O terceiro domínio da vida
“Vivemos agora na ‘Idade da Bactéria’. Nosso planeta sempre esteve na ‘Idade da Bactéria’, desde que mesmo os primeiros fósseis – de bactérias, é lógico – ficaram enclausurados nas rochas há mais de três bilhões e meio de anos.”
Lance de Dados (pág. 241). Editora Record
Todos nós aprendemos no colégio (até hoje em dia, inclusive) que a vida pode ser dividida (artificialmente, por nós humanos) em cinco reinos. Esta divisão clássica em Monera, Protista, Plantae, Fungi e Animalia vigorou por décadas, desde trabalhos publicados por Wittacker em 1969. Vemos nesta figura a clara visão do “paradigma de progresso”, expressão muito utilizada por Gould. Grande parte dos microorganismos se concentram na base e os animais se posicionam como os mais evoluídos, no topo.
Em 1977, o microbiólogo americano Carl Richard Woese coloca pela primeira vez a divisão clássica dos cinco reinos em xeque. Através de análises de seqüências de RNA ribossomal, Woese mostra em um artigo na PNAS que há uma grande diferenciação dentro do grupo dos organismos chamados procariotos. Ele propõe uma divisão dentro deste domínio em eubactérias (bactérias verdadeiras) e archaebactérias (bactérias que normalmente vivem em ambientes extremos). Já em 1990, o mesmo autor refina sua divisão em outro artigo na mesma PNAS, propondo o que conhecemos hoje como os três domínios da vida (Eubacteria, Archea e Eucarya), sendo Archea o chamado “Terceiro domínio da vida”. Neste artigo, Woese ressalta que a diferença entre os domínios Eubacteria e Archea é maior que a diferença entre os clássicos reinos Animalia e Fungi. Desta forma, nós Seres humanos somos mais parecidos geneticamente com fungos do que microorganismos dos domínios eubacteria e Archea. Podemos perceber que o que Woese propôs em 1990 estáva muito a frente do “consenso científico”. Enquanto taxonomistas passam a vida toda tentando organizar ordens ou gêneros, Woese propôs um táxon acima de “Reino”, alterando de forma marcante nossa visão da vida em nosso planeta.

Figura original do artigo de 1990 de Woese na PNAS
“(…) A biologia do Dr. Mayr reflete os últimos bilhões de anos da evolução; a minha os primeiros três bilhões. Sua biologia é centrada em organismos multicelulares e suas evoluções; minha em um ancestral universal e seus descendentes imediatos. Sua é a biologia de experiência visual, de observação direta. Minha não pode ser vista diretamente ou tocada; é a biologia das moléculas, dos genes e suas histórias inferidas. Para mim, evolução é primariamente o processo evolutivo, não as suas conseqüências. A ciência da biologia é bem diferente nestas duas perspectivas, e seu futuro ainda mais.”
Mais sobre a vida de Carl Woese
Carl Woese: from scientific dissident to textbook orthodoxy
Outros artigos interessantes deste c
ientista:
Interpreting the universal phylogenetic tree
Microbiology in transition
On the nature of global classification
Este post faz parte da ótima iniciativa do Lablogatórios, o I Carnaval Científico.
Referências:
C R Woese, & G E Fox (1977). Phylogenetic structure of the prokaryotic domain: the primary kingdoms PNAS, 74 (11), 5088-5090
C R Woese, O Kandler, & M L Wheelis (1990). Towards a natural system of organisms: proposal for the domains Archaea, Bacteria, and Eucarya PNAS, 87 (12), 4576-4579
C R Woese (1998). Default taxonomy: Ernst Mayr’s view of the microbial world PNAS, 95 (19), 11043-11046
C R Woese (1998). The universal ancestor PNAS, 95 (12), 6854-6859
Goldenfeld, N., & Woese, C. (2007). Biology’s next revolution Nature, 445 (7126), 369-369 DOI: 10.1038/445369a
Vetsigian, K. (2006). Collective evolution and the genetic code Proceedings of the National Academy of Sciences, 103 (28), 10696-10701 DOI: 10.1073/pnas.0603780103












Discussão - 8 comentários
Olá Lílian
Obrigado pelos elogios. Sem dúvidas a importância das bactérias e archea para o nosso planeta é muito grande. Outro importante papel é feito pelos vírus, que será tema de um post no futuro.
Eu simplesmente fiquei encantada com a riqueza destas informações, sou graduanda em ciências biológicas e apaixonada por microbiologia e em uma de minhas pesquisas achei o blog de vocês. Inclusive fiquei ainda mais tranquila, pois dei aula referente ao reino monera neste fim de semana e percebo ainda mais, que não errei ao infatizar a importância destes microorganismos em nosso “mundinho”, obrigada por enriquecer ainda mais meus conhecimentos.
Mais um post inspiradíssimo! Nada como um pouco de filogenia para mostrar o nosso verdadeiro lugar no planeta…A propósito, saiu o resultado do sorteio do livrohttp://www.ediouro.com.br/as100maioresdescobertas/Veja em:http://lablogatorios.com.br/raiox/2008/10/18/e-os-ganhadores-dos-livros-foram/Valeu pela participação!
Fala Igor,Acho que o problema não é que não há ninguém ouvindo. Os artigos do Woese foram publicados em periódicos de grande prestígio, como PNAS e Nature. A quebra de paradigma faz sim barulho, mas quando somos surdos, isso não faz a menor diferença. Acho isso ainda mais grave entre cientistas, que teoricamente deveriam ser abertos a novos argumentos.Abraços e obrigado pela visita!
Eu ia dizer algo parecido com o que a Isis disse, mas cheguei tarde demais. As bactérias são as reais donas do mundo onde vivemos.Eu gosto delas…Se um paradigma quebra e não há ninguém ouvindo, ele faz barulho?
Caro Ronaldo,Muito obrigado pelos elogios. O bafana já faz parte da lista de blog recomendados do Discutindo Ecologia (na nossa barra lateral) e também do meu leitor de RSS. Obrigado pela indicação.Abraços.
Gostaria de cumprimentá-los pelo excelente conteúdo deste blog. Este artigo, em especial, está um primor. Vamos colocar um link do seu blog no nosso, ok?Ronaldo Angelini (Bafana Ciência)
As bactérias são tão relevantes que astrônomos buscam encontrá-las universo afora.