O negacionismo “light” do ministro do Meio Ambiente

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PARA NÃO DIZER que o Brasil é uma fábrica incessante de más notícias, na última segunda-feira (4) o ministro do Meio Ambiente deu uma boa nova não só aos brasileiros, mas a toda a humanidade: o combate aquecimento global pode esperar mais um tempo. Quinhentos anos, para ser exato. Até lá, é uma discussão “acadêmica”. Ufa.

O atual titular da pasta que já foi ocupada por Rubens Ricúpero, Marina Silva e José Goldemberg foi entrevistado por uma bancada francamente amistosa no programa Pânico, na Jovem Pan. Lá afirmou que sua prioridade “não é ficar mandando grupo de 20, 30 pessoas viajando o mundo inteiro de executiva e ficando em hotel e comendo por conta do governo para discutir como vai estar o mundo daqui a 500 anos”. Segundo ele, o clima “deve ser tratado no âmbito da academia, pela imprensa, por técnicos”, e o poder público, para ser eficiente, precisa “cuidar de problemas tangíveis”.

Pausa para vocês lerem de novo e descomprimirem.

Esta é a primeira na história que um ministro do Meio Ambiente do Brasil despreza desse tanto a agenda que tem sido um dos pilares da política ambiental brasileira há 20 anos. São declarações tão chocantes que é difícil atribuí-las a mera ignorância. Parecem ser deliberadas, para produzir justamente indignação nos “ambientalistas”, na “esquerda”, nos marxistas-culturais-zoófilos-pedófilos ou quem quer que seja o inimigo imaginário da vez da patota governista. Se eu fosse teórico da conspiração, desses que que leem Olavo de Carvalho, diria que o ministro do Meio Ambiente é um “decoy”, como esses patos de borracha usados por caçadores: o governo o deixa lá, falando barbaridades na imprensa e atraindo toda atenção, enquanto a agenda ambiental de fato é operada pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina, juntamente com seus fiéis escudeiros Valdir Colatto e Nabhan Garcia, mais o Hannibal Lecter, o Bane, o Curinga e o Thanos.

Eu me sinto até meio ridículo em ter de explicar ao ministro que, veja, o aquecimento global é um problema bastante tangível. No próprio dia em que ele dava sua entrevista, São Paulo atravessava seu verão mais quente em mais de 70 anos, com temperaturas máximas 3,4oC superiores à média histórica para o mês e um pico de calor de 35,1oC em janeiro. Todas as capitais do Centro-Sul tiveram calor anormal, com Floripa batendo 40oC – recorde absoluto desde o início das medições – e o Rio com 40,4oC e seu janeiro mais quente desde 1922.

Mas OK, esse documento não prova nada, diria aquele filme do Batman; afinal, é só um ano, né? Desvios da média acontecem o tempo todo por variabilidade natural do clima. Verdade. Mas aí a gente nota que esses desvios estão mais frequentes em várias regiões do país. Por exemplo, olhe os picos de temperatura máxima em Brasília neste gráfico já antiguinho do Instituto Nacional de Meteorologia (que não inclui o novo recorde de 37,3oC batido em 2017, ano sem El Niño):

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Agora veja o número de noites quentes em Brasília (no Brasil as temperaturas mínimas, noturnas, subiram 2oC desde 1960, enquanto as máximas subiram 1oC):

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E as máximas extremas em Palmas:

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E em Manaus:

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Em algumas regiões do país (mas atenção: não em todas), o próprio conceito de “média histórica”, também chamado de “normal climatológica”, mudou: entre 1961 e 1990 fez mais calor do que entre 1931 e 1960. Ou seja, o que era anormal passou a ser normal. Veja, por exemplo, os casos de São Paulo:

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E do Rio de Janeiro (ou seria “Hell de Janeiro”?):

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Claro, tudo isso pode ser apenas coincidência. Mas aí a gente se dá conta de que todas as maiores agências de meteorologia e climatologia do mundo, inclusive a Organização Meteorológica Mundial, divulgaram na última quarta-feira seus dados de temperatura de 2018, mostrando que:

  1. O ano passado foi o quarto mais quente desde o início das medições, em 1880;
  2. Os cinco anos mais quentes de todos os tempos foram os últimos cinco anos;
  3. Dos dez anos mais quentes de todos os tempos, nove ocorreram na última década.

E aí cabem duas perguntas: o Brasil está respondendo a uma tendência global? Os efeitos de um Brasil e de um mundo mais quentes já são nitidamente perceptíveis? A resposta a ambas é “sim”. Se você duvida, veja aqui como evoluíram os prejuízos por eventos climáticos extremos no Brasil apenas entre 2002 e 2012, segundo um estudo publicado em 2015 pelo Grupo de Economia Ambiental da UFRJ, pelo Observatório do Clima e por Oeco:

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Mesmo considerando que uma das causas do aumento do impacto econômico é provavelmente o maior número de pessoas expostas devido a crescimento populacional e (mau) desenvolvimento urbano, o cruzamento dessa tendência com as tendências nacionais e globais de maior variabilidade climática e extremos mais extremos é bastante “tangível”. “Tangível” o suficiente para exigir do poder público ação imediata de adaptação à mudança do clima, em especial nas cidades. Se o ministro gosta tanto de meio ambiente urbano quanto diz, taí um excelente lugar para começar a agir.

A outra metade dessa laranja (mal aê, Flávio) é redução de emissões, o que o Brasil fez mais do que a maioria dos países do mundo ao cortar a taxa de desmatamento na Amazônia entre 2005 e 2012, e o que prometeu continuar fazendo com suas metas no Acordo de Paris.

O titular do Meio Ambiente, no entanto, professando uma versão “light” do negacionismo climático pelo qual seu colega Ernesto Araújo entrou para a infâmia, diz que o Brasil já fez o bastante nesse quesito e vai focar em outros temas: saneamento básico, lixo e inspeção veicular de ônibus e caminhões. Cruciais, certamente, em especial o primeiro. Mas a vida é uma cadela, ministro; priorizar esses assuntos em detrimento de outros da agenda ambiental não significa aumentar a eficiência da gestão, como o senhor apregoa: significa apenas deixar de fazer coisas.

O empossado justificou essa mudança de foco no ministério com outros dois argumentos que merecem exame. O primeiro:

“O Brasil contribui com 2,7% das emissões. A China, os EUA é 25[%], 30[%]. Nós somos 2, Eles são 30 cada um, 25 cada um. São ordens de grandeza completamente diferentes (…) O Brasil não é o patinho feio, tá muito longe de ser o patinho feio. O patinho feio são os países industrializados do primeiro mundo. Que não têm moral para colocar o dedo na cara do brasileiro e dizer ‘eu exijo que vocês façam isso ou aquilo’.”

O segundo:

“Essa agenda de qualidade ambiental urbana é uma situação concreta de ajuda ao combate à mudança climática: o efeito estufa dos lixões, o efeito estufa da falta de saneamento, o efeito estufa da falta de inspeção veicular nos veículos a diesel, tudo isso é contribuição com [o combate à] mudança climática.”

Na verdade, EUA e China contribuem com 13% e 24% das emissões globais, respectivamente. Mesmo com cerca de 3% das emissões do mundo, o Brasil é o sétimo poluidor climático do planeta e, portanto, muitíssimo responsável por deter suas emissões. Para citar apenas um exemplo, o controle ou o descontrole sobre o desmatamento na Amazônia e no cerrado podem ser a diferença entre o mundo cumprir e não cumprir a meta do Acordo de Paris de estabilizar o aquecimento global e, 1,5oC – na improvável hipótese de conseguirmos reduzir de maneira importante o uso dos combustíveis fósseis. Como a meta de 1,5oC requer 45% de corte de emissões globais em 12 anos, nenhum dos países do G20, que respondem por mais de 80% das emissões do planeta, pode deixar de contribuir com o esforço “prafrentemente.” Deitar nos louros das glórias passadas não vai impedir que Santos alague.

É evidente que o Brasil não pode fazer o esforço sozinho, mas ao fechar a secretaria de Mudança Climática do ministério o Novo ministro não ajuda a cobrar os “países industrializados do primeiro mundo”, que é para que servem as conferências do clima (surpresa, ministro: não é pra funcionário público “jantar no Plaza Athenée”, nem “viajar de classe executiva” que existem as COPs).

Vamos ao segundo argumento do ministro: lixo, esgoto e catalisador em ônibus fazem alguma diferença nas nossas emissões? A resposta é “sim”, mas não muito. Real, quase nada.

Vamos aos dados. Segundo o SEEG, o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima (aquela “turma” que fica “tumultuando”, nas palavras do ministro), o Brasil emitiu 2,070 bilhões de toneladas de CO2 equivalente em 2017, cerca de 3,4% do total global. O setor de resíduos, que inclui lixo e esgoto, representa 4% desses 2 bilhões de toneladas, ou algo em torno de 90 milhões de toneladas. Desse total, o lixo responde por 46 milhões de toneladas, e o tratamento de efluentes domésticos, por 21 milhões. Se o chefe do Meio Ambiente tivesse absoluto sucesso em zerar emissões desses dois subsetores, o que é virtualmente impossível, o Brasil ainda emitiria 2,003 bilhão de toneladas. Tem que fazer? Tem. É a coisa mais relevante a fazer? Os números falam sozinhos.

E a inspeção veicular? Faz igualmente pouca diferença no clima (tipo zero diferença), embora seja obviamente importante para a saúde. Ônibus e caminhões responderam em 2017 por 105 milhões de toneladas de CO2 equivalente, praticamente metade das emissões do setor de transportes – por sua vez o principal usuário de combustíveis fósseis no Brasil. Eles emitem um monte de porcarias junto com o gás carbônico (monóxido de carbono, particulados e outros). A inspeção veicular visa atacar não o CO2, mas essas outras porcarias assassinas, por meio da instalação de filtros e catalisadores. Programas de eficiência de motores, como o Rota 2030, fariam diferença real nas emissões do setor de transportes, embora a única solução real seja trocá-los por elétricos e biocombustíveis. Mas – adivinhe? – o Rota 2030 passou sem metas para veículos pesados. O ministro está disposto a comprar a briga com a Anfavea, o lobby mais poderoso de Brasília, e mexer no vespeiro do transporte de cargas? Se sim, aplaudirei de pé e, com a vênia da metáfora, marcharei junto.

Quem emite de verdade verdadeira no Brasil é o agronegócio. Segundo o SEEG, 71% das nossas emissões vêm desse setor, seja diretamente (24% do total nacional), principalmente pelo rebanho bovino, seja indiretamente (46% do total), pelo desmatamento. Todos os outros ministros do Meio Ambiente, sem exceção, de todos os partidos, buscaram atacar esse problema, com maior ou menor grau de sucesso. O atual ocupante do quinto andar do bloco B da Esplanada até agora tem fingido que a conversa não é com ele. Afinal, foi indicado pela ministra da Agricultura e foi diretor da Sociedade Rural Brasileira.

Como qualquer criança sabe, porém, negar o problema não o fará desaparecer. Nem agora, nem em 500 anos

 

Foto do alto: Gilberto Soares/MMA

Isso não se faz, Arnesto

Foto: Itamaraty

CENTO E VINTE E DOIS ANOS depois dos estudos de Arrhenius, 80 anos depois de Guy Callendar expor sua tese sobre CO2 e aquecimento da Terra à Royal Society e trinta anos depois da criação do IPCC, ver o chanceler da República Federativa do Brasil chamando o aquecimento global de conspiração marxista desperta em mim aquela sensação “volte dez casas” após um lance infeliz de dados num jogo de tabuleiro. Como cantou Adoniran em seu Samba do Arnesto, fiquei “com uma baita de uma réiva”. Meu primeiro impulso foi tuitar para ele mandando um “puta maluco do caralho”. Mas aí o Pablo Ortellado ia ficar bravo e dizer que a culpa pelo Ernesto Araújo é de progressistas como eu, que não soubemos “engajar” o homem comum, mesmerizados que estávamos pelas nossas cervejas artesanais nos fins de semana depois das visitas à Livraria Cultura (duplo fracasso, já que não evitamos nem Bolsonaro, nem a falência da Cultura). Então, caro Arnesto, não o chamarei de “puta maluco do caralho” – embora desconfie, pela maneira como você usa a adversativa sempre que se toca no assunto, de que alguém próximo a você já tenha arriscado esse diagnóstico.

Direi, em vez disso, que a sua negação da mudança climática é o oposto do fervor nacionalista que você prega. Na real, é uma modinha importada do restolho do pensamento iliberal, que nem aqueles aviões obsoletos que a turma mandava antigamente para os países da África. Como tal, é profundamente antipatriótica. Bear with me.

O negacionismo do clima nunca floresceu de maneira orgânica no Brasil. Isso é coisa de gringo, sempre foi. Naomi Oreskes e Eric Conway, em seu imperdível Merchants of doubt, historiografam a origem do fenômeno. Começou com físicos pagos pela indústria do petróleo e do carvão para espalhar dúvida no público a respeito das evidências cada vez mais sólidas sobre impactos ambientais da ação industrial, como chuva ácida, a camada de ozônio e a mudança do clima, usando um manual de relações-públicas bolado pelo lobby do tabaco nos anos 1950. A imprensa americana, na sua obsessão por equilíbrio, passou duas décadas citando esses ideólogos da indústria como “outro lado” em suas matérias sobre a questão climática. Os negacionistas originais – Fred Seitz e Fred Singer – triunfaram em sua estratégia de abrir um “debate” e criar a impressão de que havia sérias divisões a respeito das causas e dos impactos do aquecimento global na academia. Não há: apenas 3% dos estudos sobre mudança do clima questionam as evidências. Mesmo assim, eles atrasaram por 20 anos o combate internacional à mudança do clima.

Além dos EUA, o negacionismo só é uma questão séria em dois outros países: a Austrália, maior exportador de carvão mineral do planeta, e o Reino Unido, quintal cultural da América e sede de big oils como a BP e a Shell. No resto do mundo trata-se essencialmente de um não-assunto na opinião pública, segundo o estudo Poles apart, da Fundação Reuters, liderado pelo jornalista britânico James Painter.

No Brasil, os combustíveis fósseis até muito recentemente tinham peso muito pequeno na economia. Além disso, sempre foram uma atividade estatal, daí a baixa influência do lobby das empresas privadas no discurso público sobre clima. Por muito tempo, jornalistas brasileiros puderam escrever sobre ciência do clima livremente, sem precisar publicar o “outro lado” de um cientista “cético” – até porque há poucos por aqui, e menos ainda que publicam sobre temas climatológicos. O negacionismo à brasileira vem de outro campo. Literalmente, do campo: da negação do setor rural em associar desmatamento a emissões de carbono e da baixa compreensão do público sobre a ligação entre consumo de carne bovina e poluição climática, como mostrou extenso trabalho da antropóloga dinamarquesa-americana-paulista Myanna Lahsen.

Mesmo no mundo anglo-saxão os negadores da mudança do clima comeram um dobrado no governo Obama, quando a Exxon Mobil parou de financiar organizações como o Heartland Institute, nos EUA, e quando três comitês independentes inocentaram os cientistas do clima do Reino Unido acusados de má conduta acadêmica no chamado “climagate”. Os autointitulados “céticos” amargaram uma derrota que muitos (este ex-criba inclusive) supuseram final em 12 de dezembro de 2015, quando 195 países adotaram o Acordo de Paris. Mas é claro que os rumores sobre a morte desse povo foram exagerados, por conta de um deslocamento no eixo do discurso que começara anos antes, com o movimento Tea Party, e terminaria com o “professor” Olavo de Carvalho, que certamente não está na bibliografia do exame do Rio Branco (mas não quero ficar dando ideia pro chanceler).

O que aconteceu foi que a mudança do clima passou a integrar fortemente a cesta das guerras culturais norte-americanas, juntamente com a teoria da evolução. Após a criação do Tea Party, chocadeira da alt-right, em 2009, negar o aquecimento global e as providências contra ele tornou-se uma espécie de teste de fidelidade da direita: o cabra não entrava no clubinho dos conservadores raiz se não tivesse Jesus no coração, um discurso forte contra imigrantes, contra a saúde universal, contra a ONU e o “globalismo” (opa!) e se não negasse a mudança do clima por três vezes.

Como resultado, iniciativas de controle de emissões do Partido Republicano (pouca gente lembra, mas a primeira proposta de lei de clima nos EUA foi bipartidária, elaborada pelo senador republicano John McCain e pelo democrata Joe Lieberman no ano 2000) foram escanteadas. Republicanos moderados, como próprio McCain e o ex-governador de Massachusetts Mitt Romney, passaram a dosar o discurso pró-clima ou a abjurá-lo tout court temendo perda de apoio.

É nesse contexto, de guerra cultural, que entra o negacionismo do “professor” Olavo, autoexilado nos EUA e incensado pelo nosso chanceler como o segundo “grande responsável pela transformação que o Brasil está vivendo”. Dificilmente o Faraó de Pinheiros teve algum contato com a literatura científica na área de clima; limitou-se a papagaiar o pacote ideológico da direita, que inclui o ceticismo climático, a restauração teocrática, o “antiglobalismo” e outras jenialidades – enfiando uma meia-dúzia de cus e pirocas no meio para levar os mirins do MBL ao delírio. Seus escritos aparentemente tiveram forte influência sobre os “garotos” de Bolsonaro, Carlos e Eduardo (aquele do cabo e do soldado), que em diversas ocasiões exibiram o identificador tribal do negacionismo e fazem a cabeça do pai sobre esse assunto.

Arnesto Araújo bebe da mesma fonte. Numa apresentação feita no Instituto Rio Branco em maio de 2015, ele qualificou a mudança climática como “polêmica” científica (ao lado de “darwinismo x design inteligente” e de “Plutão é planeta?”). Usou como apoio uma série de gráficos que são uma espécie de bingo do negacionismo: o da suposta discrepância entre balões e satélites e modelos de clima (que não existe; todas as bases de dados convergem, como pode ser visto aqui); o do infame “hiato” no aquecimento global desde 1988, que também nunca existiu; o gráfico de sempre mostrando o efeito das ilhas de calor urbanas (que obviamente explica boa parte do calor em Paris e São Paulo, mas não nos cafundós da Amazônia ou no polo Norte); e a sugestão de que a culpa é dos ciclos orbitais (que causaram glaciações e deglaciações, mas que não têm nenhuma relação com o aquecimento atual da Terra, como mostra, entre outros, este estudo europeu).

Com a eleição de Donald Trump, a portinhola do curral dos infernos se abriu e o que era fringe science virou mainstream politics. O negacionismo que operava nas sombras e era descartado por liberais como maluquice ultrapassada (nesse ponto concordo com Pablo Ortellado sobre a soberba das classes esclarecidas) de repente se provou com força suficiente para tirar os EUA do Acordo de Paris quando não havia nenhuma razão econômica para isso. O ato de Trump foi um statement ideológico.

Ao eleger o clima para receber punição exemplar em sua cruzada religiosa-antiglobalista-olaviana, o chanceler da República, de mãos dadas com os rapazes Bolsonaros, arma o cenário para uma saída do Brasil do Acordo de Paris, de direito ou de fato, e também por razões ideológicas – o que é irônico vindo do sujeito que prometeu tirar a ideologia da nossa política externa, mas só aparentemente. É difícil imaginar em qual Universo paralelo o abandono dessa agenda poderia ser de interesse da Pátria Amada.

Para ficar só na parte dos prejuízos: entre 2002 e 2012, extremos climáticos custaram ao Brasil, em média, R$ 270 bilhões. Nossa agricultura irrigada e nossas hidrelétricas dependem de um clima estável, e a série de estudos Brasil 2040, da extinta Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência, mostrou que teremos tudo menos isso antes do meio deste século: alguns reservatórios podem ter quedas de vazão maiores que 50%, toda a região Sul se tornará inviável para a soja e o milho safrinha sumirá do mapa. Não é à toa que a ministra da Agricultura criou um setor na sua pasta para estudar a adaptação do agro brasileiro ao aquecimento da Terra.

Mas tem também o tal do soft power.

Não pretendo ensinar o padre nosso ao vigário, ainda mais um tão firme em sua fé quanto Arnesto Araújo. Mas o Brasil, nos últimos 47 anos, tem derivado reconhecimento internacional – e dinheiro – da agenda ambiental internacional. Foi o embaixador Miguel Ozorio de Almeida quem cunhou o conceito de “poluição da pobreza” em 1972, que até hoje pauta o G77 na ONU. O Brasil, no governo de Fernando Collor (único ex-presidente que compareceu à posse de Arnesto no dia 2), tornou-se berço das convenções de desenvolvimento sustentável das Nações Unidas. Desde então já recebeu bilhões de dólares em cooperação internacional e em investimentos em economia limpa. Criou sistemas de monitoramento de desmatamento e observação da Terra que hoje são utilizados em vários países com florestas tropicais (cooperação sul-sul, mas pode chamar de “influência”). Tornou-se um ator fundamental em qualquer fórum internacional que discuta clima e biodiversidade. Abriu mercados às nossas commodities agrícolas e ao nosso biocombustível. Agora mesmo, como mostrou o jornal O Estado de S.Paulo, há R$ 2,5 bilhões em doações e empréstimos internacionais no limbo porque ninguém sabe quem são os interlocutores do novo governo na área de clima.

Dizer que tudo isso é agenda de ONG, como sugeriu Arnesto em seu discurso de posse, revela uma ignorância sobre a Casa dos Arcos que só pode ser deliberada. Nosso chanceler poderia, por exemplo, tomar um café com o embaixador Everton Vargas, que negociou pelo Brasil todos os grandes acordos ambientais de 1972 a 2007 – e que vive às turras com as ONGs. Mas não vai, já que ele desconvidou Vargas a assumir a subsecretaria que cuida de meio ambiente no Itamaraty.

Transformar o Brasil numa república negacionista do clima, como parece desejar Ernesto Araújo, em nome de uma série de mentiras e teorias conspiratórias importadas da alt-right americana, parece pavimentar a estrada para o inferno. Não apenas o bíblico, mas também o climático: afinal, o Brasil é o sétimo maior emissor de gases de efeito estufa do mundo, e o descontrole sobre nossas emissões arruinaria qualquer chance da humanidade de atingir a meta do Acordo de Paris de estabilizar o aquecimento da Terra abaixo de 2oC.

Isso não se faz, Arnesto.

 

 

Insensibilidade climática

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Leandro Narloch mandou mal.

O guru do pensamento politicamente incorreto virou best-seller desmontando “mitos” sobre história, política e comportamento. É bonitinho. Às vezes acerta ou, no mínimo, provoca as pessoas a questionar verdades estabelecidas pouco apoiadas em evidências. Só que às vezes ele mesmo se afasta das evidências para forçar um argumento ou dez. E aí dá ruim. Sua última coluna no site da Folha é um exemplo: uma diatribe antiambientalista que escorrega em fatos e produz – para sermos politicamente corretos – um samba do afrodescendente com problemas psiquiátricos.

Narloch tenta argumentar que ambientalistas são obcecados com o Apocalipse, mas que esse Apocalipse nunca chega, mas que mesmo assim eles continuam insistindo no Apocalipse porque isso vende livro e dá dinheiro para ONGs.

Nada de novo aqui. Frequentemente o ambientalismo é criticado por fazer previsões catastrofistas que não se realizam, mas frequentemente elas não se realizam precisamente por mudanças de comportamento induzidas pelos ambientalistas. Doh. É evidente que ambientalistas exageram e cometem equívocos de vez em quando: trata-se, afinal, de um empreendimento humano. Destacá-los por isso, porém, é preconceito. E visões pré-concebidas costumam estar erradas; Narloch deveria saber disso melhor do que ninguém.

Um exemplo: o colunista critica Rachel Carson, a fundadora do ambientalismo moderno, por ter “apostado” em seu livro Silent Spring (1962) que o DDT e os pesticidas provocariam “extinção de pelicanos na costa Oeste americana”. Na real, não há nenhuma menção a pelicanos no livro de Carson, que tampouco faz qualquer “aposta” – apenas colige dados científicos da época. Mas o banimento do DDT, que ocorreu cinco anos depois de sua publicação, possivelmente permitiu o retorno de pelicanos que estavam quase extintos na Louisiana, na costa Leste.

Especificamente, Narloch cita três fins do mundo que não chegaram: o armageddon das abelhas, que teria sido revertido; a seca no Sudeste, que teria acabado mesmo sem ninguém reflorestar a Amazônia; e o aquecimento global, que não seria tão grave assim.

Sobre este último, diz o nosso politicamente incorreto guru:

“E um novo estudo, publicado em janeiro pela “Nature”, revisou para baixo a sensibilidade climática (a variação do clima de acordo com a variação da emissão de carbono e outros fatores). Segundo os pesquisadores da Universidade de Exeter e do Centro de Ecologia e Hidrologia do Reino Unido, se a concentração de CO2 na atmosfera dobrar, o planeta vai esquentar no máximo 2,8°C, e não 4,5°C, como o IPCC previa.”

Há um erro conceitual crasso nessa conclusão. Demanda uma explicação longa, mas não vá embora.

O estudo citado tem como primeiro autor Peter Cox, hoje na Universidade de Exeter. Cox ficou famoso no começo do século por formular a hipótese de que a Amazônia sofreria mortandade em massa num cenário de aquecimento global descontrolado. Não é exatamente um cético do clima.

Como Narloch aponta, o artigo de Cox trata de um valor chamado “sensibilidade climática em equilíbrio”. É uma estimativa de quanto o planeta aqueceria caso o nível de CO2 na atmosfera duplicasse instantaneamente. É um componente fundamental dos modelos computacionais de clima.

A sensibilidade climática foi estimada pela primeira vez em 1896 pelo sueco Svante Arrhenius (aquele mesmo, dos ácidos e das bases). Ele previu um aumento de 5oC a 6oC com o CO2 duplicado na atmosfera. Em 1975, o primeiro modelo de clima em computador chegou a um número bem menor: 2,4oC.

Por uma série de problemas que têm a ver com, por exemplo, a representação de nuvens e aerossóis, os modelos têm dificuldade em “resolver” esse parâmetro, e os números têm patinado há 40 anos entre 2oC e 5oC, mais ou menos. Cada um dos cerca de 20 modelos globais usados hoje em dia pelo IPCC, o painel do clima da ONU, tem uma estimativa diferente de sensibilidade climática. Alguns “enxergam” a Terra mais resiliente ao aumento dos gases-estufa; outros, mais sensível. Na soma de todos os resultados, o IPCC considerou, em seu relatório mais recente, o AR5, que a sensibilidade climática em equilíbrio varia entre 1,5oC e 4,5oC, com uma melhor estimativa de 3,2oC.

Cox e seus colegas – e, de resto, todos os modeleiros de clima do mundo – vêm tentando reduzir essa incerteza. Seu trabalho de janeiro aponta um caminho diferente para fazer a estimativa, e dá como resultado uma faixa de 2,2oC a 3,4oC, com uma melhor estimativa de 2,8oC. Descarta as pontas extremas da faixa de possibilidades do AR5. No entanto, sua melhor estimativa é muito parecida com os 2,9oC publicados pelo IPCC em seu quarto relatório, de 2007, para uma concentração de CO2 na atmosfera de 550 partes por milhão (o dobro da máxima pré-industrial).

“Isso não quer dizer nunca que o planeta vai esquentar menos ou que está esquentando menos agora. As medidas mostram que os modelos estão acertando razoavelmente as previsões dos últimos cem anos”, diz Paulo Artaxo, do Instituto de Física da USP, membro do IPCC. Se você quiser saber quão bem os modelos vêm prevendo as temperaturas, assista a este vídeo sensacional do Skeptical Science.

O problema é que Narloch confunde sensibilidade climática com projeção de aquecimento. E, como diz Zeca Pagodinho, é igual, mas é diferente.

A projeção de aumento de temperatura depende de quanto CO2 lançarmos na atmosfera nas próximas décadas – pode ser menos ou mais do que o dobro do que havia antes da era industrial. O IPCC traça quatro cenários de aumento de temperatura em seu último relatório: no melhor, o chamado RCP 2.6, o aumento médio no fim do século em relação à média observada entre 1986 e 2005 será de 1oC; no pior, o chamado RCP 8.5, o aumento médio é de 3,7oC em relação à mesma média. Elevações maiores que 6oC são consideradas muito improváveis, mas não foram descartadas.

Portanto, não, o IPCC não “previu” um aquecimento global de 4,5oC que foi repentinamente desmentido por um único paper.

Eu também acho uma merda o IPCC ser tão confuso em relatórios que são chamados de “Sumários para Formuladores de Políticas Públicas” (e que portanto deveriam ser compreensíveis para qualquer cidadão com segundo grau completo). E eu também já confundi sensibilidade climática com projeção de aquecimento dezenas de vezes, e de maneiras vergonhosas. Mas a vida é dura mesmo: se Leandro Narloch quiser fazer disso um cavalo de batalha contra o ambientalismo, vai precisar estudar mais.

Le vieux Boná

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“PAREM AS MÁQUINAS!” Quando a voz trovejava na redação, seguida de um gordinho barbudo com uma bolsa de lona a tiracolo, geralmente o horário era inconveniente. Fim de tarde, toda a editoria em plena adrenalina de fechamento, e o Bonalume entrava com cara de quem havia acabado de acordar. Vinha entregar ao administrativo do jornal as notas dos trabalhos do mês e passava nas editorias de Ciência e Mundo, que usavam seus préstimos, para jogar conversa fora – ele bem sabia, no pior momento – e para fazer a pergunta clássica: “Tem alguma cascata pra mim esta semana?”

Sempre tinha. Por mais exasperante que fosse lidar com o bon vivant que cagava e andava para os horários dos “escravos” e raramente se dava ao trabalho de entrevistar os pesquisadores quando cobria algum paper científico que não lhe parecesse muito importante (ou sobre o qual ele não tivesse dúvidas), entregar uma “cascata” para Ricardo Bonalume Neto “cometer” era garantia de um texto redondo. Para inveja de todos nós, o Bona aliava a perfeição em suas reportagens à lei do mínimo esforço. Para inveja maior ainda de uma geração de jovens repórteres, conquistara ao longo dos anos o direito de trabalhar de sua casa na Vila Madalena, na companhia das cachorras e dos livros. Não me lembro de outro repórter da Folha até então que tinha essa regalia. Se Romário fosse um jornalista de ciência, seria o Bona.

O Bona, para mim, foi um gosto adquirido. Por muito tempo eu achei antipática a coluna que ele assinava na extinta Revista da Folha: “O cético”. Ali dedicava-se a desancar tudo quanto era óleo de cobra – “energias”, “espiritualidade”, homeopatia e pseudociências em geral. A coluna existia, na obsessão dualística do jornal, para fazer par com a de Paulo Coelho, “O mago”, e foi extinta num ato salomônico quando o parceiro de Raul Seixas deixou de escrever. Mesmo não gostando da coluna, tive de me render a seu autor uma vez, ouvindo uma entrevista dele a uma âncora não particularmente perspicaz num programa de rádio vespertino, na década de 1990. A pobre mulher insistia em defender a astrologia e, num dado momento, perguntou ao Bonalume por que, então, tantos grandes cientistas do passado foram astrólogos. “Cite um”, devolveu o Bona. A dona engasgou e mudou de assunto.

O espírito, digo, cérebro cético do Bona, motivo de minha resistência inicial, acabou sendo uma das maiores influências dele sobre mim (a outra foi me apresentar a obra de Leonard Cohen). As coisas são como elas são, não como gostaríamos que fossem, e se as evidências dizem o oposto da sua crença – bem, problema seu. Isso valia para a ciência, mas também para a política. Nunca concordamos a respeito da última, e o Bona sempre fez piada do meu esquerdismo, me chamando de “melancia”: verde por fora, vermelho por dentro. Em muita coisa ele tinha razão. E, quando não tinha, cabia a citação de Yevgeni Zamyátin que ele mantinha na assinatura de seus e-mails: “Prefiro estar errado do meu próprio jeito a estar certo do jeito dos outros”.

Quando entrei na Folha, em 2000, Bonalume já era uma lenda. Sabíamos de vários de seus feitos profissionais, mas sua vida pessoal era um mistério. De fragmentos de conversas e de leitura de jornal, sei que ele se formou em jornalismo pela ECA em algum momento dos anos 1980 e foi trabalhar na Folha, onde ficou até sua morte, no último dia 23, aos 57 anos. Morou em Washington um período com uma bolsa da Fundação Alfred Friendly, aprendeu a escrever em inglês e virou stringer da revista Nature no Brasil. Cobriu a guerra civil no então Zaire na década de 1990, de onde voltou aterrorizado, não com a matança, mas com a malária. “Bicho escroto!”, costumava dizer sobre o plasmódio. Malária era um de seus assuntos favoritos – daqueles que o faziam até entrevistar o pesquisador.

Foi o primeiro a noticiar, também nos anos 1990, as teorias de um jovem antropólogo da USP chamado Walter Neves sobre características australo-melanésias nos fósseis dos primeiros índios brasileiros. Cobriu a histórica conferência do clima de Kyoto, em 1997, e escreveu um relato impagável sobre os delegados dormindo nos sofás do centro de convenções ao final do encontro. Foi várias vezes à Amazônia e pelo menos uma à Antártida.

Mas o que torna a ausência do Bonalume tão grande para o jornalismo brasileiro, e para o jornalismo científico mais ainda, é sua total ausência de superego. O Bona não fazia reverência a ninguém, fossem professores doutores, generais ou seus superiores hierárquicos no jornal. Nos primeiros casos, levava a sério a máxima do jornalismo de questionar a autoridade (e talvez fosse a única coisa que ele levava a sério). No último, ganhava um passe livre por sua competência.

“O atraso é o preço da qualidade”, pontificava, com meia editoria sobre seus ombros às sete e tanto da noite, enquanto produzia suas análises sobre a invasão do Iraque, em 2003, uma das raras ocasiões neste século em que trabalhou dentro da redação.

Com toda a tensão da cobertura especial do conflito, que envolveu uma equipe enorme de várias editorias e enviados especiais a Bagdá que ninguém sabia se estariam vivos no dia seguinte, Bona ainda arrumava tempo para fazer troça: lançou o “desafio do dia”, que consistia em alguém dizer qualquer palavra aleatoriamente e ele daria um jeito de encaixá-la num texto. Das que eu me lembro, entraram “pochete” (falando de equipamentos dos soldados americanos), “sushi” (sobre o Exército iraquiano) e “fios de ovos” (sobre danos colaterais).

Além de irritar os chefes e de dirigir impropérios contra criaturas inferiores que ousavam escrever sobre temas militares sem saber a diferença entre um alfanje e um sabre, Bona tinha como esporte fazer piada com os (e sobretudo dos) colegas. “Ué, cadê fulano?”, repetia sempre que chegava à redação às 19h, em pleno fechamento, e o editor havia ido embora. “Fulano, pintou o cabelo?!”, gritou certa vez a um contemporâneo seu com tendências metrossexuais na frente de toda a editoria. Distribuía apelidos: chamava a si próprio de “Le vieux Boná”; os jovens de vinte-e-poucos da editoria de Ciência eram os “menudos”; o editor (eu), o “pupilão”; Maurício Tuffani virou “Too Funny”; o Reinaldo Lopes, “Petutinho”; e um redator baixinho, “PP”, ou “pequeno pederasta”.

Num país cada vez mais bunda-mole onde a mentira virou regra e onde as pessoas desaprenderam a rir de si próprias, o velho cético fará falta.

Maurício Lopes, um ruralista chique

larryhagman

 

CONHECI MAURÍCIO LOPES EM 2012, enquanto preparava uma reportagem sobre a crise do etanol brasileiro e formas de sair dela. O recém-assumido presidente da Embrapa me recebeu em seu gabinete para uma conversa longa. Saí encantado: a principal instituição de pesquisa aplicada do Brasil tinha um cientista com C maiúsculo em sua chefia. Um pesquisador que estava disposto a transformar a maneira como a instituição fazia inovação tecnológica, gerando não apenas produtos e dados, mas também cenários e inteligência. No governo Dilma Rousseff, o mais obscurantista e anticiência da Nova República (claro, eu ainda não sabia o que viria pela frente em 2016), ter aquele homem naquele cargo era mais do que um alívio; era um sinal de que o Brasil tinha jeito.

Obviamente não tem. Brasília parece exercer um efeito de Midas reverso sobre as pessoas, transformando o mais revolucionário e promissor gestor público num paladino do status quo. O Maurício Lopes que emergiu neste domingo (11) num artigo de opinião no Correio Braziliense parece estar à beira disso. No lugar do raciocínio baseado em evidências que caracterizou a sólida trajetória acadêmica do presidente da Embrapa, o artigo, intitulado “Fatos e mitos sobre agricultura e meio ambiente”, esbanja justamente aquilo que se propõe a denunciar: “desinformação, análises rasas e preconceito”.

O chefe da mais respeitada instituição de pesquisa agropecuária tropical do planeta é a voz mais recente a engrossar o coro do “agropop”. Trata-se de uma linha de discurso (ou “narrativa”, para usar o clichê da vez) segundo a qual o Brasil é o país mais sustentável do planeta, tem a agricultura mais produtiva e mais conservacionista da Via Láctea e qualquer crítica a essas virtudes é “desinformação, análise rasa e preconceito” – quando não uma defesa mal-disfarçada de interesses de nossos competidores internacionais.

Entre os principais ideólogos do “agropop” estão Evaristo de Miranda, subordinado formal de Maurício Lopes, que pilota a Embrapa Monitoramento por satélite, e o ex-diretor da BRF Marcos Jank. Miranda caiu nas graças da bancada ruralista durante o debate do Código Florestal no Congresso, quando produziu um cálculo amplamente contestado segundo o qual a legislação ambiental inviabilizava a expansão do agronegócio ao retirar terras de produção. Desde então, semeia estatísticas parciais sobre as lindezas do agro brasileiro, municiando autoridades como o ministro da Agricultura, Blairo Maggi.

A escola de pensamento dessa patota postula que o único problema do agronegócio brasileiro é de comunicação. O Brasil, raciocinam, divulga mal todo o esforço que faz pelo meio ambiente, e como resultado vira presa fácil de “desinformados” (o sujeito oculto da frase são ONGs ambientalistas). Fazia falta nesse time alguém que não seja obviamente enviesado, caso de Maggi (um fazendeiro) e Jank (um alto-executivo da agroindústria), e que tenha boa reputação no mundo acadêmico. Maurício Lopes, com seu Lattes inatacável, traz a pátina chique de que o agropop precisava.

Em seu artigo, o presidente da Embrapa começa enunciando uma verdade: toda criança brasileira deveria aprender na escola que o Brasil ocupa no mundo o lugar duplo (e não necessariamente conflitante, acrescento) de país megadiverso e grande produtor de alimentos. É preciso, sem dúvida, ampliar a compreensão dos alunos sobre o papel do país na segurança alimentar e ambiental futura da humanidade.

Só que a partir daí o texto vai ladeira abaixo. Segundo Lopes, “há crescente disseminação de pessimismo e mitos, que inflam os problemas e desqualificam os avanços que o país alcançou na agricultura e na gestão dos seus recursos naturais”. Incrivelmente, ele mesmo dissemina na sequência não um, mais dois mitos sobre o agronegócio e o meio ambiente:

“Todo brasileiro precisa saber que nosso país foi o único capaz de construir uma ousada política pública, o Código Florestal, que tornou obrigatória a conservação de florestas nativas e a proteção de nascentes e margens de rios nas propriedades privadas, o que perfaz 20.5% de toda a superfície do país. E todo mestre precisa informar com orgulho aos seus jovens estudantes que o Brasil é, de longe, a maior potência ambiental do planeta, e que nenhum país chega perto da sua cobertura florestal nativa, que alcança nada menos que 66,3% do nosso imenso território, índice que chega a 80% na Amazônia.”

A visão de que o Código Florestal brasileiro é uma jabuticaba é um boilerplate do agropop. Mas não é bem assim. Na verdade, vários países têm legislações regulando a proteção de florestas em áreas privadas, como mostrou esta nota técnica feita pelo Imazon e pelo Proforest sob encomenda do Greenpeace em 2011. Na França, por exemplo, conversão acima de 4 hectares depende de autorização do governo. No Japão e no Reino Unido, florestas em áreas privadas não podem ser derrubadas. O Código Florestal brasileiro (que, lembremos, não é de 2012, e sim de 1965, e não foi “construído”, mas sim enfraquecido nesta década pela bancada ruralista) tem, de fato, particularidades. Mas o Brasil tem particularidades: é maior produtor agrícola na zona tropical. Não se pode exigir aqui uma legislação como a de países temperados cuja biodiversidade total não chega à de um hectare de uma floresta amazônica.

A famosa cifra dos 66% de vegetação nativa é outro dado que resiste mal ao escrutínio. Lopes deveria saber disso melhor do que ninguém, pois morou num país que tem quase tanta floresta quando o Brasil, a Coreia do Sul (63% do território, segundo o Banco Mundial). Mas há outros: Suécia (69%), Japão (68%), Gabão (89%) e Suriname (98%), para citar apenas alguns. Por essa lógica, será que governantes japoneses vão aos jornais se gabar de serem “a maior potência ambiental do planeta?” Acho que eles preferem vender videogames.

Segue o presidente da Embrapa:

“Acontece que a agricultura dita vilã, ávida consumidora de terras e da maioria das reservas hídricas, não existe no Brasil. Nosso país produz todas as suas lavouras e florestas plantadas em 10% do território e, apesar de detentor de 12% das reservas de água doce do planeta, sua produção de alimentos depende prioritariamente de chuvas. A maioria das nossas fazendas toma emprestada da natureza a água da chuva, que iria aos rios e oceanos, e a devolve limpa, com a evaporação, transpiração e infiltração no solo. O que deve preocupar a sociedade é o impacto da urbanização na gestão dos recursos hídricos.”

O dado dos “10% de lavoura” é um caso clássico de cherry-picking, nome dado ao ato de pinçar um número parcial que favorece a tese de alguém. De fato, a agricultura ocupa cerca de 8% do território brasileiro. Somando as florestas plantadas, chega-se provavelmente a 10%. Mas, ei, Maurício, você não está falando de “produção de alimentos”? Cadê a pecuária na sua conta? Somando-se os cerca de 65 milhões de hectares de agricultura e os 280 milhões de pastagens, tem-se cerca de 33% do território nacional tomado pela “produção de alimentos”. Não é muito nem pouco; é a média mundial. Um número mais próximo dos 38% chamados por Lopes de “média genérica” e “de frágil comprovação” do que de 10%.

Sobre água, antes de dizer que “inexiste no Brasil” a agricultura “consumidora da maioria das reservas hídricas”, Lopes deveria dar uma espiada na Conjuntura dos Recursos Hídricos do Brasil, cuja última edição foi publicada em 2017 pela Agência Nacional de Águas. O relatório põe a irrigação como maior usuário de água do país, com 969 metros cúbicos por segundo em 2016. É mais do que a soma de todos os outros usos, excluindo a pecuária. É fato que a maior parte das propriedades do país (que são da agricultura familiar) depende da chuva. Mas quão limpa essa água é devolvida é objeto de debate: como maior consumidor do mundo de agrotóxicos (não por perversidade, mas simplesmente pelo fato de sermos um grande país agrícola tropical, muito mais sujeito a pragas que EUA e China) e um dos maiores consumidores de fertilizantes, o Brasil tem índices altos de poluição por pesticidas e nitratos em algumas bacias. Um estudo da própria Embrapa de 2014, por exemplo, detectou resíduos de diversos agrotóxicos em medições realizadas em todas as regiões do país, embora tenha alertado para a escassez de monitoramento.

Sobre mudança climática, Lopes parece espantosamente mal brifado:

“Mudança climática é outro tema frequentemente usado para se criticar o Brasil de forma injusta. Nossos pesquisadores e produtores constroem hoje a próxima revolução da agropecuária tropical, com sistemas integrados capazes de operar 365 dias por ano, ciclando lavouras, pecuária e floresta, em modelo inédito de produção sustentável de baixa emissão de carbono. O ministro Blairo Maggi apresentou, durante encontro de 70 ministros da agricultura ocorrido em Berlim, em janeiro de 2018, processo inédito de produção de “carne carbono neutro”, uma resposta concreta do Brasil à cruzada global contra a pecuária bovina. O nosso país já é líder global no uso do plantio direto, da fixação biológica do nitrogênio e dos sistemas integrados de produção, tecnologias que nos colocam na vanguarda do desenvolvimento da agricultura de baixa emissão de carbono.”

Vamos aos números. Mas antes um disclaimer: eu trabalho para a rede de organizações que produz os dados, cuja metodologia é aberta e que são tão sólidos que são utilizados até mesmo por pesquisadores do governo. Em 2016, último ano para o qual há estimativa, o Brasil emitiu 2,278 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa (sétimo maior emissor do mundo). Desse total, 51% foram causados por desmatamento (para produção agropecuária ou especulação fundiária para agropecuária) e 22% diretamente pela agropecuária (pelo consumo de fertilizantes e pelo metano do rebanho, o popular “arroto do boi”). Portanto, 1,6 bilhão de toneladas de gases de efeito estufa emitidos em 2016 estão na conta do agro. É mais do que tudo o que o Japão emite em um ano.

Dito isso, esses números não são uma sentença. Zerar o desmatamento e produzir nas terras já abertas é possível, desejável e barato. E há vasta literatura científica mostrando que é possível produzir carne sequestrando carbono, ao recuperar pastagens degradadas. Só que para isso é preciso investimento. E, em que pese o marketing da carne “carbono zero” do ministro Maggi, neste momento ela ainda é uma espécie de clean coal brasileiro: os investimentos no programa de agricultura de baixo carbono não chegam a 2% do Plano Safra. No ritmo atual, o Brasil não cumprirá nenhuma de suas metas de recuperação de pastagens.

Maurício Lopes continua sendo um cientista com C maiúsculo, e sorte da Embrapa ter um presidente assim. Mas, em nome do próprio currículo, deveria pensar melhor antes de pular no carro de boi conduzido por seu chefe.

As 7 melhores leituras de 2017

OK, CONFESSO que li pouco neste ano. Quase nada. Dividi meu tempo livre entre a cruz dos estudos de música e a espada do Netflix e, como resultado, acabei dando uma boa emburrecida em 2017 (em compensação pode me perguntar sobre empréstimo modal e dominantes secundárias).

Mas, como há boas ideias no mundo que merecem ser copiadas, espremi aqui minha rarefeita lista para roubartilhar uma ideia do Átila Iamarino, colega de ScienceBlogs e apresentador do descaralhante canal Nerdologia. No ano passado, o Átila fez uma lista sensacional de fim de ano com seus dez livros favoritos. Eu não tenho os dez mais, mas vão aí os sete mais.

Nem todos são sobre ciência, nem todos são deste ano, mas para quem estiver sem ideia do que dar (ou se dar) de Natal, aí vão, sem necessariamente uma ordem de relevância.

 

Os fuzis e as flechas, de Rubens Valente

fuzismargO relato do jornalista Rubens Valente sobre o tratamento dado pela ditadura militar aos índios é de longe a melhor coisa que li este ano e, possivelmente, o livro mais importante publicado no Brasil em tempos recentes (sim, categórico assim).

Escrito com base em documentos sigilosos dos militares só recentemente desclassificados e uma boa centena de entrevistas com indígenas, antropólogos, sertanistas e agentes do governo, o livro traça um panorama tenebroso da política indigenista brasileira entre 1964 e 1985. É uma sucessão de massacres, quer pela mão de tropas encarregadas de abrir o caminho para obras como a BR-174, entre Amazonas e Roraima, quer por meio de doenças espalhadas pelas frentes de atração e contato dos agentes do “Brasil Grande”. Olhados pelas lentes da ditadura, os índios eram obstáculos ao desenvolvimento que precisavam ser assimilados, diluídos na sociedade nacional ou simplesmente eliminados, para que suas terras pudessem ser integradas ao “desenvolvimento” nacional – na mão de outros.

Rubens Valente acaba completando aqui o trabalho que Darcy Ribeiro realizou no clássico Os Índios e a Civilização, de 1970, que trata da relação entre a sociedade neobrasileira e os primeiros habitantes do país nos primeiros 60 anos do século passado. Ambos são livros abrangentes, extremamente humanos e completamente apavorantes. Rubens não poupa detalhes sobre mortes, torturas e vários tipos de abuso praticados pelos agentes públicos contra os índios. Alguns capítulos são leituras difíceis, que requerem estômago. Nenhum dos personagens principais do indigenismo no século 20 é poupado do escrutínio do jornalista – nem mesmo heróis como Orlando Villas Bôas e o próprio Darcy Ribeiro, que aparece mal na fita em uma passagem.

A honestidade que sempre marcou a carreira desde que é um dos maiores repórteres do Brasil transparece o tempo todo no livro. Até na narrativa, ao mesmo tempo seca e empolgante. Rubens fez uma acertada opção de linguagem de não se colocar praticamente em momento algum das 400 páginas do texto; os fatos são fortes o bastante para dispensar a intervenção do narrador.

Apesar de se reportar a um período do passado, Os fuzis e as flechas é assustadoramente atual, e daí minha convicção sobre a relevância do livro: as forças que atuam hoje contra os povos indígenas no Brasil, num esforço para tomar-lhes as terras, são essencialmente as mesmas que atuavam na ditadura, e no tempo de Darcy Ribeiro, e antes. São parte de um Brasil racista, oligárquico e atrasado, que sob o travesti do “agro pop” mantém práticas de 400 anos atrás. É infeliz que esse pedaço da sociedade esteja dando as cartas hoje no governo e no Congresso. Os fuzis e as flechas é um livro indispensável para entender este momento. Meu candidato pessoal a Jabuti de livro do ano de 2018.

 

O tribunal da quinta-feira, de Michel Laub

laubA trama deste romance curto e impossível de largar se dá em torno de dois amigos, um deles infectado com o HIV. Trocas de e-mails entre os dois acabam vazando e ambos são vítimas de um linchamento moral na internet.

Não se deixe enganar pela maestria narrativa de Michel Laub. Ao longo do livro, você vai pensar que está diante de uma engenhosa análise sociológica sobre a rebarba da epidemia de Aids (que, sem que o autor adivinhasse, parece ter voltado a níveis preocupantes no Brasil) ou sobre o fascismo on-line. É também isso. Mas O tribunal da quinta-feira é, ao fim e ao cabo, uma história de amor. Ou de muitos amores. Um libelo contra vários tipos de intolerância, necessário para o Brasil dos tempos atuais.

 

 

Meia-noite e vinte, de Daniel Galera

meianoiteNeste romance sufocante e de mordacidade máxima, o autor de Barba ensopada de sangue faz um retrato pouco construtivo da sua geração, as pessoas de 30-e-tantos que viveram o início da explosão da internet (e da pornografia on-line, como o leitor entenderá) no Brasil. A história é ambientada numa Porto Alegre assolada por uma onda de calor, onde três amigos de adolescência se reencontram após a morte de um quarto, e tudo meio que desanda na vida deles a partir daí. O flerte de Galera com a ciência produz uma descrição precisa, demolidora e por vezes hilária da vida na academia. E também uma reflexão sobre o que é chegar à plenitude da idade adulta no Antropoceno. Não chega a ser um “cli-fi”, o que é uma virtude, mas é o primeiro livro brasileiro de ficção a discutir a tal “era do homem”, tendo como sujeito oculto a mudança do clima e não tão oculto assim a convulsão causada pela tecnologia nas relações humanas. Tribom.

 

The singularity is near, de Ray Kurzweil

singuboaNa verdade, o livro é chato. É escrito por um engenheiro que se acha só porque é bilionário e inventou o sintetizador Kurzweil (que o deixou rico a ponto de lhe permitir ficar escrevendo livros prevendo o futuro). O livro é povoado de gráficos e linguagem matemática, e tenta transformar em utopia o pesadelo sci-fi de máquinas dominando o mundo, substituindo os seres humanos de carne e osso – na verdade, fundindo-se a eles: Kurzweil argumenta que as máquinas se tornarão humanas, num mélange perfeito entre a nossa consciência orgânica e a matéria inanimada – e conquistando o Universo.

Seria fácil menosprezar The singularity is near como delírio de branco rico, não fosse pelas observações que o autor faz sobre evolução exponencial de tecnologias disruptivas. O argumento central é que, quando uma tecnologia entra em evolução exponencial, olhar para seu comportamento no passado antes do “joelho” da curva de crescimento pode dar a falsa impressão de que ela evoluirá de forma mais ou menos linear no futuro. E Kurzweil dá exemplos de várias coisas que evoluíram exponencialmente, das telecomunicações à capacidade dos computadores. O mesmo raciocínio pode ser aplicado a tecnologias de energia limpa como painéis solares e carros elétricos. Aliás, a julgar pelas revisões dos prognósticos de adoção, com o carro elétrico nós podemos estar chegando ao joelho da curva. De minha parte, acreditarei em robôs conscientes dominando as galáxias quando Kurzweil inventar um piano digital que tenha o mesmo sustain de um acústico. #prontofalei.

1499, de Reinaldo José Lopes

1499Tenho isenção zero para falar desse livro, por razões que quem o ler entenderá. Limito-me, portanto, a recomendá-lo. Nunca antes na pré-história deste país se fez algo assim. É a primeira aproximação séria à pré-história brasileira escrita por um não-arqueólogo, e é feita com a abrangência, a erudição e as gracinhas de que só o Reinaldo é capaz. Yuval Harari é o caralho, meu nome é Petutinho.

 

 

 

 

 

 

O vendido, de Paul Beatty

vendidoO filho de um sociólogo negro assassinado pela polícia numa perifa de Los Angeles descobre que a melhor maneira de chamar atenção para os conflitos raciais que persistem nos EUA em plena era Obama é restabelecer a segregação racial, como a que havia antes do movimento pelos direitos civis. Tudo isso com a ajuda de um escravo idoso que é levado semanalmente para ser espancado num clube de sado-maso. Esse é o enredo corajoso de um livro que não poupa ninguém, sem distinção de credo ou – sobretudo – cor. Beatty destrói com igual ironia (e autoironia) os brancos, os negros, os latinos e o politicamente correto e faz um livro altamente político e altamente divertido sobre a turma que escorregou pelas rachaduras do sonho americano. É de rolar de rir e se matar de pensar ao mesmo tempo. Vai te dar vontade de plantar maconha e mexericas, não necessariamente nesta ordem.

 

 

 

 

A queda de Dilma, de Ricardo Westin

WILMAO governo Temer é uma desgraça corrupta tão grande que a gente acaba se esquecendo da desgraça corrupta e inepta que foi o mandato e meio de Dilma Rousseff. O livro do jornalista Ricardo Westin ajuda a refrescar a memória e a lembrar não só por que Dilma caiu, mas por que ela tinha de cair. Segundo o autor, Dilma basicamente ignorou as lições multicentenárias de governo de Nicolau Maquiavel, entre elas cercar-se de bons conselheiros (Dilma não escutava ninguém), ter o povo ao seu lado (Dilma tinha horror a gente) e aparentar ter virtudes (nem João Santana com todos os milhões da Odebrecht conseguiu fazer essa mágica). Westin conta que, segundo a lógica maquiavélica, um bom governante tem doses iguais de fortuna (sorte) e virtù (competência). Dilma Rousseff não possuía nem um, nem outro, e isso a tornou presa fácil do arquivilão Eduardo Cunha.

Homem-legenda lê o artigo de Temer

temeroso

A ÁGUA, PELO VISTO, BATEU NA BUNDA. Depois de ser amplamente e justamente fustigado pelo seu pacto de sangue com a bancada ruralista, o presidente Michel 3% Temer resolveu pagar de verde. Publicou hoje na Folha de S.Paulo um artigo enaltecendo as supostas conquistas de seu governo na área ambiental. O timing é bom para a propaganda: em duas semanas começa a conferência do clima de Fiji e em dois dias a Câmara deve salvar o presidente de uma suspensão por corrupção, graças aos votos dos inimigos do meio ambiente, dos direitos humanos e do desenvolvimento.

Para lembrar que Temer ainda é o presidente que patrocina o maior ataque ao meio ambiente da história da redemocratização (e isso concorrendo com um páreo duríssimo, Dilma Rousseff), anotei aqui o que o homem dos 3% não disse em seu texto.

Assinei no último fim de semana, durante visita ao nosso belíssimo Pantanal, patrimônio nacional e da humanidade, a maior e mais inovadora iniciativa ambiental do governo -a conversão de multas na preservação da natureza.

No curto prazo, cerca de R$ 4,5 bilhões devidos aos cofres públicos poderão ser diretamente aplicados em ações efetivas de recuperação ambiental.

Tal volume de recursos, que não dependerá do Tesouro Nacional, é uma verdadeira revolução para o setor. Hoje, a maior parte das multas não é paga, sendo alvo de litígio durante anos nos tribunais.

Agora, mediante desconto e sob critérios do Ministério do Meio Ambiente e do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), as multas se transformarão em investimentos ecológicos em todo o país.

A conversão de multas de fato é uma boa ideia e tem potencial de carrear recursos para a recuperação, que é o que interessa. É um pleito antigo da presidente do Ibama, Suely Araújo, que no entanto vinha sendo barrado pela Casa Civil, liderada por um homem acusado de grilagem e desmatamento ilegal. Nada como uma mudança de contexto político.

A proposta, porém, não está livre de polêmicas. O economista Cadu Young, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, se opõe a ela com argumentos muito razoáveis, que merecem discussão. Disse Young no Facebook (a palavra-chave é “anistia”): “O que sucede aqui é o fechamento do “crime perfeito”: as verbas e pessoal para fiscalização ambiental são cortadas, mas ainda sim algumas multas são aplicadas. O agente infrator usa todo subterfúgio para não pagar essas que são aplicadas. Não há pressão por parte do Executivo (em todos os níveis, não é apenas Federal) para que essas multas sejam, de fato, cobradas. Como as multas nunca são cobradas, viram “multas podres” e qualquer trocado que entrar, sob forma monetária ou, melhor ainda, em forma de serviços (já que o orçamento ambiental foi estrangulado) acaba sendo “celebrado”. Por outro lado, como o infrator sabe que não será punido, persiste cometendo o crime, aguardando a próxima anistia. Na prática, isso equivale a dizer que é uma política “de papel’, “sem dentes”, “para inglês ver”, ou qualquer outra expressão que signifique que o Poder Executivo Federal reconhece que as multas aplicadas pelos seus agentes na área ambiental não devem ser levadas a sério, e por isso mesmo ninguém paga. (Apenas para efeito de ilustração, isso é conhecido na literatura como “incentivo perverso’).”

Já temos parceiros —a começar por órgãos públicos e estatais— interessados em aplicar cerca de R$ 1 bilhão em projetos nas bacias do São Francisco, Iguaçu e Alto Paraguai.

Além de proteger as nascentes e os cursos d’ água, essa primeira iniciativa vai garantir ocupação e renda para as populações ribeirinhas -engajadas em programas de reflorestamento de matas ciliares com o sugestivo nome de “Plantadores de Rios”.

Se Temer estivesse assim tão preocupado em gerar ocupação e renda para as “populações ribeirinhas”, não teria acabado com o Programa Bolsa Verde, criado por sua antecessora, que fazia exatamente isso. O programa caiu de R$ 14 milhões em 2016 para R$ 400 mil em 2017 e teve sua extinção decretada para 2018 na Proposta de Lei Orçamentária. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, 74 mil famílias foram atendidas em 2016.

Como nos demais setores, também no meio ambiente adotamos ao longo desses 16 meses de governo um conjunto de medidas modernizantes, sempre em diálogo com a sociedade, governos locais e organismos internacionais.

Está mentindo, tindo, tindo. Temer regrediu em proteção às unidades de conservação, propondo a maior desafetação de uma UC federal da história (350 mil hectares da Flona Jamanxim entregues a grileiros); regrediu na proteção a direitos indígenas, adotando a tese esdrúxula do “marco temporal”; regrediu na contenção do principal fator de desmatamento, a grilagem de terras, anistiando-a por MP; e tentou entregar 46 mil quilômetros de Amazônia aos mineradores (teve de recuar depois da grita global). Não consultou ninguém além de seus parças na bancada vigarista ruralista para fazer tudo isso.

Também acabei de editar uma medida provisória que cria um fundo com recursos de compensação ambiental (devidos pelas obras de infraestrutura que impactam a natureza), a ser administrado pelo Instituto Chico Mendes.

O Instituto Chico Mendes teve o maior corte orçamentário de sua história em abril deste ano, quando Temer reduziu em 43% a verba discricionária do Ministério do Meio Ambiente. Os recursos da compensação ambiental sempre existiram, o que precisa é fazê-los rodar, o que o ICMBio não consegue porque não tem estrutura e não tem estrutura porque não tem orçamento.

A nossa lista de realizações é extensa. Ampliamos áreas de reservas e parques nacionais,

Temer foi o presidente que menos criou unidades de conservação desde a ditadura. Neste ano foram apenas duas. É preciso, porém, reconhecer o esforço do ministro Sarney Filho para ampliar o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, e para converter Alcatrazes em área protegida.

fechamos Candiota (RS), a maior termelétrica a carvão do país,

A Justiça Federal derrubou o embargo à usina poucos dias depois do fechamento, em setembro de 2016. Em março deste ano, uma das unidades da usina foi desativada. Mas não dá para dizer que Candiota foi “fechada”. Além disso, o governo licenciou neste ano outra térmica a carvão na região, a de Ouro Negro.

ao mesmo tempo em que incentivamos a produção de energia limpa;

O Plano Decenal de Energia 2026, colocado em consulta pelo governo Temer, prevê que 70,5% dos investimentos em energia na próxima década serão em combustíveis fósseis. O PDE ignora solenemente os carros elétricos. O plano de eficiência veicular em discussão no governo livra veículos a diesel de metas de economia de combustível até 2032. Nesta sexta-feira, serão leiloados novos blocos do pré-sal. Cadê essa energia limpa, tiozão?

exigimos a reparação dos danos do desastre de 2015 em Mariana (MG)

O Ministério Público exigiu.

e investimos mais de R$ 50 milhões em ações de controle na Amazônia.

“Investimos” é muita gente. Na verdade, quem “investiu” foi a Noruega, já que o dinheiro é doação do Fundo Amazônia, que em tese jamais deveria ser usado para uma função precípua do Estado. Temer, ao contrário, CORTOU VERBA da área ambiental em 43%, só para lembrar (Donald Trump cortou a dele em 31%). Troca-se dinheiro do Tesouro (que vai, por exemplo, para perdoar a dívida do Funrural) por grana internacional de doação. Que, a propósito, foi cortada em 50% porque o desmatamento cresceu em 2015 e 2016.

Como reflexo disso, também na semana passada, anunciamos, com base no monitoramento oficial por satélites, a redução de 16%, em relação a 2016, do desmatamento da floresta amazônica. Foi a primeira vez em cinco anos que revertemos essa curva.

É muito cedo para falar em “reversão da curva”. Entenda aqui.

As ações de conservação da Amazônia e a participação da população local no processo de valorizar a “floresta em pé”, como costuma dizer o ministro Sarney Filho, serão apresentadas pelo Brasil na próxima Conferência das Partes (COP 23) sobre mudança do clima, marcada para novembro, em Bonn, na Alemanha.

Boa sorte para ele.Vai precisar.

Estamos honrando os compromissos firmados no Acordo de Paris, cujas metas são observadas em nossas políticas públicas.

O desmatamento está 70% acima da meta estabelecida para 2020 na lei brasileira de mudança do clima. Ainda está em tempo de cumprir as metas de Paris, que receberam um generoso empurrão da recessão deixada pelos governos Dilma. Mas Temer vai na direção oposta.

É isso que nos garantirá, como destacado neste encontro de autoridades e ambientalistas do qual participei em Miranda (MS), investimentos bilionários do Fundo Global para o Meio Ambiente não só no bioma do Pantanal, mas também da Caatinga e do Pampa.

O Brasil é obrigatoriamente um recipiente de boa parte do GEF, mas por motivos alheios à vontade de Temer: é o maior país tropical do mundo e tem mais capacidade de execução do que outros países em desenvolvimento. Nada de novo aqui.

O potencial ambiental do Brasil é inegável e precisa ser sustentavelmente manejado. Conscientes disso, acabamos também de sancionar um projeto de lei, originário do Legislativo, que criou o Produto Interno Verde (PIV). Agora, nós poderemos calcular e dimensionar, frente aos demais países, o nosso patrimônio ecológico. Uma riqueza que certamente nos destacará —e que é vital não só para nós, mas também para o futuro do planeta.

Vou esperar sentado o IBGE divulgar o PIV todos os anos na mesma coletiva do PIB. Mas vou esperar mesmo é o governo inserir na agenda da equipe econômica medidas para aumentar o PIV. Até onde dá para ver, o que Michel 3% Temer tem feito nos últimos 16 meses é aprofundar nossa recessão ecológica.

E 2017, é culpa de quem?

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QUANDO CHOVEU EM BRASÍLIA na semana de 20 de setembro, eu comemorei em vez de xingar o engarrafamento. Até que enfim um ano em que as chuvas começaram quase na época de costume, após mais de 110 dias de seca. Juntando isso com um inverno em que fez frio também como antigamente, parecia que o ano seria enfim normal – após os malabarismos climáticos de 2015, quando em vez de estação chuvosa tivemos uma onda de calor de 45 dias que quebrou todos os recordes, e de 2016, quando o inverno durou uma semana.

Pelo visto, comemorei cedo demais. Entre 22 de setembro e 16 de outubro não caiu uma gota d’água no DF. Em vez disso, tivemos um repeteco em miniatura da onda de calor de 2015, com temperaturas da casa dos 35 graus de dia e 26 à noite (a máxima recorde da cidade foi 36,5oC, batida em 2015). Depois de eu escrever a primeira versão deste texto, a imprensa confirmou que o domingo (15) superou os dois recordes de 2015, com 37,3oC medidos pelo Instituto Nacional de Meteorologia em Águas Emendadas, a cerca de 25 km da minha casa. A média histórica para o mês de outubro, o mais quente do ano na cidade, é e 27,5oC. A timeline do meu Facebook foi invadida por memes de calor no fim de semana (como o que ilustra este post). A quentura e a secura põem pressão adicional nos reservatórios de uma cidade que está há dez meses racionando água. Se não chover copiosamente a partir da segunda quinzena de outubro, as represas não vão se recuperar e 2018 será ano de mais racionamento.

Não há nada de normal nisso tudo.

Olhando para fora da minha aldeia, 2017 definitivamente não teve nada de normal. No hemisfério Norte, o abre-alas do verão foram os incêndios florestais que deixaram mais de 60 mortos em Portugal. Em julho e agosto, foi a vez da onda de calor apelidada Lúcifer, que deixou o sul da Europa com temperaturas manauaras. Ao mesmo tempo, 158 incêndios florestais atingiram a Colúmbia Britânica, no Canadá. Agosto viu ainda incêndios de grandes proporções no sul da Groenlândia – a pior temporada desde o início dos registros.

Em setembro quem brilhou foi o Oceano Atlântico, com a temporada de furacões mais danosa já registrada na história. Até agora foram dez, começando com Franklin e chegando a Ohpelia (que atravessa o oceano neste momento numa estranha trajetória rumo à Europa), incluindo três simultâneos (Katia, Irma e José), dois de categoria 5, a máxima na escala (Irma e Maria), o mais forte já registrado no Atlântico (Irma) e três supertempestades tocando terra nos EUA e no Caribe (Harvey, Irma e Maria, que devastou a ilha de Porto Rico). Até agora foram mais de 300 mortos e prejuízos ainda por contabilizar, mas estimados em mais de US$ 200 bilhões.

De volta a Pindorama, no mesmo mês de setembro o Brasil bateu seu recorde mensal de queimadas (106 mil registradas pelo Inpe), tornando 2017 o sétimo ano com maior número de incêndios desde o início dos registros, em 1998 – e isso a dois meses do fim do ano. E, já que estamos falando de fogo, outubro seguiu com uma temporada de incêndios sem precedentes na Califórnia, com mais de 30 mortos e prejuízos sérios para a indústria vinícola americana. Água, por outro lado, sobrou no Rio Grande do Sul, atingido por tornados, microexplosões e tempestades.

Em 2015 e 2016, dois dos três anos mais quentes da história, nós tínhamos um bode expiatório para os extremos climáticos. O biênio foi do El Niño “Godzilla”, que ajudou a elevar o aquecimento da Terra de 0,85oC para 1oC acima dos níveis pré-industriais no ano passado, secando porções do globo como o Nordeste brasileiro e o oeste americano. Só que o El Niño submergiu em meados de 2016, e a fase inversa da oscilação, o La Niña, que ajuda a resfriar o mundo, não veio nem de longe com a mesma intensidade. Em 2017 não temos o “ruído” das oscilações climáticas naturais de curto prazo. A música que toca ao fundo, numa sucessão decidida de compassos que deve nos levar ao segundo ou terceiro ano mais quente nos registros, parece ser mesmo a do aquecimento global.

De fato, o planeta em 2017 se assemelha uma encenação daquilo que os modelos climatológicos previam para este século num cenário de crise climática. Condições oceânicas semelhantes ao El Niño: check. Furacões mais intensos, mais incêndios florestais e ondas de calor mais frequentes: idem. Invernos anormalmente frios e com muita neve, como o deste ano no hemisfério Norte: também. Para ficar apenas no Brasil, a seca no Nordeste (que vai entrar no sétimo ano), o calor extremo no Norte, no Sudeste e no Centro-Oeste, os baixos níveis dos reservatórios e as chuvas mais intensas no Sul são exatamente o que os modelos climáticos globais regionalizados pelo Inpe prognosticavam para o meio do século.

Obviamente, atribuir cada um desses extremos de forma unívoca aos efeitos dos gases-estufa acumulados na atmosfera é temerário. Por outro lado, cada vez mais cientistas vêm apontando para um fato óbvio: nada do que acontece hoje na atmosfera da Terra pode ser dissociado do fato de essa atmosfera estar em média 1oC mais quente do que em 1850. Portanto, de certa forma, mesmo que nem tudo seja culpa do aquecimento global, tudo é culpa do aquecimento global.

Enquanto mais um ano de extremos fode com a gente se abate sobre a Terra, uma quantidade enorme de energia é desperdiçada na ágora por um monte de gente boa tentando persuadir a Dona Maria com dados e fatos de que o problema é real e causado por nós. É precisamente como a indústria fóssil quer que a gente aja: perdidos na cortina de fumaça argumentativa enquanto eles tentam espremer até o último centavo de lucro vendendo óleo e carvão e ao mesmo tempo buscam formas de competir com a Tesla e os painéis solares chineses.

O real debate que deveria estar sendo travado agora diz respeito a proteger pessoas e ecossistemas. Como Brasília e São Paulo vão evitar a próxima crise hídrica? Como os moradores de São Francisco de Paula poderão se proteger de tornados a tempo? Que decisões prefeituras, fazendeiros, seguradoras e o mercado imobiliário precisarão tomar para lidar com um presente que não é mais como o passado e com um futuro que será uma versão piorada do presente, qualquer que seja a causa das mudanças? E o que fazer com pessoas menos afortunadas do que eu, que não têm dinheiro para comprar um aparelho de ar-condicionado – e que mal têm acesso a energia?

Perdemos muito tempo aprisionados na armadilha da atribuição. É um espaço confortável, no qual homens brancos com instrução superior e salas refrigeradas podem se digladiar em teoria e sonhar em resolver o problema no atacado, com acordos internacionais, NDCs e grandes esquemas de precificação de carbono. É óbvio que não há saída de longo prazo para a crise sem atacar suas causas e zerar emissões antes de 2050.

Mas no mundo real o disco virou para a ação local de construção de resiliência. É uma conversa muito mais complicada, já que envolve necessariamente o pequeno poder, a esfera municipal, o código de obras e outras coisas sem o menor glamour – além de interlocutores com os quais boa parte das pessoas com instrução superior prefeririam não precisar lidar, como aquele prefeito do Pros ou aquele vereador do PP. Essas pessoas e, a bem da verdade, todas as outras, precisam entender que as referências e a experiência não são mais guia para o futuro. E que rezar pela chuva ou contratar o Cacique Cobra Coral não são a resposta.

A culpa é sempre do licenciamento

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“Pensei: por que Deus criaria as pessoas tão imperfeitas, então as culparia pelas próprias imperfeições, então mandaria seu filho para ser torturado e executado por essas pessoas imperfeitas como forma de compensar o quão imperfeitas elas eram e o quão imperfeitas elas inevitavelmente seriam? Que ideia maluca.” (Julia Sweeney)

A manchete de hoje do Valor Econômico me fez lembrar esse trecho do monólogo Letting Go of God, da comediante americana Julia Sweeney. O jornal dá voz aos empresários da indústria do petróleo, que manifestam preocupação com o destino da 14ª rodada da ANP, marcada para o fim de setembro. Eles sutilmente ameaçam uma debandada de investimentos no setor no país. E a culpa, claro, será do licenciamento ambiental, esse entrave eterno.

O jornal dá a senha logo no primeiro parágrafo: diz que o setor, recentemente, já “destravou” as regras de conteúdo nacional e a exigência da Petrobras como operadora única do pré-sal. E agora, justo quando chegavam as strippers e a cocaína a festa ia ficar boa, aparece esse Ibama para empatar.

A reportagem do Valor tem alguns problemas, devidamente apontados por Maurício Tuffani no Direto da Ciência. Talvez o principal deles seja o timing. O Congresso Nacional está voltando hoje do recesso, para azar da sociedade brasileira. Amanhã a bancada ruralista e seus aliados do “mercado” devem livrar o Presidente da República da cassação e da eventual temporada em Curitiba. Nos próximos dias, como parte da fatura pela graça realizada, devem votar no plenário a Lei Geral de Licenciamento Ambiental, rifada por Temer, apesar de acordo prévio com o ministro do Meio Ambiente. Nesta terça-feira (01) o licenciamento estará no “cardápio” do almoço semanal da Frente Parlamentar da Agropecuária (a sobremesa é o seu futuro, leitor). Não creio em bruxas, mas há uma coincidência retada no fato de o setor ter se lembrado só agora de contar ao principal jornal de economia do país que tem um “entrave ambiental”.

Ironicamente, o estudo de caso apresentado pelas fontes como símbolo dos supostos problemas do licenciamento sai pela culatra. Trata-se das “dificuldades” que a petroleira francesa Total estaria tendo para conseguir licenciar blocos de exploração na região da foz do Amazonas, arrematados em 2013, na 11ª rodada da ANP. O Ibama, esse inimigo do Brasil, estaria enrolando com a licença só porque a região de exploração fica ao lado de um banco de corais único no planeta, recém-descoberto e provavelmente ultrassensível a vazamentos e… não, pera.

Temos, então, que o licenciamento ambiental é acusado de ser lento e rigoroso demais porque o governo concedeu uma área de exploração de óleo numa zona ecologicamente sensível, onde o licenciamento ambiental precisa ser, necessariamente, mais lento e rigoroso, porque tem o mandato de proteger essa zona ecologicamente sensível. O raciocínio é perfeitamente circular. Julia Sweeney na veia. (Se eu fosse ministro do Meio Ambiente, ainda mais neste clima de baile da Ilha Fiscal que está este governo, me fazia de loka e decretava um parque nacional marinho na região. Sarney, #ficaadica.)

O “prejuízo” causado pelo Ibama ao país no caso seria US$ 300 milhões, que é o que a Total havia planejado investir na região em 2017. Para colocar em perspectiva, US$ 300 milhões equivale a 3 UBV (Unidade Barusco de Valor), ou seja, três vezes o que um único diretor da Petrobras, Pedro Barusco, aceitou devolver aos cofres públicos do dinheiro que ele tinha roubado sozinho. Você me diga se essa grana vale arriscar os corais da Amazônia.

Mais adiante, o texto meio que derruba a si próprio: diz que a 14ª rodada está ameaçada pela lerdeza do licenciamento, mas que que a maioria dos blocos a serem oferecidos não ficam em áreas ambientalmente sensíveis e sim em regiões “já conhecidas”, ao contrário dos da 11ª rodada, que estavam em “novas fronteiras”.

E aí o Valor cita um caso emblemático de outra barbeiragem licitatória da ANP supostamente implodida pelo licenciamento: em 2002, uma empresa americana arrematou blocos de exploração numa área próxima a outro banco de corais — o dos Abrolhos, entre Espírito Santo e Bahia, onde já existia um parque nacional marinho. Em 2004, o Ministério do Meio Ambiente bateu o pé e disse que não dava para furar ali. O ministério de Minas e Energia aquiesceu. A empresa deixou o país dois anos depois e os corais de Abrolhos foram deixados em paz, por enquanto.

A ministra de Minas e Energia que se dobrou ao bom senso na época se chamava Dilma Vana Rousseff.

 

Foto: corais da Amazônia (Greenpeace)

Será que Elon Musk assassinou o pré-sal?

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NÃO OLHE AGORA, mas Elon Musk pode ter acabado de ferir de morte o sonho do Brasil de virar uma petropotência.

A Tesla, empresa de veículos e baterias de Musk, lança nos próximos dias o seu aguardado Modelo 3, primeiro veículo de massas da marca. É um sedã elétrico médio, que vai de zero a cem em 6 segundos e roda 346 quilômetros com uma carga de bateria. Já seria sensacional, mas espere até saber o preço da belezinha: US$ 35 mil, e isso sem os descontos de impostos que carros elétricos têm em vários lugares da Europa e dos Estados Unidos. Meu filho mais novo, fanático por carros, me conta que o preço de entrada do bicho no Brasil é R$ 110 mil. Tenho dúvidas, por causa do câmbio e do hábito do nosso empresariado de triplicar o preço de qualquer veículo importado aqui, o que produz bizarrices como transformar o Smart num carro de luxo. Mas, por amor ao debate, vamos assumir que o Modelo 3 chegue por R$ 130 mil.

É muito dinheiro. É um dinheiro que eu não tenho. Por essa grana eu compraria uma picape Audi Q3, ou qualquer outro desses carros beberrões lindos da Kia. Ocorre que o Modelo 3 está irremediavelmente condenado a cair de preço. E, quando isso acontecer, eu vou me endividar para comprar um, e desconfio que muita gente fará o mesmo. Espero que Musk tenha planos para expandir a produção rapidamente.

A conta é simples: hoje eu dirijo um Focus 2009 a gasolina (Cinco minutinhos para vocês xingarem minha hipocrisia. Pronto? OK, adiante). Tento mantê-lo regulado, mas seu motor já viu dias melhores e hoje faz, pelas minhas contas, algo em torno de 8 ou 9 quilômetros com um litro — mais ou menos a mesma autonomia de um Tesla 3. Toda semana eu preciso abastecer, e olha que eu trabalho em casa e meu único deslocamento obrigatório no dia é o trajeto até a escola do caçula, a menos de 15 km de casa. Isso me dá um gasto anual, com combustível apenas, de R$ 7.000, com a gasolina a preços de hoje.

Se eu tivesse dinheiro para trocar de carro e comprar um Focus zero, gastaria algo em torno de R$ 90 mil. Com o que eu economizaria de combustível, levaria seis anos para pagar a diferença entre o preço do Focus e os R$ 130 mil do Tesla. Ainda não vale a pena: é um período maior que o prazo de financiamento da maioria dos bancos. Mas e se o Modelo 3 custasse a mesma coisa? Considerando um financiamento de 60 meses, somente a economia de combustível me daria R$ 30 mil para gastar no Tesla, assumindo que o preço da gasolina vá permanecer constante por cinco anos. Ou seja, estaria comprando um carro de R$ 90 mil, mas “pagando” um de R$ 60 mil.

Essa é a lógica matadora do carro elétrico. Hoje os felizes proprietários de veículos entram no financiamento sabendo que, ao pagar a última prestação, terão perdido dinheiro, porque o bem se desvaloriza. O elétrico muda essa equação ao botar dinheiro no seu bolso (isso sem contar o custo menor de manutenção, já que o motor tem menos partes móveis). Repare que eu não falei nada sobre poluição ainda. O Modelo 3 vai tirar o motor a combustão interna do mercado porque ele é um bom negócio para o proprietário, não para o planeta. Na boa, que se dane o planeta.

Na semana passada, a revista Business Insider comparou o veículo de massas de Elon Musk ao iPhone, em termos das perspectivas de mercado que ele abre e da transformação nos hábitos do consumidor que ele enseja. Notícias recentes parecem corroborar essa avaliação: nos últimos dias, a Volvo, que meu caçula idolatra pelos carros luxuosos, potentes e não necessariamente econômicos, anunciou que não fará mais nenhum carro puramente a combustão interna a partir de 2019. Daqui a dois anos, portanto, todos os veículos novos da montadora sueca serão híbridos ou elétricos. A França anunciou na mesma semana que a partir de 2040 nenhum veículo a gasolina ou diesel será vendido no país (empresas francesas já entenderam o recado e hoje tentam empurrar a sucata dos carros a diesel para o Brasil). Na última quinta-feira, porém, o banco holandês ING tratou de desmentir o anúncio – como excessivamente conservador: segundo a instituição, todos os carros novos vendidos em toda a Europa serão elétricos ou híbridos já em 2035.

A data ecoa uma previsão feita neste ano pelo Carbon Tracker e pelo Grantham Institute, o think-tank britânico pilotado pelo economista Nicholas Stern. No relatório intitulado Espere o Inesperado, as duas instituições afirmam que os carros elétricos representarão 35% do mercado de transporte rodoviário em 2035, e responderão por 70% dos veículos do mundo em 2050. O prazo contabiliza o tempo de vida dos carros a combustão, o que significa que os elétricos dominarão as vendas de veículos novos muito antes disso. Segundo o relatório, os veículos elétricos atingirão a paridade de custo com os convencionais já em 2020.

O estudo do Grantham vai ao cerne da questão ao apontar que todos os modelos econômicos que projetam a adoção e a disseminação de tecnologias de baixo carbono como o carro elétrico estão defasados. Esses modelos, como o da petroleira britânica BP, o da Agência Internacional de Energia e o da Bloomberg New Energy Finance assumem uma trajetória de adoção quase linear – que não reflete a realidade do mercado consumidor. A BP, por exemplo, estimou neste ano que em 2035 os elétricos representarão apenas 6% do mercado de veículos. Pelo visto a empresa é tão boa em projeções de mercado quanto em segurança de perfurações submarinas.

O conservadorismo dos modelos decorre da incapacidade dos analistas dessas instituições de lidar com tecnologias disruptivas. O futurólogo americano Ray Kurzweil documentou bem a evolução deste tipo de tecnologia no seu chatésimo, mas relevante livro The Singularity is Near. Segundo Kurzweil, a evolução de paradigmas tecnológicos se dá de forma exponencial (o crescimento multiplicado por uma constante) e não linear (o crescimento acrescido de uma constante). Só que nos primeiros estágios do crescimento exponencial não é possível detectar a aceleração: ela só fica clara em seu padrão explosivo quando se atinge o “joelho” da curva de crescimento.

É provável que o carro elétrico e outras tecnologias de baixo carbono, como os painéis solares, estejam se aproximando do “joelho” da curva; quem olha para trás vê uma tendência razoável de crescimento, mas nada que abale as estruturas – por conseguinte, as projeções para o futuro são mais ou menos lineares. O resultado disso é que projeções como a da BP já não refletem a realidade no terreno hoje.

A Bloomberg aparentemente está se ajustando ao mundo real: em seu novo relatório sobre energias renováveis, publicado em 6 de julho, eles fazem uma projeção de adoção de carros elétricos mais alinhada com a do relatório do Grantham Institute – mas ainda assim mais conservadora: a paridade de custo com o motor a combustão seria atingida em 2025, e em 2040 33% dos carros seriam elétricos. No mesmo ano, os elétricos responderiam por 54% das vendas de veículos novos.

Se Kurzweil estiver certo, porém, o próprio Grantham poderá ser acusado daqui a alguns anos de ter sido conservador demais. As vendas do Tesla Modelo 3 darão a resposta: se ele se comportar mesmo como o iPhone, os carros a combustão interna serão aposentados antes do que todo mundo pensa.

Para o Brasil, a notícia é péssima, já que o país há quase uma década fez a aposta no petróleo como alavanca preferencial de desenvolvimento econômico.

Os planejadores de energia tapuias assumem que a demanda por petróleo no mundo está mais ou menos dada até o meio do século. O pré-sal, por ter um petróleo de alta qualidade e de custos de extração relativamente competitivos, deslocaria óleo pesado de concorrentes como a Venezuela, sem necessariamente causar um aumento global nas emissões de carbono. Nada no rumo oficial da política energética brasileira parece vislumbrar o tombo que pode ocorrer nos próximos anos caso os veículos elétricos decolem como o bom senso e a aritmética indicam que decolarão.

Ao contrário: o Plano Decenal de Energia 2026, recém-colocado em consulta pública pela Empresa de Pesquisa Energética, é uma ode teimosa ao passado. Prevê que mais de 70% dos investimentos na matriz energética brasileira ainda sejam feitos em fósseis, cifra virtualmente inalterada em relação ao último plano, publicado em 2016. Sobre os carros elétricos, o PDE 2026 faz uma avaliação arrogante:

Ainda que haja um movimento global para a adoção de novas tecnologias veiculares, cabe ressaltar que as transições energéticas são processos usualmente lentos, como revela a história da indústria de energia.
No Brasil, em particular, há aspectos específicos que sugerem uma transição energética ainda mais tardia na indústria automotiva, entre os principais:
• O elevado preço de aquisição de veículos híbridos ou elétricos, já que os modelos comercializados, mesmo com incentivos, têm preços de venda ao consumidor entre R$ 115 a 250 mil, em média (Carros UOL, 2015).
Até dezembro de 2016, haviam sido licenciados no total acumulado no país menos de 3,5 mil veículos híbridos e elétricos (ANFAVEA, 2016);
• A preferência revelada pelo consumidor nessa faixa de preços é por maiores e luxuosos como SUVs, Pick ups (caminhonetes), furgões e sedans médio de luxo (FEBRANAVE, 2015), com características bem
distintas daquelas dos veículos híbridos e elétricos -em geral, veículos de menor porte. É possível que estes se restrinjam, por algum tempo, a um nicho de segundo veículo para faixas de renda mais elevadas. Assim, haveria limites, além do preço, no potencial de mercado desses veículos;

Por fim, conclui o PDE, esses carros só conseguem competir hoje graças a subsídios e incentivos governamentais, e, mesmo que o governo brasileiro fosse criar algum programa de incentivo desse tipo, argumenta a EPE, este se voltaria ao “desenvolvimento de uma plataforma de veículo híbrido flex fuel”.

Em resumo, o que o PDE faz é ignorar deliberadamente o carro elétrico, olhando para trás na curva de crescimento e assumindo que nada vá mudar daqui a dez anos. É de uma miopia assustadora. Pior do que isso, sinaliza o desprezo a uma tecnologia que já está no mercado em favor do desenvolvimento de uma fantasia, o tal “híbrido flex”. Não vai acontecer, amigues. Sou capaz de apostar um ingresso para um show do Iron Maiden com o presidente da EPE como o motor a explosão estará morto antes de o primeiro híbrido flex de passeio entrar numa concessionária. Se é que alguma empresa automobilística colocaria dinheiro no desenvolvimento dessa sandice. Como o dirigismo estatal dilmista no setor energético parece felizmente estar enterrado, o híbrido flex é um sonho difícil de se materializar.

Ignorar a bola tecnológica da vez em favor de cavalos mancos não será a primeira cagada da nossa energocracia. O Brasil desprezou a energia eólica durante muito tempo, perdeu o bonde da solar – uma das indústrias que mais crescem e geram emprego na economia mundial – e até mesmo o etanol, onde o país tinha a faca e o queijo na mão, foi ignorado em favor da miragem do pré-sal (a década perdida com isso entre 2007 e 2016 dificilmente será recuperada, por mais que sonhem os defensores do RenovaBio).

Agora, o Brasil aposta que vai vender etanol e petróleo para o mundo todo por muitas décadas e que nesses dois produtos está o tão sonhado “passaporte para o futuro”. Vai quebrar a cara. A demanda mundial por óleo para veículos leves deve despencar nos próximos anos. O álcool tem algum futuro na aviação e no transporte de carga, mas isso só até Elon Musk inventar uma bateria para caminhões. Salvo algum programa nacional de salvação do transporte fóssil ou de restrição governamental ao carro elétrico, – e tenho certeza de que a Anfavea está trabalhando nisso dia e noite –, a demanda nacional por motores a explosão também vai cair. Como dizem os americanos, a escrita está no muro.

O governo brasileiro deveria estar em pânico com outra coisa: um tombo permanente na indústria do petróleo seria devastador para a economia nacional. Tivemos um vislumbre do que isso pode significar olhando a situação atual do Rio de Janeiro: a crise na Petrobras e a queda no preço do barril nos últimos anos arrasaram as finanças do Estado. Isso, por sua vez, se reflete no noticiário policial. O Rio voltou a ser aquele lugar dominado pelo tráfico, onde bebês são mortos por balas perdidas na rua e para onde as pessoas têm medo de viajar.

O país inteiro deveria tomar a situação fluminense como um cautionary tale e pensar no que fazer para manter o Estado e boa parte da economia nacional funcionando e as pessoas empregadas depois que o petróleo se for. Olhar para o passado e assumir o mesmo estado estacionário para o futuro é péssima política, péssima economia e a encomenda certeira de um desastre social.

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