Como o gás natural derrubou as emissões dos EUA. E por que não dá pra confiar demais nele

Plataforma da Cabot Oil and Gas em Springville, PA

A MAIOR revolução energética do século 21 não foi planejada. Ela está acontecendo longe dos centros de pesquisa avançada e mais longe ainda da mesa de negociações de clima das Nações Unidas. Seu palco é um cu-de-mundo chamado Susquehana, um condado de estradas de terra e caipiras tementes a Deus na divisa entre os Estados da Pensilvânia e de Nova York, nos EUA.

Desde 2007, essa região tem sido palco de uma febre de exploração de gás natural, estocado a 800 m abaixo da superfície numa camada de rochas conhecida como folhelho Marcellus, ou Marcellus shale, em inglês. Trata-se de um antigo mar raso que se estendia por um terço de Nova York, metade da Pensilvânia e ia até o atual Ohio, conhecido hoje pelo singelo apelido de “Arábia Saudita do gás”. O Marcellus é uma das formações onde a indústria dos hidrocarbonetos americana tem aplicado uma técnica conhecida como fraturamento hidráulico, ou “fracking”, que permite acessar óleo e gás em formações rochosas não-convencionais.

A técnica foi criada por um texano teimoso chamado George Mitchell, em 1999. Mitchell já sabia que folhelhos continham muito gás, mas ninguém até então sabia como extraí-lo, já que ele fica preso em fendas minúsculas na rocha. Disposto a abrir a fechadura dos folhelhos, Mitchell passou 20 anos testando maneiras de reativar as fendas ricas e gás. Já estava quase falido quando descobriu a fórmula: água, areia e químicos surfactantes injetados a alta pressão em poços horizontais de quilômetros de extensão.

O sucesso do “fracking” foi tão estrondoso e tão rápido que passou longe do radar dos analistas de clima e energia e do IPCC. Em cinco anos, derrubou o preço do gás natural nos EUA de US$ 15 o milhão de BTUs para US$ 2 (no começo deste ano). O país, que preparava o retrofit de vários portos para importar gás liquefeito do Qatar, hoje estuda um novo retrofit desses mesmos portos para exportar gás da Pensilvânia e do Texas a partir de 2014. E tudo isso considerando que Nova York, que abriga a fatia do leão das jazidas do Marcellus, ainda tem uma moratória ao “fracking” em vigor.

Outra maneira de medir o sucesso do fraturamento hidráulico é seu impacto nas emissões dos EUA. O gás barato tem desestimulado as termelétricas a carvão, e o presidente Barack Obama resolveu surfar nesta onda e baixar, no começo do ano, uma regulação da EPA (Agência de Proteção Ambiental) limitando as emissões das usinas a carvão. Aqui entra a genialidade política de Obama, faturando em cima de algo que já estava mais ou menos no script. A participação do carvão na matriz energética caiu de 51% em 2005 para 43% em 2011, e a de gás subiu no mesmo período de 14% para 24% , segundo um relatório da Agência de Informação sobre Energia dos EUA divulgado na semana passada.

Segundo me contou David Victor, professor da Universidade da Califórnia em San Diego e um dos poucos teóricos das relações internacionais que levam o aquecimento global a sério, de 2006 a 2011 as emissões de CO2 dos EUA caíram em 186 milhões de toneladas. Para você ter uma ideia do que isso significa, é como se o Brasil tivesse seguido o receituário do Greenpeace e zerado as emissões na Amazônia. É claro que não foi só mérito do gás: tivemos também uma crisezinha econômica nos últimos anos. Mas o sinal que o “fracking” manda é poderoso, especialmente aos burocratas da Convenção do Clima, que passaram os últimos 20 anos parolando sem conseguir realizar o que os capiaus furadores de poço da Pensilvânia fizeram em 5, seguindo apenas seus bolsos.

O mundo está salvo, então? Podemos ir embora? Mais ou menos. Como toda boa festa, a do gás de folhelho também tem convidados barraqueiros. Nos EUA, eles atendem principalmente por três nomes: Tony Ingraffea, Bob Howarth e Mark Ruffalo. Os dois primeiros são professores da Universidade Cornell. O último, bem, é um cara que fica verde e quebra tudo quando passa raiva.

Ruffalo virou ativista antifracking depois de comprar uma casa nas Catskills, montanhas idílicas a noroeste de Nova York de onde vêm os rios que abastecem a metrópole e que estão no mapa da indústria do gás. Howarth e Ingraffea fizeram uma série de contas e descobriram que as emissões de sistemas de gás natural são maiores que as do carvão, pelo menos nos primeiros 20 anos. Isso porque os poços fraturados passam semanas “vomitando” metano juntamente com água depois da perfuração. O vazamento é pelo menos duas vezes maior do que em poços convencionais, perfurados sem água. Como o metano é muito mais eficiente que o gás carbônico em reter radiação infravermelha (e aquecer a Terra), a multiplicação de poços pode aumentar perigosamente as emissões de metano dos EUA, a ponto de anular os ganhos com a redução de CO2.

Isso não seria um problema no longo prazo, já que o metano tem também uma vida curta na atmosfera. Acontece que os próximos anos serão cruciais para a humanidade, já que as emissões globais teriam de alcançar seu pico em 2020, no máximo. Um tratado internacional contra o CO2 tem chance zero de dar conta dessa janela de oportunidade. Uma das maneiras de ganhar tempo, defendida pelo próprio governo dos EUA, é cortar emissões de fuligem e metano, que juntos respondem por 40% da elevação da temperatura. É difícil ver onde o “fracking” se encaixa nessa redução.

Mesmo que Howarth e Ingraffea estejam errados em seus cálculos, o affair do gás de folhelho traz dois recados importantes para a comunidade internacional: primeiro, a mudança climática não será combatida de cima para baixo sob auspícios da ONU. O gás da Pensilvânia é um trunfo do modelo americano: não faça nada na arena internacional e espere um “fix” tecnológico para o problema. Segundo, é arriscado pôr todos os ovos em uma cesta só: além do risco de emissões de metano, o mesmo “fracking” também está sendo usado para extrair petróleo no Texas e na Dakota do Norte, o que pode também aumentar as emissões totais de CO2 e anular o ganho com a redução no carvão mineral. Ou seja: o mercado não pode ser deixado tão livre quanto o Partido Republicano almeja, se a ideia é produzir algum tipo de bem comum.

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