Não entre em pânico: 15 passos na Redação Científica
Pois vejam vocês, meus caros, que comecei minha vida de mestranda-com-aulas na verdade não bem com uma aula, mas sim um curso (essa história de eu agora ser do time dos mestrandos eu conto em outro post!). Para aqueles que acham que mestrando só estuda, só vou dizer uma coisa: vocês não sabem de nada!
Anyway, o que eu tenho pra mostrar pra vocês é extremamente mais satisfatório que minhas semi-lamúrias. Se refere ao fato de meu curso ter sido sobre Redação Científica, com um cara que é simplesmente sensacional, o professor Gilson Volpato, da UNESP. Além de pesquisador, ele já escreveu diversos livros sobre Redação Científica, e mantém este site, que contém um monte de dicas, vídeos… um verdadeiro paraíso para aqueles que, como eu, estão se deparando com a necessidade de escrever um projeto, um artigo, até mesmo uma aula… e não quer cair nas mesmices, quer fazer direito (o que significa fazer exatamente diferente do que aprendemos, na maioria das vezes).
Totalmente impossível conseguir falar sobre tudo que o prof. Gilson nos ensinou mas, para dar uma pitada ÚTIL, aí vai o método dos 15 passos na Redação Científica. A parte em negrito foi copiada da aula do professor. O resto, com o teor mais tosco de sempre, fui eu ¬¬, obviamente inspirada pela aula.
Acredite quando digo que isso aqui vai te ajudar de uma maneira deveras absurda: E não estranhe se a ordem das coisas te parecer meio inversa. Ela é mesmo!
1) Escolha a revista: já começou arrebentando a cabeça do vivente né? Nada mais daquela história de sair inventando coisinha e experimento e depois montar uma colcha de retalhos que não entra nem na Revista Brasileira de Telepatotia.
2) Examine a redação de artigos nessa revista, principalmente os itens de estilo e linguagem. Geralmente as revistas melhores (maior fator de impacto) e menos especializadas (tipo Science e Nature) permitem um linguajar mais despreocupado (e despreocupante), com mais gingado e alegria. Revistas mais especializadas costumam ser mais quadradonas.
3) Junte toda a informação necessária em uma pastinha no computador. Pode parecer que não, mas ter toda a informação já reunida facilita deveras o processo de escrita. Assim se evitam aquelas interrupções típicas (ai caramba deixei esses dados no computador da minha sobrinha, e coisas do tipo). Aliás, falando em interrupções, dar uma isolada da tchurma ajuda bastante também. Foco é a palavra!
4) Siga a sequência lógica. Mas essa é a lógica de verdade minha gente! (inspirado no texto How to write backwords, de Magnusson, 1996). Eu montei o esqueminha abaixo pra simplificar. É uma versão praticamente igual à apresentada no curso. Resumindo: comece pelas conclusões. Melhor ainda se for “a conclusão”. Quanto menos, melhor. Quanto mais sintético, melhor! A conclusão vai servir de guia para escrever o restante da história que tu vai contar, ou seja, ela vai ser a DIREÇÃO. Os resultados, os métodos utilizados e a literatura permeando isso serão as EVIDÊNCIAS apresentadas. A discussão vai ser a parte de ARGUMENTAÇÃO em favor da ideia defendida. Nada de ficar “fofocando resultados” de autores diferentes. Já a introdução vai ser a APRESENTAÇÃO de todo o resto. Ou seja, ficar falando da morte da bezerra, quando não tem nenhuma bezerra na história, é totalmente sem sentido! O resumo? Se não estiver fazendo resumo pra congresso, faça o favor de contar brevemente de que o texto completo trata. Nada de copiar frasesinhas de cada tópico do texto. Por fim, a conclusão também vai ser a melhor amiga do título, ela que vai substanciar o que realmente vale a pena colocar como título de tudo!
5) Siga a outline de cada tópico. Esta outline é a sequência de ideias que tu pretende apresentar em cada tópico. Uma planta baixa usada de guia para a construção de uma casa, digamos
6) Escreva com suas próprias palavras. Quem montou toda a história foi tu mesmo, né não? (ou ao menos é isso que se espera… isso são outros quinhentos, aliás). Então, o que que custa contar do jeito que te der na telha? Ficar copiando dos outros é totalmente desnecessário e rudimentar. Bota esses neurônios pra funcionar!!
7) Retorne à literatura e substancie o texto. Aqui sim entra a hora de melhorar argumentações, aprofundar as ideias, etc. Afinal, ninguém precisa ter toda uma literatura na cabeça
8) Confira o conteúdo de todo o texto. Hora de checar valores, ver se os dados “batem”, se não trocou vírgula de lugar, se os resultados são aqueles mesmo, se as citações são fidedignas…
9) Cheque todos os aspectos de estilo. Aqui entra um montão de sub-itens. Mas não posso deixar eles de fora… vocês já vão entender
9.1 Lógica Argumentativa:
- Argumente com base lógica;
- Apresente conclusões teóricas (generalize);
- Operacionalize os conceitos investigados;
- Sustente conclusões com bases empíricas sólidas;
- Baseie-se no suporte estatístico.
9.2 Estilo científico – redação:
- Use palavras simples;
- Seja conciso, sintético (desde que não fira o conteúdo!);
- Use frases curtas ( o ideal é ter uma ideia em cada frase);
- Seja claro, não permita dupla interpretação;
- Não repita informações dentro de cada tópico (Introdução e Discussão são mais livres);
- Evite digressões, mantenha-se no foco;
- Não diga… demonstre;
- Tente não incluir adjetivos não objetivos (“pouco”, “muito”…);
- Use tempos verbais consistentes;
- Use palavras exatas;
- Use voz ativa (um salve pra minha vontade adormecida desde sempre! “não, Natália, tem que escrever na terceira pessoa, MI MI MI”. Eba, nunca mais “conclui-se”, “percebeu-se”!!!);
- Redija de forma argumentativa, utilizando conjunções;
- Não use jargões de laboratório (“correr” o gel é a mais comum, fala sério!).
10) Repouse o texto por uma semana, 10 dias… dependendo da possibilidade. Claro que um descanso de 30 minutos pode ter pouco do efeito desejado nesse caso hehe.
11) Reavalie criticamente o texto. Agora tu provavelmente não vai saber exatamente cada linha do texto “de cabeça”, então tua capacidade de ver erros vai estar maior.
12) Peça crítica de colegas, preferencialmente pessoas de fora do grupo do artigo. Ah, e de preferência pessoas inteligentes! (palavras do Gilson! hahahah)
13) Faça os ajustes finais.
14) Coloque nas normas da revista. Essa parte é chata demais e não interfere na escrita. Então, deixa pra agora!
15) Submeta imediatamente. Cientista deve ser empreendedor. E empreendedor não fica olhando pra trás. Sendo assim, manda logo!!!
Não sei vocês, mas eu fiquei muito mais animada pra escrever meu vindouro projeto de mestrado, e o que dele vier depois
E a melhor coisa de tudo isso é que, melhorando nossa escrita, melhoraremos o nível das nossas publicações, e isso vai ajudar a alavancar a pesquisa no Brasil pra algo mais útil. Não útil no sentido maquineísta, mas no sentido de permitir o debate e a troca de experiências com outras instituições e outros setores da sociedade. Fazer ciência de verdade, after all!
EPFL Summer Research Program
Como vão vocês, meus queridos?
Eu estou naquela situação levemente desesperadora de final de graduação hoho (mentira, tá bem bom!). Estudar pra prova de mestrado se tornou aquela atividade pra fazer sempre que “sobra um tempinho” (tipo assim pendurada de pé no trem), tipo um ruído de fundo na vida da pessoa, sabe? Ah, e estamos de vento em popa na finalização da organização pro Guia do Mochileiro da Biosfera, aquele curso super bacana que eu e meus amigos formandos vamos dar no final de novembro e metade de dezembro, e sobre o qual eu falei aqui.
Mesmo com essa cascata de coisas na cabeça, esse assunto aqui eu jamais poderia deixar batido de postar no blog: o Summer Research Program da École Polytechnique Fédérale de Lausanne. Não estou exagerando quando digo que essa foi a experiência da esfera profissional (e turística hehe) que mais me embasbacou durante esta minha por enquanto curta vidinha.
Esse curso de verão é promovido por essa universidade (que, by the way, é excelente! baita referência em ciência e tecnologia) todos os anos, acho que desde 2008. Em 2010 eu tive o privilégio inimaginável de ter feito parte de um.
A proposta é a seguinte: 25 alunos de graduação (de cursos como Biologia, Engenharia, Medicina, Farmácia, Genética, Biologia Molecular, Neurociências, Química, Bioquímica e mais uma infinidade…) são selecionados. Aí já entra uma das coisas mais legais do curso: o contato com pessoas de lugares absurdamente diversos (quando eu fui, tinha gente da Sérvia, Turquia, Indonésia, EUA, Nepal, Holanda, Polônia, Bangladesh…). Isso acaba revertendo em uma troca de experiências fantástica, sem contar todas as possibilidades de comidinhas típicas a partilhar em situações festivas (ou não!).
Enfim, cada aluno é alocado em um laboratório (na hora da inscrição, o candidato pode apresentar três laboratórios – dos que terão vagas abertas – que lhe interessem mais, dando uma curta justificativa teórica para isso). Neste laboratório, a criatura vai desenvolver um projeto de verão. O meu, por exemplo, eu desenvolvi neste laboratório aqui (sim, sou eu ali junto na foto de entrada! hehe Não me importo de não terem trocado a foto desde 2010
), um dos integrantes do ISREC, o Instituto Suiço de Pesquisa Experimental em Câncer. O meu projeto foi estudar a interação entre duas proteínas da via de sinalização Wnt, sabem? E essas proteínas interagiam utilizando a via de regulação por miRNA, então eu caracterizei esta relação utilizando três técnicas principais: RT-PCR, Western Blot e Ensaio de Luciferase. Fora as técnicas que citei, eu ainda tinha contato semanal com cultivo celular. Sim! Eu tinha que manter minhas células bem lindas e gordinhas para os experimentos, já que nessas células que eu expressava as minhas proteínas de interesse. HOHO
Foi demais! Quase morri nas primeiras semanas, obviamente. Uma tonelada de artigos pra ler, ficar falando tudo em inglês (sim, inglês! mesmo que em Lausana se fale francês) com pessoas com sotaques deveras interessantes, aprender todas essas técnicas de uma vez, analisar os resultados, estar preparada pra explicar esses resultados de forma decente para teu chefe, que aparecia meio que do nada te perguntando “hey Natalia, how are your experiments doing?”. Pois é. Mas foi excelente! Aprender a toque de caixa faz um bem absurdo pro intelecto do vivente
Ademais, semanalmente nós tínhamos palestras (regadas a MUITA COMIDA) com pesquisadores da universidade e de indústrias e editores de periódicos científicos, por exemplo. Eles nos passaram várias “manhas” da vida acadêmica como um todo: postura científica, método, hipóteses, análise de resultados, apresentação em resumo, pôster, paper… Fora todos os quilos que eu ganhei, deu pra assimilar muito conhecimento útil nessas oportunidades.
E, claro, não poderia deixar de comentar sobre as viagens! Gente, a Suiça é linda! As pessoas são educadas e saudáveis (ó eu generalizando… tô nem aí, achei todos lindos!), eu me sentia realmente em casa. Adorei a comida e o preço super acessível dos chocolates e sorvetes
, adorei o clima, as companhias e, acima de tudo, a experiência acadêmica!
Recomendo que todos vocês que possam ter interesse nas áreas principais dos laboratórios (biologia molecular e celular, bioquímica, genética, bioengenharia, neurociências… vejam os laboratórios com vagas abertas aqui), e gostariam de passar por uma experiência dessas (observação: TUDO é pago! e MUITO BEM PAGO! sobrou dinheiro!), eu recomendo muito, mas muuuuuito mesmo que vocês apliquem para o SRP da EPFL. É uma experiência única
Ah, e se vocês tiverem qualquer pergunta sobre o curso, como aplicar, dicas, enfim… qualquer coisa! me deixem um comentário, que eu respondo com todo prazer!
Dispersei minha chatice
Como vão vocês meus caros, todos bem de saúde?
Hoje vim aqui avisar vocês que, como se já não bastasse eu divulgar minha chatice extrema aqui na Crônica das Moscas, eu resolvi também dispersar ela para os quatro (?) cantos da sociedade internética.
Sim, meus queridos, hoje entrou no ar a entrevista que eu tive a satisfação de dar para o Dispersando, um dos blogs chefes do Science Blogs Brasil que, caso vocês ainda não conheçam, taí uma boa oportunidade de tirar o atraso
Cliquem aqui para assistir
Desde o dia 10 de outubro, o Igor Santos, do 42, está postando as entrevistas que ele está realizando com os novos blogueiros do Science Blogs Brasil, para mostrar todo o talento e carisma dos novos participantes desta rede super charmosa
Antes de mim já vieram o André Rabelo, que escreve no SocialMente; o Emanuel Henn, que escreve no Caderno de Laboratório; o Alan Mussoi, vizinho que escreve no Nightfall in Magrathea e por fim meu amigo mineiro Samir Elian, lá do Meio de Cultura.
Além de assistirem meu show de horror público, recomendo fortemente assistir os outros episódios desta segunda temporada do Dispersando. Galera se puxou na queridisse
O Guia do Mochileiro da Biosfera
Não, agora de uma vez que tu não precisa entrar em pânico!
Por que? Explico: um grupo de amigos e mais os dois blogueiros que vos falam, em um lampejo de inspiração, resolveram tentar dar aquela mãozinha esperta, principalmente para os alunos iniciantes do curso de Ciências Biológicas (e afins). Como assim? Bom, você caro amigo que também trilhou ou trilha esta caminhada por vezes meio pedregosa da Biologia, sabe como teria sido extremamente satisfatório ter chegado no curso com uma bagagem de conhecimento um pouco mais pesada na mochila. Sabe aquilo que o professor fala no primeiro dia de aula: “ah galera, isso vocês lembram lá do ensino médio, né?”. E todo mundo resolve concordar, com vergonha de admitir “não faço ideia do que tu tá falando!!”.
Pois bem, nosso grupo de amigos formandos de Biologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (São Leopoldo/RS) resolveu montar um Guia do Mochileiro da Biosfera. Um manual mesmo, o caminho das pedras pra chegar no curso (ou continuar nele) com alguns conhecimentos básicos e de extrema importância para o melhor aproveitamento de toda a enxurrada de informação que vai vir pela frente.
Esse Guia vai ser desenvolvido na forma de um curso dado em sextas e sábados, durante duas semanas, onde vamos injetar uma dose considerável de ânimo, dicas e conhecimentos mega legais pra ajudar vocês!
Vai ter de tudo: informações sobre carreira e possibilidades de futuro, conhecimentos teóricos (desde origem da vida, o que torna um organismo vivo, o que é e como a biodiversidade está distribuída na Terra…), passando por atividades práticas a campo e no laboratório, assim como várias dicas para montar Curriculo Lattes, montar resumo e pôster, divulgação científica, e o que tudo mais der na telha do povo na hora!
Curtam aí os cartazes super lindos que montamos pro curso. Totalmente e absolutamente inspirado na série do Douglas Adams, o Guia do Mochileiro das Galáxias
Esperamos vocês das redondezas, ou de outra galáxia também
Sagan é pílula de inspiração!
Como uma pessoa consegue escrever um livro inteiro formado por frases de efeito? Esta sem dúvida é, para mim, a característica mais marcante dos textos de nosso querido Carl Sagan. Uma profusão de palavras montadas em um arranjo tão poético e bonito, a ponto que conseguimos ler tal qual embalagem de xampu temas que muitas vezes seriam de difícil compreensão dentro de uma linguagem engessada e “científica” (dentro dos parâmetros considerados normais, para meu desgosto).
Comecei hoje a ler “Broca’s Brain”, publicado no final da década de 70. Recebi este pequeno tesouro como doação da vizinha de SBBr Paula Signorini (de novo, GRAZIE MILLE!), em um formato pequeno, amarelado e maravilhoso. Posso dizer desde já que me sinto uma pessoa privilegiada por ter a chance de ter em mãos tamanha obra de arte. Já fui fisgada nas primeiras páginas, e o decorrer da leitura me fez torcer veementemente para eu caísse em um gap do espaço-tempo, para lê-lo de uma sentada só (infelizmente minha eterna labuta nos trilhos de trem me impediram).
Copio abaixo um trecho que me trouxe arrepios. Volta e meia esses textos do Sagan me confirmam a impressão de que ele foi atemporal, a ponto de escrever, há 33 anos atrás, coisas que hoje nos parecem tão contemporâneas. Por outro lado, também acabamos por ver que algumas discussões continuam exatamente as mesmas…
All inquiries carry with them some element of risk. There is no guarantee that the universe will conform to our predispositions. But we do not see how we can deal with the universe – both the outside and the inside – without studying it. The best way to avoid abuses is for the populace in general to be scientifically literate, to understand the implications of such investigations. In exchange for freedom of inquiry, scientists are obliged to explain their work. If science is considered a closed priesthood, too difficult and arcane for the average person to understand, the dangers of abuse are greater. But if science is a topic of general interest and concern – if both its delights and its social consequences are discussed regularly and competently in the schools, the press, and at the dinner table – we have greatly improved our prospects for learning how the world really is and for improving both it and us. That is an idea, I sometimes fancy, that may be sitting there still, sluggish with formalin, in Broca’s brain.
Espero que isso também traga para vocês, queridos leitores, uma sensação de inspiração profunda para mais esse dia. Science is the poetry of reality
The Dark Side of the… Math: Resenha de “Os número (não) mentem”
O livro “Os números (não) mentem”, de Charles Seife, pousou nas minhas mãos justamente no dia que eu chegava à ultima página de “As Duas Torres”, da trilogia do Senhor dos Aneis de Tolkien. What a move, hã? Se tem coisa que gosto é ficar dando “socos no cérebro”, a.k.a., alternar entre leituras o mais disparates possíveis, só para evitar a fadiga. Acho que esse caso foi um bom exemplo! Tá, eu não rumei pra algum livro de auto-ajuda, isso sim seria uma mudança completa. Mas ei! Eu odeio livros de auto-ajuda! Então ficamos quites
Bom, primeiramente queria dizer que (só pra variar) eu acho o título original bem mais satisfatório= Proofiness: the dark arts of mathematical deception. Com essa deixa já fica fácil de perceber porque eu escolhi esse título de post.
O livro é dividido em oito capítulos: “Falsos fatos, falsas cifras”; “O demônio de Rorschach”; “Negócio arriscado”; “As falácias matemáticas nas pesquisas de opinião”; “Disfunção eleitoral”; “Injustiça eleitoral”; “Realidades paralelas” e “Propaganda baseada em números”. Seife passeia entre temas cotidianos e aos quais estamos acostumados, porém mostrando como a “fachada racional” que os números sempre impuseram sobre nós acabam por muitas vezes nos manipulando e enganando.
Particularmente, eu gostei muito das analogias e metáforas (e palavras satisfatórias e esquisitas) que o autor usou para explicar os temas, para destrinchar de forma simples, porém profunda, situações que antes passavam batidas. Os temas mais recorrentes nos capítulos foram as eleições americanas (e toda sua chatice de brinde), pesquisas de opinião pública e casos da Justiça. O autor possui uma dose generosa de humor, porém me incomodou um pouco o fato de ele (pelo menos ao expressar-se) generaliza muitos estereótipos, como naquelas clássicas de que “advogados são trambiqueiros” e “políticos são sempre corruptos”. But that’s me… odeio generalizações
Acima de tudo, acho que a primeira palavra que vai vir à cabeça quando eu lembrar deste livro em alguns dias, meses ou anos vai ser: “útil”. Não tem como negar o caráter extremamente informativo e esclarecedor do livro, quando Seife discorre acerca da forma como os números podem (e são) amplamente manipulados pela mídia, pelos cientistas, por políticos, pelo vendedor de frutas, pelos juristas e pela sua avó.
Para finalizar, a constatação pra lá de bacana que Seife chegou, em uma de suas histórias: “A eleição presidencial dos EUA em 2000 deveria ter sido decidida por cara ou coroa”.
Recomendo deveras!
Referência do livro: Seife, Charles. Os números (não) mentem: como a matemática pode ser usada para enganar você. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.
Enquanto a PCR roda…
Veja bem amigos, estes blogueiros que vos falam são também colegas de laboratório. Acredito que tal informação já seja um tanto suficiente para imaginar possíveis cenas engraçadas.
Pois bem, a noite extremamente gelada de ontem foi regada a PCRs e manejo das adoráveis Drosophila, porém, para não perdermos a alegria de viver, e já que estávamos totalmente #foreveralone (tipo, Unisinos toda debandada), o jeito foi tirar umas fotos completamente inspiradas em Star Wars, Matrix e o Exterminador do Futuro (enquanto a PCR rodava e as moscas curtiam a night).
Pelo menos era assim que a gente estava se achando
Ah, e só pra ninguém ficar nos xingando, é claro que a gente não estava batendo as pipetas né galera, pelamor! Foi só uma pose ou outra e nada más
Para o infinito, e além!
Meus queridos amigos leitores do Crônica das Moscas, este é um post de caráter urgencial <o>
Não deixem de conferir a entrevista que meu excelentíssimo co-blogueiro dará logo mais na Rádio Unisinos (podem acessar por aqui), às 13h20, acerca de sua satisfatória experiência de uma semana no 2012 Santander Summer School, promovido pela NASA, e que ocorreu em Cantábria, na Espanha.
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Não podemos só ficar aqui de blábláblá no blog, né amigos! O jeito é colocar a mão na massa, digo, nas moléculas
Orgulho de amigo! Curtam comigo
A Alga, o Bivalve e a Bactéria
Você aí que achava que a vida das algas marinhas é uma coisa extremamente pacata e sem grandes aventuras, apenas uma eterna dança ao sabor das correntes, só digo isso: seus problemas começaram!
Tjisse van der Heide (que, para minha surpresa, é um homem! eu sou mesmo péssima pra inferir gênero de nomes estrangeiros) e colaboradores, da Universidade de Groningen (Holanda… claro… “van der”, só podia!), publicaram na Science um estudo bem satisfatório de uma relação linda e complexa estabelecida entre as algas marinhas, uma família de bivalves e suas bactérias simbiontes, para sobreviver a uma vida que, de outra forma, seria regada a intoxicação por sulfureto (nada satisfatório).
Devido à ausência de oxigênio em muitos sedimentos marinhos costeiros, uma importante fração da matéria orgânica é decomposta por bactérias que usam o sulfato abundante na água marinha como um receptor de elétrons, ao invés de oxigênio, produzindo sulfureto tóxico como metabólito final. Apesar de as algas trasportarem oxigênio em suas raízes e a rizosfera que rodeia, a produção de sulfureto supera a liberação de oxigênio, resultando em acúmulo de sulfureto, e mortalidade das algas. Leitos de algas marinhas tendem a acumular matéria orgânica, e, portanto, seria esperado que estes leitos iriam construir sulfuretos tóxicos, e, portanto, terem uma produtividade e diversidade limitadas. Entretanto, isto não é o observado, e a razão por detrás da manutenção dos ecossistemas de algas marinhas ainda é um enigma.
O povo de nome estranho que escreveram o paper (só pra não perder a oportunidade: Han Olff, Matthijs van der Geest, Marieke M. van Katwijk e por aí vai…) testaram a hipótese de que uma simbiose de três estágios entre as algas, bivalves lucinídios associados, e suas bactérias simbiontes de brânquias poderia estar contribuindo para reduzir a acumulação cíclica de sulfuretos. Dados paleontológicos já mostravam que os bivalves da família Lucinidae e sua relação endossimbiótica datam do Siluriano, mas que eles passaram por uma extensiva diversificação desde a emergência das algas marinhas, no final do Cretáceo. Um dado desses veio deveras a calhar, digamos
Os lucinídios e suas bactérias habitantes de brânquias tem uma simbiose em que os bivalves transportam sulfureto e oxigênio para suas brânquias, onde as bactérias oxidam estes sulfuretos para produção de açúcar, que promove o crescimento dos dois organismos. Os autores então elaboraram a ideia de que os prados de algas marinhas provinham o hábitat ótimo para estes bivalves e seus simbiontes, por estimular indiretamente a produção de sulfureto através do grande aporte de matéria orgânica, e provendo oxigênio através da liberação radial de oxigênio das raízes. Em troca, os bivalves removeriam os sulfuretos, o que poderia aliviar qualquer estresse causado ao crescimento das algas pela acumulação de sulfuretos enquanto a matéria orgânica fosse degradada.
Suporte indireto foi dado a essa hipótese por uma meta-análise mundial de 84 estudos descrevendo a fauna de leitos de algas marinhas em 83 sítios, cobrindo toda a distribuição climática de algas marinhas, combinada com um estudo de campo em 110 pontos, que os autores realizaram na Mauritânia (abaixo o mapa com os resultados).

Presença (verde; escuro quantitativo, claro qualitativo) e ausência (vermelho) de lucinídios em ecossistemas de algas marinhas, baseadas na meta-análise dos autores. Os bivalves estavam presentes em 97% de todos os leitos tropicais, 90% dos leitos subtropicais, e 56% dos prados temperados de algas marinhas. A associação algas marinhas-lucinídios alcança 6 dos 7 continentes, pelo menos 18 gêneros de lucinídios, e 11 de 12 gêneros de algas marinhas.
Para aumentar a confiança dos resultados obtidos pela meta-análise, os autores desenvolveram experimentos em laboratório, observando os efeitos da oxidação de sulfuretos pelo bivalve lucinídio Loripes lacteus na produção da alga marinha Zostera noltii (ambos presentes na montagem da figura abaixo). Os experimentos comprovaram que a presença de Loripes e, em uma extensão menor, de Zostera, diminuíram a presença de sulfuretos no sedimento (mesmo em controles com adição artificial de sulfureto), e a presença conjunta dos organismos aumentou a detecção de oxigênio no meio.

O bivalve Loripes lacteus e a alga marinha Zostera noltii, utilizados pelos autores nos modelos experimentais para testar a hipótese da simbiose de três estágios
A junção dos dados dos autores confirmou a hipótese elaborada inicialmente, de que uma simbiose de três estágios é responsável pela diminuição do estresse de sulfuretos em prados de algas marinhas. Fora isso, esses estudos também se encaixam na problemática ambiental. Ecossistemas costeiros, em particular os prados de algas marinhas, estão em declínio alarmante, levando à perda de biodiversidade. Os esforços de restauração tem se mostrado pouco efetivos, apesar dos custos enormes. Os resultados desta pesquisa indicam que tais esforços de restauração não deviam focar apenas nos estressores ambientais como causas de declínio, mas também deveriam considerar interações ecológicas internas, como a presença e o vigor de relações simbióticas ou mutualísticas, visto que a quebra de sistemas simbióticos pode afetar o funcionamento de ecossistemas inteiros.
Observações:
1) Meu sobrenome, “Dörr”, também é holandês (apesar de a família ter escapulido pra Alemanha no caminho). Me pergunto porque eu não tenho um “van der” também. Imaginem que lindo, “Natália van der Dörr”. ¬¬
2) É só eu ver “simbiose” escrita em algum lugar que já saio correndo pra ler. A minha querida Wolbachia deve estar manipulando meu sistema nervoso, aff.
Este estudo foi publicado na Science: van der Heide, T. et al. A Three-Stage Symbiosis Forms the Foundation of Seagrass Ecosystems. Science 336, 1432 (2012).
Noites forever alone no laboratório
É amigos, nada como os dourados anos da juventude, em que tu consegue fazer as horas renderem absurdamente mais (de vez em quando). Devo dizer que minha rotina é deveras agitada, e que praticamente todas as minhas horas são ocupadas (eu gosto de dormir à noite, fica a ressalva).
Independente disso, entretanto, é em minhas noites solitárias de laboratório que eu me sinto bem forever alone, pelo menos no que se refere a presenças humanas (excetuadas as visitas ocasionais na forma de sustos dos amigos). Claro que não posso deixar esquecidas minhas queridas moscas. Afinal, repicar moscas me consome muito, como diria a Clarice, mas elas acabam me fazendo uma fake-companhia quando me olham (?) desesperadas pelas paredes dos vidrinhos onde vivem.
Aliás, o que será que aquelas mosquinhas acham de mim, né? Uma criatura que chega sempre esbaforida e com bochechas vermelhas, coloca o cabelo pra cima do jeito mais tenebroso possível enquanto veste o jaleco, fica com uns fios pretos dentro das orelhas e por causa disso aparentemente faz umas dancinhas aleatórias pela sala. Mas o pior é quando ela (eu) pega os vidrinhos onde as mosquinhas moram e faz TOC TOC TOC numa base com espuma pra NÃO DAR BARULHO (claro que sim!), deixando as pobrezinhas tontas da cuca, e mete dentro de outro vidrinho (limpo uai), joga fermento dentro e diz: “durmam bem, suas lindas”. Deve ser uma vida meio confusa…
De qualquer forma, entre toc toc tocs de repiques de moscas, colegas queridíssimos (como o caro colega de blog) me assustando na calada da noite solitária laboratorial, e músicas embalando essa vida na ciência, só me resta fazer uma ressalva, para o caso de elas tentarem se revoltar contra minha presença, ou tentarem me prender dentro do laboratório:























