O negacionismo “light” do ministro do Meio Ambiente

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PARA NÃO DIZER que o Brasil é uma fábrica incessante de más notícias, na última segunda-feira (4) o ministro do Meio Ambiente deu uma boa nova não só aos brasileiros, mas a toda a humanidade: o combate aquecimento global pode esperar mais um tempo. Quinhentos anos, para ser exato. Até lá, é uma discussão “acadêmica”. Ufa.

O atual titular da pasta que já foi ocupada por Rubens Ricúpero, Marina Silva e José Goldemberg foi entrevistado por uma bancada francamente amistosa no programa Pânico, na Jovem Pan. Lá afirmou que sua prioridade “não é ficar mandando grupo de 20, 30 pessoas viajando o mundo inteiro de executiva e ficando em hotel e comendo por conta do governo para discutir como vai estar o mundo daqui a 500 anos”. Segundo ele, o clima “deve ser tratado no âmbito da academia, pela imprensa, por técnicos”, e o poder público, para ser eficiente, precisa “cuidar de problemas tangíveis”.

Pausa para vocês lerem de novo e descomprimirem.

Esta é a primeira na história que um ministro do Meio Ambiente do Brasil despreza desse tanto a agenda que tem sido um dos pilares da política ambiental brasileira há 20 anos. São declarações tão chocantes que é difícil atribuí-las a mera ignorância. Parecem ser deliberadas, para produzir justamente indignação nos “ambientalistas”, na “esquerda”, nos marxistas-culturais-zoófilos-pedófilos ou quem quer que seja o inimigo imaginário da vez da patota governista. Se eu fosse teórico da conspiração, desses que que leem Olavo de Carvalho, diria que o ministro do Meio Ambiente é um “decoy”, como esses patos de borracha usados por caçadores: o governo o deixa lá, falando barbaridades na imprensa e atraindo toda atenção, enquanto a agenda ambiental de fato é operada pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina, juntamente com seus fiéis escudeiros Valdir Colatto e Nabhan Garcia, mais o Hannibal Lecter, o Bane, o Curinga e o Thanos.

Eu me sinto até meio ridículo em ter de explicar ao ministro que, veja, o aquecimento global é um problema bastante tangível. No próprio dia em que ele dava sua entrevista, São Paulo atravessava seu verão mais quente em mais de 70 anos, com temperaturas máximas 3,4oC superiores à média histórica para o mês e um pico de calor de 35,1oC em janeiro. Todas as capitais do Centro-Sul tiveram calor anormal, com Floripa batendo 40oC – recorde absoluto desde o início das medições – e o Rio com 40,4oC e seu janeiro mais quente desde 1922.

Mas OK, esse documento não prova nada, diria aquele filme do Batman; afinal, é só um ano, né? Desvios da média acontecem o tempo todo por variabilidade natural do clima. Verdade. Mas aí a gente nota que esses desvios estão mais frequentes em várias regiões do país. Por exemplo, olhe os picos de temperatura máxima em Brasília neste gráfico já antiguinho do Instituto Nacional de Meteorologia (que não inclui o novo recorde de 37,3oC batido em 2017, ano sem El Niño):

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Agora veja o número de noites quentes em Brasília (no Brasil as temperaturas mínimas, noturnas, subiram 2oC desde 1960, enquanto as máximas subiram 1oC):

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E as máximas extremas em Palmas:

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E em Manaus:

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Em algumas regiões do país (mas atenção: não em todas), o próprio conceito de “média histórica”, também chamado de “normal climatológica”, mudou: entre 1961 e 1990 fez mais calor do que entre 1931 e 1960. Ou seja, o que era anormal passou a ser normal. Veja, por exemplo, os casos de São Paulo:

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E do Rio de Janeiro (ou seria “Hell de Janeiro”?):

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Claro, tudo isso pode ser apenas coincidência. Mas aí a gente se dá conta de que todas as maiores agências de meteorologia e climatologia do mundo, inclusive a Organização Meteorológica Mundial, divulgaram na última quarta-feira seus dados de temperatura de 2018, mostrando que:

  1. O ano passado foi o quarto mais quente desde o início das medições, em 1880;
  2. Os cinco anos mais quentes de todos os tempos foram os últimos cinco anos;
  3. Dos dez anos mais quentes de todos os tempos, nove ocorreram na última década.

E aí cabem duas perguntas: o Brasil está respondendo a uma tendência global? Os efeitos de um Brasil e de um mundo mais quentes já são nitidamente perceptíveis? A resposta a ambas é “sim”. Se você duvida, veja aqui como evoluíram os prejuízos por eventos climáticos extremos no Brasil apenas entre 2002 e 2012, segundo um estudo publicado em 2015 pelo Grupo de Economia Ambiental da UFRJ, pelo Observatório do Clima e por Oeco:

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Mesmo considerando que uma das causas do aumento do impacto econômico é provavelmente o maior número de pessoas expostas devido a crescimento populacional e (mau) desenvolvimento urbano, o cruzamento dessa tendência com as tendências nacionais e globais de maior variabilidade climática e extremos mais extremos é bastante “tangível”. “Tangível” o suficiente para exigir do poder público ação imediata de adaptação à mudança do clima, em especial nas cidades. Se o ministro gosta tanto de meio ambiente urbano quanto diz, taí um excelente lugar para começar a agir.

A outra metade dessa laranja (mal aê, Flávio) é redução de emissões, o que o Brasil fez mais do que a maioria dos países do mundo ao cortar a taxa de desmatamento na Amazônia entre 2005 e 2012, e o que prometeu continuar fazendo com suas metas no Acordo de Paris.

O titular do Meio Ambiente, no entanto, professando uma versão “light” do negacionismo climático pelo qual seu colega Ernesto Araújo entrou para a infâmia, diz que o Brasil já fez o bastante nesse quesito e vai focar em outros temas: saneamento básico, lixo e inspeção veicular de ônibus e caminhões. Cruciais, certamente, em especial o primeiro. Mas a vida é uma cadela, ministro; priorizar esses assuntos em detrimento de outros da agenda ambiental não significa aumentar a eficiência da gestão, como o senhor apregoa: significa apenas deixar de fazer coisas.

O empossado justificou essa mudança de foco no ministério com outros dois argumentos que merecem exame. O primeiro:

“O Brasil contribui com 2,7% das emissões. A China, os EUA é 25[%], 30[%]. Nós somos 2, Eles são 30 cada um, 25 cada um. São ordens de grandeza completamente diferentes (…) O Brasil não é o patinho feio, tá muito longe de ser o patinho feio. O patinho feio são os países industrializados do primeiro mundo. Que não têm moral para colocar o dedo na cara do brasileiro e dizer ‘eu exijo que vocês façam isso ou aquilo’.”

O segundo:

“Essa agenda de qualidade ambiental urbana é uma situação concreta de ajuda ao combate à mudança climática: o efeito estufa dos lixões, o efeito estufa da falta de saneamento, o efeito estufa da falta de inspeção veicular nos veículos a diesel, tudo isso é contribuição com [o combate à] mudança climática.”

Na verdade, EUA e China contribuem com 13% e 24% das emissões globais, respectivamente. Mesmo com cerca de 3% das emissões do mundo, o Brasil é o sétimo poluidor climático do planeta e, portanto, muitíssimo responsável por deter suas emissões. Para citar apenas um exemplo, o controle ou o descontrole sobre o desmatamento na Amazônia e no cerrado podem ser a diferença entre o mundo cumprir e não cumprir a meta do Acordo de Paris de estabilizar o aquecimento global e, 1,5oC – na improvável hipótese de conseguirmos reduzir de maneira importante o uso dos combustíveis fósseis. Como a meta de 1,5oC requer 45% de corte de emissões globais em 12 anos, nenhum dos países do G20, que respondem por mais de 80% das emissões do planeta, pode deixar de contribuir com o esforço “prafrentemente.” Deitar nos louros das glórias passadas não vai impedir que Santos alague.

É evidente que o Brasil não pode fazer o esforço sozinho, mas ao fechar a secretaria de Mudança Climática do ministério o Novo ministro não ajuda a cobrar os “países industrializados do primeiro mundo”, que é para que servem as conferências do clima (surpresa, ministro: não é pra funcionário público “jantar no Plaza Athenée”, nem “viajar de classe executiva” que existem as COPs).

Vamos ao segundo argumento do ministro: lixo, esgoto e catalisador em ônibus fazem alguma diferença nas nossas emissões? A resposta é “sim”, mas não muito. Real, quase nada.

Vamos aos dados. Segundo o SEEG, o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima (aquela “turma” que fica “tumultuando”, nas palavras do ministro), o Brasil emitiu 2,070 bilhões de toneladas de CO2 equivalente em 2017, cerca de 3,4% do total global. O setor de resíduos, que inclui lixo e esgoto, representa 4% desses 2 bilhões de toneladas, ou algo em torno de 90 milhões de toneladas. Desse total, o lixo responde por 46 milhões de toneladas, e o tratamento de efluentes domésticos, por 21 milhões. Se o chefe do Meio Ambiente tivesse absoluto sucesso em zerar emissões desses dois subsetores, o que é virtualmente impossível, o Brasil ainda emitiria 2,003 bilhão de toneladas. Tem que fazer? Tem. É a coisa mais relevante a fazer? Os números falam sozinhos.

E a inspeção veicular? Faz igualmente pouca diferença no clima (tipo zero diferença), embora seja obviamente importante para a saúde. Ônibus e caminhões responderam em 2017 por 105 milhões de toneladas de CO2 equivalente, praticamente metade das emissões do setor de transportes – por sua vez o principal usuário de combustíveis fósseis no Brasil. Eles emitem um monte de porcarias junto com o gás carbônico (monóxido de carbono, particulados e outros). A inspeção veicular visa atacar não o CO2, mas essas outras porcarias assassinas, por meio da instalação de filtros e catalisadores. Programas de eficiência de motores, como o Rota 2030, fariam diferença real nas emissões do setor de transportes, embora a única solução real seja trocá-los por elétricos e biocombustíveis. Mas – adivinhe? – o Rota 2030 passou sem metas para veículos pesados. O ministro está disposto a comprar a briga com a Anfavea, o lobby mais poderoso de Brasília, e mexer no vespeiro do transporte de cargas? Se sim, aplaudirei de pé e, com a vênia da metáfora, marcharei junto.

Quem emite de verdade verdadeira no Brasil é o agronegócio. Segundo o SEEG, 71% das nossas emissões vêm desse setor, seja diretamente (24% do total nacional), principalmente pelo rebanho bovino, seja indiretamente (46% do total), pelo desmatamento. Todos os outros ministros do Meio Ambiente, sem exceção, de todos os partidos, buscaram atacar esse problema, com maior ou menor grau de sucesso. O atual ocupante do quinto andar do bloco B da Esplanada até agora tem fingido que a conversa não é com ele. Afinal, foi indicado pela ministra da Agricultura e foi diretor da Sociedade Rural Brasileira.

Como qualquer criança sabe, porém, negar o problema não o fará desaparecer. Nem agora, nem em 500 anos

 

Foto do alto: Gilberto Soares/MMA

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Discussão - 2 comentários

  1. Olimpio Alvares disse:

    Excelente o artigo, claro, respaldado com números consistentes, este sim é o jornalismo ambiental que o Brasil precisa. A agenda do controle veicular pode trazer com a inspeção veicular, cerca de 5% de economia de combustível sobre a frota submetida à inspeção, inclusive os automóveis movidos a gasolina. A inspeção veicular e os filtros adaptados nos diesel (como fazem outros países – o Brasil está ficando para trás), podem reduzir a quantidade de carbono negro, maior agente do forçamento climático depois do CO2. O controle do Black Carbon já faz parte dos NDCs de alguns países. O Brasil tem que incluir o BC no seu NDC. Estamos perdendo a oportunidade de reduzir em 15% o consumo de diesel com o golpe que a industria automobilística deu na Nação, ao não incluir já os diesel na agenda de melhoria da eficiência energética. Deprimente, pois outros países já o fizeram. Jogaram a discussão para depois de 2030; isso tem que ser revisto, mas pelo jeito vai ser difícil um Ministro titubeante como esse, ter firmeza para enfrentar os lobos da indústria automobilística.

    • Claudio Angelo disse:

      Obrigado, Olimpio. Essa história do black carbon e de outros poluentes de vida curta é de fato importantíssima. Se não me engano o México tem uma provisão para isso na NDC. Seria uma estrégia de ganha-ganha e poderia ser financiada por um monte de iniciativas internacionais.

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