Não entre em pânico: 15 passos na Redação Científica

Pois vejam vocês, meus caros, que comecei minha vida de mestranda-com-aulas na verdade não bem com uma aula, mas sim um curso (essa história de eu agora ser do time dos mestrandos eu conto em outro post!). Para aqueles que acham que mestrando só estuda, só vou dizer uma coisa: vocês não sabem de nada! 😀

Anyway, o que eu tenho pra mostrar pra vocês é extremamente mais satisfatório que minhas semi-lamúrias. Se refere ao fato de meu curso ter sido sobre Redação Científica, com um cara que é simplesmente sensacional, o professor Gilson Volpato, da UNESP. Além de pesquisador, ele já escreveu diversos livros sobre Redação Científica, e mantém este site, que contém um monte de dicas, vídeos… um verdadeiro paraíso para aqueles que, como eu, estão se deparando com a necessidade de escrever um projeto, um artigo, até mesmo uma aula… e não quer cair nas mesmices, quer fazer direito (o que significa fazer exatamente diferente do que aprendemos, na maioria das vezes).

Totalmente impossível conseguir falar sobre tudo que o prof. Gilson nos ensinou mas, para dar uma pitada ÚTIL, aí vai o método dos 15 passos na Redação Científica. A parte em negrito foi copiada da aula do professor. O resto, com o teor mais tosco de sempre, fui eu ¬¬, obviamente inspirada pela aula.

Acredite quando digo que isso aqui vai te ajudar de uma maneira deveras absurda: E não estranhe se a ordem das coisas te parecer meio inversa. Ela é mesmo!

1) Escolha a revista: já começou arrebentando a cabeça do vivente né? Nada mais daquela história de sair inventando coisinha e experimento e depois montar uma colcha de retalhos que não entra nem na Revista Brasileira de Telepatotia.

2) Examine a redação de artigos nessa revista, principalmente os itens de estilo e linguagem. Geralmente as revistas melhores (maior fator de impacto) e menos especializadas (tipo Science e Nature) permitem um linguajar mais despreocupado (e despreocupante), com mais gingado e alegria. Revistas mais especializadas costumam ser mais quadradonas.

3) Junte toda a informação necessária em uma pastinha no computador. Pode parecer que não, mas ter toda a informação já reunida facilita deveras o processo de escrita. Assim se evitam aquelas interrupções típicas (ai caramba deixei esses dados no computador da minha sobrinha, e coisas do tipo). Aliás, falando em interrupções, dar uma isolada da tchurma ajuda bastante também. Foco é a palavra!

4) Siga a sequência lógica. Mas essa é a lógica de verdade minha gente! (inspirado no texto How to write backwords, de Magnusson, 1996). Eu montei o esqueminha abaixo pra simplificar. É uma versão praticamente igual à apresentada no curso. Resumindo: comece pelas conclusões. Melhor ainda se for “a conclusão”. Quanto menos, melhor. Quanto mais sintético, melhor! A conclusão vai servir de guia para escrever o restante da história que tu vai contar, ou seja, ela vai ser a DIREÇÃO. Os resultados, os métodos utilizados e a literatura permeando isso serão as EVIDÊNCIAS apresentadas. A discussão vai ser a parte de ARGUMENTAÇÃO em favor da ideia defendida. Nada de ficar “fofocando resultados” de autores diferentes. Já a introdução vai ser a APRESENTAÇÃO de todo o resto. Ou seja, ficar falando da morte da bezerra, quando não tem nenhuma bezerra na história, é totalmente sem sentido! O resumo? Se não estiver fazendo resumo pra congresso, faça o favor de contar brevemente de que o texto completo trata. Nada de copiar frasesinhas de cada tópico do texto. Por fim, a conclusão também vai ser a melhor amiga do título, ela que vai substanciar o que realmente vale a pena colocar como título de tudo! 🙂

Esquema da lógica

5) Siga a outline de cada tópico. Esta outline é a sequência de ideias que tu pretende apresentar em cada tópico. Uma planta baixa usada de guia para a construção de uma casa, digamos 😀

6) Escreva com suas próprias palavras. Quem montou toda a história foi tu mesmo, né não? (ou ao menos é isso que se espera… isso são outros quinhentos, aliás). Então, o que que custa contar do jeito que te der na telha? Ficar copiando dos outros é totalmente desnecessário e rudimentar. Bota esses neurônios pra funcionar!!

7) Retorne à literatura e substancie o texto. Aqui sim entra a hora de melhorar argumentações, aprofundar as ideias, etc. Afinal, ninguém precisa ter toda uma literatura na cabeça 😉

8) Confira o conteúdo de todo o texto. Hora de checar valores, ver se os dados “batem”, se não trocou vírgula de lugar, se os resultados são aqueles mesmo, se as citações são fidedignas…

9) Cheque todos os aspectos de estilo. Aqui entra um montão de sub-itens. Mas não posso deixar eles de fora… vocês já vão entender

9.1 Lógica Argumentativa:

  • Argumente com base lógica;
  • Apresente conclusões teóricas (generalize);
  • Operacionalize os conceitos investigados;
  • Sustente conclusões com bases empíricas sólidas;
  • Baseie-se no suporte estatístico.

9.2 Estilo científico – redação:

  • Use palavras simples;
  • Seja conciso, sintético (desde que não fira o conteúdo!);
  • Use frases curtas ( o ideal é ter uma ideia em cada frase);
  • Seja claro, não permita dupla interpretação;
  • Não repita informações dentro de cada tópico (Introdução e Discussão são mais livres);
  • Evite digressões, mantenha-se no foco;
  • Não diga… demonstre;
  • Tente não incluir adjetivos não objetivos (“pouco”, “muito”…);
  • Use tempos verbais consistentes;
  • Use palavras exatas;
  • Use voz ativa (um salve pra minha vontade adormecida desde sempre! “não, Natália, tem que escrever na terceira pessoa, MI MI MI”. Eba, nunca mais “conclui-se”, “percebeu-se”!!!);
  • Redija de forma argumentativa, utilizando conjunções;
  • Não use jargões de laboratório (“correr” o gel é a mais comum, fala sério!).

10) Repouse o texto por uma semana, 10 dias… dependendo da possibilidade. Claro que um descanso de 30 minutos pode ter pouco do efeito desejado nesse caso hehe.

11) Reavalie criticamente o texto. Agora tu provavelmente não vai saber exatamente cada linha do texto “de cabeça”, então tua capacidade de ver erros vai estar maior. 😉

12) Peça crítica de colegas, preferencialmente pessoas de fora do grupo do artigo. Ah, e de preferência pessoas inteligentes! (palavras do Gilson! hahahah)

13) Faça os ajustes finais.

14) Coloque nas normas da revistaEssa parte é chata demais e não interfere na escrita. Então, deixa pra agora!

15) Submeta imediatamente. Cientista deve ser empreendedor. E empreendedor não fica olhando pra trás. Sendo assim, manda logo!!!

Não sei vocês, mas eu fiquei muito mais animada pra escrever meu vindouro projeto de mestrado, e o que dele vier depois 🙂

E a melhor coisa de tudo isso é que, melhorando nossa escrita, melhoraremos o nível das nossas publicações, e isso vai ajudar a alavancar a pesquisa no Brasil pra algo mais útil. Não útil no sentido maquineísta, mas no sentido de permitir o debate e a troca de experiências com outras instituições e outros setores da sociedade. Fazer ciência de verdade, after all!

cliches

Não precisa compartimentar tanto, mas né…

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