>Funeral Blues

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Daí que ontem estava com vontade de ler algum livro. Escolhi da minha estante de madeira antiga o “Werther”, do Goethe. A primeira vez que o li tinha 15, 16 anos. A segunda já tinha uns 19 e a última, bem…
A história, já bem conhecida é sobre um jovem apaixonado pela vida e a natureza, O Werther que mais tarde conhece uma jovem, Carlota e se apaixona pela moça. Mas ela já esta comprometida, e mesmo assim o pobre jovem vive dias lindos de esperança e tudo que vem junto com esta. Até que percebe que nada pode fazer. Sabe aquela sensação de impotência? que nada do que a gente disse ou demonstrar adianta? então… O livro termina com o seu suicídio.
Comecei ontem a noite e o terminei ontem mesmo, nao tenho a mínima idéia da hora (de madrugada não gosto de saber que horas são, talvez por saber que outro cansativo dia já se aproxima).
Um filme muito bom que vi esses tempos foi o ultimo do Woody Allen, sobre um físico cheio de manias, que conhece uma garota, muitos anos mais nova e aprende a gostar dela aos poucos… Mas, como nada dura, um dia ela chega perto dele e diz que esta apaixonada por outro. Ele diz algo como: “Eu entendo, entendo perfeitamente. Minha querida, consigo entender a mecânica quântica…”. Ele tenta o suicídio duas vezes.

Geralmente, as mulheres quando cometem o suicídio, o fazem cortando os pulsos (uma maneira bagunçada, mas muito poética, onde o ideal e cortar no sentido das artérias) ou tomando calmantes misturados a uma bebida doce… Os homens são mais brutos e barulhentos, usam do fogo das armas, desfigurando o seu rosto.
Penso que existem coisas muito legais lá fora. Que é incrível viver nessa época, onde estamos visitando de verdade outros planetas e luas. Que estamos no início de um estudo profundo sobre as bases do fênomeno Vida. Que existem bilhões de pessoas aí fora, no meu bairro e cidade…
Muito triste deixar tudo isto para trás…
Acho que quando entendemos a fundo alguma coisa qualquer, desde a vida sexual de termites na Tazmania ou a nucleossíntese de elementos pesados nas estrelas, a mísera compreensão de um micromundo, reflete o que acontece no macro. Daí a crueza dos dias e a dureza das horas tocam mais fundo num loop contínuo uma canção um tanto sombria…

No enterro ao final do filme “Quatro casamentos e um funeral” um personagem lê o poema de W. H. Auden, “Funeral Blues”. Aqui traduzido por Nelson Ascher.

Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.

Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.

Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.

É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.

Obs: se conhece algum amigo especial que esteja pensando nisto, faça o possível para o fazer mudar de idéia.

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