Contaminações paralelas e horizontais…

Um dos grandes temas unificadores deste blogue é a simbiose e a transferência horizontal de genes. Talvez devido ao fato dos dois autores trabalharem, respirarem e se divertirem com isto, pois vai dizer que vocês também não acham um dos temas mais maneiros da biologia, e um dos fenômenos mais instigantes a ocorrer na vida na terra? Agora, abusando de analogias e metáforas, e roubando o termo da biologia, também, estes dois autores “contaminam” horizontalmente e constroem simbioses em outros projetos ligados a divulgação da ciência, informação e outras coisas não tão relacionadas (mas que consideramos maneiras também), e um dos projetos é o Podcast “Dragões de Garagem”, leia quem são os autores aqui.

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A ideia geral é falar de um modo descontraído sobre ciência e suas lateralizações, mas respeitando o rigor científico. Este que vos escreve já participou do primeiro episódio sobre carreira acadêmica (dando dicas de sobrevivência como onde comer de graça, onde dormir, com quem pegar carona) e do episódio 4, que o tema foi, adivinhem:Simbiose! com a participação mais que “satisfatória” da co-autora deste blog, Natália.

Além de participar do podcast, também mantenho um TUMBLR, o “A mosca e o jarro”, onde compartilho imagens sobre ciência, quadrinhos, filmes e outras estranhezas e bonitezas, como as que ilustram esse post…Das contaminações podem surgir coisas interessantes, e jamais esperadas, ou somente coisas maneiras mesmo…Aproveitem, contaminem e sejam contaminados também.

Ilustração Xenobiológica de Wayne Barlowe

Ilustração Xenobiológica de Wayne Barlowe

Tygra bem elegante para a festa

Tygra bem elegante para a festa

Necator americanus. Hookworm. Verme gancho… te engole por dentro.

Necator americanus. Hookworm. Verme gancho… te engole por dentro.

Hal Jordan, o Lanterna verde do setor 2814.1.

Hal Jordan, o Lanterna verde do setor 2814.1.

Mais informações em:

http://dragoesdegaragem.com/

http://www.facebook.com/dragoesdegaragem

http://amoscaeojarro.tumblr.com/

 

 

Micróbios adquiridos: meio planta e tipo bicho!

Monstruosidades incríveis encontramos no reino das coisas vivas, que rastejam, nadam, perambulam e flutuam por este pálido ponto azul…Veja isso, aqui nós temos um singelo (aparentemente)  Protista nomeado de Hatena arenicola (em japonês=
 estranho).

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Ele fica ali, cuidando dos seus próprios negócios, indo com as marés e fazendo sua refeição de outros menores, até que uma destas refeições ele ingere uma alga verde, então notamos algo destoante, um pequeno ponto esverdeado na parte rostral da Hatena. Bom, esse ponto verde é uma alga sobrevivente da digestão, do gênero Nephroselmis que rouba a luz solar e utiliza a energia dos fótons para quebrar compostos e construir novos como a sua matéria orgânica e outros doces bioquímicos, dividindo tais produtos com o seu captor, a Hatena

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Eis mais um exemplo de endossimbiose em ação, organismos diferentes vivendo juntos, onde seus destinos estão intimamente entrelaçados na indiferente, sedutora e inescapável teia  da vida. Mas a música não pará por aqui. Quando a Hatena se divide, para dar origem a novos indivíduos (sua reprodução) um de seus “herdeiros” permanece com a Nephroselmis fotossíntetizante enquanto o outro fica sem sua fábrica verde de energia, e, vejam só, não somente vive muito bem, como desenvolve um aparato de captura de alimento, voltando ao estado heterótrofo (comendo outros), ao contrario do seu irmão que permanece um autótrofo (comendo a luz).

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Assim cada um segue sua vidinha preciosa, a cuidar dos seus próprios negócios, como se nada tivesse acontecido, até que o demônio nietzschiano do eterno retorno instiga a Hatena heterótrofa a comer mais saladas de Nephroselmis...

Referências:

Okamoto, N. & Inouye, I. A secondary symbiosis in progress? Science310, 287 (2005).

http://blogs.scientificamerican.com/lab-rat/2012/01/22/half-plant-half-predator-all-weird/

EPFL Summer Research Program

Como vão vocês, meus queridos?

Eu estou naquela situação levemente desesperadora de final de graduação hoho (mentira, tá bem bom!). Estudar pra prova de mestrado se tornou aquela atividade pra fazer sempre que “sobra um tempinho” (tipo assim pendurada de pé no trem), tipo um ruído de fundo na vida da pessoa, sabe? Ah, e estamos de vento em popa na finalização da organização pro Guia do Mochileiro da Biosfera, aquele curso super bacana que eu e meus amigos formandos vamos dar no final de novembro e metade de dezembro, e sobre o qual eu falei aqui.

Mesmo com essa cascata de coisas na cabeça, esse assunto aqui eu jamais poderia deixar batido de postar no blog: o Summer Research Program da École Polytechnique Fédérale de Lausanne. Não estou exagerando quando digo que essa foi a experiência da esfera profissional (e turística hehe) que mais me embasbacou durante esta minha por enquanto curta vidinha.

Cartaz de divulgação do EPFL SRP

Esse curso de verão é promovido por essa universidade (que, by the way, é excelente! baita referência em ciência e tecnologia) todos os anos, acho que desde 2008. Em 2010 eu tive o privilégio inimaginável de ter feito parte de um.

Ganhando mais uns quilinhos!

A proposta é a seguinte: 25 alunos de graduação (de cursos como Biologia, Engenharia, Medicina, Farmácia, Genética, Biologia Molecular, Neurociências, Química, Bioquímica e mais uma infinidade…) são selecionados. Aí já entra uma das coisas mais legais do curso: o contato com pessoas de lugares absurdamente diversos (quando eu fui, tinha gente da Sérvia, Turquia, Indonésia, EUA, Nepal, Holanda, Polônia, Bangladesh…). Isso acaba revertendo em uma troca de experiências fantástica, sem contar todas as possibilidades de comidinhas típicas a partilhar em situações festivas (ou não!).

Enfim, cada aluno é alocado em um laboratório (na hora da inscrição, o candidato pode apresentar três laboratórios – dos que terão vagas abertas – que lhe interessem mais, dando uma curta justificativa teórica para isso). Neste laboratório, a criatura vai desenvolver um projeto de verão. O meu, por exemplo, eu desenvolvi neste laboratório aqui (sim, sou eu ali junto na foto de entrada! hehe Não me importo de não terem trocado a foto desde 2010 :P ), um dos integrantes do ISREC, o Instituto Suiço de Pesquisa Experimental em Câncer. O meu projeto foi estudar a interação entre duas proteínas da via de sinalização Wnt, sabem? E essas proteínas interagiam utilizando a via de regulação por miRNA, então eu caracterizei esta relação utilizando três técnicas principais: RT-PCR, Western Blot e Ensaio de Luciferase. Fora as técnicas que citei, eu ainda tinha contato semanal com cultivo celular. Sim! Eu tinha que manter minhas células bem lindas e gordinhas para os experimentos, já que nessas células que eu expressava as minhas proteínas de interesse. HOHO

Ó aí o pôster que apresentei com meus resultados do projeto de verão!

Foi demais! Quase morri nas primeiras semanas, obviamente. Uma tonelada de artigos pra ler, ficar falando tudo em inglês (sim, inglês! mesmo que em Lausana se fale francês) com pessoas com sotaques deveras interessantes, aprender todas essas técnicas de uma vez, analisar os resultados, estar preparada pra explicar esses resultados de forma decente para teu chefe, que aparecia meio que do nada te perguntando “hey Natalia, how are your experiments doing?”. Pois é. Mas foi excelente! Aprender a toque de caixa faz um bem absurdo pro intelecto do vivente :)

Ademais, semanalmente nós tínhamos palestras (regadas a MUITA COMIDA) com pesquisadores da universidade e de indústrias e editores de periódicos científicos, por exemplo. Eles nos passaram várias “manhas” da vida acadêmica como um todo: postura científica, método, hipóteses, análise de resultados, apresentação em resumo, pôster, paper… Fora todos os quilos que eu ganhei, deu pra assimilar muito conhecimento útil nessas oportunidades.

E, claro, não poderia deixar de comentar sobre as viagens! Gente, a Suiça é linda! As pessoas são educadas e saudáveis (ó eu generalizando… tô nem aí, achei todos lindos!), eu me sentia realmente em casa. Adorei a comida e o preço super acessível dos chocolates e sorvetes :D , adorei o clima, as companhias e, acima de tudo, a experiência acadêmica!

Caminhada matadora em Zermmat, com o Matterhorn, a montanha do Toblerone, ao fundo! <3

Certamente meu passatempo preferido por lá: mergulhos no lago Genebra, o maior da Suiça.

Recomendo que todos vocês que possam ter interesse nas áreas principais dos laboratórios (biologia molecular e celular, bioquímica, genética, bioengenharia, neurociências…  vejam os laboratórios com vagas abertas aqui), e gostariam de passar por uma experiência dessas (observação: TUDO é pago! e MUITO BEM PAGO! sobrou dinheiro!), eu recomendo muito, mas muuuuuito mesmo que vocês apliquem para o SRP da EPFL. É uma experiência única :)

Ah, e se vocês tiverem qualquer pergunta sobre o curso, como aplicar, dicas, enfim… qualquer coisa! me deixem um comentário, que eu respondo com todo prazer! :)

Dispersei minha chatice

Como vão vocês meus caros, todos bem de saúde?

Hoje vim aqui avisar vocês que, como se já não bastasse eu divulgar minha chatice extrema aqui na Crônica das Moscas, eu resolvi também dispersar ela para os quatro (?) cantos da sociedade internética.

Uma foto de mim fofinha pra vocês assistirem o vídeo com mais amor no coração!

Sim, meus queridos, hoje entrou no ar a entrevista que eu tive a satisfação de dar para o Dispersando, um dos blogs chefes do Science Blogs Brasil que, caso vocês ainda não conheçam, taí uma boa oportunidade de tirar o atraso :)

Cliquem aqui para assistir :)

Desde o dia 10 de outubro, o Igor Santos, do 42, está postando as entrevistas que ele está realizando com os novos blogueiros do Science Blogs Brasil, para mostrar todo o talento e carisma dos novos participantes desta rede super charmosa :P

Antes de mim já vieram o André Rabelo, que escreve no SocialMente; o Emanuel Henn, que escreve no Caderno de Laboratório; o Alan Mussoi, vizinho que escreve no Nightfall in Magrathea e por fim meu amigo mineiro Samir Elian, lá do Meio de Cultura.

Além de assistirem meu show de horror público, recomendo fortemente assistir os outros episódios desta segunda temporada do Dispersando. Galera se puxou na queridisse :)

The Dark Side of the… Math: Resenha de “Os número (não) mentem”

O livro “Os números (não) mentem”, de Charles Seife, pousou nas minhas mãos justamente no dia que eu chegava à ultima página de “As Duas Torres”, da trilogia do Senhor dos Aneis de Tolkien. What a move, hã? Se tem coisa que gosto é ficar dando “socos no cérebro”, a.k.a., alternar entre leituras o mais disparates possíveis, só para evitar a fadiga. Acho que esse caso foi um bom exemplo! Tá, eu não rumei pra algum livro de auto-ajuda, isso sim seria uma mudança completa. Mas ei! Eu odeio livros de auto-ajuda! Então ficamos quites ;)

Bom, primeiramente queria dizer que (só pra variar) eu acho o título original bem mais satisfatório= Proofiness: the dark arts of mathematical deception. Com essa deixa já fica fácil de perceber porque eu escolhi esse título de post.

O livro é dividido em oito capítulos: “Falsos fatos, falsas cifras”; “O demônio de Rorschach”; “Negócio arriscado”; “As falácias matemáticas nas pesquisas de opinião”; “Disfunção eleitoral”; “Injustiça eleitoral”; “Realidades paralelas” e “Propaganda baseada em números”. Seife passeia entre temas cotidianos e aos quais estamos acostumados, porém mostrando como a “fachada racional” que os números sempre impuseram sobre nós acabam por muitas vezes nos manipulando e enganando.

Particularmente, eu gostei muito das analogias e metáforas (e palavras satisfatórias e esquisitas) que o autor usou para explicar os temas, para destrinchar de forma simples, porém profunda, situações que antes passavam batidas. Os temas mais recorrentes nos capítulos foram as eleições americanas (e toda sua chatice de brinde), pesquisas de opinião pública e casos da Justiça. O autor possui uma dose generosa de humor, porém me incomodou um pouco o fato de ele (pelo menos ao expressar-se) generaliza muitos estereótipos, como naquelas clássicas de que “advogados são trambiqueiros” e “políticos são sempre corruptos”. But that’s me… odeio generalizações ;)

Acima de tudo, acho que a primeira palavra que vai vir à cabeça quando eu lembrar deste livro em alguns dias, meses ou anos vai ser: “útil”. Não tem como negar o caráter extremamente informativo e esclarecedor do livro, quando Seife discorre acerca da forma como os números podem (e são) amplamente manipulados pela mídia, pelos cientistas, por políticos, pelo vendedor de frutas, pelos juristas e pela sua avó.

Para finalizar, a constatação pra lá de bacana que Seife chegou, em uma de suas histórias: “A eleição presidencial dos EUA em 2000 deveria ter sido decidida por cara ou coroa”.

Recomendo deveras!

 

Referência do livro: Seife, Charles. Os números (não) mentem: como a matemática pode ser usada para enganar você. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.

Enquanto a PCR roda…

Veja bem amigos, estes blogueiros que vos falam são também colegas de laboratório. Acredito que tal informação já seja um tanto suficiente para imaginar possíveis cenas engraçadas.

Pois bem, a noite extremamente gelada de ontem foi regada a PCRs e manejo das adoráveis Drosophila, porém, para não perdermos a alegria de viver, e já que estávamos totalmente #foreveralone (tipo, Unisinos toda debandada), o jeito foi tirar umas fotos completamente inspiradas em Star Wars, Matrix e o Exterminador do Futuro (enquanto a PCR rodava e as moscas curtiam a night).

Pelo menos era assim que a gente estava se achando :D

War style (atenção para a cara de maloqueiro do Felipe com a touquinha!)

Parabéns, Natália, por conseguir ficar tão tosca numa fotoNão é pra qualquer um :P

Luz UV (e uma barreira entre tu e ela) deixam uma foto tão satisfatória!

Ah, e só pra ninguém ficar nos xingando, é claro que a gente não estava batendo as pipetas né galera, pelamor! Foi só uma pose ou outra e nada más :D

Para o infinito, e além!

Meus queridos amigos leitores do Crônica das Moscas, este é um post de caráter urgencial <o>

Não deixem de conferir a entrevista que meu excelentíssimo co-blogueiro dará logo mais na Rádio Unisinos (podem acessar por aqui), às 13h20, acerca de sua satisfatória experiência de uma semana no 2012 Santander Summer School, promovido pela NASA, e que ocorreu em Cantábria, na Espanha.

Não podemos só ficar aqui de blábláblá no blog, né amigos! O jeito é colocar a mão na massa, digo, nas moléculas :)

Orgulho de amigo! Curtam comigo :D

A Alga, o Bivalve e a Bactéria

Você aí que achava que a vida das algas marinhas é uma coisa extremamente pacata e sem grandes aventuras, apenas uma eterna dança ao sabor das correntes, só digo isso: seus problemas começaram!

Tjisse van der Heide (que, para minha surpresa, é um homem! eu sou mesmo péssima pra inferir gênero de nomes estrangeiros) e colaboradores, da Universidade de Groningen (Holanda… claro… “van der”, só podia!), publicaram na Science um estudo bem satisfatório de uma relação linda e complexa estabelecida entre as algas marinhas, uma família de bivalves e suas bactérias simbiontes, para sobreviver a uma vida que, de outra forma, seria regada a intoxicação por sulfureto (nada satisfatório).

Devido à ausência de oxigênio em muitos sedimentos marinhos costeiros, uma importante fração da matéria orgânica é decomposta por bactérias que usam o sulfato abundante na água marinha como um receptor de elétrons, ao invés de oxigênio, produzindo sulfureto tóxico como metabólito final. Apesar de as algas trasportarem oxigênio em suas raízes e a rizosfera que rodeia, a produção de sulfureto supera a liberação de oxigênio, resultando em acúmulo de sulfureto, e mortalidade das algas. Leitos de algas marinhas tendem a acumular matéria orgânica, e, portanto, seria esperado que estes leitos iriam construir sulfuretos tóxicos, e, portanto, terem uma produtividade e diversidade limitadas. Entretanto, isto não é o observado, e a razão por detrás da manutenção dos ecossistemas de algas marinhas ainda é um enigma.

O povo de nome estranho que escreveram o paper (só pra não perder a oportunidade: Han Olff, Matthijs van der Geest, Marieke M. van Katwijk e por aí vai…) testaram a hipótese de que uma simbiose de três estágios entre as algas, bivalves lucinídios associados, e suas bactérias simbiontes de brânquias poderia estar contribuindo para reduzir a acumulação cíclica de sulfuretos. Dados paleontológicos já mostravam que os bivalves da família Lucinidae e sua relação endossimbiótica datam do Siluriano, mas que eles passaram por uma extensiva diversificação desde a emergência das algas marinhas, no final do Cretáceo. Um dado desses veio deveras a calhar, digamos ;)

Os lucinídios e suas bactérias habitantes de brânquias tem uma simbiose em que os bivalves transportam sulfureto e oxigênio para suas brânquias, onde as bactérias oxidam estes sulfuretos para produção de açúcar, que promove o crescimento dos dois organismos. Os autores então elaboraram a ideia de que os prados de algas marinhas provinham o hábitat ótimo para estes bivalves e seus simbiontes, por estimular indiretamente a produção de sulfureto através do grande aporte de matéria orgânica, e provendo oxigênio através da liberação radial de oxigênio das raízes. Em troca, os bivalves removeriam os sulfuretos, o que poderia aliviar qualquer estresse causado ao crescimento das algas pela acumulação de sulfuretos enquanto a matéria orgânica fosse degradada.

Suporte indireto foi dado a essa hipótese por uma meta-análise mundial de 84 estudos descrevendo a fauna de leitos de algas marinhas em 83 sítios, cobrindo toda a distribuição climática de algas marinhas, combinada com um estudo de campo em 110 pontos, que os autores realizaram na Mauritânia (abaixo o mapa com os resultados).

Presença (verde; escuro quantitativo, claro qualitativo) e ausência (vermelho) de lucinídios em ecossistemas de algas marinhas, baseadas na meta-análise dos autores. Os bivalves estavam presentes em 97% de todos os leitos tropicais, 90% dos leitos subtropicais, e 56% dos prados temperados de algas marinhas. A associação algas marinhas-lucinídios alcança 6 dos 7 continentes, pelo menos 18 gêneros de lucinídios, e 11 de 12 gêneros de algas marinhas.

Para aumentar a confiança dos resultados obtidos pela meta-análise, os autores desenvolveram experimentos em laboratório, observando os efeitos da oxidação de sulfuretos pelo bivalve lucinídio Loripes lacteus na produção da alga marinha Zostera noltii (ambos presentes na montagem da figura abaixo). Os experimentos comprovaram que a presença de Loripes e, em uma extensão menor, de Zostera, diminuíram a presença de sulfuretos no sedimento (mesmo em controles com adição artificial de sulfureto), e a presença conjunta dos organismos aumentou a detecção de oxigênio no meio.

O bivalve Loripes lacteus e a alga marinha Zostera noltii, utilizados pelos autores nos modelos experimentais para testar a hipótese da simbiose de três estágios

A junção dos dados dos autores confirmou a hipótese elaborada inicialmente, de que uma simbiose de três estágios é responsável pela diminuição do estresse de sulfuretos em prados de algas marinhas. Fora isso, esses estudos também se encaixam na problemática ambiental. Ecossistemas costeiros, em particular os prados de algas marinhas, estão em declínio alarmante, levando à perda de biodiversidade. Os esforços de restauração tem se mostrado pouco efetivos, apesar dos custos enormes. Os resultados desta pesquisa indicam que tais esforços de restauração não deviam focar apenas nos estressores ambientais como causas de declínio, mas também deveriam considerar interações ecológicas internas, como a presença e o vigor de relações simbióticas ou mutualísticas, visto que a quebra de sistemas simbióticos pode afetar o funcionamento de ecossistemas inteiros.

 

Observações:

1) Meu sobrenome, “Dörr”, também é holandês (apesar de a família ter escapulido pra Alemanha no caminho). Me pergunto porque eu não tenho um “van der” também. Imaginem que lindo, “Natália van der Dörr”. ¬¬

2) É só eu ver “simbiose” escrita em algum lugar que já saio correndo pra ler. A minha querida Wolbachia deve estar manipulando meu sistema nervoso, aff.

 

Este estudo foi publicado na Science: van der Heide, T. et al. A Three-Stage Symbiosis Forms the Foundation of Seagrass Ecosystems. Science 336, 1432 (2012).

Quando Woody Allen flertou com a Física

Não sei vocês, mas eu sou muito entusiasta do Woody Allen (aliás, sabiam que o nome verdadeiro dele é Allan Stewart Königsberg? totalmente compreensível a escolha do nome artístico, convenhamos). Não sou muito chegada em filmes de comédia (pastelão então, eu durmo!), mas os dele são simplesmente ótimos. Aquele humor meio auto-depreciativo, super irônico e inteligente te faz reconhecer frases de Woody Allen à distância.

Como não achar Woody Allen um senhorzinho simpático?

Não podem imaginar então minha satisfação ao encontrar esse texto dele, “Zero Gravity”, no site da Sociedade Americana de Física. É um texto “antigo”, de 2003, mas eu me deliciei com o flerte dele com diversos conceitos da física e da astronomia. Abaixo eu traduzi livremente parte desse texto. Acho que quem gosta de Woody Allen, quem gosta de física, e quem não gosta de nenhum desses, mas até acha graça de uma comédia, vai achar que vale a pena a leitura ;)

“Foi neste momento que nossa nova secretária, Srta. Lola Kelly, entrou na sala. Agora, no debate acerca de se tudo é feito de partículas ou ondas, Srta Kelly definitivamente é do time das ondas. Você pode perceber que ela é do time das ondas toda vez que ela vai até o bebedouro. Não que ela não tenha boas partículas, mas são suas ondas que a fazem conseguir aquelas joias da Tiffany.  Minha esposa também é mais ondas que partículas, o único detalhe é que as ondas dela aparentemente começaram a ceder um pouco. Ou talvez o problema seja que minha mulher tem muitos quarks. A verdade é que ultimamente ela parece como que se tivesse passado muito perto de um horizonte de um buraco negro, e uma parte dela (talvez toda ela?) tenha sido sugada por ele. Isso deu a ela uma forma meio engraçada, que eu espero que possa ser concertada por fusão a frio. Meu conselho pra qualquer pessoa sempre foi o de evitar buracos negros porque, uma vez dentro deles, é realmente difícil sair e ainda conservar seu ouvido para música. Porém se você por acaso realmente cair dentro de um buraco negro e emergir do outro lado, você provavelmente vai viver toda sua vida uma e outra vez novamente, mas ficará comprimido demais para sair e encontrar garotas.

Então eu me aproximei do campo gravitacional da Srta. Kelly, e pude sentir minhas cordas vibrando. Tudo que eu queria era enrolar meus bósons ao redor dos glúons dela, deslizar através de um buraco de minhoca, e fazer um pouco de tunelamento quântico. Porém, foi neste momento que eu fui rendido pelo princípio da incerteza de Heisenberg. Como eu poderia agir, sem conseguir determinar a exata posição e velocidade dela? E se eu, do nada, causasse uma singularidade? Isso é, uma ruptura devastadora no espaço-tempo? Elas são tão barulhentas… Todo mundo iria olhar para nós, e eu ficaria muito envergonhado em frente à Srta. Kelly.

Ah, mas aquela mulher tinha uma energia escura tão boa! Energia escura, apesar de hipotética, sempre foi um tesão para mim, principalmente se for em uma mulher com sobremordida. Eu comecei a fantasiar que, se eu pudesse ao menos levar ela para dentro de um acelerador de partículas por 5 minutos com uma garrafa de Chateau Lafite! Eu estaria parado ao lado dela, com nossos quanta se aproximando à velocidade da luz, com o núcleo dela colidindo com o meu. Claro que, justamente nesse momento um pedaço de antimatéria caiu no meu olho, e eu tive que arranjar um cotonete para tirar ele. Eu tinha tudo, mas perdi as esperanças quando ela se virou para mim e disse:

“Desculpe, eu estava indo encomendar um café, mas agora parece que não consigo me lembrar da equação de Schrödinger. Não é uma bobice minha? Simplesmente me fugiu da cabeça!”.

“A evolução de ondas de probabilidade”, eu disse, “e se você está encomendando, eu adoraria um muffin inglês com múons e chá.”

“Será um prazer”, ela disse, sorrindo e se encurvando em uma forma de Calabi-Yau. Eu pude sentir minha constante invadir o campo fraco dela quando eu pressionei meus lábios nos neutrinos dela. Aparentemente eu alcancei algum tipo de fissão, porque a próxima coisa que percebi foi que eu estava me levantando do chão com um camundongo no meu olho, do tamanho de uma supernova.

Claro que qualquer texto fica melhor em sua língua original, mas né… esse cara é realmente genial! Aliás, esse texto me lembrou de outro flerte dele com o mundo da ciência, o filme “Wathever Works” (Tudo Pode Dar Certo), que conta a história de um ex-professor de Mecânica Quântica da Universidade de Columbia, Boris Yellnikoff, que virou o professor de xadrez mais insuportável e hipocondríaco do universo (pelo menos do universo dele, em Nova Iorque), e acaba se vendo envolvido com uma jovem garota, obviamente passando pelas mais bizarras confusões. Eu achei bem satisfatório, recomendo!

O querido e rabugento Boris, de Whatever Works

 

A nebulosa “Elmo de Thor”

A nebulosa NGC 2359 conhecida popularmente como “Elmo de Thor”,  teve sua imagem destacada essa semana utilizando o telescópio Isacc Newton, e aproveitando o lançamento do filme “Os Vingadores” dá a sua graça aqui por este blog que também aprecia as coisas bonitas e cósmicas dessa existência. Esta estrutura nebular tem em seu núcleo uma estrela Wolf-Rayet, que são estrelas supermassivas (em torno de 20 massas solares) que perdem sua massa através de violentos ventos solares com velocidades superiores a 2000 km/s. Cercada por uma gigantesca nuvem molecular, se encontra na constelação Canis Major (Cão Maior). Ela recebeu este nome devido a semelhança com o adereço utilizado pelo Deus Nórdico do trovão e já consagrado super-herói Marvel.

Fonte: Isaac Newton Group of Telescopes

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