Os sectários e os do pé virado

FAZ EXATOS DOIS ANOS que eu recebi o primeiro convite do Carlos Hotta para cometer um blog que discutisse meio ambiente no Brasil. Eram tempos interessantes no país: o debate sobre o Código Florestal pegava fogo no Congresso e a eleição presidencial era disputada por uma ambientalista — mas todo mundo sabia que quem iria levar seria sua antítese. Eram também tempos interessantes para mim: saía após seis anos da editoria de Ciência da Folha de S. Paulo para voltar a Brasília, minha savana de origem, justamente para acompanhar mais de perto o debate ambiental.

A combinação não deu certo na época por razões contratuais. Mas os tempos ficaram interessantes mais uma vez, então cá estamos: bem-vindos ao Curupira.

Este blog empresta seu nome da criatura mítica de pés virados que, no imaginário caboclo, funciona como uma espécie de fiscal do Ibama: impõe quotas de caça, proíbe o abate de filhotes e fêmeas prenhes, pune quem desmata além do necessário. O curupira, porém, é mais pedagógico que o Ibama: em vez de uma multa que o infrator jamais pagará, impõe-lhe como castigo a loucura: perder-se ou desaparecer na mata.

Assemelha-se nisso a outro demônio do desenvolvimento sustentável, a sanguinária caipora (do tupi kaa-pora, ou “morador do mato”), cujas histórias, contadas pela minha babá nos já longínquos anos 80, nunca falharam em me fazer pensar duas vezes antes de estilingar um passarinho ou entrar no mato. Cheguei a considerar esta figura medonha para o título do blog, mas lembrei-me de um detalhe: a caipora, como alguns fiscais do Ibama, é corrompível. Basta o cidadão botar um fumo de rolo numa pedra e ela esquece sua “job description” e alivia para o criminoso. Fiquemos, pois, com o curupira.

Escrevo este blog convicto de que alguma coisa se perdeu na discussão sobre meio ambiente na sociedade brasileira. Ao mesmo tempo em que o Código Florestal e a conferência de Copenhague trouxeram a temática para o horário nobre do debate público, culminando numa eleição presidencial, criou-se uma polarização estúpida entre “ambientalistas” e “ruralistas” ou entre “ambientalistas” e “desenvolvimentistas”, como se a defesa do meio ambiente fosse uma questão ideológica ou partidária, como se nela houvesse “dois lados”.

Essa bestagem fez vítimas tanto à esquerda quanto à direita no Brasil. Na esquerda, como o demonstrou a abertura das Olimpíadas de Londres, a defesa do meio ambiente é enxergada como “marinismo”, “oportunismo eleitoral” ou “fantasia”. Quando acaba o argumento, é um “instrumento de dominação dos países ricos, que já desmataram tudo” etc. Coisas que a gente espera da esquerda, que vive mesmo de pregar rótulos nos outros.

Mas a direita, pelo menos neste país, costumava pensar com um tico mais de sofisticação. E virou modinha entre os “intelectuais de direita”, com o perdão do oximoro, atacar a defesa do meio ambiente como sendo um instrumento de dominação do mundo da… esquerda! Assim, falam do “aquecimentismo global” como uma conspiração anticapitalista, sem mencionar entre as fileiras “aquecimentistas” (como nunca se cansou de lembrar meu amigo Rafael Garcia) notórios comunistas como Angela Merkel e Nicolas Sarkozy. Quando acaba o argumento, usam o mesmíssimo tigre de papel da esquerda: os “países ricos” e as “ONGs estrangeiras”. Que preguiça.

Sempre tão orgulhosa de sua independência de pensamento, a direita no Brasil acabou papagaiando o mais tosco fundamentalismo norte-americano, que conseguiu transformar a ciência numa questão de crer ou não crer. É preciso fazer uma pausa para a reflexão e lembrar, como diz o cientista americano Tom Lovejoy, que “conservação” e “conservador” têm a mesma etimologia.

Os ambientalistas exageram? Dimais da conta. Erram sempre que deixam de lado evidências e usam argumentos religiosos. Um exemplo é a maneira irracional como boa parte do movimento ambientalista tratou os transgênicos — demonizando a tecnologia em vez de olhar caso a caso. Outro é a reação também atávica à energia nuclear. Em ambos os casos, o ambientalismo se afasta de quem deveria ser sua maior aliada, a ciência, e aferra a um vago princípio da precaução, cuja aplicação absoluta é impossível.

Mas talvez os ambientalistas sejam, no fim das contas, o setor menos sectário da sociedade. Evidência disso é a coisa mais bonita que já se escreveu sobre o assunto no Brasil:

“Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem comum de uso do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.”

Este é o “caput” do Artigo 225 da Constituição de 88 e será o mantra deste blog. Como o curupira, os constituintes não escolheram “lados”. Tinham objetivos mais altos em mente.

PS: Foi apertar o botão de “publicar” e eu lembrei que o Scienceblogs Brasil já tem uma Caipora. Ou melhor, uma Caapora, dos zoólogos Luciano Moreira Lima, Rafael Marcondes e Guilherme Terra (que vai entrar na minha lista de aptônimos), a quem peço desculpas por um quase-plágio involuntário e por eventuais ofensas à sua entidade mitológica. Vou me lembrar de levar um rolo de fumo na próxima vez que for fazer uma trilha.

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Discussão - 7 comentários

  1. Samir Elian disse:

    Seja muito bem vindo, Cláudio!

  2. Aê, ótima aquisição do Scienceblogs!

    []s,

    Roberto Takata

  3. Luis Brudna disse:

    Se precisar, é só chamar. 🙂

  4. Sibele disse:

    O SBBr cada vez melhor! Sucesso ao Curupira! \o/

  5. Renato Pincelli disse:

    Um excelente pontapé inicial! Parabéns e seja bem-vindo, Claúdio!

  6. […] surrupiado do excelente post de estreia do Curupira, novo vizinho do Science Blogs Brasil. Tags […]

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