Sons da ciência

Sobre como estimular futuros cientistas e o nosso medo da iniciativa privada

 

Estive no dia 21 de maio em Brasília na sede do nosso querido CNPq (não teria minha formação sem ele) a convite da Fundação Roberto Marinho – uma das parceiras do evento – na cobertura do anúncio do Prêmio Jovem Cientista 2015. Para quem não conhece, o prêmio pode parecer apenas mais um dentre outros, mas não é bem assim. O que chamou minha atenção foram duas coisas: o prêmio é muito mais importante e interessante do que eu achava anteriormente e o potencial da iniciativa privada cooperar com a divulgação científica e o ensino de ciências é gigantesco. Descobri tudo isso em uma grande correria que foi o final do mês de maio, que começou no interior de Minas em uma mesa redonda sobre divulgação científica, passou por Brasília e terminou na Colômbia. Explico a parte da Colômbia em outro post.

Se tem algo que sabemos fazer bem, como o Breno disse aqui no blog, é desestimular pequenos cientistas. Falta de apoio aos professores, ausência de laboratórios de ciência, péssima infraestrutura. Os problemas da educação básica em relação ao ensino de ciências são conhecidos, mas sempre esbarramos na boa e velha “vontade política” para nos salvar. Enquanto esperamos por isso e tentamos buscar melhorias na nossa jovem democracia, tenho que admitir que conhecer de forma mais profunda como funciona o Prêmio Jovem Cientista foi uma grande experiência. Realmente o prêmio é mais interessante do que eu achava, já que não é apenas um estímulo a competição, individualidade e egos inflados (comum em entrega de prêmios científicos em geral). A ideia de estimular todas as etapas da produção e ensino de ciência, desde o ensino básico até as instituições é uma flecha certeira.

Além de premiar os indivíduos e as instituições, os orientadores e escolas de origem dos alunos não são esquecidos, sendo contemplados com computadores. Os vencedores (1°, 2° e 3° lugar em cada categoria) recebem bolsas de estudo, a experiência de ir em um grande evento com cobertura da mídia nacional (todos tiveram treinamento no dia anterior) e participação na reunião da Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Como extra, ainda serão ser recebidos pela Dilma no Palácio do Planalto. Outra iniciativa interessante desse ano é a webaula disponibilizada no portal do prêmio, voltada para os estudantes de ensino médio. Trabalhei muito tempo com Educação a distância e posso dizer que elas são muito bem feitas e além de tudo são multimídia. Os alunos tem acesso a vídeos curtos sobre o tema, trechos em áudio, indicação de links interessantes e até exercícios. Uma boa maneira dos alunos e professores entenderem a importância do tema e uma boa ajuda para fazer trabalhos que se encaixem melhor no que está sendo pedido.

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Da esquerda para a direita: Luiz Bento, Deloan Perini (1° lugar do ensino superior), Joana Pasquali (1° lugar do ensino médio), Camila Maranha (2° lugar da categoria mestre e doutor) e Everton Lopez (Ciência Hoje)

O tamanho do prêmio não seria o mesmo sem a participação da iniciativa privada. Se existe uma barreira no meio acadêmico brasileiro é a relação com instituições privadas. Algumas delas já tem uma relação mais forte com universidades como é o caso de fundações que financiam pesquisa. Mas o que não discutimos é o apoio direto no ensino de ciências e na divulgação científica. Empresas podem e devem se preocupar com a educação e investir em parcerias com instituições públicas, tanto que o presidente do CNPq reconheceu e cobrou isso em vários momentos da entrega do prêmio. E não faz mal a ninguém reconhecer o bom trabalho de uma empresa, que investiu em um evento importante para muitos cientistas e futuros cientistas. Em um momento de discussão sobre a crise do financiamento da ciência tanto no Brasil como no resto do mundo, iniciativas como o crowdfunding científico devem ser apoiadas. Mas acho que uma parceria institucional com a iniciativa privada por ser um dos promissores caminhos a serem seguidos. Desde que tanto cientistas como educadores percam um pouco do medo da iniciativa privada e que a iniciativa privada encare a ciência e a divulgação científica como uma contra partida necessária.

O canal Futura transmitiu o evento ao vivo por streaming e o vídeo está disponível abaixo. Você também pode conferir a minha cobertura no evento feita no meu twitter (@luizbento) de forma organizada no Storify.

Divulgação científica até no interior de Minas

No final do mês passado tive o prazer de conhecer um pouco o trabalho de dois professores de uma cidade no interior de Minas chamada Rio Paranaíba. Você pode não conhecer a cidade e achar que é um pouco longe para chegar, mas uma coisa você tem que reconhecer: Lá tem gente trabalhando boa parte do seu tempo livre e não livre em divulgação científica. Além de fazer tudo o que todos os outros professores de universidades públicas já fazem.

A universidade é a Federal de Viçosa, campus Rio Paranaíba. O prédio da universidade ainda é recente e podemos ver no mesmo terreno prédios novos que ainda irão fazer parte do complexo. Mas lá eu tive o prazer de conhecer pessoalmente o Prof. Rubens Pazza, que antes eu só conhecia de forma virtual. Ele e sua esposa Profa. Karine Frehner Kavalco lideram o Laboratório de Genética Ecológica e Evolutiva (LaGEEVo), mas não param por aí. Além de terem uma linha de pesquisa interessante, dar aulas para a graduação em Ciências Biológicas e para a pós-graduação, orientar alunos, cuidarem de duas filhas pequenas…Ufa, não para por aqui. O trabalho que ainda falta e que me deixou muito entusiasmado foi a dedicação a extensão. Palavra tão conhecida nas universidades, mas tão pouco praticada pelos acadêmicos. O que eu já conhecida pela internet e passei a conhecer no mundo offline foram as iniciativas desses dois docentes na área da divulgação científica.

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Se eu for detalhar cada iniciativa o texto vai ficar muito longo, então vou descrever e colocar o link para mais informações. As iniciativas estão reunidas no programa Semeando ciências, um guarda-chuva de atividades que incluem: Rock com ciência, um podcast sobre ciência que já teve alguns formatos diferentes e hoje é mantido por bolsistas de iniciação científica do LaGEEVo e pelo Rubens e Karine; Biologia na web, um portal sobre notícias na área da biologia e divulgação científica; e o Folha Biológica, um jornal de divulgação científica na área biológica que publica textos inéditos em forma de jornal. Os números são publicados em pdf no site, mas o detalhe é que eles conseguem fazer uma tiragem de 3 mil exemplares que são distribuídos em 200 escolas públicas da região do Alto Paranaíba. Isso mesmo, professores universitários que além de fazerem pesquisa, ensino e extensão nos seus laboratórios ainda fazem um trabalho de divulgação científica chegar diretamente a escolas da região para serem trabalhados por professores em sala de aula. E você professor universitário reclamando que não tem tempo de orientar aluno…

folha biológica

E como eu conheci tudo isso? Infelizmente iniciativas como essa não ganham grande publicidade, por isso eu tive que conhecer ela de forma mais profunda in loco. Sim, tive o prazer de conhecer Rio Paranaíba a convite do Prof. Rubens Pazza para participar de uma mesa redonda sobre divulgação científica no V Simpósio da Biodiversidade, ao lado de dois importantes atores da divulgação científica na internet: o biólogo Atila Iamarino (Nerdologia, ScienceBlogs Brasil) e o jornalista Carlos Orsi (Revista Galileu, autor de livros de divulgação e ficção). Nossa mesa redonda foi gravada e publicada como um episódio especial do podcast Rock com Ciência e pode ser baixada aqui. Coloquei os slides da minha apresentação no slideshare para facilitar a vida de quem quiser entender as referências que eu cito na palestra.

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Mesa redonda sobre divulgação científica na UFV-CRP

 

Para não perder a viagem, tanto eu como o Carlos Orsi gravamos também outros dois episódios especiais do Rock com Ciência sobre nossas especialidades “alternativas”, cerveja e Sherlock Holmes, respectivamente. Depois de dois dias intensos entre viagem, mesa redonda, podcast, eu não poderia deixar de agradecer o acolhimento e carinho do pessoal da UFV-CRP que estava presente na mesa redonda, da pequena grande equipe do Rock com Ciência formada por Pierre Penteado, Marcos Silva, Francisco Sassi, Matheus Lunardi e Matheus Lewi, e da Janaína Pazza que é a jornalista responsável pelo Folha Biológica.

Gravação do Rock com Ciência sobre Cerveja

Gravação do Rock com Ciência sobre a cultura e ciência da cerveja

Como eu falei na mesa redonda, não acho que todo professor universitário tem que ser obrigado a fazer divulgação científica. Mas todos tem que ser obrigados a apoiar e prestigiar iniciativas legais como as coordenadas pelo Rubens, Karina e sua equipe. Parabéns a todos os envolvidos e continuem o grande trabalho.

 

 

Continua a saga da discussão sobre conservação das espécies

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Isso é uma tentativa de piada. Acho que os pandas são tão burros quanto nós. Crédito: EllieBell

Se o caro leitor acompanha este humilde blog já deve saber que a conservação de animais “feios” não é um tema novo por aqui. Lá em 2009 fiz uma campanha para salvar as lindas e fofas lampreias, também falei sobre a importância da conservação de micro-organismos e até da criação de uma sociedade para a preservação de animais feios. Acho que não é difícil entender que a grana para preservação das espécies é curta e que devemos fazer escolhas. Pelo menos não parece difícil na teoria.

A triagem de espécies na conservação é parecida com o que um médico de um hospital público brasileiro faz em seu dia-a-dia, priorizando de forma lógica qual paciente deve ser atendido primeiro. Parece bem simples e fácil, na teoria. Mas quando chegamos na prática é que a situação complica. Ainda mais quando estamos falando de bichos que mais parecem um bebê-fofo-gigante-peludo desesperado por um abraço, como o caso dos pandas. Em 2011 levantei o exemplo dos pandas para discutir os dados de um artigo científico que tentou entender a visão dos pesquisadores da área sobre a conservação de espécies. Desde aquela época eu achava que a triagem na conservação era um assunto que deveria ser debatido de forma mais crítica pela sociedade, já que cada vez mais precisamos decidir quais espécies devemos priorizar. Mas é bem difícil falar traduzir um assunto tão complexo de forma clara e simples. Foi o que fez o ótimo canal do YouTube Minute Earth, explicando o dilema em que salvar o panda pode deixar outras espécies mais próximas da extinção.

 

Coincidência ou não o vídeo em menos de uma semana já tem 250 marcações de “Não gostei”, muito mais do que em vídeos recentes como Why are the clouds (72) e Why Don’t Scavengers Get Sick? (152, sendo que esse está há mais de 1 mês no ar). Dá para entender porque o tema é tão pouco comentado e cada vez mais eu tenho certeza que somos crianças quando discutirmos a conservação das espécies. A decisão de salvar ou não uma espécie é difícil, mas aprendemos na vida que não podemos tapar os ouvidos e gritar “lá-lá-lá-lá” para sempre. Ou corremos o sério risco de perder espécies potencialmente muito mais importantes, mas menos fofas do que os pandas.

Seria o vegetarianismo a solução para uma futura crise ambiental e de saúde?

Em um artigo desta semana na Nature, o pesquisador David Tilman avaliou a mudança na nossa dieta, com grande presença de açúcar refinado, gorduras refinadas, óleos e carne e o aumento da incidência de diabetes do tipo II, doenças coronárias e outras doenças crônicas, além de como isto está relacionado com emissão de gases estufa pela agricultura e pecuária.

Ele observou 3 tendências na dieta relacionadas com o aumento do produto interno bruto per capita:
1) Com o aumento na demanda por proteína animal, a demanda por legumes diminui;
2) Quanto maior a renda de um ´país, maior a demanda dele por calorias vazias; e
3) A demanda calórica per capita aumenta junto com a renda, por exemplo, em países com PIB per capita de aproximadamente $12.000 dólares por ano, o consumo calórico total diário pode ser de 500 Kcal superior ao nutricionalmente necessitado.

Como podemos notar, isto tudo se baseia em um cenário de desenvolvimento econômico mundial, isto é, aumento da urbanização e da produção industrial de alimentos. Tilman estima que, quando comprada com a dieta de 2009, em 2050, nossa dieta terá 15% mais calorias e 11% mais proteínas, 61% mais colorias vazias, 18% menos porções de frutas e vegetais, 2,7% menos proteínas de origem vegetal, 23% mais de carne de porco e aves, 31% mais de carne de ruminantes, 58% mais de laticínios e ovos e 82% de peixes e frutos do mar.

Porém essa mudança em nossa dieta não vem sozinha, no mesmo artigo ela aponta que a emissão de gases na produção de carne (neste exemplo, ruminantes) é 250 maior que na produção de legumes. Quando mudamos a fonte animal para porcos ou peixes, essa diferença tende a cair, além de observarmos a mesma tendência quando comprarmos diferentes tipos de produção de uma mesma fonte animal (por exemplo, gado em pastagem e gado confinado).

Nos gráficos abaixo ele mostra a diferença em as fontes alimentares e a emissão de gases do efeito estufa por (a) quilocaloria, (b) porção e (c) grama de proteína.

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Diante desses cenários, a publicação estima que haverá um aumente de 80% na emissão de gases estufa oriundos da produção de alimentos até 2050 caso o ritmo de crescimento e o estilo de nossa dieta se mantenham.

Interessante também são os dados de uso de terras para a produção de alimentos baseado no tipo de dieta:

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Nota-se que, se assumíssemos todos um dieta vegetariana, quase não precisaríamos de mais terras para a produção de alimentos (gráfico da esquerda) para alimentarmos o mundo em 2050 em relação as que já dispomos hoje em dia para tal finalidade.

Já em relação a parte médica, o gráfico abaixo mostra a redução no risco de certos tipos de doenças com base na dieta da pessoa.

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Portanto, o artigo alerta que o trilema dieta-meio ambiente-saúde deve ser norteador de políticas públicas globais.

Em um primeiro momento, parece-nos que a dieta vegetariana seria a solução para tudo, porém devemos entender que este artigo não é a prova cabal para isso. Basicamente, as dietas mediterrânea, pescetariana e vegetarianas não incluem as calorias vazias, valorizando uma alimentação balanceada. Fora que a presença proteína animal não foi considerada um malefício, a mediterrânea possui a presença de carnes, mas em pequenas porções (tanto bovina, quanto suína), além dos peixes e frutos do mar como a pescetariana.

Além do mais, escolha da dieta é uma escolha pessoal, existem pessoas que não conseguem deixar de comer carne. O que não é nada estranho visto que somos animais onívoros por natureza!

Sendo assim, esse artigo fica mais como um alerta para o rumo que nossa dieta está seguindo e os problemas inerentes (tanto ambientais, como de saúde) dela. Mais uma vez, a polêmica reside na questão de como a sociedade encara o planeta: atualmente, como um mero provedor de recursos naturais, ilusoriamente, infintos. Além, é claro, da adoção de hábitos mais saudáveis.

No final, a escolha ainda é individual. Pessoalmente, não consigo deixar de comer carne, mas tenho plena certeza de que a quantidade deve ser bem menor.

Referência: doi:10.1038/nature13959

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