Le vieux Boná

bona

“PAREM AS MÁQUINAS!” Quando a voz trovejava na redação, seguida de um gordinho barbudo com uma bolsa de lona a tiracolo, geralmente o horário era inconveniente. Fim de tarde, toda a editoria em plena adrenalina de fechamento, e o Bonalume entrava com cara de quem havia acabado de acordar. Vinha entregar ao administrativo do jornal as notas dos trabalhos do mês e passava nas editorias de Ciência e Mundo, que usavam seus préstimos, para jogar conversa fora – ele bem sabia, no pior momento – e para fazer a pergunta clássica: “Tem alguma cascata pra mim esta semana?”

Sempre tinha. Por mais exasperante que fosse lidar com o bon vivant que cagava e andava para os horários dos “escravos” e raramente se dava ao trabalho de entrevistar os pesquisadores quando cobria algum paper científico que não lhe parecesse muito importante (ou sobre o qual ele não tivesse dúvidas), entregar uma “cascata” para Ricardo Bonalume Neto “cometer” era garantia de um texto redondo. Para inveja de todos nós, o Bona aliava a perfeição em suas reportagens à lei do mínimo esforço. Para inveja maior ainda de uma geração de jovens repórteres, conquistara ao longo dos anos o direito de trabalhar de sua casa na Vila Madalena, na companhia das cachorras e dos livros. Não me lembro de outro repórter da Folha até então que tinha essa regalia. Se Romário fosse um jornalista de ciência, seria o Bona.

O Bona, para mim, foi um gosto adquirido. Por muito tempo eu achei antipática a coluna que ele assinava na extinta Revista da Folha: “O cético”. Ali dedicava-se a desancar tudo quanto era óleo de cobra – “energias”, “espiritualidade”, homeopatia e pseudociências em geral. A coluna existia, na obsessão dualística do jornal, para fazer par com a de Paulo Coelho, “O mago”, e foi extinta num ato salomônico quando o parceiro de Raul Seixas deixou de escrever. Mesmo não gostando da coluna, tive de me render a seu autor uma vez, ouvindo uma entrevista dele a uma âncora não particularmente perspicaz num programa de rádio vespertino, na década de 1990. A pobre mulher insistia em defender a astrologia e, num dado momento, perguntou ao Bonalume por que, então, tantos grandes cientistas do passado foram astrólogos. “Cite um”, devolveu o Bona. A dona engasgou e mudou de assunto.

O espírito, digo, cérebro cético do Bona, motivo de minha resistência inicial, acabou sendo uma das maiores influências dele sobre mim (a outra foi me apresentar a obra de Leonard Cohen). As coisas são como elas são, não como gostaríamos que fossem, e se as evidências dizem o oposto da sua crença – bem, problema seu. Isso valia para a ciência, mas também para a política. Nunca concordamos a respeito da última, e o Bona sempre fez piada do meu esquerdismo, me chamando de “melancia”: verde por fora, vermelho por dentro. Em muita coisa ele tinha razão. E, quando não tinha, cabia a citação de Yevgeni Zamyátin que ele mantinha na assinatura de seus e-mails: “Prefiro estar errado do meu próprio jeito a estar certo do jeito dos outros”.

Quando entrei na Folha, em 2000, Bonalume já era uma lenda. Sabíamos de vários de seus feitos profissionais, mas sua vida pessoal era um mistério. De fragmentos de conversas e de leitura de jornal, sei que ele se formou em jornalismo pela ECA em algum momento dos anos 1980 e foi trabalhar na Folha, onde ficou até sua morte, no último dia 23, aos 57 anos. Morou em Washington um período com uma bolsa da Fundação Alfred Friendly, aprendeu a escrever em inglês e virou stringer da revista Nature no Brasil. Cobriu a guerra civil no então Zaire na década de 1990, de onde voltou aterrorizado, não com a matança, mas com a malária. “Bicho escroto!”, costumava dizer sobre o plasmódio. Malária era um de seus assuntos favoritos – daqueles que o faziam até entrevistar o pesquisador.

Foi o primeiro a noticiar, também nos anos 1990, as teorias de um jovem antropólogo da USP chamado Walter Neves sobre características australo-melanésias nos fósseis dos primeiros índios brasileiros. Cobriu a histórica conferência do clima de Kyoto, em 1997, e escreveu um relato impagável sobre os delegados dormindo nos sofás do centro de convenções ao final do encontro. Foi várias vezes à Amazônia e pelo menos uma à Antártida.

Mas o que torna a ausência do Bonalume tão grande para o jornalismo brasileiro, e para o jornalismo científico mais ainda, é sua total ausência de superego. O Bona não fazia reverência a ninguém, fossem professores doutores, generais ou seus superiores hierárquicos no jornal. Nos primeiros casos, levava a sério a máxima do jornalismo de questionar a autoridade (e talvez fosse a única coisa que ele levava a sério). No último, ganhava um passe livre por sua competência.

“O atraso é o preço da qualidade”, pontificava, com meia editoria sobre seus ombros às sete e tanto da noite, enquanto produzia suas análises sobre a invasão do Iraque, em 2003, uma das raras ocasiões neste século em que trabalhou dentro da redação.

Com toda a tensão da cobertura especial do conflito, que envolveu uma equipe enorme de várias editorias e enviados especiais a Bagdá que ninguém sabia se estariam vivos no dia seguinte, Bona ainda arrumava tempo para fazer troça: lançou o “desafio do dia”, que consistia em alguém dizer qualquer palavra aleatoriamente e ele daria um jeito de encaixá-la num texto. Das que eu me lembro, entraram “pochete” (falando de equipamentos dos soldados americanos), “sushi” (sobre o Exército iraquiano) e “fios de ovos” (sobre danos colaterais).

Além de irritar os chefes e de dirigir impropérios contra criaturas inferiores que ousavam escrever sobre temas militares sem saber a diferença entre um alfanje e um sabre, Bona tinha como esporte fazer piada com os (e sobretudo dos) colegas. “Ué, cadê fulano?”, repetia sempre que chegava à redação às 19h, em pleno fechamento, e o editor havia ido embora. “Fulano, pintou o cabelo?!”, gritou certa vez a um contemporâneo seu com tendências metrossexuais na frente de toda a editoria. Distribuía apelidos: chamava a si próprio de “Le vieux Boná”; os jovens de vinte-e-poucos da editoria de Ciência eram os “menudos”; o editor (eu), o “pupilão”; Maurício Tuffani virou “Too Funny”; o Reinaldo Lopes, “Petutinho”; e um redator baixinho, “PP”, ou “pequeno pederasta”.

Num país cada vez mais bunda-mole onde a mentira virou regra e onde as pessoas desaprenderam a rir de si próprias, o velho cético fará falta.

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