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Breno Alves Bacharel em Ecologia (UFRJ) e licenciado em Ciências Biológicas. Possui Mestrado em Ecologia (UFRJ), sendo atualmente professor de Biologia do ensino médio.

Luiz Bento Bacharel e Mestre em Ecologia (UFRJ), sendo atualmente Doutorando em Ecologia (UFRJ). Trabalha com Ecologia de Ecossistemas Aquáticos.

 

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O gelo da Antártica está aumentando. Então Aquecimento Global não existe?

Categoria: Aquecimento globalcríticacéticosposts inspirados
Escrito em abril 21, 2009 7:01 AM, por Luiz Bento

Afirmações próximas a que intitula este post povoaram os grandes blogs de céticos do clima nos últimos dias. Até na mídia tradicional tivemos reportagens sobre o assunto. Mas é claro que tudo não passa da boa e velha pseudociência.

Sim, grande parte do gelo da Antártica está aumentando ao invés de diminuir (diferente do gelo do ártico) nos últimos meses. Isso de alguma forma pode refutar os argumentos favoráveis ao aquecimento global? Claro que não. Primeiro porque o IPCC e nenhum cientista sério do mundo defende que o aquecimento global corresponde a um aumento da temperatura de todo o planeta. O que aumentará (já aumentou e continuará aumentando) é a temperatura média global. Desta forma, dependendo de fatores regionais, as mudanças climáticas decorrentes do aquecimento global podem trazer consequências bem diferentes para cada região do planeta. Ainda mais no caso da Antártica.

Vamos começar separando a Antártica em duas regiões principais quanto a resposta às mudanças climáticas. A região peninsular e a região continental (ver figura abaixo). O aumento da espessura da camada de gelo foi registrado apenas no mar de Ross (região continental). O gelo da península antártica, ao contrário do mar de Ross, está diminuindo em um ritmo acelerado. Podemos ver que em um mesmo continente temos respostas diferenciadas ao aquecimento global. Agora que conhecemos um pouco mais esta heterogeneidade, vamos entender os motivos do comportamento anômalo do mar de Ross.


antartica-ventos.jpg

Dinâmica de ventos no continente antártico. Fonte: NewScientist


Turner e colaboradores discutem em um artigo da Geophysical Research Letters como o aumento do buraco da camada de ozônio no último ano pode ter alterado a dinâmica de ventos nesta região. A figura acima mostra que a região do mar de Ross é dominada por um turbilhão de ventos que mantêm as frentes frias concentradas nesta parte do continente. Além disso, esta dinâmica também é responsável pela atração de ar quente da américa do sul para a região peninsular do continente antártico. Por isso temos uma resposta tão diferenciada das duas regiões. Sendo assim é perfeitamente factível um aumento da espessura de gelo de uma parte do continente antártico em um cenário de aquecimento global, considerando a influência do buraco da camada de ozônio no regime de ventos regional.

Acho que o problema de grande parte dos céticos do clima é fazer uma interpretação pseudocientífica de dados científicos. E o pior é que o discurso se torna convincente, principalmente para leigos. Já descrevi aqui no blog dois exemplos deste fato. O primeiro exemplo foi sobre a falácia de que o gelo do ártico estaria se recuperando em 2008. Bem parecido com o exemplo deste post, vários blogs repercutiram imagens de satélite em que o gelo do ártico estaria se recuperando. Mas eles "esqueciam" de lembrar que a camada de gelo recuperada era muito mais fina que a anterior. O segundo exemplo foi o da análise da temperatura da Terra em 2008. Fiz um post mostrando que, dependendo da sua linha de base, a temperatura do planeta poderia mostrar um padrão de aumento ou de queda. Tudo depende de como esta interpretação é feita. É claro que no caso da Antártica, muito sensacionalismo é feito pela grande mídia. A Antártica realmente não está degelando como um todo, mas as previsões para os próximos anos, principalmente com a recuperação da camada de ozônio, não são nada otimistas.

Com toda esta má interpretação dos dados feitas por céticos do clima, cientistas sérios que fazem críticas relevantes ao IPCC acabam sendo ridicularizados. Uma pena, pois devemos entender que não existe consenso científico.

Fonte: NewScientist

Referências:

Turner, J., J. C. Comiso, G. J. Marshall, T. A. Lachlan-Cope, T. Bracegirdle, T. Maksym, M. P. Meredith, Z. Wang, and A. Orr (2009). Non-annular atmospheric circulation change induced by stratospheric ozone depletion and its role in the recent increase of Antarctic sea ice extent. Geophys. Res. Lett., doi:10.1029/2009GL037524, in press.

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Commentários (18)

1

As acusações me parecem bastante graves. Você está dizendo que alguns cientistas usam métodos pseudocientíficos? Ou que se faz pseudociência dentro da academia?

Discordância de uma teoria, até que corajosa, dada a minoria em que esse pessoal está, e até erros de avaliação, tudo isso vai. Mas pseudociência na academia já me parece forçar um pouco a barra.

Dizer que os discordantes fazem pseudociência levanta ainda algumas considerações de natureza ética.

Moisés.

Escrito por: Moisés | abril 21, 2009 10:33 AM

2

Olá Moisés,

Se puder dar uma lida nos posts que eu citei sobre temperatura e gelo no ártico seria interessante para você compreender o meu histórico neste assunto. Eu não só falei que grande parte dos céticos do clima fazem pseudociência. Eu mostrei como eles fazem. Além disso, falei também que existem pessoas que criticam de forma bem embasada alguns dados do IPCC, mas que são ridicularizados pela maior parte que faz uma interpretação bem duvidosa dos dados.

Não fiz em nenhum momento a relação direta que todos os discordantes fazem pseudociência, como você colocou em seu comentário. Na verdade, se você ler o post em que falo de consenso científico (citado no final deste post), você verá que sou totalmente contra o descrédito sem argumentos de artigos que criticam o consenso do IPCC. Mas não podemos apenas criticar. Temos que saber o que estamos fazendo.

Abraços.

Escrito por: Luiz Bento Author Profile Page | abril 21, 2009 11:11 AM

3

Gostei de vc evidenciar que é a "temperatura média GLOBAL" que aumenta, há quem não entenda isto...

:)

@vivoverde

Escrito por: _DS2_Minina_ [Daiane] Vivoverde | abril 21, 2009 11:42 AM

4

Ótimo post!
Como o comentário acima adorei a ressalva sobre a temperatura média global!
Mas vale a pena ressaltar que a Terra é um sistema fechado, e mesmo aqueles locais que não sofrerem aumento de temperatura também sofrerão com os efeitos do aquecimento.

Escrito por: Davi | abril 21, 2009 7:16 PM

5

A questão é que os efeitos são variados e dependem muito de aspectos regionais e da escala temporal em questão. Como no caso do post, uma região da Antártica está tendo a espessura de gelo aumentada. Mas em uma escala maior de tempo talvez esse padrão se reverta.

O aumento de temperatura é uma das consequências do aquecimento global em algumas regiões do planeta. Os efeitos em cada região (negativos ou não tão negativos) irão variar bastante.

PS.: Cuidado com o termo "sistema fechado". Os físicos do science blogs podem reclamar :)

Escrito por: Luiz Bento Author Profile Page | abril 21, 2009 7:30 PM

6

Boa tarde,
gostei do seu post, mas há várias facetas sobre o assunto. Por exemplo, há quem diga que o aquecimento pelo qual estamos passando (o que, acho, já é algo aceito por todos) pode ter causas não antrópicas, ser totalmente natural. E, argumentam, o CO2 não seria "nenhuma Brastemp" em termos de gás-estufa, quando comparado, por exemplo, ao vapor d'água. Falam também de que, quando comnhecida, o aumento de temperatura no planeta, antecede ao aumento de teor de CO2 na atmosfera. O que se poderia dizer com respeito a essas objeções (foram apresentadas, com mais detalhes, em um artigo do José Carlos de Azevedo publicado na Folha de São Paulo há poucos dias)?

Escrito por: Pedro Zanotta | abril 22, 2009 3:37 PM

7

Rs.. Sorry!
Cheguei a pensar nisso mas já era tarde e o comentario já tinha ido!
;)
Enfim, o que quis dizer é que não necessariamente uma determinada área do globo deva ser aquecida, para que a mesma sofra algum tipo de consequência ruim do aquecimento global.
Não é um sistema fechado, só beeem interativo! Melhorou?

Abraços

Escrito por: Davi | abril 23, 2009 12:25 AM

8

Olá Pedro, obrigado pelo comentário. Na verdade este tipo de colocação é bem comum. Tanto que tomei a liberdade de colar a resposta que dei para a Maria em um outro post sobre a entrevista do José Carlos e os céticos do clima. Abraços.


"Bem, esse aí é uma figura bem conhecida pelas suas entrevistas "bombásticas". Sempre com palavras de ordem, vindas de uma pessoa com um CV invejável. Mas os argumentos muitas vezes pouco embasados. Críticas gerais, garantia de apoio de "vários" cientistas, mas poucos dados científicos.

Bem, minha posição pessoal é que o aquecimento global é real. A principal pergunta científica que ainda resta é qual a parcela antropogênica deste aquecimento. Vários cientistas sérios já criticaram a postura política do IPCC e até alguns dados e gráficos que passam a ideia que a forçante natural do aquecimento global é praticamente inexistente. Como qualquer outro assunto na ciência, o aquecimento global não é uma verdade absoluta e ainda é passível de discussão. Discuti um artigo bem interessante que mostra a importância da forçante antropogênica neste post: http://scienceblogs.com.br/discutindoecologia/2008/10/critica-ao-consenso-cientifico.php

Para ver mais alguns posts deste blog que tratam dos famosos "céticos do clima", entre neste link: http://scienceblogs.com.br/discutindoecologia/ceticos/

Para ver grande parte das "afirmações bombásticas" do Prof. José Carlos sendo criticadas por cientistas da NASA (do blog realclimate), entre neste link: http://www.realclimate.org/wiki/index.php?title=RC_Wiki

Uma discussão interessante sobre um documentário (um pouco antigo) com as principais argumentações dos "céticos do clima" foi feita nestes três posts do nosso vizinho geófagos. Não esqueça de acompanhar os comentários, pois a discussão foi quente (eu também participei).

http://scienceblogs.com.br/geofagos/2008/12/um-desafio.php
http://scienceblogs.com.br/geofagos/2009/01/um-desafio-parte-ii.php
http://scienceblogs.com.br/geofagos/2009/01/um-desafio-parte-final-aquecimento-global-antropogenico-ou-nao-uma-questao-ainda-sem-resposta.php"

Escrito por: Luiz Bento Author Profile Page | abril 23, 2009 7:14 PM

9

Olá Davi,

Claro que melhorou. Eu tinha certeza que você não queria dizer aquilo :)

Escrito por: Luiz Bento Author Profile Page | abril 23, 2009 7:17 PM

10

Assim como existiu uma galera que lutou anos contra a obviedade dos males do tabaco, esta outra vai morrer lutando contra as evidências do aquecimento global. Em nome de que? Da não mudança do paradigma consumista sob o qual foi construído a nossa civilização.

Escrito por: Isaias Malta | abril 28, 2009 12:56 AM

11

puts, cara
nao seria Antartida? sei lá
nao pesquisei pra comprovar, mas se nao me engano as duas formas estão corretas.usualmente uso com D. Bom, tanto faz.

abraço

Escrito por: hellrider | abril 28, 2009 1:50 AM

12

Olá hellrider,

O correto em português é "Antártica", que significa oposto ao ártico. O termo "Antártida" é utilizado na lingua espanhola e, pela proximidade das linguas, causa uma certa confusão na utilização. Acho que no Brasil o maior problema é ter uma marca de cerveja com um nome bem parecido com o do continente antártico. Na verdade, a marca de cerveja chama-se "Antarctica". Por este motivo, muita gente acaba achando que "Antártica" é a marca de cerveja e "Antártida" é o continente.

Abraços e obrigado pelo comentário.

Escrito por: Luiz Bento Author Profile Page | abril 28, 2009 10:28 AM

13

Li ontem um comentário de uma pesquisadora ( com 30 anos de pesquisa, bióloga marinha e reitora de Universidade, se não me engano da SUÉCIA) dizendo que os modelos científicos que estamos(ão) usando são desatualizados e que não refletem a realidade dos dados que vem das pesquisas de campo.(estão bastante aquém) Ela disse que o fitoplâncton é responsável por retirar 70% do carbono da atmosfera e que o aumento da temperatura do mar diminui essa atividade o que causa uma retroalimentação do carbonoXtemperatura e que isso já é realidade no Ártico onde o degelo do Permafrost está com uma velocidade muito maior do que preveem os modelos matemáticos em uso atualmente. Cita ainda que a comunidade científica esta preparando um novo documento em linguagem acessível à maioria e curto (umas 30 folhas), para alertar a população mundial, o que foi deixado por conta da mídia e ela não deu conta do recado. A situação é mais Grave do que parece mas o modelo econômico perverso não tá nem aí.Gostei do blog, parabéns pela iniciativa ,eu voltarei.

Escrito por: Sergio Manes | abril 28, 2009 11:37 AM

14

oii na minha opiniao o aquesimento globau esta se referindo lixo ;carros ets

Escrito por: geisiely de almeida | junho 4, 2009 10:09 AM

15

Bem colegas, eu não acredito que exista um buraco na camada de ozônio isso significaria uma morte global de um superaquecimento instantâneo, como por exemplo, marte um planeta depois da terra e dito que de dia ele atinge 7º C durante o dia isso porque ele esta a não sei quantos bilhões de quilômetros do sol, e lembrando que em Marte não possui camada de ozônio, mas em minha teoria acredito que seria mais justificativa do que possa existir um buraco, vou dar um pequeno ex. de minha teoria:
Imagine uma bexiga de ar diretamente em contato com o raio solar, relativamente cheia, ok, o que acontece de enchermos de ar?
Ela ira encher logicamente. Mas eu te pergunto a temperatura dentro da bexiga ira continuar sendo a mesma depois de suas extremidades terem sido dilatados?
Essa é a questão!
O que na minha teoria seria que: Quando os gases carbônicos chegam à atmosfera eles alteram a densidade do campo fazendo a camada de ozônio dilatar, assim gerando em proporção uniforme o aquecimento global. Como o desmatamento vem crescendo a terra não está tendo condições de suprir todo esse gás que afeta a camada de ozônio, assim não deixando a camada ser novamente como era, hoje com vários apelos a poluição tem diminuído, e como estão vendo no tópico a cima está tudo voltando ao que era. Só depende de você!

Se quiserem explicações mais afundo tenho outro exemplo claro e mais convincente me mande um e-mail e estarei pronto para enviar o trabalho completo.
Abraço a todos.

Escrito por: Daniel Soares | outubro 21, 2009 7:01 PM

16

Olá Daniel, obrigado pela visita.

Acho que você está um pouco equivocado. A expressão "buraco na camada de ozônio" é apenas um termo coloquial. Na verdade não há um buraco real na camada de ozônio, mas sim uma diminuição de sua espessura. Isto é comprovado há mais de 30 anos por trabalhos das principais agências espaciais do planeta.

Abraços.

Escrito por: Luiz Bento Author Profile Page | outubro 28, 2009 7:46 PM

17

Prezados, achei interessantíssimo o blog e já adicionei aos meus favoritos. Eu como leiga, também considerava um pouco estranho o termo "buraco de ozônio", onde estaria esse buraco? Sobre o atlantico? Agora essa dúvida foi sanada com a explicação de que na verdade não existe buraco e sim uma redução na "espessura" dessa camada. Embora possua formação em arquitetura e urbanismo, sempre me preocupei em estudar sobre a arquitetura ecológica e o desenvolvimento de cidades sustentaveis, cuja energia seria renovavel e sistemas de reciclagem de lixo adequadas ao futuro do planeta. Venho observado uma profunda preocupação com a questao da água, por ser considerada como recurso natural esgotável. Aí veio a pergunta, o gelo da antártica é feito com água doce? O derretimento das calotas de gelo da antartica, devido ao aquecimento global, não seria o suficiente para submergir todos os continentes? Para quando está prevista a próxima era do gelo? Será Marte, o planeta gelado, o futuro do planeta terra?? São tantas questões e tão poucas informações. Alguém pode me enviar um link de alguma página em português que possa sanar todas essas minhas dúvidas?

Escrito por: Suzana | janeiro 15, 2010 9:29 AM

18

Olá Suzana,

Lembre-se que todo o gelo dos polos que está submergido não aumentará o volume dos oceanos se for derretido. O que faz diferença para o nível dos oceanos é o gelo que está acima da superfície. Este gelo é de água doce e é uma das principais fontes de água para rios em diversas localidades.

Abraços.

Escrito por: Luiz Bento Author Profile Page | janeiro 19, 2010 8:38 AM

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