Ele quer salvar o Ártico (mas precisa combinar com os esquimós)

TODA VEZ que os aldorrebelos da vida xingam o Greenpeace de “ONG holandesa” eu dou uma risadinha por dentro e penso em Kumi Naidoo. O diretor-executivo da organização, uma das duas pessoas que mais mandam nela (a outra, pasmem, é uma carioca), é um negão* sul-africano do tamanho de um urso, dono de uma coleção de batiques e de nenhum barbeador, que foi membro do Congresso Nacional Africano e lutou contra o Apartheid ao lado de Jacob Zuma. É difícil imaginar alguém menos holandês neste mundo, e fácil imaginar o quanto Kumi deve perturbar os brancos de papete do Greenpeace com seu discurso de erradicação da pobreza e inclusão social.

Neste momento, Kumi está numa briga de foice contra a Shell, a multinacional – esta sim, holandesa – que se prepara para furar seu primeiro poço de petróleo no oceano Ártico, numa região do litoral do Alasca que até alguns anos atrás era coberta de gelo marinho a maior parte do ano e não é mais graças ao petróleo que a Shell, entre outras empresas, vende por aí para que eu, você e todos os nossos amigos possamos andar de carro. É o que Millôr Fernandes chamaria de “uma coisa redonda”, e que os cientistas preferem chamar pelo nome mais antipático de retroalimentação positiva: a queima de hidrocarbonetos esquenta o planeta, o que derrete o Ártico, o que abre novas áreas para a exploração de mais hidrocarbonetos, o que esquentará mais o planeta e derreterá mais o Ártico. O Greenpeace está tentando impedir que a Shell se lance em sua aventura polar, queimando o filme da empresa (às vezes de forma bem engraçada) com seus consumidores e acionistas, como se donos de carro tivessem escolha e algum acionista de empresa de petróleo fosse contra a exploração de petróleo.

A ação faz parte de uma campanha maior do Greenpeace para salvar o Ártico, que Kumi lançou em junho durante a Rio +20 (vou te dar uns minutos para se lembrar dessa conferência) numa entrevista coletiva com o dono da Virgin, Richard Branson, e a atriz Lucy Lawless, AKA Xena, a Princesa Guerreira (que aos 50 ainda bate um bolão). O objetivo é mobilizar a opinião pública para transformar o chamado Alto Ártico, a área do oceano glacial ainda coberta por gelo marinho, numa área protegida internacional, livre de pesca, extração de óleo e outras atividades econômicas.

Para quem acha que isso é delírio de hippies, permita-me lembrar que há um precedente: em 1991, um continente inteiro, a Antártida, foi declarado área de proteção ambiental, e todas as atividades econômicas propostas ali, congeladas por 50 anos. No Ártico o buraco é mais embaixo (ou em cima), claro, porque a maior parte da região está sob jurisdição de meia dúzia de países (EUA, Canadá, Rússia, Noruega, Dinamarca), e ninguém, em especial os russos, que dia desses tentaram tomar posse do fundo do mar do Polo Norte, abre mão de sua soberania. Mas a extrema fragilidade do ambiente ártico, seu papel na regulação do clima da Terra, sua fauna carismática (que vai do delicioso bacalhau ao tristonho papagaio-do-mar, do urso polar à beluga) e uma beleza que só quem já teve o privilégio de ir para lá consegue apreender, mais do que justificam a tentativa.

Num momento em que o movimento ambientalista mergulha em seu período de maior irrelevância em 40 anos – tendo salvo as baleias, a Amazônia e contado com uma ajudinha de um tsunami e a incompetência dos engenheiros japoneses para salvar o mundo da energia nuclear –, o Ártico é a penúltima causa na qual grupos de pressão como o Greenpeace podem fazer alguma diferença (a última são os oceanos além de jurisdições nacionais, tema sobre o qual o GP estranhamente não faz escândalo).

O diabo é como Kumi e seus greenpeacers farão isso sem serem acusados, com justiça, de agir como uma “ONG holandesa”. No ano passado, meu amigo colecionador de batiques foi preso com Lawless (“lawless” presa, sacou?) e outros ativistas após tentarem escalar uma plataforma da Cairn Energy, uma empresa escocesa que fazia perfurações exploratórias na Baía de Baffin, entre a Groenlândia e o Canadá. O Greenpeace argumenta, com razão, que vazamentos de óleo naquela região produziriam desastres de grandes proporções, inclusive para o modo de vida tradicional inuíte, já que os 56 mil groenlandeses vivem basicamente daquilo que o mar lhes fornece.

Acontece que os groenlandeses estão babando pelo dinheiro do petróleo, e todos com quem eu conversei que falavam alguma coisa de inglês compartilhavam uma raiva imensa do Greenpeace. Afinal, raciocinam, quem esses caras pensam que são para dizerem que nós precisamos viver de pescar camarão e caçar foca para o resto da vida? Com que direito eles negam às populações do Ártico uma opção de desenvolvimento econômico e não fazem a mesma coisa, digamos, com a Statoil no Mar do Norte?

Fiz essa pergunta a Kumi da última vez que nos encontramos, no Rio. Sua resposta: “nós somos contra qualquer exploração de petróleo”. OK, legal, eu também, mas isso não responde à pergunta. Para ser justo, não é só gente morena que sofre bullying do Greenpeace por causa de petróleo: os brancos de olhos azuis das areias betuminosas do Canadá também apanham. Mas insisto: por que dois pesos e duas medidas com a Groenlândia e o Mar do Norte? Claro, os esquimós, como os brasileiros, podem se beneficiar do dinheiro do petróleo da maneira norueguesa (usando a riqueza para se desenvolver de forma sustentável) ou da maneira venezuelana. Mas a decisão tem de ser deles. Os americanos continuarão dirigindo SUVs mesmo que não saia uma gota de óleo do Ártico (de fato, a maior parte do óleo americano nas próximas décadas sairá dos próprios EUA continentais, durma com este barulho). O Greenpeace sabe disso.

À parte o problema groenlandês, mais ao sul, transformar o Alto Oceano Ártico num santuário parece uma ideia factível, até porque o mundo não precisa do petróleo extra que possa ser descoberto por lá (em parte, graças ao pré-sal, o que pode produzir o efeito curioso de Lula dizer daqui a um tempo que salvou o Ártico). Isso, porém, não vai eliminar a maior ameaça ambiental à região: a mudança climática. Segundo dados do National Snow and Ice Data Center, dos EUA, que acompanha em tempo real a cobertura de gelo marinho, 2012 baterá 2007 como o ano de maior perda de gelo no polo Norte. Nem o negão do Greenpeace pode impedir isso.

PS: Juro que não combinei nada com ele, mas enquanto eu escrevia este post, ontem à noite, Kumi Naidoo escalava a Prirazlomnaya, a primeira plataforma de petróleo do mundo construída especialmente para resistir ao gelo marinho, que a petroleira russa Gazprom instalou no Oceano Ártico, no Mar de Pechora. Leia aqui o blog de Kumi sobre a ação.

 

* Kumi nasceu em Durban e é de família indiana, mas os sul-africanos dividem a si mesmos em “brancos” e “pretos”, e os indianos se colocam na segunda categoria.

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Discussão - 2 comentários

  1. João Marx disse:

    Bem, eu tenho sempre uma pulga atrás da orelha com essas Super ONGs, com ações idealistas e radicais com tudo que fazem.Aparentemente só criam antipatia entre os interesses deles com o dos outros, no caso dos que mais se beneficiariam em seu quadro social, econômico e etc.

  2. O Greenpeace abandonou a tática de comprar ações das empresas para ter poder de voto nas decisões corporativas?

    []s,

    Roberto Takata

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