>Parasitas e viajantes, de embriões ao universo

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São incontáveis os momentos em que imagens dizem bem mais que falatórios, quando poesia se forma nos olhos, vai pra mente, e lá flutua. Do embrião ao universo, das viagens neles e também nos neurônios, as infinitas formas de grande beleza parecem não cansar de causar surpresa. Mas eu não me importo com esse tipo de cansaço 🙂

Bem mais que história, os buracos negros parecem parasitas das galáxias..

Enquanto isso, Wolbachia, uma parasita bem menor, mas não menos poderosa, faz a festa pintando um mosaico na galáxia de um embrião de Drosophila. Esse mosaico vai poder viajar para muitas gerações depois que esse embrião virar adulto, ou ainda ser transferido no melhor estilo mochileiro para viajantes de táxons distantes

Se parasitas podem viajar, também o podem fazer os pensamentos, histórias e memórias, mas dessa vez num mosaico diferente, como esse emaranhado de neurônios de rato.

Já outro parasita, Litomosoides sigmodontis (filária, causadora da filariose), consegue descrever um caminho bonito e satisfatório pelas ruelas do sistema linfático de um não tão feliz camundongo.

Sobre a beleza das coisas, e a facilidade de se surpreender diariamente.

Guia de viagem:

Zabalou, S., Apostolaki, A., Pattas, S., Veneti, Z., Paraskevopoulos, C., Livadaras, I., Markakis, G., Brissac, T., Mercot, H., & Bourtzis, K. (2008). Multiple Rescue Factors Within a Wolbachia Strain Genetics, 178 (4), 2145-2160 DOI: 10.1534/genetics.107.086488
Foto dos neurônios por Gabriel Luna , do Neuroscience Research Institute da UC Santa Barbara, California.
Foto da filária no sistema linfático por Witold Kilarski, lá da minha querida École Polytechnique Fédérale de Lausanne.

>O RNA se acha o tal, mas não é à toa!

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Da forma meio aleatória que as coisas acontecem na vida, posso dizer que meu ingresso no mundo da ciência se deu de uma forma bem orgânica. O que primeiro era apenas curiosidade pela vida e as formas e a beleza das coisas, evoluiu para um lugar à bancada de um laboratório, e as roupinhas de menina sujas de lama e folhas foram substituídas por um jaleco que eu tento manter limpo.
O que essa introdução bem tola pode ter a ver com RNA? Bom, se de forma natural o “Universo conspirou” para eu usar um jaleco, de forma talvez um pouco contrária o tal do ácido ribonucleico parece ficar lutando sempre por um espaço no meu pensamento (não que qualquer molécula linda dessas precise de mim ou de qualquer um de nós para mostrar toda sua beleza). Não que eu fuja de RNAs, pelo contrário. O que quero dizer é que eles constantemente tem chamado minha atenção, e em alguns momentos dos últimos anos eu pude dedicar algumas boas horas de fosfato para entender eles melhor.
De qualquer forma, ano passado mesmo eu li o artigo “RNA in pieces” (RNA em pedaços), que Tuck e Tollervey publicaram na Trends in Genetics (referência abaixo). Se minhas parcas esperanças de um dia rever a possibilidade de um conceito robusto de “espécie” já há muito haviam ido com o vento, a leitura desse artigo só fez cair por terra mais um conceito que nossos mestres tentam nos enfiar guela abaixo: o de “gene”. Ele continua sendo aquele pedaço de DNA contendo informação criptografada na forma de nucleotídeos, mas o turbilhão de coisas diferentes que podem advir daquela sequência é uma coisa no mínimo satisfatória. Por que? Bom, é aí que entra o RNA, que pode ser taxado de presunçoso ou qualquer coisa do tipo, mas ele realmente arrasa. Entre o momento da transcrição do gene em um RNA até a proteína formada, muitos são os percalços que podem fazer esse RNA ser modificado, recortado, remontado, reposicionado e vários “re-” à sua escolha. Não estranha-se que a proteína final pode ser bastante diferente do que seria imaginado pelo tal GENE inicial, então né… mudanças de conceitos, amigos!
Isso tudo pra falar de um estudo que foi publicado na Science agora em janeiro de 2012 pelos pesquisadores Sandra Garrett e Joshua Rosenthal. O foco dessa vez? RNA também, porém do polvo antártico (esse bonito aí).

Os autores viram que os polvos vivendo em regiões próximas ao continente antártico não tinham aparentes problemas em sobreviver por lá, apesar de ser sabido que proteínas do sistema nervoso são bem sensíveis ao frio. Verificando possíveis alterações que possibilitassem essa adaptação, os autores deram uma checada em uma dessas proteínas, do canal de potássio, e a primeira ideia foi, como de praxe, que o gene contendo a informação para esta proteína fosse diferente do encontrado nos polvos de regiões tropicais, por exemplo. Eles esperavam encontrar algum código que, no final, gerasse uma proteína mais eficiente no “freezer”.
Entretanto, ao comparar as sequências do gene encontrado no polvo antártico e em outro polvo encontrado em um recife de Porto Rico, eles viram que era a mesma! Os pesquisadores então migraram para o mundo do RNA, e perceberam que, no polvo antártico, o RNA mensageiro proveniente daquele gene era editado em 9 pontos diferentes, de forma que a sequência de aminoácidos resultante era alterada, e o canal de potássio se fecha mais rapidamente, independentemente das temperaturas frias.
Mais esse estudo mostra o poder de adaptação que a edição de RNAs pode conferir a um organismo.O querido deve até estar pensando algo tipo “touchè”! E não duvido nada que o DNA esteja ficando levemente emburrado…
Não que esse post tenha qualquer coisa a ver com ursos polares, muito menos que eles possam ser vistos na Antártida. Mas acho que de frio eles entendem também, né?



Referências:
Tuck, A., & Tollervey, D. (2011). RNA in pieces Trends in Genetics, 27 (10), 422-432 DOI: 10.1016/j.tig.2011.06.001
Garrett, S., & Rosenthal, J. (2012). RNA Editing Underlies Temperature Adaptation in K+ Channels from Polar Octopuses Science DOI: 10.1126/science.1212795

>Até logo, e obrigado pelos peixes*

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