Quem tem pacu tem medo

UM ESPECTRO ronda a Europa: o pacu. O pânico do verão europeu deste ano tem sido esse peixão amazônico, primo mais carnudo e não muito mais saboroso da piranha. Nas últimas semanas, a imprensa europeia tem noticiado, alarmada, que pacus foram encontrados no rio Sena e no canal de Oresund, entre a Dinamarca e a Suécia. Não que ele tenha o apetite por sangue de suas parentas menores, nem o hábito de nadar em bandos. O medo decorre do aparente hábito do bicho de morder testículos.

No Reino Unido, ele foi apelidado de “peixe comedor de testículos”. Na França, banhistas no Sena tem sido advertidos a nadar de roupa (fala sério, quem nada no Sena?). Na Suécia, o alerta é para ninguém nadar pelado (quem nada pelado naquele frio?). O pacu é um peixe de hábitos vegetarianos e insetívoros, portanto ele não ataca seres humanos deliberadamente. Ocorre que seus dentes e mandíbulas são adaptados a quebrar castanhas, que caem das árvores nas matas de igapó. E bagos podem ser confundidos com bagas . E aí já viu.

Quando tomei conhecimento do caso, por obra e graça da impagável Alexandra Moraes, juro que achei que fosse piada ou algum erro de tradução. Afinal, a palavra em inglês para castanhas, “nuts”, é a mesma para culhões. Aí resolvi consultar um especialista: Fernando Meyer Pelicice, da Universidade Federal do Tocantins. Fiquei surpreso com a resposta.

“É real esse lance do pacu”, conta o ecólogo. Segundo ele, incidentes foram registrados em Papua Nova Guiné. Os nossos peixes aparentemente andaram atacando as partes baixas e machucando homens por lá. Ganharam até um episódio do documentário na NatGeo (ou um outro canal desses) “Monstros do Rio”. “Nesse caso identificaram a espécie como Piaractus brachypomus, amazônico”, diz Pelicice.

Os europeus, porém, podem ficar tranquilos, afirma o pesquisador. “Espécies amazônicas não suportam frio. Ou seja, esses peixes não devem suportar o próximo inverno. Por isso imagino que o problema não se sustente, ao menos nos países nórdicos. Deve se considerar também que pacus têm exigências ambientais restritas para reprodução (e.g. alguns migram, precisam de várzeas para os jovens, etc), o que pode atrapalhar a colonização de alguns locais.”

Isso, claro, até algum engraçadinho resolver soltar candirus nos rios europeus.

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Discussão - 3 comentários

  1. Oras bolas.

    []s,

    Roberto Takata
    Pesquisa Visão do Brasileiro sobre Ciência, Sociedade e Tecnologia
    http://genereporter.blogspot.com.br/2013/06/pesquisa-gene-reporter-visao-do.html

  2. Mas seja quem tenha feito isso: por ecoterrorismo ou não – pode ajudar a convencer os zoropeus a adotarem medidas mais efetivas contra o aquecimento global.

    []s,

    Roberto Takata
    Pesquisa Visão do Brasileiro sobre Ciência, Sociedade e Tecnologia
    http://genereporter.blogspot.com.br/2013/06/pesquisa-gene-reporter-visao-do.html

  3. maria disse:

    adorei! essa dentição que parece de gente dá medo, num peixe. mesmo não tendo bagas, é arrepiante. e o bicho pelos rios do mundo, que surreal.

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