Narcos: Além de cocaína, hipopótamos!

A estreia da série Narcos (que eu comecei a ver só agora), me fez relembrar do caso em que o controverso traficante Pablo Escobar esteve, e ainda está mesmo depois de morto, envolvido com problemas ecológicos.

narcos

Isso mesmo. Não bastasse toda a questão do narcotráfico, Pablo Escobar, quando ainda vivo, montou um zoológico na Colômbia. O Bizarro era que excursões era organizadas para visitar o recinto do traficante. Sendo que existia até uma ala Jurássica. Isso mesmo! Jurassic Park do pó!

Entrada da Fazenda Nápoles

Entrada da Fazenda Nápoles

Mas voltando ao assunto dos hipos, a zoológico era localizado na Fazenda Nápoles. Pablo começou sua coleção de hipopótamos começou com três fêmeas e um macho. Porém após a sua morte (em 1993), estes animais começaram a se reproduzir desordenadamente. Em um ambiente favorável, os animaizinhos encontraram um paraíso fora da África.

Em 2008, a fazenda foi alugada para uma empresa particular e transformada em parque. Porém, tal empresa alega não ter condições para arcar com a manutenção dos animais, mas também não tem recursos para retirar os animais de lá. Entretanto, os hipopótamos continuam sendo atração no parque.

Atualmente, acredita-se que o número de hipopótamos seja de aproximadamente 60, sendo o maior grupo de hipopótamos fora da África. O grande problema é que tais animais consomem quantidades enormes de alimentos, além de serem extremamente perigosos.

E como era de se esperar em uma equação de poucos recursos e animais mortíferos fora de seu habitat natural, em 2009, soldados colombianos abateram um macho que fugiu com uma fêmea. Eles alegaram ameaça a segurança da população ribeirinha da região.

 

Animal abatido pelo exército

Animal abatido pelo exército

E em 2014, o governo colombiano começou um programa de castração para controle populacional da população financiado pelo dinheiro recuperado de tráfico de drogas.

A introdução de espécies exóticas em ambientes pode ser extremamente danosa em alguns casos. Vide o caso, por exemplo, do mexilhão dourado em ambientes aquáticos de água doce aqui no Brasil. Além da possível competição com as espécies nativas e, por vezes, eliminação das mesmas, tem-se no dos hipopótamos a questão de segurança pública, uma vez que esses animais são extremamente territorialistas principalmente em épocas de acasalamento. Eles chegam a matar em média 3 mil pessoas por ano.

Este então é o legado ecológico de Pablo Escobar: a maior população de hipopótamos fora da África! Descontrolada, mas a maior!

Sons da ciência

Sobre como estimular futuros cientistas e o nosso medo da iniciativa privada

 

Estive no dia 21 de maio em Brasília na sede do nosso querido CNPq (não teria minha formação sem ele) a convite da Fundação Roberto Marinho – uma das parceiras do evento – na cobertura do anúncio do Prêmio Jovem Cientista 2015. Para quem não conhece, o prêmio pode parecer apenas mais um dentre outros, mas não é bem assim. O que chamou minha atenção foram duas coisas: o prêmio é muito mais importante e interessante do que eu achava anteriormente e o potencial da iniciativa privada cooperar com a divulgação científica e o ensino de ciências é gigantesco. Descobri tudo isso em uma grande correria que foi o final do mês de maio, que começou no interior de Minas em uma mesa redonda sobre divulgação científica, passou por Brasília e terminou na Colômbia. Explico a parte da Colômbia em outro post.

Se tem algo que sabemos fazer bem, como o Breno disse aqui no blog, é desestimular pequenos cientistas. Falta de apoio aos professores, ausência de laboratórios de ciência, péssima infraestrutura. Os problemas da educação básica em relação ao ensino de ciências são conhecidos, mas sempre esbarramos na boa e velha “vontade política” para nos salvar. Enquanto esperamos por isso e tentamos buscar melhorias na nossa jovem democracia, tenho que admitir que conhecer de forma mais profunda como funciona o Prêmio Jovem Cientista foi uma grande experiência. Realmente o prêmio é mais interessante do que eu achava, já que não é apenas um estímulo a competição, individualidade e egos inflados (comum em entrega de prêmios científicos em geral). A ideia de estimular todas as etapas da produção e ensino de ciência, desde o ensino básico até as instituições é uma flecha certeira.

Além de premiar os indivíduos e as instituições, os orientadores e escolas de origem dos alunos não são esquecidos, sendo contemplados com computadores. Os vencedores (1°, 2° e 3° lugar em cada categoria) recebem bolsas de estudo, a experiência de ir em um grande evento com cobertura da mídia nacional (todos tiveram treinamento no dia anterior) e participação na reunião da Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Como extra, ainda serão ser recebidos pela Dilma no Palácio do Planalto. Outra iniciativa interessante desse ano é a webaula disponibilizada no portal do prêmio, voltada para os estudantes de ensino médio. Trabalhei muito tempo com Educação a distância e posso dizer que elas são muito bem feitas e além de tudo são multimídia. Os alunos tem acesso a vídeos curtos sobre o tema, trechos em áudio, indicação de links interessantes e até exercícios. Uma boa maneira dos alunos e professores entenderem a importância do tema e uma boa ajuda para fazer trabalhos que se encaixem melhor no que está sendo pedido.

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Da esquerda para a direita: Luiz Bento, Deloan Perini (1° lugar do ensino superior), Joana Pasquali (1° lugar do ensino médio), Camila Maranha (2° lugar da categoria mestre e doutor) e Everton Lopez (Ciência Hoje)

O tamanho do prêmio não seria o mesmo sem a participação da iniciativa privada. Se existe uma barreira no meio acadêmico brasileiro é a relação com instituições privadas. Algumas delas já tem uma relação mais forte com universidades como é o caso de fundações que financiam pesquisa. Mas o que não discutimos é o apoio direto no ensino de ciências e na divulgação científica. Empresas podem e devem se preocupar com a educação e investir em parcerias com instituições públicas, tanto que o presidente do CNPq reconheceu e cobrou isso em vários momentos da entrega do prêmio. E não faz mal a ninguém reconhecer o bom trabalho de uma empresa, que investiu em um evento importante para muitos cientistas e futuros cientistas. Em um momento de discussão sobre a crise do financiamento da ciência tanto no Brasil como no resto do mundo, iniciativas como o crowdfunding científico devem ser apoiadas. Mas acho que uma parceria institucional com a iniciativa privada por ser um dos promissores caminhos a serem seguidos. Desde que tanto cientistas como educadores percam um pouco do medo da iniciativa privada e que a iniciativa privada encare a ciência e a divulgação científica como uma contra partida necessária.

O canal Futura transmitiu o evento ao vivo por streaming e o vídeo está disponível abaixo. Você também pode conferir a minha cobertura no evento feita no meu twitter (@luizbento) de forma organizada no Storify.

Divulgação científica até no interior de Minas

No final do mês passado tive o prazer de conhecer um pouco o trabalho de dois professores de uma cidade no interior de Minas chamada Rio Paranaíba. Você pode não conhecer a cidade e achar que é um pouco longe para chegar, mas uma coisa você tem que reconhecer: Lá tem gente trabalhando boa parte do seu tempo livre e não livre em divulgação científica. Além de fazer tudo o que todos os outros professores de universidades públicas já fazem.

A universidade é a Federal de Viçosa, campus Rio Paranaíba. O prédio da universidade ainda é recente e podemos ver no mesmo terreno prédios novos que ainda irão fazer parte do complexo. Mas lá eu tive o prazer de conhecer pessoalmente o Prof. Rubens Pazza, que antes eu só conhecia de forma virtual. Ele e sua esposa Profa. Karine Frehner Kavalco lideram o Laboratório de Genética Ecológica e Evolutiva (LaGEEVo), mas não param por aí. Além de terem uma linha de pesquisa interessante, dar aulas para a graduação em Ciências Biológicas e para a pós-graduação, orientar alunos, cuidarem de duas filhas pequenas…Ufa, não para por aqui. O trabalho que ainda falta e que me deixou muito entusiasmado foi a dedicação a extensão. Palavra tão conhecida nas universidades, mas tão pouco praticada pelos acadêmicos. O que eu já conhecida pela internet e passei a conhecer no mundo offline foram as iniciativas desses dois docentes na área da divulgação científica.

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Se eu for detalhar cada iniciativa o texto vai ficar muito longo, então vou descrever e colocar o link para mais informações. As iniciativas estão reunidas no programa Semeando ciências, um guarda-chuva de atividades que incluem: Rock com ciência, um podcast sobre ciência que já teve alguns formatos diferentes e hoje é mantido por bolsistas de iniciação científica do LaGEEVo e pelo Rubens e Karine; Biologia na web, um portal sobre notícias na área da biologia e divulgação científica; e o Folha Biológica, um jornal de divulgação científica na área biológica que publica textos inéditos em forma de jornal. Os números são publicados em pdf no site, mas o detalhe é que eles conseguem fazer uma tiragem de 3 mil exemplares que são distribuídos em 200 escolas públicas da região do Alto Paranaíba. Isso mesmo, professores universitários que além de fazerem pesquisa, ensino e extensão nos seus laboratórios ainda fazem um trabalho de divulgação científica chegar diretamente a escolas da região para serem trabalhados por professores em sala de aula. E você professor universitário reclamando que não tem tempo de orientar aluno…

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E como eu conheci tudo isso? Infelizmente iniciativas como essa não ganham grande publicidade, por isso eu tive que conhecer ela de forma mais profunda in loco. Sim, tive o prazer de conhecer Rio Paranaíba a convite do Prof. Rubens Pazza para participar de uma mesa redonda sobre divulgação científica no V Simpósio da Biodiversidade, ao lado de dois importantes atores da divulgação científica na internet: o biólogo Atila Iamarino (Nerdologia, ScienceBlogs Brasil) e o jornalista Carlos Orsi (Revista Galileu, autor de livros de divulgação e ficção). Nossa mesa redonda foi gravada e publicada como um episódio especial do podcast Rock com Ciência e pode ser baixada aqui. Coloquei os slides da minha apresentação no slideshare para facilitar a vida de quem quiser entender as referências que eu cito na palestra.

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Mesa redonda sobre divulgação científica na UFV-CRP

 

Para não perder a viagem, tanto eu como o Carlos Orsi gravamos também outros dois episódios especiais do Rock com Ciência sobre nossas especialidades “alternativas”, cerveja e Sherlock Holmes, respectivamente. Depois de dois dias intensos entre viagem, mesa redonda, podcast, eu não poderia deixar de agradecer o acolhimento e carinho do pessoal da UFV-CRP que estava presente na mesa redonda, da pequena grande equipe do Rock com Ciência formada por Pierre Penteado, Marcos Silva, Francisco Sassi, Matheus Lunardi e Matheus Lewi, e da Janaína Pazza que é a jornalista responsável pelo Folha Biológica.

Gravação do Rock com Ciência sobre Cerveja

Gravação do Rock com Ciência sobre a cultura e ciência da cerveja

Como eu falei na mesa redonda, não acho que todo professor universitário tem que ser obrigado a fazer divulgação científica. Mas todos tem que ser obrigados a apoiar e prestigiar iniciativas legais como as coordenadas pelo Rubens, Karina e sua equipe. Parabéns a todos os envolvidos e continuem o grande trabalho.

 

 

Continua a saga da discussão sobre conservação das espécies

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Isso é uma tentativa de piada. Acho que os pandas são tão burros quanto nós. Crédito: EllieBell

Se o caro leitor acompanha este humilde blog já deve saber que a conservação de animais “feios” não é um tema novo por aqui. Lá em 2009 fiz uma campanha para salvar as lindas e fofas lampreias, também falei sobre a importância da conservação de micro-organismos e até da criação de uma sociedade para a preservação de animais feios. Acho que não é difícil entender que a grana para preservação das espécies é curta e que devemos fazer escolhas. Pelo menos não parece difícil na teoria.

A triagem de espécies na conservação é parecida com o que um médico de um hospital público brasileiro faz em seu dia-a-dia, priorizando de forma lógica qual paciente deve ser atendido primeiro. Parece bem simples e fácil, na teoria. Mas quando chegamos na prática é que a situação complica. Ainda mais quando estamos falando de bichos que mais parecem um bebê-fofo-gigante-peludo desesperado por um abraço, como o caso dos pandas. Em 2011 levantei o exemplo dos pandas para discutir os dados de um artigo científico que tentou entender a visão dos pesquisadores da área sobre a conservação de espécies. Desde aquela época eu achava que a triagem na conservação era um assunto que deveria ser debatido de forma mais crítica pela sociedade, já que cada vez mais precisamos decidir quais espécies devemos priorizar. Mas é bem difícil falar traduzir um assunto tão complexo de forma clara e simples. Foi o que fez o ótimo canal do YouTube Minute Earth, explicando o dilema em que salvar o panda pode deixar outras espécies mais próximas da extinção.

 

Coincidência ou não o vídeo em menos de uma semana já tem 250 marcações de “Não gostei”, muito mais do que em vídeos recentes como Why are the clouds (72) e Why Don’t Scavengers Get Sick? (152, sendo que esse está há mais de 1 mês no ar). Dá para entender porque o tema é tão pouco comentado e cada vez mais eu tenho certeza que somos crianças quando discutirmos a conservação das espécies. A decisão de salvar ou não uma espécie é difícil, mas aprendemos na vida que não podemos tapar os ouvidos e gritar “lá-lá-lá-lá” para sempre. Ou corremos o sério risco de perder espécies potencialmente muito mais importantes, mas menos fofas do que os pandas.

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