Biodiversidade: temos que nos importar com isso?

Palestra Espaço Ciência Viva

Vemos todos os dias (bem, nem todos os dias) o tema biodiversidade ser abordado na mídia e nas escolas. “O Brasil tem uma grande biodiversidade!”, dizem todos aos quatro ventos. Bem, mas o que é biodiversidade? Isso é importante para nós? Faz alguma diferença na nossa vida termos uma grande biodiversidade?

Esta e outras questões eu espero discutir com todos os presentes no próximo Sábado da Ciência, no Espaço Ciência Viva. O Espaço Ciência Viva fica localizado no bairro da Tijuca (Rio de Janeiro), bem próximo ao metrô. Ele é o primeiro museu participativo de ciências do Brasil e foi criado em 1982. O sábado da ciência reúne diversas atividades, incluindo desde os tradicionais módulos interativos até palestras e exibição de vídeos. O próximo sábado (26/04) terá como tema “Ecologia, Reciclagem e Biodiversidade” e a minha palestra será intitulada “Biodiversidade: temos que nos importar com isso?”. Mais informações sobre as atividades no site do evento.

Como o evento é gratuito aguardo a presença de todos, inclusive das respectivas famílias. Até lá!

Suassuna e o chimpanzé: mais parecidos do que parecem

É inegável a importância literária de Ariano Suassuna para a literatura brasileira e, quem sabe, mundial. Sua história de vida é emocionante, porém quando resolveu falar sobre evolução… Vemos que ele é um magnífico escritor.

No vídeo abaixo, temos um participação dele em uma palestra. Nesse momento, ela descamba para evolução com sua incredulidade no “fato” de que o homem poderia ter vindo do macaco. Ela acha a inteligência da homem muito superior a do macaco. Claro que tenta reafirmar seu comportamento cristão. Duvidando até do papa. Vejam o vídeo.

Primeiramente, nunca houve um casal de macacos que teve um filho humano. Tivemos sim um ancestral em comum. Por volta de 5 a 7 milhões de anos atrás, bem provavelmente, o último entre entre humanos e chimpanzés (hipoteticamente, quando deixamos de ser parecidos com macacos).

Vou me focar nos chimpanzés devido nossa semelhança.

Praticamente, 30% de nossas proteínas são idênticas as de chimpanzé. Geneticamente, nosso genomas diferem em trinta e cinco milhões de mudanças pontuais em nucleotídeos, cinco milhões de inserções/deleções e alguns rearranjos cromossomiais. Para quem gosta de saber quanto isso representa em porcentagem de diferença geral entre os dois genomas, isso nos dá um valor de, aproximadamente, 4%.

Por mais que essa diferença seja muito pequena, a evolução dessas duas espécies, Humanos (Homo sapiens) e chimpanzés (Pan troglodytes), seguiram rumos diferentes, o que não é de se espantar.

Estas diferenças evolutivas proporcionaram aos humanos, nós (pelo menos alguns…), uma capcidade cognitiva maior. Por exemplo, nosso cérebro tem, em média, 1350ml de volume, enquanto o do chimpanzé tem 370, também em média. Mesmo nossos corpos tendo volumes parecidos, isto é, temos uma cérebro maior do que o esperado para o nosso volume corporal quando comparado com outros símios.

Existem algumas características interessantes no cérebro de primatas, tais como:

  • Razão de 1:1 entre os neurônios e células não-neuronais.
  • O tamanho do cerebelo de primatas aumenta linearmente com o seu número de neurônios.
  • O tamanho do córtex cerebral primata aumenta linearmente com o seu número de neurônios.
  • O tamanho do córtex cerebral primata está relacionada com o tamanho da sua cerebelo.

Sendo que todas essas características também ocorrem no cérebro humano.

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Não é difícil achar agora que humanos e chimpanzés são bastante diferentes visto o tempo entre a divergência entre os dois, sendo que existem muito mais coisas que nos assemelham com eles do que nos diferem. Neste contexto das diferenças, temos a manutenção de espessa pelagem sobre a pele dos macacos e nosso bipedalismo (o que causou profundas diferentes anatômicas entre o corpo símio e o humano). Olhem a imagem abaixo, para alguns pode ser até perturbante:

chimpanze_pelado

Em relação a comunicação, os queridos chimps possuem avançada linguagem através de vocalizações e, muito surpreendente, expressões faciais (como alegria, surpresa, raiva, tristeza e outras) muito parecidas com as dos humanos.

Porém o ponto alto da diferenciação feita pelo escritor nordestino entre os humanos e chimpanzés foi a capacidade do homem criar ferramentas, exemplificada pelo pregador. Porém, é de amplo conhecimento a habilidade dos chimpanzés em produzir ferramentas com objetos encontrados na natureza.

Esponja de folhas por exemplo:

Usando varetas para pegar cupins:

E este bem legal, onde eles usam pedras para quebrar sementes e ainda ensinam aos filhos:

É certo que um indivíduo de Pan troglodytes nunca vai produzir computadores, mas diante de tudo isso descrito acima, temos certeza que um outro macaco conseguiu. O macaco Homo sapiens. E fez isso devido (claro que não intencionalmente) ao caminho evolutivo seguido pela espécie via seleção natural.

Porém, o que mais me impressionou foi a desejada superioridade que Ariano quer ter em relação a um macaco. Somos tão superiores assim? Os coronéis do nordeste que mantem a indústria da seca, os quais retratados brilhantemente pelo escritor em algumas de suas obras, são tão superiores assim?

Lembre-se Beethoven, só é Beethoven para gente. Os chimpanzés vivem em harmonia com seu ambiente. Se não fosse por nós, estariam ainda mais tranquilos levando suas vidas. Diferente de nós que destruímos nosso ambiente (e dos outros), além de dizimarmos nossos semelhantes por nada.

Ainda me resta a dúvida se quero ser mais parecido com humano ou com um chimpanzé!

O retorno do mito: Ana Maria Braga fala besteira de novo sobre Biologia

Parece que a Ana Maria Braga tem algum problema pessoal com Charles Darwin. Não sei o porquê, mas sempre que paro para ver o programa dela, me deparo com alguma atrocidade relacionada com o nome de nosso querido naturalista.

Nas duas primeiras vezes (primeira e segunda), a apresentadora confundiu Charles Darwin com Mendel. Atribuiu o trabalho das ervilhas ao Charles.

Porém, agora, em um lampejo, ela atribui a frase sobre evolução para o querido CHARLES CHAPLIN.

Tenho que admitir que ela se corrigiu bem rápido, porém se enrolou todas na continuação.

Juro que não é perseguição, mas ela continua mexendo com os nervos de todos os biólogos do Brasil.

Não basta um ou dois,tem que ser seis.

Não basta um ou dois,tem que ser seis.

 

Update:

O Wadson Alan lembrou bem do post do Biologia Evolutiva sobre essa frase erroneamente atribuída ao Darwin. Eu já tinha lido o post também, mas não me lembrava onde. A questão do meu post foi mais ela ter confundido Chaplin com Darwin. Peguei no pé dela mesmo, mas por causa do passado de besteiras que ela disse (vide os vídeos dos indicados acima). Mas muito obrigado por lembrar do post do Gerardo.

Além de que, esta frase revela um caráter errado sobre evolução: o de que adaptação é uma ação consciente do indivíduo. A adaptação ocorre através da seleção natural sobre variações entre indivíduos de uma mesma espécie. Variações essas devido à mutações aleatórias. Sendo uma variação mais eficiente que outra em deixar descendentes, esta se tornará mais frequente na população. Muito resumidamente seria assim.

Segue a imagem que ele fez sobre o assunto:

 

A polêmica da vacinação contra HPV em adolescentes

A grande polêmica sobre vacinas, atualmente, reside na vacinação contra o HPV humano. Neste contexto, temos duas posição contrárias e distintas: início precoce da vida sexual de adolescente, visto que a vacinação é para a faixa de 11 a 13 anos; e os possíveis efeitos adversos da vacina.

A primeira posição é defendida por alguns líderes religiosos, sendo, no mínimo, patética. Declaram que a discussão sobre a doença causada pelo vírus e suas formas de contágio poderiam “estimular” as adolescentes a iniciariam precocemente sua vida sexual. Não, novela da globo com grande apelo sexual, não, BBB com sexo explícito, não, carnaval na sapucaí, não, essas coisas não estimulam a precocidade sexual, mas sim debates escolares sobre doenças sexualmente transmissíveis. Por favor, declarações dessas deveriam ser passíveis de cadeia. Justamente na faixa etária mais desinformada e de difícil passagem que é adolescência, existem pessoas que não querem promover o diálogo sobre vida sexual.

A segunda posição reside nos efeitos adversos da vacina. Para começar, toda vacina pode gerar algum tipo de feito adverso, mesmo em vacinas da gripe é comum. Na vacina contra HPV não poderia ser diferente. Entretanto, o CDC ainda recomenda a vacinação. A suposta correlação entre a vacina e a síndrome de Guillain-Barré não tem qualquer base científica, pelo contrário, artigos científicos declaram não haver esta correlação.

Além disso, ainda declaram que bastaria o exame de papanicolau para a a detecção e tratamento do câncer. Entretanto, como dito pela matéria, este exame é indicado para mulheres de 25 a 64 anos. Uma adolescente contraindo o vírus com seus 14 anos, por exemplo, teria muito tempo para o mesmo desenvolver as infecções e, posteriormente, o câncer. Justamente por isso a vacinação precoce. Existem artigos científicos (1 e 2) que recomendam a vacinação das adolescentes, uma vez que, após levantamentos sanitários, o número de meninas infectadas precocemente pelo vírus era muito maior do que imaginavam.

Por fim, argumentam que a vacina não cobriria todos os tipos de vírus circulantes na população. Só que isso vacina nenhuma faz. Mais uma vez, cito a vacinação da gripe, que deve ser feita anualmente para a atualização dos vírus novos. Geralmente, os vírus cobertos pelas vacinas são o de maior prevalência.

Este é um tema de grande importância, ainda mais quando relacionado a questões de saúde pública. Temos que ter bastante critério ao fazer qualquer tipo de contra indicação de vacinas. Espero fazer alguns updates sobre este tema neste mesmo post mais para frente.

Recurso renovável, pero no mucho

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Venda de atum em um mercado japonês. Crédito: Wikimedia commons

Alunos do curso de graduação em Ciências Biológicas tem que estudar temas que vão desde microbiologia até Ecossistemas e nem sempre conseguem uma resposta fechada para todas as perguntas que podem ser geradas dentro desse espectro. Muitas vezes temos que apreender na marra que nem tudo é 8 ou 80 em Biologia e, quando estamos tratando de Ecologia, o buraco pode ser bem mais embaixo.

Um destes tópicos é a classificação de recursos em renováveis e não renováveis. Na teoria tudo parece bem simples, mas quando começamos a pensar na prática vemos que existem muitas exceções à regra. Um exemplo que foi tratado pelo pessoal do Geófagos é o da água. O ciclo hidrológico parece perfeitamente renovável, mas muitas vezes podemos dar uma ajudinha e acabar quebrando o ciclo renovação. Outro exemplo é o das nossas presas, mais especificamente os recursos pesqueiros. Na teoria este seria um recurso renovável, já que os peixes ocorrem em grande quantidade nos oceanos e se reproduzem de forma relativamente rápida. Bem, seria assim se não fosse pela nossa grande habilidade de desregular os sistemas ecológicos.

Um dos principais problemas para a manutenção do estoque pesqueiro está na pesca ilegal que retira anualmente cerca de 5 milhões de toneladas de peixes por ano da nossa área costeira. Pesca feita de forma descontrolada pode diminuir e muito o estoque de algumas espécies, se tornando um risco para a sua manutenção. O problema é tão grande que no final do ano passado o Governo Federal lançou o Programa Nacional de Combate a Pesca Ilegal. Segundo informações do Ministério do Meio Ambiente e da Pesca, o foco será na fiscalização, mas também na conscientização dos pescadores por meio de campanhas públicas. Outro ponto importante é o da conscientização da população em geral sobre o pescado vendido no Brasil. Muitas das espécies frequentemente encontradas em mercados e em peixarias estão sobre-exploradas, ou seja, seus estoques estão se reduzindo, chegando até a possibilidade de se esgotarem. E é aí que entra a inventividade do pós-graduando brasileiro.

Cansado de ler artigos científicos sobre o tema e ver que eles nunca seriam lidos pelas pessoas fora da torre de marfim da academia, o Fernando Tuna (belo nome para quem trabalha com peixe, hein?) que é biólogo da UFRJ e atualmente cursa Mestrado em Biologia Marinha na UFF e MBE executivo em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ resolveu tomar uma atitude. Porque não traduzir os artigos científicos mais recentes que tratam de estoque pesqueiro de uma maneira amigável e prática, e de uma forma acessível para qualquer pessoa interessada? Daí surgiu a ideia do aplicativo Fish List.

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Imagina chegar em um mercado e ver que tem um peixe em promoção. Mas você não sabe se aquele peixe pode estar com o estoque reduzido e que a sua compra pode acabar estimulando a possibilidade dele se esgotar. O Fish list é um aplicativo simples, mas que traz informações que podem ajudar você a decidir sobre quais peixes comprar, trocar ou até mesmo recusar. As instruções para baixar o aplicativo podem ser encontradas aqui. A criação do aplicativo e da página do Facebook do projeto foram produtos do MBA em Gestão Ambiental do Fernando na COPPE/UFRJ. Uma ideia simples, mas que mostra como temos um oceano de informação na academia que precisa de uma ajuda de pessoas como o Fernando para conseguir ser realmente útil para toda a população.

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