A Origem das espécies – esboço de 1842

A origem das espécies - Esboço de 1842

Em uma visita habitual aos sebos virtuais, resolvi buscar livros do desconhecido autor “Charles Darwin“. Dentre as centenas de cópias dos seus livros “A Origem das espécies” e “Viagem de um naturalista ao redor do mundo” em sebos de todo o Brasil, um título me chamou a atenção. O nome do livro era “A origem das espécies – Esboço de 1842“. Seria este o esboço escrito por Darwin 17 anos antes da publicação do seu mais famoso livro “A origem das espécies“? Aquele tão citado por vários autores, dentre eles Ernst Mayr em “Uma ampla discussão” (FUNPEC editora, 2006)? Realmente era ele. Versão em português de um manuscrito histórico, onde Darwin expõe pela primeira vez em um texto razoavelmente coerente parte de suas ideias. A editora é a Newton Compton Brasil (alguém sabe se ela ainda existe?), edição publicada em 1996.

Esta edição integral do “Sketch” de 1842 apresenta o texto integral da versão original, trazendo não só o texto escrito por Charles Darwin mas também o texto apagado por ele. Na “nota do tradutor” (página 15), Mario Fondelli ressalta:

 

“O que temos aqui é um conjunto de ideias básicas que, melhor desenvolvidas e ampliadas, acabariam formando o fundamento da teoria darwinista. Só que aqui ainda são apresentadas sem polimento, sem uma metodologia rigorosa nem uma exaustiva explicação dos fatos. (…) Mas há nisto umas vantagens que não poderiam ser percebidas numa obra mais cuidadosamente acabada: este afã de entregar ao papel pensamentos fugidos, estas correntes de raciocínio que nos parecem quase ilógicas mas que deviam ter sentido muito claro para o autor, fazem com que possamos quase testemunhar a labuta mental do cientista, e nos permitem conhecê-lo de forma mais humana do que qualquer biografia.”

 

Realmente este texto nos faz entrar em contato direto com a atmosfera criada por Darwin. Frases soltas, apagadas (delimitadas por colchetes pelo tradutor) marcações pedindo mais exemplos, citações sem referências… um completo caos para um leitor de primeira viagem, mas um relato histórico muito interessante para qualquer pessoa que se interesse mais pelas origens do pensamento darwinista. Podemos conhecer um resumo das ideias de Charles Darwin apenas 6 anos depois da sua marcante viagem a bordo do Beagle e entender melhor como se deu o processo de amadurecimento de sua teoria. Além do esboço de 1842, esta edição brasileira traz de “brinde” (e no meu conhecimento pela primeira vez em português) a comunicação lida em primeiro de Julho de 1858 na Sociedade Linneana intitulada “Sobre a tendência das espécies em formar variedades e sobre a perpetuação das variedades e das espécies por meio de seleção natural“. Comentei um pouco sobre a importância desta comunicação aqui. A carta de Lyell e Hooker, o resumo de um manuscrito de Darwin, o trecho de uma carta de Darwin para o professor americano Asa Gray e o artigo “Sobre a tendência das variedades a divergirem indefinidamente do tipo original” de Alfred Russel Wallace. Tudo em português do Brasil.

Selecionei abaixo alguns trechos do esboço de Darwin que são bem interessantes:

 

“Um indivíduo posto sob novas condições [frequentemente] varia pouco em relação a fatores como estatura, teor de gordura, cor, vigor, hábitos (nos animais) e, provavelmente, a disposição. Os hábitos de vida também desenvolvem certas partes; o desuso as atrofia [a maior parte destas pequenas variações tende a tornar-se hereditária].”

Página 19

O trecho citado acima mostra a influência da lei de uso-desuso e da teoria dos caracteres adquiridos de Lamarck no pensamento de Darwin. Ao longo do esboço Darwin cita algumas vezes Lamarck em trechos onde passa a ideia de divergência do pensamento Lamarckista, como em “(…) Introduzir nesta altura o contraste com Lamarck – disparate de hábitos ou mudança??” (página 28)  ou em “(…) A degradação e a complicação não tendem de modo algum a perfeição. Justamente argumentando contra Lamarck” (página 58). Mas a influência de Lamarck no pensamento de Darwin é algo que perdurou mesmo após a publicação do “A origem das espécies” em 1859. Ao contrário de Darwin, Alfred Russel Wallace tinha uma posição muito mais forte contra Lamarck, explicitada em seu artigo lido na Sociedade Linneana em 1858.

 

“(…) Malthus trata do homem – nos animais não existe freio [impedimento] moral – eles se reproduzem no período do ano em que o alimento é mais abundante ou a estação é mais favorável;(…) Isto requer muita reflexão; estudar Malthus e calcular a taxa de aumento e lembrar a resistência – somente periódica.”

Página 25

Na página 25 e em alguns trechos posteriores Darwin mostra a grande importância para a construção do conceito de “seleção natural”  do “Ensaio sobre a população” do Reverendo Thomas Malthus. Este ensaio foi publicado originalmente em 1798, mas a versão mais famosa (sexta) foi publicada em 1826.

 

“(…) É irrelevante que o Criador de inúmeros sistemas de mundos tenha criado cada indivíduo dos milhares de parasitas ocultos e de vermes [do lodo] que pulam cada dia da existência, sobre a terra na água do [deste] globo. Deixemos de assombrar-nos, por mais que se possa deplorá-lo, se um grupo de animais foi criado diretamente para pôr seus ovos nas vísceras ou nas carnes de outros, se alguns organismos tiram prazer da crueldade – se os animais se deixam levar por falsos instintos – se todos os anos há um incalculável desperdício de ovos e pólen. Podemos ver que o bem maior que se possa imaginar, a criação dos animais superiores, decorre diretamente de morte, carestia, roubo e guerras secretas da natureza.”

Página 67-68

A origem das espécies - Esboço de 1842

O último trecho selecionado foi a base de um texto reproduzido no “A origem das espécies“. Argumento até hoje utilizado por evolucionistas contra a ideia de design divino. Simplesmente genial. Outro fato interessante é o que foi levantado pelo Kentaro. Darwin foi sim quem cunhou o termo “criacionista”, mas foi bem antes de 1859. Por várias vezes o termo é citado neste esboço, se referindo aos defensores de um Criador onipotente, que teria criado a vida em vários momentos.

A Origem das espécies – esboço de 1842 não é um livro para ser lido pelo público geral. Na verdade eu não consigo entender como ele foi vendido por R$2,00 (como indicado na capa e pela qualidade de sua encadernação e páginas), exclusivamente em “bancas e agências de jornais de todo o brasil” (como descrito na página 6). Ele é um livro que traduz as ideias de Charles Darwin de forma crua, confusa e até muitas vezes contraditória. Uma oportunidade para ler um dos maiores cientistas da história sem cortes e sem revisão de pares é algo realmente interessante.

 

PS.: A minha hipótese para a venda deste livro em bancas de jornais é que muitas pessoas conhecem Darwin apenas pelo seu nome e talvez pelo nome do seu mais importante livro. Imagina chegar em uma banca de jornal e ver na capa “Darwin – A origem das espécies. Edição integral”. E logo acima “R$ 2,00″. Quem resistiria a tentação de levar um clássico por apenas dois reais? A parte de “esboço de 1842″ era apenas um detalhe…

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Discussão - 14 comentários

  1. Mauro Oliveira disse:

    caro Luiz Bento,
    É com muito prazer que lhe parabenizo, esse livro é realmente um grande achado! e eu também me sinto muito honrado neste momento, pois eu também tenho uma edição deste raríssimo livro! As páginas estão ásperas e totalmente amarelas, o conteúdo é incrível, além de ser um clássico que poderia esclarer a mente de muitas pessoas!
    Obrigado por compartilhar tão boa sensação!

  2. Luiz Bento disse:

    Olá Carina,
    Na época que eu escrevi o post eu tinha achado alguns fórums e posts antigos que falavam da venda deste livro em jornaleiros. Posso consultar em casa o ISBN e outras informações mais formais do livro. Mas talvez por ter sido um especial ele possa ter tido uma distribuição bem restrita.
    Uma dica. Eu comprei este livro via estante virtual. Lá ainda tem várias cópias disponíveis em sebos de todo o Brasil… http://migre.me/cnmX
    Abraços e obrigado pela visita!

  3. Carina disse:

    Na livraria cultura vi q a editora ainda existe. A maioria dos textos são em italiano. Mas este livro, especificamente, não aparece no catálogo, nem como esgotado.

  4. Desculpe pela minha ausência, deveria (vou fazer agora) ter assinado os feeds do blog a tempos…
    Mas enfim, muito boa a matéria, o livro parece ser muito interessante e sua abordagem foi perfeita também.
    Vou ver se o encontro “por aí” … para ler.
    Abraços

  5. Carina disse:

    Muito interresante o livro. Adoraria encontrar um desses e ver o pensamento de Darwin fluindo pelas páginas, ao invés de já todo recompilado e reformulado. Interessante… Buscarei pelos sebos daqui de Campinas. Abraços.

  6. Luiz Bento disse:

    Sem dúvidas Dedalus! Mas não acho que só preço seja relevante. Um texto deste porte em português realmente é algo interessante, como descrevi no post.
    Quanto ao preço, acho que precisamos de mais demanda. Quanto mais leitores, mais livros sendo impressos. Sem aumentar o número de leitores dificilmente poderemos forçar a queda do preço dos livros.
    Mas continua a minha questão. Será que essa tiragem vendeu bem ou foi um dos motivos da Newton ter saído do mapa? Uma pena, realmente.

  7. Para mim, o grande achado desse texto foi seu preço à época: R$ 2,00. Nessa mesma “coleção” havia, por exemplo, “O anticristo”, de Nietzsche. Cadê as editoras de hoje publicando algo assim?

  8. Luiz Bento disse:

    Valeu pelo toque Gustavo. Esse link não depende de nós. Mas o rss linkado barra lateral está funcionando.

  9. Luiz Bento disse:

    Sem dúvidas Davi,
    É muito prazeroso ver o conhecimento de forma crua, sendo gerado por um cientista tão relevante. No caso da teoria da evolução, discutir a importância e influência de Alfred Wallace é algo que não é muito conhecido, principalmente pela público leigo. Ainda escreverei mais sobre esta figura histórica.

  10. Pessoal, off topic: o link RSS no menu superior do presente blog leva a página desconhecida.
    []`s!

  11. Davi disse:

    Nossa que achado mesmo!
    E diga-se de passagem, adentrar manuscritos inacabados de Dawin, me da a impressõ de reviver os pensamentos dele, e imaginar se eu chegaria as mesmas conclusões (acho que não hein? Rsrs)
    Também me faz lembra de algo que meu professor disse hoje, hoje a ciencia valoriza tanto o novo, que acaba negligenciando grandes mentes do passado, principais responsáveis pelo que conhecemos hoje como ciência. Não que esse seja o caso de Darwin, mas ler isso me faz pensar que na época ele também era um deles.

  12. Luiz Bento disse:

    Interessante reflexão. Acho sempre positivo olharmos a origem do pensamento evolutivo, principalmente tentando sair do escopo mais tradicional. Escrevi um pouco sobre Darwin e Mendel em um post mais antigo http://scienceblogs.com.br/discutindoecologia/2009/03/porque-darwin-nao-descobriu-as-leis-de-mendel.php

  13. Ahhh mais um trecho que parece ilustrar bem a importãncia desse achado:
    Há de se separar a forma de olharmos a obra máxima de Charles Darwin. Uma é considerarmos apenas sua proposição conclusiva. Outra é acompanharmos e construirmos nossos próprios nexos a partir das longas descrições que ele faz daquilo que viu, tateando todas as possibilidades antes de concluir. Essa é a maior riqueza que ele nos lega, pois realmente dá a impressão de que ele chegou bem perto da imparcialidade ao descrever o que viu antes de construir a conclusão que tirou. A própria conclusão e formulação teórica permite vários olhares sobre ela: tanto contextualizados na episteme da sua época, como fruto de uma força de vontade em busca da imparcialidade.
    Essa postura de Darwin, num primeiro momento apenas descritiva, nos possibilita olhares plurais e variados numa natureza que não precisa de um olhar próprio sobre si e se abre aos curiosos da maneira que eles querem vê-la dentro de seus próprios contextos. Um desses olhares vai em sentido oposto daqueles que querem ver um determinismo necessário tanto na natureza biológica quanto na nossa cultura.

  14. Poxa que belo achado, parabéns. Que inveja boa me deu agora rs… Eu falo algo sobre a forma que Darwin se permitiu construir nexos daquilo que via, procurando nao determinar seu olhar em uma direção específia num dos artigos de meu Blog. Destaco o trecho:
    Darwin, sem noção de genética alguma, sem nem sequer ter lido os trabalhos de Mendel existentes antes de sua teoria, por pura observação naturalista captou todas essas possibilidades num exercício raro de indeterminação possível ao olhar humano. É difícil de imaginar que o próprio olhar naturalista de Darwin quisesse ver o que ele viu para construir os nexos que construiu como se houvesse já no olhar uma estrutura teorética de pano de fundo. Embora difícil, é algo que precisará sempre ficar em aberto. Mas temos que levar em conta que, segundo seus diários, embora já procurasse por algo, suas idéias tendiam a uma teleologia necessária que mais tarde ele foi obrigado a abandonar a favor daquilo que observou (ou do que viu como oportunidade de interpretar).
    De qualquer forma, na construção de nexos daquilo que viu, Darwin propôs um mecanismo que traduzia também todo um contexto histórico que vivia. A efervescência da era industrial, o questionamento do fixismo por uma ideologia liberal burguesa e protestante, que questionava um poder central e privilégios natos, pode ser vista como pano de fundo à parte dos nexos que Darwin construiu.
    Texto completo aqui: Facas, Gumes e Reflexões sobre a Cegueira
    Além dos diários, então, esse esboço pode nos dar uma rica idéia de como ele, de fato, quase úncio em sua maneira de fazer ciências. Sem contar que pela data desse esboço, grande parte da celeuma da primazia entre ele e Wallace confirma a própria postura de Wallace de admiração profunda por Darwin.
    Parabéns pelo post….
    Abraços

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