpar os óculos (se você os usar) por que é cedo para ir dormir, ainda mais que o próximo texto irei discorrer a respeito de vida feita de nuvens… Até lá.


Imagens: aqui, aqui e aqui

>Eu sou de arsênico. Uma bactéria seduzida por um veneno, no lugar mais solitário do planeta

>

Ah… Bactérias. Organismos primordiais do nosso planeta. Ocupam praticamente todos os nichos da Biosfera, até mesmo vivemos em paz com elas (em nosso estômago) ou as vezes elas podem nos matar. Entidades simples, mas que “inventaram” as mais diversificadas e estranhas maneiras de sobreviver. Manipuladoras sexuais, sobreviventes a radiação alta, fazem nuvens, constroem colônias petrificadas em praias antigas, comem enxofre, e agora, em artigo publicado na revista Science, e divulgado em coletiva de imprensa as 17 hs (horário de Brasília) e 2 hs de Washington D.C, Estados Unidos pelo centro de Astrobiologia da NASA, podem utilizar o elemento Arsênico (As) em sua bioquímica, substituindo o Fósforo (P) como estrutura essencial na molécula de DNA, e possívelmente em outras biomoléculas.
O que pensávamos sobre a vida, ou sobre os elementos essenciais da “vida como ela é” era baseado nos “big six“, ou seja, todas as formas de vida, de um grão de bactéria, de um cavalo marinho, uma bromélia solitária, e até a ruiva apetitosa Christina Hendricks, todos são formados de básicamente Carbono (C), Hidrogênio (H), Oxigênio (O), Nitrogênio (N), Fósforo (P) e enxofre (S). A arquitetura molecular desses organismos é estruturada por estes átomos em forma de biomoléculas, nas estruturas celulares, no ATP (trifosfato de adenosina) a “energia que dá força”, e na molécula da vida, o DNA. Para o nosso interesse o fósforo desempenha a função de formar o “esqueleto” do DNA, na forma de fosfato (PO43-) ligando-se ao oxigênio e açúcares, constituindo a estrutura externa dessa molécula.

A pesquisa liderada pela Bioquímica Felisa Wolve-Simon do NASA Astrobiology Institute, demonstrou em seus experimentos com o organismo do Domínio Bacteria, filo das Proteobacteria, da família Halomonadaceae, estirpe “GFAJ-1”, que é possível que esse organismo substitua o fosfato por arsenato (AsO43- ) em funções analógas ao DNA “padrão”, formando o esqueleto do DNA, talvez ATA (Triarsenato de adenosina?) e também nas estruturas celulares que compoem essa estranha amante do arsênico.
O lago onde vivem estas bactérias chama-se “Mono, na califórnia E.U.A, sua paisagem alienígena dá asas a imaginação. É um ambiente hipersalínico e alcalino, sua temperatura fica em torno de -15 C° a 17 C°, a vida nesta faixa sofre uma redução em seu metabolismo (o que o arsênico pode desempenhar papel fundamental neste caso).

Quando fiquei sabendo ontem a noite sobre essa coletiva, esperava algo um pouco mais surpreendente (mas, que de fato é sim, para a biologia), mas imaginava um novo código genético, ou uma nova forma de vida terrestre, que foi batizada hipotéticamente como “Biosfera das Sombras” pelo Astronomo Paul Davies, que seriam formas de “vida”, que evoluíram de forma independente no sentido de não compartilharem estes constituintes básicos, não sendo possível sua inclusão dentro das classificações que conhecemos. Bem, não foi isso que aconteceu. Tão pouco a descoberta de vida extraterrestre como muitos haviam pensado, já que o tema era Astrobiologia. O que provavelmente aconteceu neste estranho e “sedutor” evento evolutivo foi uma adaptação extrema para utilizar o elemento “As” invés de “P”, como constituinte básico em sua biologia.

“I am arsenic, half dead and cold as a stone,
I’ll burn your guts and crush your bone.
If I should venture, corruption would spread.
No one should approach the living dead!
I am a poison – a knife in your guts.
I need to be blameless, disguise my sin,
I need to have a hide for a skin!
I need to be tidy, need to be clean,
need to have my best efforts seen.

Então, não encontramos E.Ts, nem uma nova forma de vida completamente disparate, mas um tipo tomado de estranheza à bioquímica convencional utilizada por todas os outros (até onde sabemos). No contexto cosmólogico, abre possibilidades de encontrar outros organismos em exoluas e exoplanetas, e até mesmo no nosso sistema solar, já que a vida, de certa forma ainda pode nos surpreender cada vez mais,e me surpreendeu. E quanto a você, querido leitor?

Prometo mais detalhes a seguir (e correções), preciso dormir agora e aproveitar que o meu velho computador me permitiu escrever este texto tarde da noite.

Referências:
Sience Magazine: “A Bacterium That Can Grow by Using Arsenic Instead of Phosphorus” DOI: 10.1126/science.1197258

Nature News: “Arsenic-eating microbe may redefine chemistry of life

Poema: “I am arsenic” por Misha Norland
Mark Twain

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