Ocupar com Ciência

Em tempos de discussões políticas, onde nos encontramos mais interessados, ou pelo menos despertos para a realidade de um mundo construído totalmente dentro de alguma matriz política e ideológica, poderíamos questionar o nosso papel em meio a isso tudo e ainda para os brasileiros, ponderar sobre as últimas movimentações na pasta de Ciência e Tecnologia. Esses dias estava lendo esse artigo do prof. Thomas M. Pollard da Universidade de Yale sobre desenvolver protagonismo político por parte do Biólogos e da importância de defender maiores investimentos e recursos governamentais para a prática da ciência. O artigo ainda discorre sobre ações possíveis, como montar grupos de estudo e sociedades, fazer lobby político junto aos tomadores de decisão, e aprofundar na arena pública as discussões de interesse para o campo. Eu vejo de seguinte forma essa questão: não somente deveria ser prioridade mas um imperativo moral da Biologia essa defesa. Já conversei com diversos colegas que também possuem esse sentimento de que é preciso adentrar mais, debater e tentar influenciar as políticas que dizem respeito a vida (e qual não diz?).

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Desejaria estar aqui? Eu também não, mas deveríamos.

Dentre diversas profissões, a nossa tem uma responsabilidade maior para com a vida na Terra. Somos nós que estudamos as miríades de formas vivas, suas relações e destinos, e tudo isso diz respeito à nós mesmos também. Sobre o que é o humano. A outra motivação seria que, sem recursos públicos (dinheiro) e por conseguinte apoio da população, não seria possível fazer nada disso. Não teríamos como estudar, proteger e tudo o mais, e finalmente, com a degradação ambiental que poderia se seguir com esse descaso, ficaríamos sem nosso objeto de estudo, tornando dispensável a profissão. Pensem por ex. sobre essa questão dos licenciamentos, a quantidade de empresas e biólogos que ficarão sem trabalho se seguirem com esse plano (sem contar os desastrosos efeitos ambientais). Então trata-se de sobrevivência. Não somente da nossa profissão mas da própria vida. Eu sinceramente acho um saco ter de adentrar nessa conversa e nesse meio, mas o tio Ben já dizia, “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”. Preferiria ficar na minha, estudando tranquilamente um montinho de musgo em meio a uma relva úmida, cercado de sons de pássaros que desconheço e sentindo aquele cheiro de terra. Mas também quero que outras pessoas, daqui a muitos anos à frente tenham esse prazer ancestral, de não apenas saber, mas sentir-se uno com a parte viva do planeta, sem prazo de validade. Não importa se estudando como Biólogo, ou somente apreciando como uma pessoa “normal”. Estamos juntos até o final, de um lado ou de outro, seja quem for, e a vida é um fenômeno muito maravilhoso para deixar quem não entende nada dela decidir como ela vai ser.

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Vai deixar que esse cara e seus senhores tomem todas as decisões importantes?

Referência:
http://www.cell.com/cell/fulltext/S0092-8674%2812%2901170-1

O Luciano do “Dragões de Garagem” também escreveu sobre o assunto:

As algas e o prostíbulo

Existe uma infâme rua em Porto Alegre por onde passo todos os dias para ir ao trabalho, conhecida pelo grande número de casas da luz vermelha, e pela vizinhança não muito amigável. É uma das ruas mais velhas, sujas e esquecidas da Capital. Quando a gente passa por ali se sente no outro lado dos trilhos de uma Porto Alegre que não está nos cartões postais. Mas o que chama mais a minha atenção são as paredes tristes e esverdeadas daquela rua. Devido a um fenômeno periódico, que nessa entrada de outono torna-se pronunciado em suas cores, os microorganismos urbanos que ali perduram, colonizam e trocam de cor as paredes daquela velha rua. Penso nas algas, bactérias, fungos, musgos e líquens que ali chegaram como esporos, nasceram e sem os olhos da cidade perceber, atravessaram gerações tanto dos transeuntes quanto das mulheres que fazem ponto ali, indiferentes uns com os outros no correr dos dias e dos relógios. As mulheres ao me ver passar todos os dias ali, já me cumprimentam com um leve balançar de cabeça e até mesmo um “bom dia”. O que me lembra que elas são apenas mulheres tentando sobreviver, assim como as algas em seu trabalho de eras de fotossíntese, e ali, relacionadas estranhamente na trama da existência, uma não faz a mínima ideia da outra. Daqui a dez anos quando eu passar novamente por ali, as mulheres talvez já tenham mudado o seu ponto, envelhecido e talvez já não existam mais, mas suspeito que as algas por ali vão continuar, comendo as bordas do sol, invisíveis e desconhecidas em sua permanência, para os que se aventuram na rua das algas e dos prostíbulos do lado errado dos trilhos de Porto Alegre.

Ecossistemas secretos e urbanos

Ecossistemas secretos e urbanos

Imagem: m.rgbimg.com

 

A borda

“O aumento do conhecimento é como uma esfera dilatando-se no espaço: quanto maior a nossa compreensão, maior o nosso contacto com o desconhecido.”
~Blaise Pascal

Hoje começam as aulas de algumas escolas e universidades ao longo do país, e então me inspirei a escrever e dedicar algumas linhas sobre essa fase da vida onde todos já estiveram, estão ou permanecerão por longos anos.

Para os meus ex-colegas, ex-alunos e amigos que estão nessa caminhada que se encontra na borda entre o que sabemos, o que aprendemos e aquilo que nos é obscuro ainda. Acreditem no poder transformador da educação. Semeie a dúvida razoável, a descrença e deixe crescer essa coisa viva, amebóide e autopoética que é a curiosidade. E acima de tudo apreciem a vista, não foquem no cume da montanha (o fim dos estudos) e sim a caminhada que tu percorre até lá. Estejam em suas salas, no pátio, no corredores e na cantina, e não em outro lugar, e falo de suas mentes alinhadas ao seu estar físico.
Boas andarilhagens nesse caminho…

"Sunstitua o medo do desconhecido por curiosidade"

“Substitua o medo do desconhecido por curiosidade”

Imagem da citação de Danny Gokey

Sobre o crepúsculo, a anáfase e a sala de aula

Um aluno do sexto ano durante o meu estágio obrigatório para encerrar minha licenciatura em Biologia um dia perguntou, “professor, o que é anáfase?” na qual eu respondi “bom, é uma das fases da divisão celular, onde os cromossomos, que são os agrupamentos de nucleotídeos que formam o DNA, apresentam uma determinada característica”, e daí ele disse “ah bom” e eu emendei “mas ainda falta alguns anos para tu estudar isso na escola, então não precisa se preocupar agora” e então perguntei por que ele queria saber, e ele me disse “é que tem uma parte no Crepúsculo (filme) que o Edward e a Bella estão no laboratório ohando o microscópio e daí eles começam a dizer “anáfase” e eu disse “ah sei, eu vi…”

Jovens...

Jovens…

Mas o que eu estou tentando dizer com esse texto? Primeiro que tanto o meu aluno, quanto o Edward Cullen e a Bella Swan estão a perder tempo, um precioso tempo na era de ouro da juventude, decorando nomes e características que não terão uso algum (sei que isso não é um dos melhores argumentos) ou que irão melhorar a vida deles, ou que farão diferença na vida deles, a não ser um dia quando precisarem responder, provavelmente numa prova da escola, do enem, do vestibular ou da faculdade, as perguntas “o que é anáfase”, ou “em qual fase os cromossomos estão blábláblá”. Isso não é educação! Penso que seria mais importante os alunos, e as pessoas terem ciência que existem coisas chamadas cromossomos, que metade deles recebemos do pai e metade da mãe, que eles se dividem, que permutam e que são únicos, e claro que existem diversas fases dessa divisão, diversas estruturas e nomenclaturas, tamanhos e formas, mas que somente quem estuda isso a fundo, como um estudante de ciências biológicas ou afins que deveria saber tais detalhes. Imaginem quanto tempo seria aproveitado. Educação não é fazer que os alunos decorem um monte de nomes (me sinto o capitão óbvio dizendo isso), para irem bem na prova, para passarem de ano, para fazerem o enem ou o vestibular, para fazer a disciplina de genética, para acertar a pergunta da anáfase na prova, e para se formar e nunca mais ver isso. Voltando a esse dia, eu fiz uma pergunta para esse meu aluno: Já prestou atenção nas coisas que tu tens do teu pai, e da tua mãe? de quem veio teus olhos castanhos, teu cabelo escuro e etc…Daí ele ficou a pensar, e eu disse “essas coisas estão nos teus cromossomos, e por enquanto é tudo o que tu precisas saber”. Claro que essa história de aprendizagem ao longo da vida, e a vida escolar como conhecemos poderia ser diferente. O estudante que foi instigado não a decorar, mas sim a se maravilhar com os fenômenos naturais, a compreender os conceitos, e as relações de causa e efeito, poderia virar futuramente um estudante  de ciências. Esse estudante poderia virar um pesquisador, buscando genes que ocorrem na anáfase e poderia descobrir novos mecanismos, consertar defeitos de replicação e divisão mitótica, assim contribuindo para melhor compreensão de um fenômeno vivo, que ocorre nas entranhas celulares, e quem sabe com isso poderia salvar alguma vida, ou milhões. A dele já estaria salva.

Não entre em pânico: 15 passos na Redação Científica

Pois vejam vocês, meus caros, que comecei minha vida de mestranda-com-aulas na verdade não bem com uma aula, mas sim um curso (essa história de eu agora ser do time dos mestrandos eu conto em outro post!). Para aqueles que acham que mestrando só estuda, só vou dizer uma coisa: vocês não sabem de nada! 😀

Anyway, o que eu tenho pra mostrar pra vocês é extremamente mais satisfatório que minhas semi-lamúrias. Se refere ao fato de meu curso ter sido sobre Redação Científica, com um cara que é simplesmente sensacional, o professor Gilson Volpato, da UNESP. Além de pesquisador, ele já escreveu diversos livros sobre Redação Científica, e mantém este site, que contém um monte de dicas, vídeos… um verdadeiro paraíso para aqueles que, como eu, estão se deparando com a necessidade de escrever um projeto, um artigo, até mesmo uma aula… e não quer cair nas mesmices, quer fazer direito (o que significa fazer exatamente diferente do que aprendemos, na maioria das vezes).

Totalmente impossível conseguir falar sobre tudo que o prof. Gilson nos ensinou mas, para dar uma pitada ÚTIL, aí vai o método dos 15 passos na Redação Científica. A parte em negrito foi copiada da aula do professor. O resto, com o teor mais tosco de sempre, fui eu ¬¬, obviamente inspirada pela aula.

Acredite quando digo que isso aqui vai te ajudar de uma maneira deveras absurda: E não estranhe se a ordem das coisas te parecer meio inversa. Ela é mesmo!

1) Escolha a revista: já começou arrebentando a cabeça do vivente né? Nada mais daquela história de sair inventando coisinha e experimento e depois montar uma colcha de retalhos que não entra nem na Revista Brasileira de Telepatotia.

2) Examine a redação de artigos nessa revista, principalmente os itens de estilo e linguagem. Geralmente as revistas melhores (maior fator de impacto) e menos especializadas (tipo Science e Nature) permitem um linguajar mais despreocupado (e despreocupante), com mais gingado e alegria. Revistas mais especializadas costumam ser mais quadradonas.

3) Junte toda a informação necessária em uma pastinha no computador. Pode parecer que não, mas ter toda a informação já reunida facilita deveras o processo de escrita. Assim se evitam aquelas interrupções típicas (ai caramba deixei esses dados no computador da minha sobrinha, e coisas do tipo). Aliás, falando em interrupções, dar uma isolada da tchurma ajuda bastante também. Foco é a palavra!

4) Siga a sequência lógica. Mas essa é a lógica de verdade minha gente! (inspirado no texto How to write backwords, de Magnusson, 1996). Eu montei o esqueminha abaixo pra simplificar. É uma versão praticamente igual à apresentada no curso. Resumindo: comece pelas conclusões. Melhor ainda se for “a conclusão”. Quanto menos, melhor. Quanto mais sintético, melhor! A conclusão vai servir de guia para escrever o restante da história que tu vai contar, ou seja, ela vai ser a DIREÇÃO. Os resultados, os métodos utilizados e a literatura permeando isso serão as EVIDÊNCIAS apresentadas. A discussão vai ser a parte de ARGUMENTAÇÃO em favor da ideia defendida. Nada de ficar “fofocando resultados” de autores diferentes. Já a introdução vai ser a APRESENTAÇÃO de todo o resto. Ou seja, ficar falando da morte da bezerra, quando não tem nenhuma bezerra na história, é totalmente sem sentido! O resumo? Se não estiver fazendo resumo pra congresso, faça o favor de contar brevemente de que o texto completo trata. Nada de copiar frasesinhas de cada tópico do texto. Por fim, a conclusão também vai ser a melhor amiga do título, ela que vai substanciar o que realmente vale a pena colocar como título de tudo! 🙂

Esquema da lógica

5) Siga a outline de cada tópico. Esta outline é a sequência de ideias que tu pretende apresentar em cada tópico. Uma planta baixa usada de guia para a construção de uma casa, digamos 😀

6) Escreva com suas próprias palavras. Quem montou toda a história foi tu mesmo, né não? (ou ao menos é isso que se espera… isso são outros quinhentos, aliás). Então, o que que custa contar do jeito que te der na telha? Ficar copiando dos outros é totalmente desnecessário e rudimentar. Bota esses neurônios pra funcionar!!

7) Retorne à literatura e substancie o texto. Aqui sim entra a hora de melhorar argumentações, aprofundar as ideias, etc. Afinal, ninguém precisa ter toda uma literatura na cabeça 😉

8) Confira o conteúdo de todo o texto. Hora de checar valores, ver se os dados “batem”, se não trocou vírgula de lugar, se os resultados são aqueles mesmo, se as citações são fidedignas…

9) Cheque todos os aspectos de estilo. Aqui entra um montão de sub-itens. Mas não posso deixar eles de fora… vocês já vão entender

9.1 Lógica Argumentativa:

  • Argumente com base lógica;
  • Apresente conclusões teóricas (generalize);
  • Operacionalize os conceitos investigados;
  • Sustente conclusões com bases empíricas sólidas;
  • Baseie-se no suporte estatístico.

9.2 Estilo científico – redação:

  • Use palavras simples;
  • Seja conciso, sintético (desde que não fira o conteúdo!);
  • Use frases curtas ( o ideal é ter uma ideia em cada frase);
  • Seja claro, não permita dupla interpretação;
  • Não repita informações dentro de cada tópico (Introdução e Discussão são mais livres);
  • Evite digressões, mantenha-se no foco;
  • Não diga… demonstre;
  • Tente não incluir adjetivos não objetivos (“pouco”, “muito”…);
  • Use tempos verbais consistentes;
  • Use palavras exatas;
  • Use voz ativa (um salve pra minha vontade adormecida desde sempre! “não, Natália, tem que escrever na terceira pessoa, MI MI MI”. Eba, nunca mais “conclui-se”, “percebeu-se”!!!);
  • Redija de forma argumentativa, utilizando conjunções;
  • Não use jargões de laboratório (“correr” o gel é a mais comum, fala sério!).

10) Repouse o texto por uma semana, 10 dias… dependendo da possibilidade. Claro que um descanso de 30 minutos pode ter pouco do efeito desejado nesse caso hehe.

11) Reavalie criticamente o texto. Agora tu provavelmente não vai saber exatamente cada linha do texto “de cabeça”, então tua capacidade de ver erros vai estar maior. 😉

12) Peça crítica de colegas, preferencialmente pessoas de fora do grupo do artigo. Ah, e de preferência pessoas inteligentes! (palavras do Gilson! hahahah)

13) Faça os ajustes finais.

14) Coloque nas normas da revistaEssa parte é chata demais e não interfere na escrita. Então, deixa pra agora!

15) Submeta imediatamente. Cientista deve ser empreendedor. E empreendedor não fica olhando pra trás. Sendo assim, manda logo!!!

Não sei vocês, mas eu fiquei muito mais animada pra escrever meu vindouro projeto de mestrado, e o que dele vier depois 🙂

E a melhor coisa de tudo isso é que, melhorando nossa escrita, melhoraremos o nível das nossas publicações, e isso vai ajudar a alavancar a pesquisa no Brasil pra algo mais útil. Não útil no sentido maquineísta, mas no sentido de permitir o debate e a troca de experiências com outras instituições e outros setores da sociedade. Fazer ciência de verdade, after all!

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Não precisa compartimentar tanto, mas né…

Micróbios adquiridos: meio planta e tipo bicho!

Monstruosidades incríveis encontramos no reino das coisas vivas, que rastejam, nadam, perambulam e flutuam por este pálido ponto azul…Veja isso, aqui nós temos um singelo (aparentemente)  Protista nomeado de Hatena arenicola (em japonês=
 estranho).

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Ele fica ali, cuidando dos seus próprios negócios, indo com as marés e fazendo sua refeição de outros menores, até que uma destas refeições ele ingere uma alga verde, então notamos algo destoante, um pequeno ponto esverdeado na parte rostral da Hatena. Bom, esse ponto verde é uma alga sobrevivente da digestão, do gênero Nephroselmis que rouba a luz solar e utiliza a energia dos fótons para quebrar compostos e construir novos como a sua matéria orgânica e outros doces bioquímicos, dividindo tais produtos com o seu captor, a Hatena

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Eis mais um exemplo de endossimbiose em ação, organismos diferentes vivendo juntos, onde seus destinos estão intimamente entrelaçados na indiferente, sedutora e inescapável teia  da vida. Mas a música não pará por aqui. Quando a Hatena se divide, para dar origem a novos indivíduos (sua reprodução) um de seus “herdeiros” permanece com a Nephroselmis fotossíntetizante enquanto o outro fica sem sua fábrica verde de energia, e, vejam só, não somente vive muito bem, como desenvolve um aparato de captura de alimento, voltando ao estado heterótrofo (comendo outros), ao contrario do seu irmão que permanece um autótrofo (comendo a luz).

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Assim cada um segue sua vidinha preciosa, a cuidar dos seus próprios negócios, como se nada tivesse acontecido, até que o demônio nietzschiano do eterno retorno instiga a Hatena heterótrofa a comer mais saladas de Nephroselmis...

Referências:

Okamoto, N. & Inouye, I. A secondary symbiosis in progress? Science310, 287 (2005).

http://blogs.scientificamerican.com/lab-rat/2012/01/22/half-plant-half-predator-all-weird/

O Guia do Mochileiro da Biosfera

Não, agora de uma vez que tu não precisa entrar em pânico!

Por que? Explico: um grupo de amigos e mais os dois blogueiros que vos falam, em um lampejo de inspiração, resolveram tentar dar aquela mãozinha esperta, principalmente para os alunos iniciantes do curso de Ciências Biológicas (e afins). Como assim? Bom, você caro amigo que também trilhou ou trilha esta caminhada por vezes meio pedregosa da Biologia, sabe como teria sido extremamente satisfatório ter chegado no curso com uma bagagem de conhecimento um pouco mais pesada na mochila. Sabe aquilo que o professor fala no primeiro dia de aula: “ah galera, isso vocês lembram lá do ensino médio, né?”. E todo mundo resolve concordar, com vergonha de admitir “não faço ideia do que tu tá falando!!”.

Pois bem, nosso grupo de amigos formandos de Biologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (São Leopoldo/RS) resolveu montar um Guia do Mochileiro da Biosfera. Um manual mesmo, o caminho das pedras pra chegar no curso (ou continuar nele) com alguns conhecimentos básicos e de extrema importância para o melhor aproveitamento de toda a enxurrada de informação que vai vir pela frente.

Esse Guia vai ser desenvolvido na forma de um curso dado em sextas e sábados, durante duas semanas, onde vamos injetar uma dose considerável de ânimo, dicas e conhecimentos mega legais pra ajudar vocês!

Vai ter de tudo: informações sobre carreira e possibilidades de futuro, conhecimentos teóricos (desde origem da vida, o que torna um organismo vivo, o que é e como a biodiversidade está distribuída na Terra…), passando por atividades práticas a campo e no laboratório, assim como várias dicas para montar Curriculo Lattes, montar resumo e pôster, divulgação científica, e o que tudo mais der na telha do povo na hora!

Curtam aí os cartazes super lindos que montamos pro curso. Totalmente e absolutamente inspirado na série do Douglas Adams, o Guia do Mochileiro das Galáxias 😉

Esperamos vocês das redondezas, ou de outra galáxia também 😀

 

 

Sagan é pílula de inspiração!

Como uma pessoa consegue escrever um livro inteiro formado por frases de efeito? Esta sem dúvida é, para mim, a característica mais marcante dos textos de nosso querido Carl Sagan. Uma profusão de palavras montadas em um arranjo tão poético e bonito, a ponto que conseguimos ler tal qual embalagem de xampu temas que muitas vezes seriam de difícil compreensão dentro de uma linguagem engessada e “científica” (dentro dos parâmetros considerados normais, para meu desgosto).

Comecei hoje a ler “Broca’s Brain”, publicado no final da década de 70. Recebi este pequeno tesouro como doação da vizinha de SBBr Paula Signorini (de novo, GRAZIE MILLE!), em um formato pequeno, amarelado e maravilhoso. Posso dizer desde já que me sinto uma pessoa privilegiada por ter a chance de ter em mãos tamanha obra de arte. Já fui fisgada nas primeiras páginas, e o decorrer da leitura me fez torcer veementemente para eu caísse em um gap do espaço-tempo, para lê-lo de uma sentada só (infelizmente minha eterna labuta nos trilhos de trem me impediram).

Copio abaixo um trecho que me trouxe arrepios. Volta e meia esses textos do Sagan me confirmam a impressão de que ele foi atemporal, a ponto de escrever, há 33 anos atrás, coisas que hoje nos parecem tão contemporâneas. Por outro lado, também acabamos por ver que algumas discussões continuam exatamente as mesmas…

All inquiries carry with them some element of risk. There is no guarantee that the universe will conform to our predispositions. But we do not see how we can deal with the universe – both the outside and the inside – without studying it. The best way to avoid abuses is for the populace in general to be scientifically literate, to understand the implications of such investigations. In exchange for freedom of inquiry, scientists are obliged to explain their work. If science is considered a closed priesthood, too difficult and arcane for the average person to understand, the dangers of abuse are greater. But if science is a topic of general interest and concern – if both its delights and its social consequences are discussed regularly and competently in the schools, the press, and at the dinner table – we have greatly improved our prospects for learning how the world really is and for improving both it and us. That is an idea, I sometimes fancy, that may be sitting there still, sluggish with formalin, in Broca’s brain.

Espero que isso também traga para vocês, queridos leitores, uma sensação de inspiração profunda para mais esse dia. Science is the poetry of reality 🙂

Enquanto a PCR roda…

Veja bem amigos, estes blogueiros que vos falam são também colegas de laboratório. Acredito que tal informação já seja um tanto suficiente para imaginar possíveis cenas engraçadas.

Pois bem, a noite extremamente gelada de ontem foi regada a PCRs e manejo das adoráveis Drosophila, porém, para não perdermos a alegria de viver, e já que estávamos totalmente #foreveralone (tipo, Unisinos toda debandada), o jeito foi tirar umas fotos completamente inspiradas em Star Wars, Matrix e o Exterminador do Futuro (enquanto a PCR rodava e as moscas curtiam a night).

Pelo menos era assim que a gente estava se achando 😀

War style (atenção para a cara de maloqueiro do Felipe com a touquinha!)

Parabéns, Natália, por conseguir ficar tão tosca numa fotoNão é pra qualquer um 😛

Luz UV (e uma barreira entre tu e ela) deixam uma foto tão satisfatória!

Ah, e só pra ninguém ficar nos xingando, é claro que a gente não estava batendo as pipetas né galera, pelamor! Foi só uma pose ou outra e nada más 😀

A Alga, o Bivalve e a Bactéria

Você aí que achava que a vida das algas marinhas é uma coisa extremamente pacata e sem grandes aventuras, apenas uma eterna dança ao sabor das correntes, só digo isso: seus problemas começaram!

Tjisse van der Heide (que, para minha surpresa, é um homem! eu sou mesmo péssima pra inferir gênero de nomes estrangeiros) e colaboradores, da Universidade de Groningen (Holanda… claro… “van der”, só podia!), publicaram na Science um estudo bem satisfatório de uma relação linda e complexa estabelecida entre as algas marinhas, uma família de bivalves e suas bactérias simbiontes, para sobreviver a uma vida que, de outra forma, seria regada a intoxicação por sulfureto (nada satisfatório).

Devido à ausência de oxigênio em muitos sedimentos marinhos costeiros, uma importante fração da matéria orgânica é decomposta por bactérias que usam o sulfato abundante na água marinha como um receptor de elétrons, ao invés de oxigênio, produzindo sulfureto tóxico como metabólito final. Apesar de as algas trasportarem oxigênio em suas raízes e a rizosfera que rodeia, a produção de sulfureto supera a liberação de oxigênio, resultando em acúmulo de sulfureto, e mortalidade das algas. Leitos de algas marinhas tendem a acumular matéria orgânica, e, portanto, seria esperado que estes leitos iriam construir sulfuretos tóxicos, e, portanto, terem uma produtividade e diversidade limitadas. Entretanto, isto não é o observado, e a razão por detrás da manutenção dos ecossistemas de algas marinhas ainda é um enigma.

O povo de nome estranho que escreveram o paper (só pra não perder a oportunidade: Han Olff, Matthijs van der Geest, Marieke M. van Katwijk e por aí vai…) testaram a hipótese de que uma simbiose de três estágios entre as algas, bivalves lucinídios associados, e suas bactérias simbiontes de brânquias poderia estar contribuindo para reduzir a acumulação cíclica de sulfuretos. Dados paleontológicos já mostravam que os bivalves da família Lucinidae e sua relação endossimbiótica datam do Siluriano, mas que eles passaram por uma extensiva diversificação desde a emergência das algas marinhas, no final do Cretáceo. Um dado desses veio deveras a calhar, digamos 😉

Os lucinídios e suas bactérias habitantes de brânquias tem uma simbiose em que os bivalves transportam sulfureto e oxigênio para suas brânquias, onde as bactérias oxidam estes sulfuretos para produção de açúcar, que promove o crescimento dos dois organismos. Os autores então elaboraram a ideia de que os prados de algas marinhas provinham o hábitat ótimo para estes bivalves e seus simbiontes, por estimular indiretamente a produção de sulfureto através do grande aporte de matéria orgânica, e provendo oxigênio através da liberação radial de oxigênio das raízes. Em troca, os bivalves removeriam os sulfuretos, o que poderia aliviar qualquer estresse causado ao crescimento das algas pela acumulação de sulfuretos enquanto a matéria orgânica fosse degradada.

Suporte indireto foi dado a essa hipótese por uma meta-análise mundial de 84 estudos descrevendo a fauna de leitos de algas marinhas em 83 sítios, cobrindo toda a distribuição climática de algas marinhas, combinada com um estudo de campo em 110 pontos, que os autores realizaram na Mauritânia (abaixo o mapa com os resultados).

Presença (verde; escuro quantitativo, claro qualitativo) e ausência (vermelho) de lucinídios em ecossistemas de algas marinhas, baseadas na meta-análise dos autores. Os bivalves estavam presentes em 97% de todos os leitos tropicais, 90% dos leitos subtropicais, e 56% dos prados temperados de algas marinhas. A associação algas marinhas-lucinídios alcança 6 dos 7 continentes, pelo menos 18 gêneros de lucinídios, e 11 de 12 gêneros de algas marinhas.

Para aumentar a confiança dos resultados obtidos pela meta-análise, os autores desenvolveram experimentos em laboratório, observando os efeitos da oxidação de sulfuretos pelo bivalve lucinídio Loripes lacteus na produção da alga marinha Zostera noltii (ambos presentes na montagem da figura abaixo). Os experimentos comprovaram que a presença de Loripes e, em uma extensão menor, de Zostera, diminuíram a presença de sulfuretos no sedimento (mesmo em controles com adição artificial de sulfureto), e a presença conjunta dos organismos aumentou a detecção de oxigênio no meio.

O bivalve Loripes lacteus e a alga marinha Zostera noltii, utilizados pelos autores nos modelos experimentais para testar a hipótese da simbiose de três estágios

A junção dos dados dos autores confirmou a hipótese elaborada inicialmente, de que uma simbiose de três estágios é responsável pela diminuição do estresse de sulfuretos em prados de algas marinhas. Fora isso, esses estudos também se encaixam na problemática ambiental. Ecossistemas costeiros, em particular os prados de algas marinhas, estão em declínio alarmante, levando à perda de biodiversidade. Os esforços de restauração tem se mostrado pouco efetivos, apesar dos custos enormes. Os resultados desta pesquisa indicam que tais esforços de restauração não deviam focar apenas nos estressores ambientais como causas de declínio, mas também deveriam considerar interações ecológicas internas, como a presença e o vigor de relações simbióticas ou mutualísticas, visto que a quebra de sistemas simbióticos pode afetar o funcionamento de ecossistemas inteiros.

 

Observações:

1) Meu sobrenome, “Dörr”, também é holandês (apesar de a família ter escapulido pra Alemanha no caminho). Me pergunto porque eu não tenho um “van der” também. Imaginem que lindo, “Natália van der Dörr”. ¬¬

2) É só eu ver “simbiose” escrita em algum lugar que já saio correndo pra ler. A minha querida Wolbachia deve estar manipulando meu sistema nervoso, aff.

 

Este estudo foi publicado na Science: van der Heide, T. et al. A Three-Stage Symbiosis Forms the Foundation of Seagrass Ecosystems. Science 336, 1432 (2012).

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