fevereiro 9, 2010
Categoria: Charles Darwin
Muito se falou no último
EWCLiPo ( II Encontro de Weblogs científicos em língua portuguesa) sobre a eterna discussão entre Jornalistas e blogueiros de ciência. Acho que esta discussão já não é mais necessária e, como
diria o Ed Young, ela já deveria ter terminado em 2006. Digo isso porque o problema é bem simples de ser resolvido. Existem, em termos gerais, dois tipos de divulgadores de ciência: os bons e os ruins. Dentre os bons temos pessoas de todas as áreas, inclusive jornalistas, como o grande
Carl Zimmer. E dentre os ruins temos vários exemplos que não precisam ser citados, incluindo cientistas de renome. Tenho toda a certeza que o jornalista
Reinaldo José Lopes pode ser classificado dentre os bons divulgadores de ciência, e posso resumir o porquê. O motivo é bem simples e acho que todos os cientistas, sem exceção, deveriam buscá-lo. Reinaldo consegue passar informações cientificamente corretas para um público que nunca passaria perto de um artigo científico. Nem perto de um livro dos grandes divulgadores de ciência como Richard Dawkins, Jay Gould, Carl Sagan. Considero o livro
"Além de Darwin" (Editora Globo) do Reinaldo José Lopes o único livro de divulgação científica sobre evolução que eu daria para a minha mãe ler. E este é o auge do que precisamos em termos de divulgação científica, principalmente no Brasil.
Com certeza um dos motivos que fazem o
"Além de Darwin" ser um ótimo presente para um público não iniciado em evolução está no seu formato. Mesmo não tendo gostado do título e, principalmente da capa (sabemos que o autor do livro é sempre o último a ver), acredito que o formato do livro dividido em textos curtos, em sua maioria com temas de grande apelo para o leitor (como, por exemplo, na página 23:
"Vamos ao que interessa: sexo") e uma linguagem com termos coloquiais e mais simples atraem um público mais amplo. O problema talvez é que esse público alvo pode não chegar a abrir o livro, já que a foto do Darwin carrancudo e um título meio pesado podem afastar o leitor de ser iniciado (no bom sentido, claro). Algo como "Pílulas de evolução" refletiria melhor o que o livro apresenta. Não sei se atraria mais leitores, mas seria mais condizente com o conteúdo. Também não sei como funciona a pressão de uma grande editora para publicar um livro com Darwin no título em pleno ano Darwin, o que é realmente uma pena. Dentre os vários casos interessantes tratados de forma muito bem humorada (#eurialto, e várias vezes), posso ressaltar os capítulos
"Feto malvado, mamãe mão de vaca - Embriões e os seus truques sujos para extorquir as grávidas";
"Até logo, e obrigado pelos peixes - Baleias e golfinhos têm o cérebro mais avançado da Terra?" e
"Donald, o bem-dotado - Batalha sexual faz dos patos os campeões penianos do mundo".
Um ponto que normalmente é o estopim de uma boa discussão (ou não) sobre evolução é o assunto religião. Não é preciso conhecer o Reinaldo pessoalmente para saber o seu ponto de vista sobre o assunto. Católico praticante (acho que não deveria existir a expressão católico não praticante, mas ela é bem utilizada), ele deixa isso bem claro no texto, principalmente na última parte do livro intitulada "Esperanças: do certo, do errado, da fé e da razão". Não irei aqui questionar opniões pessoais quanto a religião, mas um ponto acho interessante ressaltar aqui. Concordo plenamente com o Reinaldo que
"A biologia evolutiva não vai, sozinha, ensinar-nos o que fazer com a Terra" (pág 231), nem mesmo a ciência como um todo. Mas esse não é e nunca foi o objetivo desta ferramenta. Muito menos trazer aspectos de moral para o ser humano. No parágrafo anterior, este aspecto é levantado:
"Ao fim e ao cabo, a dúvida entre simplesmente seguir nossos instintos mais tribais, favorecendo parentes e aliados e se lixando para o resto, e tentar estender a toda a nossa espécie, e quem sabe uma parcela significativa do resto dos seres vivos, uma só teia de compaixão, não tem uma resposta puramente racional. Argumentos baseados na razão só vão até certo ponto."
Acho que este argumento contradiz um pouco a ótima defesa do evolucionismo perante o Design desinteligente (como diria Dawkins) feita no capítulo intitulado
"Desinteligências - por que a hipotese do design inteligente é má ciência e péssima teologia". Neste capítulo, Reinaldo usa um argumento interessante (pág. 203):
"Vamos supor que os IDesigners estejam corretos. Sim, há indícios claros de planejamento inteligente nos seres vivos. Peço licença para perguntar. O que fazemos com isso? Para onde vamos daqui para frente? É possível expandir o conhecimento sobre a biologia de alguma maneira com essa premissa, além do meramente descritivo?"
Se hoje não temos um pleno conhecimento de como funciona a moral e o autruísmo em seres humanos e em macacos, isso não corrobora a ideia de que a compaixão é algo que a razão pura não explicaria. Como o próprio Reinaldo frizou, a defesa dos IDesigners que o evolucionismo está errado porque há sinais de design inteligente não ajuda a expansão do conhecimento científico. Pode até restringir se for levada a sério. Tenho certeza que atualmente ainda existem muitas lacunas em relação ao nosso entendimento de moral e autruísmo. Mas o conhecimento está avançando. Dou como exemplo uma
matéria da Nature News sobre um artigo que fala da origem da moral humana e um artigo da PLoS ONE intitulado
Autruísmo em chipanzés: o caso da adoção. Não estou afirmando que estes exemplos provam que o autruísmo e moral são frutos apenas da razão. Mas dizer que a razão não explica não ajuda em nada o estudo deste interessante ramo da ciência.
Tirando a minha opnião pessoal sobre a pequena parte do livro dedicada a religião, gostaria de ressaltar que é simplesmente incrível como o livro
"Além de Darwin" de Reinaldo José Lopes é ágil, simples e ao mesmo tempo muito correto cientificamente. Sem dúvida alguma recomento a leitura ao público leigo mas também aos cientistas e divulgadores de ciência amadores (grupo ao qual eu me encaixo). Temos uma aula de como passar informação científica para um público leigo de um grande jornalista. Ótimo exemplo de não ser ralo demais (o que muitas ONGs ambientalistas praticam) e nem complexo demais (como a maioria dos livros de Dawkins e Gould).
Escrito por Luiz Bento em fevereiro 9, 2010 12:04 PM • 0 Comentários • 0 TrackBacks
fevereiro 7, 2010
Categoria: Aquecimento global
Gostaria de indicar neste domingo de calor africano uma leitura bem interessante. O artigo intitulado "Solução global, problema local" do nosso vizinho de Scienceblogs Brasil
Igor Zolnerkevic publicado na ótima revista de divulgação científica
Unesp Ciência.

O artigo do Igor fala sobre um dos vários problemas consequentes de um plantio em monocultura de larga escala e que são mascarados quando só olhamos para o problema ambiental da moda, no caso, o Aquecimento Global. Somente uma pequena parte do nitrogênio adicionado via fertilização é absorvido pelas plantas, fazendo com que os agricultores tenham que usar cada vez mais fertilizantes para obterem um crescimento satisfatório. Este nitrogênio em excesso pode ser lixiviado pela água da chuva para os ecossistemas aquáticos adjacentes ou ser emitido para o ar. O excesso de nitrogênio em ecossistemas aquáticos resulta em um processo já bem conhecido, chamado de eutrofização artificial. Mas a emissão de nitrogênio em forma gasosa pode resultar na chamada "chuva seca" de fertilizantes, transferindo o nitrogênio para regiões bem distantes de onde eles foram inicialmente alocados. Para entender melhor este processo, nada melhor do que ler o
artigo do Igor e visualizar o extremamente bem feito infográfico sobre o assunto. Também tratei um pouco sobre o efeito do excesso de nitrogênio em um
post bem antigo aqui no blog.
Para quem ainda não entendeu o ponto de interrogação no título do post, o objetivo foi ressaltar o meu ponto de vista que os biocombustíveis de plantas terrestres estão longe de serem "a" Solução global para os nossos problemas ambientais. E isso é um assunto para uma série de posts que está sendo preparada.
Todos os artigos da revista
Unesp ciência são disponibilizados em pdf, então recomendo a leitura deste bom exemplo de jornalismo científico brasileiro.
Escrito por Luiz Bento em fevereiro 7, 2010 12:24 PM • 4 Comentários • 0 TrackBacks
fevereiro 5, 2010
Categoria: Comportamento

Não se assuste. O exemplo clássico que aprendemos no colégio está correto. Mamíferos e aves são normalmente utilizados nos exemplos de animais que buscam a homeostase de forma ativa (com gasto de energia). A homeostase é a capacidade de um organismo manter condições internas constantes diante de um ambiente externo variável. Chamamos estes organismos que mantém a homeostase através da geração de calor corporal interno de endotérmicos. Organismos como répteis e as abelhas (e todos os outros insetos) normalmente são classificados como ectotérmicos, que ajustam a sua temperatura interna através do comportamento. Tenho certeza que você já escutou falar do termo "lagartear", que significa ficar estendido deitado, sem pressa, como os répteis costumam fazer debaixo do sol para aumentar a sua temperatura interna.
Vai um protetor solar aí? Acho que não precisa... Cédito: ingridtaylar
Mas é claro que a natureza é um pouco mais complexa e o limite que colocamos nas nossas classificações nem sempre são seguidos a risca pelos outros animais, como no caso as abelhas. O comportamento de grupo destes animais é tão interessante que chega a formar uma linguagem própria (como a famosa "Dança das abelhas", já comentada no blog
aqui) e até controlar a temperatura interna de uma colméia inteira, submetida a uma variação externa de temperatura. Controlar de forma verdadeira, aumentando a geração de calor interno em várias abelhas que resultam no aumento de temperatura da colméia como um todo. Mas pera aí. As abelhas não eram classificadas como ectotérmicas, dependendo apenas de aspectos comportamentais para aumentar a sua temperatura interna? Era o tipo de controle de temperatura mais estudado. As abelhas apenas controlariam a temperatura da colméia em conjunto, sem aumentar a temperatura de cada abelha, separadamente. Pesquisadores da Áustria mostraram através de uma interessante metodologia que a história não é bem assim.

Precisamos comprar um aquecedor urgente. Crédito: PLoS One
Com a ajuda de uma câmera que enxerga e mede diferenças de temperatura (processo chamado de termografia), Stabentheiner e colaboradores conseguiram não só constatar o importante papel individual das abelhas na geração de calor para uma colméia, como descobrir que existe uma importante variação em quais abelhas produzem mais calor de forma interna. Quando há uma variação de temperatura externa da colméia, pode haver uma reorganização na quantidade de abelhas responsáveis pela produção de maior parte do calor. Normalmente são as abelhas mais velhas as responsáveis pela regulação da temperatura da colônia, já que há um gasto de energia muito grande neste processo. O aumento de temperatura interna das abelhas se dá através dos músculos toráxicos responsáveis o voo. Assim, cada abelha pode aumentar a sua temperatura interna e contribuir com a regulação da temperatura de toda a colméia, um trabalho de grupo que mantém a temperatura em um ótimo por volta de 33 e 36 graus Celsius.
A importância deste estudo está na abordagem individual de um processo que normalmente é estudado pelo conjunto de abelhas como um todo, o "super organismo". Fatores ambientais relacionados a colméia inteira continuam tendo certa importância na termorregulação das abelhas. Mais o papel individual se torna incontestável. É por essas e outras que os animais sociais são sempre um tema tão interessante para os biólogos.
Referência:
Stabentheiner, A., Kovac, H., & Brodschneider, R. (2010). Honeybee Colony Thermoregulation - Regulatory Mechanisms and Contribution of Individuals in Dependence on Age, Location and Thermal Stress PLoS ONE, 5 (1) DOI: 10.1371/journal.pone.0008967
Escrito por Luiz Bento em fevereiro 5, 2010 2:08 PM • 2 Comentários • 0 TrackBacks
fevereiro 4, 2010
Categoria: Evolução
No livro o Gene Egoísta, Dawkins comenta sobre o efeito que o gene pode ter fora do corpo que o contém, podendo alterar o fenotipo de outros organismos, podendo ser até de uma outra espécie. O artigo que comentarei agora me lembrou isso.
Pesquisadores da Universidade da Pensilvânia estudando a influência do virus do mosaico de côco (VMC) nas suas plantas hospedeiras (abóbora, agora não me pergunte o porquê disso, sendo o côco a planta que vem no nome). Existem dois tipos de comportamento de virus que infectam plantas: o primeiro, chamado de persistente, consiste na planta infectada ficar mais atrativa para afídeos, que ao se alimentar da seiva se contaminam (o virus fica fica residindo na glândula salivar do inseto, após passar pelo seu sistema digestório) e, com isso, podem infectar novas plantas mais tarde; e o segundo, chamado de não-persistente, causa depauperação (as folhas ficam murchinhas), com isso as plantas ficam menos atrativas para os afídeos, além de do virus ficar preso ao aparelho bucal do inseto, sendo necessária que o animal se alimente rapidamente em outra planta para haver a dispersão. Com isso, virus não-persistente devem estimular as plantas a mudarem as substâncias que elas exalam para que o inseto seja repelido o mais rápido possível após se contaminar.
O VMC atua extamente desta maneira, apesar de estar aparentemente "feia", a planta exala grande quantidade de compostos que enganam estes insetos. Pelo o odor e a distância do inseto, parecem estar em perfeita saúde. Mas, ao chegar na planta, o afídeo se alimenta rápido e logo sente que há algo de podre no reino da Dinamarca. Porém, ele já está infectado e parte para outras plantas dispersando rpidamente o virus.
Planta não infectada e infectada pelo CMV (A e B, respectivamente) e a presença de duas espécies de afídeos nelas
Sendo assim, o conjunto de genes (ou o gene) que favoreça o virus a estimular este comportamento nas plantas serão selecionados (admitindo-se que virus estejam sob influência da seleção natural). Só que o alvo desses genes não está no fenótipo do virus (por exemplo, um capsideo mais resistente, ou uma nova fomra de infecção), mas sim no fenótipo da planta (exalará outros tipos de substâncias odoríferas).
Essa mudança de odor de indivíduos infectados é observada em outras doenças também. Por exeplo, hamsters infectados por leishmania atraem mais mosquitos-palhas (vetores da doença) do que indivpiduos saudáveis. Até mesmo em humanos esse comportamento foi verificado, onde crianças infectadas pelo Plasmodium falciparum (causador da malária) atraem mais mosquitos que crianças saudáveis. Desse modo, entender a evolução da interação entre agente, hospdeiro e vetor é de extrema importância para o entendimento de doenças desse tipo.
Referência:
Mauck, K., De Moraes, C., & Mescher, M. (2010). Deceptive chemical signals induced by a plant virus attract insect vectors to inferior hosts Proceedings of the National Academy of Sciences DOI: 10.1073/pnas.0907191107
Artigo também comentado no Wired Science
Escrito por Breno Alves Guimarães de Souza em fevereiro 4, 2010 9:04 AM • 5 Comentários • 0 TrackBacks
fevereiro 3, 2010
Categoria: Humor
"- Onde nós estamos na cadeia alimentar, pai?
- Nós somos os aperitivos"
Esse cartoon me lembrou o longínquo quarto período de graduação em Biologia na UFRJ, onde o Professor Wilson (disciplina Zoologia 4) apresentava a ordem Clupeiformes como a ordem dos "aperitivos", que incluem sardinha, arenque e anchovas. Claro que tudo é uma questão de ponto de vista. Em termos reais, nós somos apenas o "aperitivo" dos zumbis. Ou em última instância dos Aliens.
Para quem gosta de bichos e piadas relacionadas, não deixe de acompanhar o Animal Crackers.
Escrito por Luiz Bento em fevereiro 3, 2010 2:01 PM • 1 Comentários • 0 TrackBacks
janeiro 28, 2010
Categoria: curiosidades
Desde o início deste blog, tenho esta notícia como a que mais me espantou (no bom sentido). Ela só confirma a importância da biotecnologia. Resumindo, quando um protozoário amebóide foi posto para crescer sobre um molde em pequena escala do Japão, onde na posição de cada cidade foi colocado um floco de aveia, este criou uma rede de canais para a distribuição dos nutrientes muito parecida com a rede de ferrovias deste país.

O protozoário é a bolinha amarela na primeira imagem, os flocos de aveia são os pontos menores
Protozoários são formados por uma única célula, porém o Physarum polycephalum consegue ser visto a olha nu. Então, ao ser exposto a várias fontes de alimento, esse ser circunda cada uma delas e cria uma rede de canais para distribuir os nutrientes pela extensão da célula toda. Claro que não é de primeira, como vemos na figura acima, primeiro o protozoário explora o ambiente e vai encontrando as fontes de alimento, além de ir criando varios canais entre elas. Com o passar do tempo, alguns dos canais são "destruídos" para otimizar esta distribuição e, depois de 26 horas do ínicio do experimento, podemos ver o resultado final muito parecido com a malha ferroviária japonesa.
Por fim, os pesquisadores, baseados nas propriedades biológivas de formação de canais do protozoário, criaram uma descrição matemática para desenvolvimento de redes. Este modelo, assim como o ser vivo, gerencia os canais, eliminando os redundantes e aumentando o calibre dos com maior fluxo. Uma das possíveis utilidades pode ser a elucidação de dúvidas sobre o crescimento vascular que alimenta os tumores.
Fonte: Wired Science
Escrito por Breno Alves Guimarães de Souza em janeiro 28, 2010 7:30 AM • 8 Comentários • 0 TrackBacks
janeiro 27, 2010
Categoria: ano darwin

Para quem nunca leu um livro de divulgação científica de Richard Dawkins e apenas conhece este biólogo queniano (sim, ele nasceu no Quênia) pelas críticas fervorosas ao seu livro mais midiático intitulado "
Deus, um delírio" (Companhia das letras, 2007) e pelo seu
famoso bom humor, uma recomendação: Comece sua trilha através do seu último livro "O maior espetáculo da Terra" (Companhia das letras, 2009). Neste livro, toda a destreza de um dos maiores divulgadores de ciência de todos os tempos é demonstrada, através de uma argumentação simples, direta e convincente. Considero esta mais recente empreitada de Dawkins como uma aula por escrito, onde o leitor/aluno sente-se preso ao escritor o tempo todo, até o último parágrafo, como em toda boa aula.
Claro que para leitores mais acostumados com a escrita Dawkiniana, o estilo sarcástico e divertido do autor não podem ser considerados como "grandes novidades". Mas neste livro podemos encontrar várias cartas na manga, o que o torna uma leitura interessante para todos os públicos, mesmo os fissurados por biologia e, principalmente, evolução. Então vamos começar do princípio, com o objetivo do livro. Mais uma vez, Dawkins coloca um grande objetivo por trás de um dos seus projetos. Este é colocado de forma clara na contracapa de "O Maior espetáculo da Terra":
"A evolução é um fato, e este livro o demonstrará. Nenhum cientista que se preze o contesta, e nenhum leitor imparcial fechará o livro duvidando disso."
Richard Dawkins - O maior espetáculo da Terra, 2009 (contracapa)
Para quem acompanha o autor, este objetivo claro e forte em relação aos leitores não é novidade em um livro de Dawkins. Comparem com esta frase do seu livro "Deus, um delírio":
"Se este livro funcionar do modo como espero, os leitores religiosos que o abrirem serão ateus quando o terminarem."
Richard Dawkins - Deus, um delírio, 2007 (divulgação)
Com toda a certeza a previsão feita no livro mais recente é mais factível do que em relação aos leitores religiosos. Desentendimento com religiosos a parte, o fato da evolução é defendido por grande parte dos crentes em algum tipo de religião, descontando os mais fanáticos. Desta forma, tenho certeza que grande parte das pessoas fechará "O maior espetáculo da Terra" sem dúvidas sobre o fato da evolução.
Dentre os vários pontos altos deste livro posso citar a interessante crítica ao uso do termo "teoria" para se referir tanto a evolução quanto ao criacionismo, no capítulo intitulado "Apenas uma teoria?". Uma busca rápida no google com o termo em português "teoria do criacionismo" resulta em quase 80.000 entradas, que podem ser encontradas em grandes jornais e até em sítios educativos como "Brasil escola" e "Mundo educação". O que mostra a importância desta discussão. Exemplos do poder da seleção artificial como no caso da
pesquisa feita com lobos na Rússia, associados a evolução "Bem diante dos nossos olhos" dos experimentos de longa duração com
E. coli feitos por Richard Lenski, mostram ao leitor que a evolução está longe de ser "apenas uma teoria". O trabalho de mais de 20 anos realizado por Lenski é tão emblemático que foi descrito ao longo de quase 20 páginas do livro e também foi lembrado pelo Breno
aqui no blog no início do ano passado. Vale ressaltar outro ponto interessante do livro que é a relevante discussão sobre o que os criacionistas consideram como os "furos" da evolução no capítulo intitulado "Elo perdido? Como assim, 'perdido'?". Os "elos perdidos" estão mais "achados" do que muita gente imagina.
Um ponto curioso do livro está no parágrafo em que Dawkins faz uma coisa um pouco incomum em seus textos, que é uma "autocrítica" bem humorada, que resultou em boas risadas quando li:
"Quando a teoria neutra da evolução molecular foi proposta pela primeira vez, entre outros pelo grande geneticista japonês Motoo Kimura, ela era polêmica. Hoje muitos aceitam alguma versão desta teoria, e, sem esmiuçar as evidências aqui, irei aceitá-la neste livro. Dada a minha reputação de "arquiadaptacionista" (alegadamente obcecado pela seleção natural como a principal e até única força propulsora da evolução), o leitor pode ter confiança de que, se até eu apoio a teoria neutra, é improvável que muitos outros biólogos oponham-se a ela!*
*Já fui, inclusive chamado de "ultradarwinista", um motejo que considero menos insultante do que talvez tivesse em mente quem o proferiu."
Richard Dawkins - O maior espetáculo da Terra (Páginas 311-312)
Claro que este parágrafo não foi uma verdadeira "crítica", como as que tomaram conta até de um livro inteiro, intitulado "
The Selfish Genius: How Richard Dawkins Rewrote Darwin's Legacy" da especialista em "comunicação da teoria da evolução"(?) Fern Elsdon-Baker. O livro ainda não foi publicado no Brasil, mas já trouxe bastante controvérsia
lá fora. Acho que o Dawkins é um pouco avesso a "novidades", como demonstra na página 204 ao chamar a "Epigenética" de "
...um termo pomposo atualmente gozando dos seus 15 minutos de fama na comunidade biológica", mas nada disso pode manchar a sua importância como divulgador do legado de Darwin, Wallace e muitos outros evolucionistas.
"O maior espetáculo da Terra" não termina nesta discussão. Dawkins passa ainda por embriologia, movimento dos continentes, críticas diretas ao que ele chamou de "Design desinteligente". E ainda existem dados de pesquisas alarmantes da influência do criacionismo na população da Europa e dos EUA, no apêndice "Negadores da história" (ótima analogia, como a utilizada atualmente para descrever os antigamente rotulados "céticos do clima").
Para fechar esta resenha gostaria de compartilhar um parágrafo que pareceu um pouco perdido no meio do texto, mas que me despertou para a importância da divulgação científica como um todo. É uma ideia simples, mas parece que muita gente não pensa desta maneira:
"Causou-me certa irritação ler um folheto, no consultório do meu médico, alertando sobre o perigo de parar de tomar comprimidos de antibiótico antes do tempo prescrito. Não há nada de errado no aviso em si, mas a justificativa apresentada preocupou-me. O folheto explica que as bactérias são 'expertas' e aprendem a lidar com antibióticos. Presumivelmente os autores acharam que o fenômeno da resistência aos antibióticos seria mais fácil de entender se eles o chamassem de aprendizado em vez de seleção natural. Mas falar em esperteza e aprendizado para bactérias é confundir o público, e sobretudo não ajuda o paciente a compreender por que ele deve seguir a instrução de continuar tomando comprimidos até o fim. (...) Folhetos como aquele da sala de espera do meu médico não ajudam nessa educação - uma lamentável oportunidade perdida de ensinar algo sobre o formidável poder da seleção natural".
Richard Dawkins - O maior espetáculo da Terra (Página 130)
Muita gente por aí acha que o público precisa de informação, não importa como e em qual formato ela chegue ao público. Sinto isso principalmente com os ambientalistas em geral. Dizem que devemos "erotizar" a informação, travesti-la de uma roupagem que faça com que as pessoas se interessem mais. Na maioria dos casos, como exemplificado por Dawkins, uma informação passada de forma simples demais, travestida para ser mais palatável, pode trazer mais problemas do que soluções. Passar a informação de forma simplificada mas sem subestimar a inteligência do nosso público alvo não é fácil. Mas nunca, jamais este objetivo deve ser transfigurado. Precisamos atingir um maior público, mas sem perder a qualidade da informação. E neste sentido, Richard Dawkins dá uma aula em "O maior espetáculo da Terra".
Escrito por Luiz Bento em janeiro 27, 2010 7:12 AM • 8 Comentários • 0 TrackBacks
janeiro 24, 2010
Categoria: divulgação
Não sei se todos os leitores aqui do blog já repararam em um selo que é colocado no início de posts que discutem artigos publicados em revistas científicas revisadas por pares. Para quem não conhece, o selo é este:
A ideia é bem simples. Juntar blogs dispostos a discutir pesquisa científica publicada em periódicos sérios, em que os trabalhos passem pelo chamado "peer-review". A iniciativa é do grupo
SEED, que montou um portal que reúne posts de blogs científicos que discutem este tipo de artigos. O portal é chamado de "
Research Blogging" e concede além do selo que identifica os posts que discutem artigos científicos (chamado carinhosamente pelo
Karl de "medalha"), um mecanismo que cria facilmente citações a partir de um número chamado
DOI. O portal continha blogs apenas na língua inglesa, mas recentemente os criadores expandiram o seu alcance ao englobar diferentes línguas como alemão, espanhol, chinês e, é claro, o nosso bom e velho português. Os responsáveis pela versão em português do Research Blogging são o
Atila (vizinho aqui do SB), a competente
Tati Nahas do
Ciência na mídia e um rapaz chamado
Luiz Bento. Se você escreve sobre ciência revisada por pares não deixe de
ler as regras e o nosso blog em português sobre o Research Blogging.
Se você ainda não se convenceu a participar desta comunidade, depois do que eu vou contar tenho certeza que não haverão mais desculpas. O Research Blogging anunciou recentemente que teremos uma premiação em $$ para os melhores posts e blogs em todas as línguas! Pode não ser um prêmio tão gordo, mas a iniciativa é bem interessante. Abaixo as informações sobre o prêmio que eu copiei descaradamente do blog bem mais competente da Tati:

Research Blogging Awards 2010
A premiação do Research Blogging do
Seed Media Group homenageia os excelentes blogueiros que praticam a
pesquisa revisada por pares. Com cerca de 1,000 blogs registrados no
ResearchBlogging.org e 8,500 posts sobre pesquisa revisada por pares já
publicados, é hora de reconhecer os melhores dentre os melhores.
Qualquer blog que pratique pesquisa
revisada por pares é elegível para nomeação e os vencedores serão
selecionados por votos de seus pares na comunidade do Research
Blogging. Todos os finalistas serão destacados no ResearchBlogging.org
e os vencedores receberão prêmios em dinheiro que totalizam US$2000.
Os vencedores serão selecionados da seguinte forma:
1. Nomeações: Todos
podem nomear um blog (incluindo o seu próprio) para ser considerado
para a premiação, mas apenas blogs que praticam revisão por pares de
acordo com nossos requerimentos serão considerados para a premiação. As nomeações serão encerradas em 11 de fevereiro de 2010. Clique aqui para nomear seus favoritos.
2. Finalistas: Um juri
composto por especialistas irá selecionar entre 5 e 10 finalistas em
cada categoria. Os finalistas serão anunciados em 25 de fevereiro de
2010.
3. Votação: Apenas
usuários registrados no ResearchBlogging.org poderão votar para
selecionar os vencedores. Para ser um usuário registrado, é preciso
atender nossos requerimentos de blogagem sobre revisão por pares (clique aqui para se registrar). A votação estará aberta de 25 de fevereiro a 11 de março de 2010.
4. Prêmios: Os prêmios serão anunciados em 23 de março de 2010. Os vencedores serão selecionados a partir das seguintes categorias:
- Research Blog do Ano $US$1,000
- Post do Ano Year $50
- Research Tuiteiro do Ano $50
- Melhor Novo Blog (iniciado em 2009) $50
- Melhor Blog Especializado $50
- Melhor Blog para Leigos $50
- Blog mais engraçado $50
- Melhor Blog -- Espanhol $50
- Melhor Blog -- Alemão $50
- Melhor Blog -- Português $50
- Melhor Blog -- Chinês $50
- Melhor Blog -- Biologia $50
- Melhor Blog - Química, Física ou Astronomia $50
- Melhor Blog - Pesquisa Clínica $50
- Melhor Blog - Ciência da Computação, Engenharia ou Matemática $50
- Melhor Blog - Conservação ou Geociências $50
- Melhor Blog -- Saúde $50
- Melhor Blog -- Psicologia $50
- Melhor Blog - Filosofia, Pesquisa ou Scholarship $50
- Melhor Blog -- Neurosciencias $50
- Melhor Blog - Ciências Sociais ou Antropologia $50
Segundo uma contagem informal do
Atila, já passamos dos 30 blogs de ciência em português inscritos! Não deixe de visitar e participar desta iniciativa.
Escrito por Luiz Bento em janeiro 24, 2010 3:59 PM • 0 Comentários • 0 TrackBacks
janeiro 5, 2010
Categoria: Comportamento
Lendo o último livro do Dawkins "O maior espetáculo da Terra" (em breve
farei uma resenha aqui no blog) encontrei exemplos interessantes do
poder da seleção artificial, mais conhecida como domesticação quando
falamos em animais. Um dos exemplos citado por Dawkins é da evolução de aspectos domésticos no lobo selvagem. Esta pode ser muito mais rápida do que podemos imaginar. Experimentos realizados na Rússia mostraram que em apenas 6 gerações de raposas selvagens selecionadas artificialmente características como avidez pelo contato com humanos, "choro" por comida, farejar e lamber os tratadores, etc já se mostravam dominantes.
Não pude deixar de lembrar da tirinha abaixo.
Clique para ampliar
- Domesticação é uma grande afronta a minha natureza predadora.
- Quem é o bonitinho, fofinho, lindo da mamãe?
- Claro, ela pode ter suas vantagens.
Escrito por Luiz Bento em janeiro 5, 2010 11:41 AM • 10 Comentários • 0 TrackBacks