Brasil, potência antártica em 2018?

Módulo Criosfera-1, instalado por cientistas brasileiros no interior do continente: só o começo? (UFRGS)

Módulo Criosfera-1, instalado por cientistas brasileiros no interior do continente: só o começo? (UFRGS)

TRINTA ANOS DEPOIS da viagem inaugural do Barão de Teffé, o Brasil começa a falar sério sobre a Antártida. Pela primeira vez, um plano de ação para a pesquisa científica no continente é elaborado por cientistas e recebe a bênção da burocracia estatal. Ele está desde quarta-feira em consulta pública no site do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, que o encomendara a um grupo de líderes da pesquisa polar como revisão do Proantar, o Programa Antártico Brasileiro. O plano traça um conjunto de objetivos a serem atingidos nos próximos dez anos em cinco áreas do conhecimento, aponta novos campos de investigação para os quais o Brasil deveria olhar e traz uma visão ambiciosa: tornar o Proantar um programa de excelência internacional até 2018, garantindo ao Brasil o reconhecimento como “um dos líderes nas investigações sobre o papel dos processos polares no hemisfério Sul”.

A relevância de um programa antártico robusto para o Brasil deveria dispensar comentários. Como gosta de dizer o glaciologista Jefferson Simões, da UFRGS, relator do plano de ação, a Antártida controla 50% do clima do país. Tem papel direto, para falar a língua que nossos governantes entendem, no PIB do agronegócio. É chave para a compreensão do efeito das mudanças climáticas no resto do planeta e na América do Sul em particular. Nações emergentes, como a Coreia do Sul e a China, têm também usado seus programas antárticos ao mesmo tempo como indutores e “showcases” de seu desenvolvimento tecnológico. O Brasil, para variar, está atrasado em se lançar candidato a potência científica polar (como em tudo o mais que se refere ao papel estratégico da ciência nas decisões de governo), mas antes tarde do que nunca.

A revisão da parte científica do Proantar havia sido pedida já em 2011 pelo secretário de Políticas de Pesquisa do MCTI, Carlos Nobre, mas o processo foi atropelado, ironicamente, pela tragédia do incêndio na Estação Antártica Comandante Ferraz, em fevereiro de 2012, que matou duas pessoas.

O novo plano incorpora basicamente toda a ciência feita hoje sob o guarda-chuva dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia que investigam a Antártida, um liderado por Simões no Rio Grande do Sul e outro por Yocie Valentim no Rio de Janeiro. Porém, traz uma clivagem fundamental em relação à tônica do Proantar: os projetos de balcão desaparecem. Toda a pesquisa passa a ser organizada em torno de cinco eixos ou programas:

1 – Interações gelo-atmosfera: o papel da criosfera no sistema terrestre e o registro de mudanças ambientais (um jeito elegante de dizer “glaciologia);

2 – Efeitos das Mudanças Climáticas na Biocomplexidade dos Ecossistemas Antárticos e suas Conexões com a América do Sul (um jeito elegante de dizer “biologia”);

3 – Mudanças e Vulnerabilidade Climática no Oceano Austral (um jeito elegante de dizer “oceanografia física”);

4 – O papel da Antártica na evolução e ruptura do Gondwana e na evolução do Atlântico Sul (um jeito elegante de dizer “geologia”);

5 – Dinâmica da alta atmosfera na Antártica, interações com o geoespaço e conexões com a América do Sul (um jeito elegante de dizer “meteorologia”).

Pesquisa induzida por eixos não é exatamente novidade no Proantar: aconteceu em 2002, quando o dinheiro do CNPq desapareceu e o programa foi salvo pelo Ministério do Meio Ambiente, que formou duas redes temáticas; e durante o Ano Polar Internacional, em 2007/2009, no qual 11 linhas de pesquisa foram contempladas com verba. Se o novo plano colar e decolar (e é um grande “se”), essa democracia excessiva que pulverizava verbas escassas em projetos muitas vezes inúteis (ou de qualidade questionável) vai acabar. Demorô.

O plano de ação aponta, ainda, novas áreas de investigação, como lagos subglaciais (tema quentíssimo que o Brasil não tem sequer ferramentas para investigar), micróbios patogênicos (o papel de aves migratórias e pinguins na gestação, por exemplo, de cepas novas de gripe) e psicologia de grupos humanos sob pressão extrema estão entre as indicações. Conexões com o Ártico e formação de professores em ciências antárticas completam a lista de desejos.

A visão delineada no plano, porém, precisa de dois recheios importantes. Primeiro, de “benchmark”: como saberemos se chegamos a potência antártica em 2018? Como medir essa excelência? Depois, falta aquilo que os diplomatas chamam de “meios de implementação”: bufunfa. Quanto será necessário? Em quanto tempo? De onde o dinheiro virá? Essa informação precisa surgir no fim da consulta pública, sob pena de o plano não ser nem ao menos apreciado no Palácio do Planalto.

Por fim, é preciso lembrar que o Proantar não é feito só por cientistas. Metade do programa, e a metade onde está o dinheiro grosso, é de logística, a cargo da Marinha. E a Marinha do Brasil tem um problema fundamental com a Antártida, que é a falta de quadros específicos para o Proantar. Meios operativos são muitas vezes subutilizados por conta da falta de experiência dos militares, que fazem rodízio a cada três anos na região. Operações polares dependem de conhecimento acumulado, algo que não existe na estrutura logística brasileira. Um comandante que não quer arriscar navegar num campo de gelo fino mesmo sabendo que seu navio foi projetado para isso pode pôr uma pesquisa a perder. A Marinha sempre se achou dona do programa, não sem razão: são os militares que garantem o funcionamento das coisas mesmo em tempo de vacas magras para a ciência. A tomada das rédeas pelo MCTI, que ora se ensaia, pode criar conflitos sérios com a Defesa, mas esta é uma briga que precisa acontecer há muito tempo para que as coisas possam avançar num patamar diferente.

Outra oportunidade está nas operações aéreas. Hoje o Brasil usa dois aviões Hércules C-130 para levar passageiros e carga até a ilha Rei George, onde o Chile tem uma base aérea. Se quisesse, a FAB poderia treinar seus pilotos com os chilenos e os argentinos para pousar no gelo, o que daria ao Brasil mobilidade para operar no interior do continente (os cientistas que fazem isso hoje contratam empresas de transporte polar). Isso nunca foi feito, entre outras razões porque a frota é limitada e não pode ficar dedicada ao polo Sul. Mas essa situação pode mudar: os Hércules estão se aposentando, e o avião que os substituirá, o KC-390, está sendo feito pela Embraer. “É nosso sonho”, diz Simões sobre a nova aeronave e a perspectiva de seu uso na Antártida (que de resto seria um belo marketing para a empresa). Só falta combinar com a Defesa.

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