Sobre o crepúsculo, a anáfase e a sala de aula

Um aluno do sexto ano durante o meu estágio obrigatório para encerrar minha licenciatura em Biologia um dia perguntou, “professor, o que é anáfase?” na qual eu respondi “bom, é uma das fases da divisão celular, onde os cromossomos, que são os agrupamentos de nucleotídeos que formam o DNA, apresentam uma determinada característica”, e daí ele disse “ah bom” e eu emendei “mas ainda falta alguns anos para tu estudar isso na escola, então não precisa se preocupar agora” e então perguntei por que ele queria saber, e ele me disse “é que tem uma parte no Crepúsculo (filme) que o Edward e a Bella estão no laboratório ohando o microscópio e daí eles começam a dizer “anáfase” e eu disse “ah sei, eu vi…”

Jovens...

Jovens…

Mas o que eu estou tentando dizer com esse texto? Primeiro que tanto o meu aluno, quanto o Edward Cullen e a Bella Swan estão a perder tempo, um precioso tempo na era de ouro da juventude, decorando nomes e características que não terão uso algum (sei que isso não é um dos melhores argumentos) ou que irão melhorar a vida deles, ou que farão diferença na vida deles, a não ser um dia quando precisarem responder, provavelmente numa prova da escola, do enem, do vestibular ou da faculdade, as perguntas “o que é anáfase”, ou “em qual fase os cromossomos estão blábláblá”. Isso não é educação! Penso que seria mais importante os alunos, e as pessoas terem ciência que existem coisas chamadas cromossomos, que metade deles recebemos do pai e metade da mãe, que eles se dividem, que permutam e que são únicos, e claro que existem diversas fases dessa divisão, diversas estruturas e nomenclaturas, tamanhos e formas, mas que somente quem estuda isso a fundo, como um estudante de ciências biológicas ou afins que deveria saber tais detalhes. Imaginem quanto tempo seria aproveitado. Educação não é fazer que os alunos decorem um monte de nomes (me sinto o capitão óbvio dizendo isso), para irem bem na prova, para passarem de ano, para fazerem o enem ou o vestibular, para fazer a disciplina de genética, para acertar a pergunta da anáfase na prova, e para se formar e nunca mais ver isso. Voltando a esse dia, eu fiz uma pergunta para esse meu aluno: Já prestou atenção nas coisas que tu tens do teu pai, e da tua mãe? de quem veio teus olhos castanhos, teu cabelo escuro e etc…Daí ele ficou a pensar, e eu disse “essas coisas estão nos teus cromossomos, e por enquanto é tudo o que tu precisas saber”. Claro que essa história de aprendizagem ao longo da vida, e a vida escolar como conhecemos poderia ser diferente. O estudante que foi instigado não a decorar, mas sim a se maravilhar com os fenômenos naturais, a compreender os conceitos, e as relações de causa e efeito, poderia virar futuramente um estudante  de ciências. Esse estudante poderia virar um pesquisador, buscando genes que ocorrem na anáfase e poderia descobrir novos mecanismos, consertar defeitos de replicação e divisão mitótica, assim contribuindo para melhor compreensão de um fenômeno vivo, que ocorre nas entranhas celulares, e quem sabe com isso poderia salvar alguma vida, ou milhões. A dele já estaria salva.

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