O incrível mundo dos corais (Parte 1)
Ouvimos muito boatos sobre a morte de corais causada pelo aquecimento global. Um fenômeno que vem se espalhando por várias partes do mundo é o clareamento destes organismos. Fiz uma revisão sobre esse assunto para um trabalho, assim, vou postar algumas partes que acho muito interessante
Mas antes de tudo, algumas curiosidades sobre corais: Os recifes de corais são uma das maiores estruturas formadas por organismos vivos no mundo. Tanto sua diversidade, quanto a dos o
rganismos associados a eles são enormes, podendo ser comparáveis até com diversidade contida nas florestas tropicais. Constanza et al. (1997) estimou como valor econômico dos recifes de corais cerca de US$ 375 bilhões por ano, devido a serviços pesqueiros, turísticos e de proteção das zonas costeiras.
A ordem Sclarectinia engloba os chamados corais verdadeiros ou corais-pétreos. Por muito tempo, acreditou-se que a existência dos corais era devido à interação dele com algas do gênero Symbiodium, comumente conhecida como zooxantela. Esta alga disponibilizaria grande parte da energia necessária ao metabolismo do coral via o carbono orgânico produzido durante sua fotossíntese. Além disso, estas algas ainda disponibilizam oxigênio molecular usado na respiração do coral e dos outros organismos associados a ele (Rosenberg, et al. 2007). Atualmente, observa-se que as interações realizadas pelos corais não ocorrem somente com as algas, mas também com organismos procarióticos, principalmente bactérias.
Existem três compartimentos dos corais que podem ser habitados por estas bactérias: a camada de muco que envolve o coral, os seus tecidos e o seu esqueleto de carbon
ato (Rosenberg, et al. 2007). Desta forma, o coral e os organismos associados (tanto procariotos, quanto eucariotos) e as interações entre eles formam uma estrutura holobionte. Esta interação entre corais e procariotos, como com as zooxantelas e outros microorganismos, trazem muitos benefícios para os corais. A diversidade destes procariotos pode ser dez vezes maior que a de zooxantelas nestes organismos.
Um exemplo da importância dessa associação foi mostrado por Siboni et al. (2008). Eles observaram que archaea oxidadoras de amônia (oxidam amônia a nitrato) habitavam o muco de corais e que participavam ativamente da reciclagem de nitrogênio no holobionte formado. Durante o dia, a camada mucosa é óxica, deste modo, estes microorganismos oxidam a amônia a nitrato, o qual pode ser assimilado pelo coral. Altas concentrações de amônia podem ser prejudiciais ao holobionte, pois podem afetar negativamente a assimilação de carboidratos pelas algas. Já durante a noite, a camada mucosa fica anóxica, assim, parte do nitrito é convertido em nitrogênio através da desnitrificação. Fato este que elimina do coral o excesso de nitrogênio transformando-o em nitrogênio gasoso.
Postarei mais informações sobres esses incríveis organismos. Espero que seja tão impressionante para vocês, quanto é para mim.
Costanza, R., d’Arge, R., de Groot, R., Farber, S., Grasso, M., Hannon, B., Limburg, K., Naeem, S., O’Neill, R., Paruelo, J., Raskin, R., Sutton, P., & van den Belt, M. (1997). The value of the world’s ecosystem services and natural capital Nature, 387 (6630), 253-260 DOI: 10.1038/387253a0
Rosenberg, E., Koren, O., Reshef, L., Efrony, R., & Zilber-Rosenberg, I. (2007). The role of microorganisms in coral health, disease and evolution Nature Reviews Microbiology, 5 (5), 355-362 DOI: 10.1038/nrmicro1635
Siboni, N., Ben-Dov, E., Sivan, A., & Kushmaro, A. (2008). Global distribution and diversity of coral-associated and their possible role in the coral holobiont nitrogen cycle
Environmental Microbiology, 10 (11), 2979-2990 DOI: 10.1111/j.1462-2920.2008.01718.x
Não apague suas luzes hoje às 20:30
Para início de conversa, alguém já passou no site do WWF para entender o motivo deles estarem fazendo esta campanha? Se ainda não tiveram este prazer, eu vou discutir um pouco isso.
Essa é a primeira eleição que acontece simultaneamente no mundo inteiro. No páreo, estão o nosso planeta e o aquecimento global. Para quem você vai dar seu voto?
No dia 28 de março, você pode dar seu voto pela terra, contra o aquecimento global, com um gesto simples: apague a luz da sua sala.
Ao desligar o interruptor, você já está dando o seu voto. Os resultados dessa grande eleição mundial serão apresentados na Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima, que acontece em Copenhagen, em dezembro desse ano. Nós queremos reunir 1 bilhão de votos pelo planeta, para mostrar aos nossos líderes que precisamos agir contra o aquecimento global. Por isso, cada voto é importante, inclusive o seu!
Fonte: WWF
Vamos tentar entender esse mix de linguagem infantil com desinformação. Páreo entre nosso planeta e o aquecimento global? Não estava sabendo desta briga. E ainda mais que eu poderia votar no aquecimento global! Realmente a ideia foi muito boa. Cada luz apagada da sala (?!?) é um voto, assim teremos dados para mostrar para os políticos que somos a favor do planeta e contra o aquecimento global! Oba !!! Isso é uma piada?
Agora uma coisa que eu gostei muito. Apagamos somente a luz da sala? Pelo que eu tinha entendido era mais uma campanha educativa para diminuição do consumo de energia elétrica. E parece que o pessoal que fez a campanha também não sabe muito bem o motivo dela. Naquele videozinho piegas da campanha deste ano, podemos ler frases como “Esforço global“, “Movimento em prol do planeta“… então é um esforço para refletir sobre a diminuição do consumo de energia do mundo ou para dar um voto em uma pesquisa?
Se for um voto em uma pesquisa, acho que seria muito melhor um abaixo assinado. Simples, direto e que todos poderiam participar (continuaria sendo piegas, mas pelo menos seria mais eficiente). Ah, mas apagar as luzes é uma atitude legal! Nosso esforço contra o monstro do aquecimento global!!! Mas e as pessoas que não tem acesso a energia elétrica em casa? No Brasil, mais de 12 milhões de pessoas não tem acesso a energia elétrica em suas casas, sendo 10 milhões no meio rural. O índice de exclusão elétrica no Acre e no Amazonas ultrapassa os 70% da população do campo. No nordeste, 58% dos domicílios rurais não são atendidos pela rede elétrica. Vamos deixar estas pessoas de fora da “pesquisa”? Os que serão os principais atingidos pela mudança do clima? Os dados citados são do programa “Luz para todos”, do governo federal. Você pode baixar o pdf com dados sobre o plano aqui. Gostaria de convocar um movimento “Apaguem as velas hoje às 20:30“, para incluir na pesquisa as pessoas que não tem acesso a luz no Brasil.
Fonte: Plano nacional sobre a mudança no clima, 2008.
Vamos esquecer por um minuto (e não 1 hora como na campanha) os excluídos de eletricidade no Brasil. Vamos pensar que todos temos energia elétrica em nossas casas. Então a campanha do WWF seria muito legal, pois incentiva a redução do consumo de energia elétrica no Brasil, combatendo o aquecimento global! Não, muito longe disso. Como você pode ver no gráfico acima, a energia elétrica oriunda de hidrelétricas é responsável por 80% da nossa matriz energética. Essa fonte de energia é renovável, tendo uma emissão de gases estufa muito menor do que termelétricas. Somente as usinas do norte do Brasil evitariam a emissão de 183 milhões de toneladas de CO2 equivalente até 2016, segundo o plano nacional sobre a mudança no clima.
Emissão de CO2 por setor, 1994. Fonte: Plano nacional sobre a mudança no clima, 2008. Para baixar o pdf, clique aqui.
No mundo inteiro a produção de energia através de combustíveis fósseis é a principal responsável pela emissão de gases estufa, o que é completamente diferente no Brasil. No gráfico acima podemos ver que o problema aqui é o desmatamento. Então porque vamos apagar as luzes se a principal via de emissão de nosso país é o desmatamento?
Pensando em tudo o que eu escrevi neste post, gostaria que cada um pensasse muito bem não só no que vai fazer hoje às 20:30 mas também no que faz na sua vida. Se a sua consciência vai ficar melhor se você apagar as luzes hoje a noite, vá em frente. Mas tenha a certeza que isto não mudará em nada o que está acontecendo no mundo ao seu redor. Leia, seja mais crítico, eleja políticos honestos. Estimule isso em seus amigos e familiares. Isto sim vai ser importante para nosso planeta.
Vejo que não estou sozinho nesta briga contra a “hora do planeta”. Leiam a opinião do Carlos Hotta sobre o assunto. Aqui a opinião do Liberal, Libertário, Libertino e não poderia faltar a opinião do Cardoso. Mais uma do Cardoso, comentando um epic FAIL. E agora a opinião de Carlos Pacheco, do ótimo Geófagos.
“Eco-hipocrisia”, “Eco-demagogia”
Depois da tentativa frustrada de entrevista do Felipe e da recente reação da blogosfera científica sobre a medíocre qualidade do jornalismo cientifico nacional, venho me aventurar neste meio. Sexta-feira passada estive no Centro de Tecnologia da UFRJ, mais especificamente no auditório 122 da COPPE (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e pesquisa de engenharia) para assistir a mais uma reunião do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. Esta reunião contou com a ilustre presença de nosso ministro do meio ambiente Carlos Minc e do coordenador geral do Fórum e diretor da COPPE, Prof. Luiz Pinguelli Rosa.
Minc com seu colete característico e a sua esquerda o Prof. Pinguelli
Além da revisão do nosso inventário de emissão de gases estufa e da imposição da compensação das emissões de CO2 para a liberação da licença ambiental de novas termelétricas (destacado pela cobertura do jornal da ciência e da agência UFRJ), vários outros pontos interessantes foram destacados por nosso ministro. E é o papel deste humilde cientista jornalístico (?) publicar sua visão do evento, tentando fugir um pouco da mesmice da cobertura jornalística habitual.
Um rápido e interessante histórico do Plano Nacional sobre Mudança no clima foi feito. Minc ressaltou todos os problemas iniciais deste documento e como ele foi alterado e melhorado depois da fase de consulta pública. Mesmo tento uma matriz energética relativamente limpa (devido a grande participação da energia hídrica), o futuro é cada vez mais sujo para o nosso país. Fazer um planejamento onde há uma previsão de construção de 81 termelétricas até 2017 mostra que estamos bem longe de uma matriz limpa no futuro.
E qual foi a principal conclusão do nosso ministro? Estamos longe de ser “burros” ou “malvados” por autorizar a construção de um número absurdo de termelétricas ao invés de investir em energias renováveis. Minc reforça que houve um “nó” no licenciamento de novas usinas hidrelétricas e que o problema da falta de energia teria que ser resolvido de algum jeito. Se não é pelo jeito limpo, o que nos resta? A solução encontrada por ele é focar na agilização do processo de licenciamento ambiental no brasil. A ideia é simples: analisar os processos de licenciamento em bloco, fazendo com que os projetos “inviáveis” (palavras do ministro) não sejam colocados no mesmo patamar de projetos possíveis, diminuindo o tempo de análise e aumentando o número de licenciamentos concedidos. Resumindo, se não podemos acabar com a burocracia, filtramos os processos de licenciamento antes deles serem analisados em profundidade. Assim os projetos viáveis não sofrem atrasos absurdos como o que acontece hoje em dia. As usinas hidrelétricas modernas estão longe de serem uma Balbina. Elas possuem uma alta eficiência energética (menor relação área alagada/energia gerada) e podem ser instaladas como “plataforma”, sem a necessidade de grande infra-estrutura na área de entorno, o que diminui muito o impacto ambiental do empreendimento.
Qual é então o maior problema do licenciamento das hidrelétricas no Brasil segundo nosso ministro Carlos Minc? “(…) O Governo quer todas as usinas e os ambientalistas nenhuma“. Foi aí que os termos que intitulam este post entraram em pauta. Minc chamou os ambientalistas de “eco-hipócritas” e “eco-demagogos” por fazerem pressão para barrar todo e qualquer projeto de novas usinas hidrelétricas, o que gera uma grande defasagem na geração de energia. Consequência deste ato “verde”? Licenciamento de termelétricas. Assim os ambientalistas dormem tranquilamente achando que estão salvando o Brasil da malvada e “falsa” energia limpa das hidrelétricas e acabam sujando muito mais nossa matriz energética com o consequente licenciamento de termelétricas. Devemos investir em energia eólica, solar e biomassa? Claro que sim. Mas não licenciar usinas hidrelétricas modernas com todo esse potencial hídrico que ainda temos é um tiro no pé. Nenhum país sério investe só em um tipo fonte de energia, ainda mais em fontes caras e inconstantes como as chamadas “verdes”.
Além das felizes expressões, Minc também anunciou novidades muito interessantes como a criação de um “IPCC brasileiro”, onde mais de 300 cientistas de todo o brasil formariam um painel nacional para a mudança do clima. Além disso, depois de ser questionado quanto a necessidade de um inventário não só da floresta amazônica, mas de todos os biomas brasileiros, o ministro do meio ambiente afirmou que em breve anunciará convênios com universidades públicas para o monitoramento do cerrado, caatinga e mata atlântica. Aguardamos novidades em relação a este projeto.
Palmas para Minc. Colocando os ambientalistas no seu devido lugar. O da hipocrisia e demagogia.
Ciência é besteira?
Em um artigo bastante equivocado, a editora da revista Época Ruth de Aquino avalia o papel da ciência na nossa sociedade. Bem, a palavra não seria bem “avaliar”, está mais para uma diarréia mental de uma pessoa que não entende nada de ciência. Carlos Hotta do Brontossauros em meu jardim comentou essa artigo brilhantemente.
Porém levanto mais uma questão: Aonde estão nossos cientistas para se defenderem? Ela simplesmente reduziu a ciência a um apanhado de dados óbvios que somente confirmam o senso comum. Será que nossos cientistas se acham tão superiores em suas redomas de conhecimento que não precisam se defender? Aonde está um comunicado oficial de uma universidade federal qualquer?
Isso foi um insulto a ciência brasileira e mundial. Poderíamos resumir o jornalismo brasileiro como sendo manipulativo, pois como bem sabemos, a globo distorceu o debate entre os candidatos Lula e Collor, ou também resumiu, em um primeiro momento, a marcha dos caras pintadas como sendo uma manifestação por carteiras de estudantes para pagar meia entrada. Ou o caso mais clássico, ter aparecido na cobertura do jornal nacional o comício das diretas já como sendo uma showmício em comemoração do dia dos trabalhadores. É fácil selecionar uns poucos fatos e generalizarmos para toda uma categoria.
Essa atitude afasta ainda mais nossa sociedade da ciência. Somado a um afastamento já existente pela própria postura da academia, nosso povo tem toda razão de questionar os poucos milhões de reais que ainda são investidos em ciência e tecnologia.
Cientistas do Brasil, mostrem suas caras! Defendam-se!
Vai um bico aê?














