O segundo governo Dilma será bom para o meio ambiente

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OS JORNALISTAS DEIXARAM BARATO, mas a fala mais importante do segundo mandato de Dilma Rousseff até agora aconteceu no sábado, dia 11 de abril, na Cidade do Panamá. Durante 23 minutos, Dilma relatou à imprensa seu encontro com o presidente dos EUA, Barack Obama. E abjurou ali de mais um pedaço da essência de seu primeiro mandato: sua estúpida política energética.

Nestes emocionantes cento e poucos dias de governo, Dilma vem, sem vontade e por força das circunstâncias, destruindo uma a uma as horcruxes que abrigaram partes de sua alma no primeiro termo: nomeou para a Fazenda um “tucano” cuja fórmula é o “arrocho” (segundo ela mesma disse a Aécio Neves durante a campanha); mandou para o vinagre direitos “dos trabalhadores”; desistiu de seu projeto de “pacto nacional” pela “reforma política” para botar o PMDB no centro das decisões de governo; enfim, escolha um equívoco qualquer de Dilma 1, se for capaz de enumerá-los, e você o verá sendo negado três vezes por Dilma 2. Melhor para o país.

As declarações da presidente no Panamá sobre mudança climática e cooperação com os EUA na área de energia solar e etanol são um desmentido espetacular da estultície proferida por ela em 2012, às vésperas da conferência Rio +20. Na ocasião, ela escarneceu nas energias renováveis, chamando-as de “fantasia”:

“Ninguém numa conferência dessas também aceita, me desculpem, discutir a fantasia. Ela não tem espaço, a fantasia. Eu não estou falando da utopia, essa daí pode ter, eu estou falando da fantasia. Eu tenho que explicar para as pessoas como é que elas vão comer, como é que elas vão ter acesso à água, como é que elas vão ter acesso à energia. Eu não posso falar: olha é possível só com eólica de iluminar o planeta. Não é. Só com solar, de maneira alguma.”

Após encontrar Obama, governante de um país que teve na “fantasia” solar mais de um terço da nova capacidade energética instalada apenas em 2014, Dilma aparentemente pensou melhor, com a clareza verbal que lhe é peculiar:

“A humanidade só vai poder continuar consumindo energia na quantidade que consome se buscar fontes alternativas que não sejam de fontes não-renováveis, que sejam fontes renováveis. Essa combinação, em qualquer circunstância, se você olhar o século XXI, ela é fundamental.”

Aproveitou, ainda, para justificar a “responsabilidade de liderar” do Brasil no novo acordo do clima com a seca do Sudeste, que um mês antes ela mesma chamara de “coincidência”.

A entrevista coletiva permite vislumbrar um segundo mandato que, se não for de avanço determinado, poderá ser pelo menos de arrefecimento dos retrocessos na área ambiental. Obviamente Dilma Rousseff não trocou de cérebro com Marina Silva, nem mudou suas convicções da noite para o dia: elas seguem ali, no sistema límbico da presidente, no melhor estilo “sovietes e eletricidade”. Acontece que os fatos empurram o Palácio do Planalto no rumo de um esverdeamento de baixo custo político.

Primeiro e mais importante, houve o Petrolão. Com a Petrobras rapada pela ladroagem companheira, processada nos Estados Unidos, rebaixada pelas agências de rating e incapaz de tocar sozinha o pré-sal, a cesta fóssil na qual Dilma 1 havia colocado todos os seus ovos rasgou. Em cima disso, despencou o preço do óleo. E a mesma política que foi capaz de levar ao ar na campanha o anúncio criminoso que acusava Marina de roubar o futuro das criancinhas ao tirar a prioridade do pré-sal diz hoje que “uma das áreas que vai ser objeto de algumas transformações vai ser o que se chama de setor de transporte” e que “cada vez vai haver uma convivência das diferentes formas de energia com o petróleo”. Pode ser a senha para o retorno triunfal dos biocombustíveis, enxotados de Brasília após a descoberta da bacia de Santos.

Depois, houve o Petrolão. O juiz Sérgio Moro, que decerto tem sua foto cheia de dardos pendurada em alguma porta do terceiro andar do Palácio do Planalto, esfriou o tesão da comandanta-em-chefa por fazer grandes hidrelétricas na Amazônia ao botar na cadeia as pessoas que constroem essas hidrelétricas. O procurador Rodrigo Janot e os delatores da Lava-Jato completaram o serviço ao explicitar que o crime político e o crime ambiental são irmãos xipófagos. Como o ajuste fiscal também não deixou muita folga no orçamento para o governo derramar bilhões em buracos e concreto, o ambicioso programa de Dilma de meter uma barragem em cada queda d’água da floresta amazônica possivelmente vai ter de esperar.

Some-se isso à ameaça de racionamento causada pela seca, e de repente você tem um ministro de Minas e Energia marcando leilões de energia fotovoltaica e falando em tirar o ICMS dos painéis solares, e sua superior hierárquica fazendo juras de amor à “fantasia”.

O outro elemento dessa conversão tardia de Dilma em ambientalista está na conferência de Paris. É um velho hábito de políticos em fim de mandato ou em dificuldades fazer acenos à agenda verde para produzir boas notícias. George W. Bush criou a maior reserva marinha do planeta no Pacífico no fim de seu governo; FHC decretou o maior parque nacional do país e assinou a homologação de várias terras indígenas; e Fernando Collor usou a Eco-92 para posar de estadista, assinando as convenções do Clima e da Biodiversidade.

Dilma Rousseff, cujo governo em quase tudo lembra o de Collor – dos índices de crescimento ao Renan Calheiros -, ainda precisará plantar muita árvore para chegar ao desempenho do aliado alagoano na área ambiental. Mas talvez agora tenha se encontrado com a sustentabilidade. É bom andar rápido, porém: Collor, não custa lembrar, foi impichado três meses depois da Eco-92.

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Discussão - 1 comentário

  1. Vânia Luz disse:

    Dilma Rousseff, a grande mentirosa e burra.

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