#400ppmday

A curva de Keeling, batendo nos 400 ppm (Scripps/UCSD)

A curva de Keeling, batendo nos 400 ppm (Scripps/UCSD)

O AQUECIMENTO GLOBAL, esse fenômeno que só existe na cabeça de fanáticos de esquerda como eu e a Angela Merkel, continua a brindar-nos com novas bizarrices para assistir em tempo real. Nos últimos dez anos, nós já vimos o esfacelamento das plataformas de gelo Larsen-B e Wilkins, o encolhimento do mar congelado no Ártico, o degelo superficial de toda a Groenlândia, a temporada de furacões de 2005, duas secas recorde na Amazônia e a volta do Renan Calheiros várias epidemias de dengue. A nova tragédia nos chega com antecipação: em algum momento do mês que vem, poderemos ver a concentração de gás carbônico na atmosfera bater as 400 partes por milhão (ppm) pela primeira vez em pelo menos 850 mil anos. Para comemorar esse dia especial, proponho uma grande celebração na sede da Convenção do Clima da ONU: o 400 ppm Day. Com webcast para a Casa Branca, o Itamaraty e a sede do PC Chinês.

Saberemos que o CO2 chegou lá quase em tempo real, graças à internet e aos esforços incansáveis de Charles David Keeling, um cientista da Universidade da Califórnia em San Diego, EUA, que dedicou sua vida a medir as concentrações do gás num observatório construído no alto do vulcão Mauna Loa, no Havaí. Keeling começou a fazer suas medições em 1958, em dois momentos: na primavera e no outono do hemisfério Norte. A plotagem dos dados produziu um dos gráficos mais famosos da ciência, a curva de Keeling, reproduzida acima. Ela dá a medida da aceleração sem precedentes na história humana das concentrações de gases-estufa produzidas pela queima de combustíveis fósseis e pelo desmatamento nas últimas décadas. Quando Keeling montou seu observatório, o CO2 estava em 318 ppm. Durante toda a era pré-industrial, até onde os registros confiáveis de química atmosférica vão (ou seja, 850 mil anos atrás), ela jamais ultrapassou 280 ppm. Quando eu comecei a cobrir esse assunto, em 2000, ela estava em 360 ppm. Pouco mais de uma década depois, baterá os 400. O Instituto de Oceanografia Scripps, ao qual pertence o observatório de Mauna Loa, inaugurou até um serviço de atualização da curva em tempo real. Com a morte de Keeling, em 2005, o bastão passou para seu filho, Ralph.

A marca, porém, será temporária: a concentração de CO2 chega ao pico sempre na primavera setentrional por causa da decomposição das folhas que caem no hemisfério Norte (onde está a maior parte das terras emersas) no outono e no inverno, e cai à medida que novas folhas sequestram carbono na atmosfera. Isso dá à curva seu padrão característico em serrote, mas basta olhar para ela para perceber qual é a tendência.

E a tendência, como diria Marco Aurélio Garcia, é top-top. Vamos cair um pouquinho na nossa primavera, para ultrapassar a barreira dos 400 ppm para valer no ano seguinte. E 400 ppm, só para registrar, era o limite inferior de estabilização do CO2 na atmosfera para que o mundo tivesse uma chance de 50% de manter o aquecimento global em “apenas” 2 graus Celsius em relação à era pré-industrial neste século. Como nossos diplomatas resolveram deixar esse assunto para 2020, a chance de estabilizarmos o carbono no limite de 450 ppm (ponto médio entre 400 e 500) é, para dizer de um jeito educado, muito pequena.

O legal do 400 ppm Day é que, para comemorá-lo, você não precisará sair da rotina nem fazer esses sacrifícios bobinhos que o Grinpís e os pandas exigem de você uma vez por ano. As sugestões deste blog para marcar a data:

– Tome um banho bem demorado logo de manhã (se o chuveiro for a gás, tanto melhort) e deixe as luzes acesas.

– Saia com seu carro. Se for flex, abasteça com gasolina. Ah, esqueci: você faz isso (quem é que guenta pagar esse álcool, né?).

– Coma um bifão no almoço e agradeça a São Aldo e a Santa Kátia de Palmas pelo novo Código Florestal, que nos deu comida barata e, er…, sustentável.

Como você viu, são coisas que a gente faz todos os dias que garantem o sucesso do 400 ppm Day. Eu, por boa medida, vou aproveitar e abrir um belo Pinot Noir da Borgonha: a cepa tem tido quebras de safra com o aumento da temperatura, mas justamente por isso o vinho tem ficado cada vez melhor.

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